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Sangue Emprestado

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Summary

Wapping, Londres, 1888. William Thorne, policial de vinte e nove anos, persegue um assassino que mata com uma delicadeza perturbadora: cada mulher é encontrada com o rosto voltado para a água e um objeto pequeno, uma violeta, um broche, devolvido à mão. Numa noite de nevoeiro, Thorne o encontra. Sobrevive ao confronto, mas o preço é ter deixado de ser humano. Sem poder envelhecer, sem poder voltar para casa, ele decide usar a eternidade para uma única coisa: encontrar o homem de casaco escuro. A caçada o leva pelos maiores crimes do século XX: os tambores de Czinkota, as trincheiras da Frente Ocidental, o Vampiro de Düsseldorf, a Berlim nazista, um vilarejo argentino, o Zodíaco na Califórnia. Cada década, um nome novo. Cada crime, alguém condenado por mortes que não eram suas. Mas quem caça um monstro por tempo suficiente precisa descobrir o que se torna no caminho. E, no meio da noite sem fim, aparece alguém capaz de fazê-lo querer parar.

Genre
Mystery
Author
Guiga
Status
Complete
Chapters
3
Rating
n/a
Age Rating
18+

Capítulo 1 — Wapping, Londres, 1888


Londres, 1888

O Prospect of Whitby cheirava a fumaça de carvão, cerveja derramada e o rio lá fora, que subia com a maré e trazia consigo um cheiro de coisa podre que ninguém mais notava. Elizabeth Cartwright notava. Trabalhava com flores o dia inteiro — rosas, principalmente, e algumas violetas que vinham de estufa e murchavam rápido demais para o preço que cobrava — e tinha aprendido a reconhecer cheiros do jeito que outras mulheres reconheciam vozes.

Estava sentada perto da janela, sozinha, com uma caneca de porter que bebia devagar porque o dinheiro tinha que durar até sexta. Vira Mary Doyle sair mais cedo, puxada pelo braço por um sujeito qualquer, e ficara ali, sem pressa de voltar para o quarto frio que dividia com a irmã.

Foi então que notou o homem perto do balcão.

Não pelo tamanho, nem pela roupa — embora a roupa fosse boa demais para ali, um casaco escuro bem cortado, sem a lama de Wapping nas botas. Foi pelo modo como ele olhava para as coisas. Não como quem procura alguém, nem como quem bebe para esquecer. Olhava como quem inventaria o lugar de novo, se pudesse.

Ele percebeu que ela o observava e não desviou o olhar. Isso também era estranho. A maioria dos homens, pego olhando, fingia que não tinha olhado. Ele sorriu, um sorriso pequeno, quase de desculpas, e veio até a mesa dela sem pressa, como se tivesse todo o tempo do mundo.

— A senhorita trabalha com flores — disse ele, sem perguntar. — Está nas suas mãos. E no seu casaco, aqui. — Tocou de leve a lapela dela, onde um resquício de pólen tinha secado numa mancha amarela que ela nem notara.

— O senhor observa demais — disse Elizabeth, mas não era queixa.

— É um defeito antigo — disse ele, sentando-se sem ser convidado, mas de um jeito que não pareceu atrevimento, pareceu naturalidade. — Como se chama a senhorita?

— Elizabeth Cartwright. E o senhor não vai me dizer o seu, suponho.

— Ainda não — disse ele, e havia algo no ainda que ela não soube nomear, mas gostou.

Conversaram por mais de uma hora. Ele fazia perguntas que ninguém fazia — não sobre o tempo ou sobre a família dela, mas sobre o que ela sentia ao cortar um caule pela manhã, sobre se já tinha pensado em ir embora de Londres, sobre o que faria se soubesse que tinha só mais um ano de vida. Ela riu da última pergunta, achou estranha, mas respondeu mesmo assim — disse que provavelmente faria exatamente o que já fazia, porque não tinha imaginação para outra coisa, e ele a olhou de um jeito que ela não soube ler, quase triste, como quem confirma alguma coisa.

Quando ele sugeriu que saíssem, ela já tinha decidido que sim havia meia hora.

O quarto que ele arranjou ficava perto do rio, num prédio discreto que Elizabeth nunca tinha reparado antes, apesar de passar por ali quase todo dia. Havia lareira acesa, o que já era mais luxo do que ela via em semanas. Ele tirou o casaco devagar, e ela reparou que as mãos dele eram frias — frias como quem tinha acabado de sair do frio da rua, pensou, sem dar mais importância que essa.

O que aconteceu depois não teve pressa da parte dele. Havia algo quase reverente em como ele a tocava, como se cada gesto fosse também um jeito de estudá-la — os dedos na curva do pescoço dela demorando um instante a mais do que deveriam, o rosto enterrado no cabelo dela como quem respira fundo antes de mergulhar. Elizabeth, que não tinha muita experiência com gentileza, confundiu aquilo com carinho, e não estava de todo errada.

Depois, deitados, ele passou os dedos pela cicatriz fina que ela tinha no ombro — de uma queda de infância, contou ela — e ficou em silêncio por tempo demais.

— O senhor está triste — disse ela.

— Estou pensando em quanto tempo as coisas boas costumam durar — disse ele, e beijou a cicatriz, um gesto que pareceu quase uma despedida, embora ela não tivesse como saber disso ainda.

Ela saiu antes da meia-noite, com o casaco por cima dos ombros e o coração leve daquele jeito bobo que só dura algumas horas. Ele ficou à porta, olhando-a descer a rua estreita até a esquina, e não disse “voltarei a te ver” nem “não vou esquecer isso” — coisas que os homens diziam sem significar nada. Só ficou olhando, com uma expressão que, se ela tivesse se virado para trás, teria assustado.

Elizabeth não se virou.

Chegou à esquina de Garnet Street quando ouviu passos atrás dela — rápidos demais para serem casuais. Virou-se, já com um sorriso pronto, achando que era ele, que tinha mudado de ideia, que viera atrás dela para dizer alguma coisa que os homens costumavam guardar para depois.

Não era ele.

Era ele, mas não era mais o mesmo homem que a tinha tocado com tanto cuidado uma hora antes.

A mão dele fechou sobre a boca dela antes que o segundo grito saísse. Não com violência — com uma precisão que doía mais do que força bruta doeria, como se ele soubesse exatamente onde apertar para que ela não conseguisse nem morder.

— Eu disse que ainda não ia te contar meu nome — sussurrou perto do ouvido dela, e a voz não tinha nada da gentileza de uma hora antes. — Isso não muda agora.

Elizabeth tentou se debater, mas o braço dele em volta da cintura era como um cinto de ferro. Sentiu o rosto dele descer até o pescoço, o mesmo lugar que ele tinha beijado devagar no quarto, e por um instante confuso, terrível, achou que ele fosse beijá-la ali de novo.

A dor veio depois do choque — dois pontos de fogo na garganta, e então um puxão que parecia sugar não só o sangue, mas o próprio chão debaixo dela. As pernas cederam. Ele a segurou.

Não durou muito. Um minuto, talvez menos, embora para ela tenha sido um tempo sem medida, um tempo que não pertencia mais ao mundo em que ela tinha bebido porter numa mesa perto da janela.

Quando soltou o corpo, não o deixou cair. Encostou-o devagar contra a parede do beco, depois, com um cuidado que não combinava com nada do que tinha acabado de fazer, deitou-a no chão — as pernas alinhadas, os braços cruzados sobre o peito, a cabeça virada de leve para o lado, como se ela só tivesse escolhido dormir ali, no chão frio, de frente para o rio que corria escuro no fim do beco.

Tirou uma faca curta do casaco — a mesma mão que tinha tocado a cicatriz do ombro dela — e, com um único corte preciso, abriu a garganta no lugar exato das duas marcas que os dentes tinham deixado. O ferimento maior engoliu o menor. Aos olhos de qualquer médico da polícia, seria a obra de uma lâmina, e só isso.

Antes de se levantar, passou dois dedos pelas pálpebras dela, fechando os olhos que tinham ficado abertos. E então, do bolso do próprio casaco dela — onde ela guardava sempre uma flor do dia, um hábito bobo que nem a irmã percebia — tirou uma única violeta murcha, a mesma que tinha vindo da estufa naquela manhã, e colocou entre os dedos entrelaçados dela, sobre o peito.

Não era roubo. Era uma devolução.

Depois, desapareceu na direção do rio, e o beco ficou só com o som da água batendo contra a pedra, longe, e o silêncio de sempre que vem depois.

A menos de duzentos metros dali, William Thorne estava parado na esquina de Cinnamon Street havia quase quarenta minutos, fingindo interesse num anúncio de tabacaria que já tinha lido três vezes. Não era da sua alçada, tecnicamente. O inspetor Reeves tinha dito para ele largar aquilo, que três mulheres desaparecidas em dois meses no mesmo raio de seis quarteirões era coincidência, que mulheres daquela vida desapareciam o tempo todo, por motivos que não tinham nada a ver com crime.

Thorne não acreditava em coincidência havia muito tempo. Era o tipo de homem que contava passos, que notava quando uma mesma bota deixava marca duas vezes na lama da mesma rua, que guardava na cabeça o nome de toda mulher desaparecida na região desde março, com data e último lugar visto, como se isso fosse trabalho de alguém e não só teimosia sua.

Foi o grito que o tirou do lugar.

Não alto. Curto. Cortado no meio, como se alguém tivesse tapado a boca de quem gritava assim que o som começou a sair — mas Thorne já estava correndo antes de terminar de pensar isso, a mão fechada em torno do cassetete, o coração batendo mais rápido do que batia fazia meses, porque finalmente, finalmente, algo estava acontecendo.

O beco de Garnet Street ficava a menos de um minuto correndo, mas foi o minuto mais longo que Thorne já tinha vivido em oito anos de farda. Chegou com a respiração cortada, o cassetete erguido, esperando encontrar alguém ainda ali — um vulto fugindo, uma briga em andamento, qualquer coisa que desse forma ao pânico.

Encontrou silêncio.

E a mulher, deitada com um cuidado que não fazia sentido ali, naquele chão imundo, os braços cruzados sobre o peito como se alguém a tivesse ajeitado para dormir, o rosto virado para o rio que corria escuro no fim do beco.

Thorne parou. Anos depois, tentando reconstruir aquele instante para si mesmo, nunca conseguiria dizer o que viu primeiro — o sangue, escuro demais sob a pouca luz do poste mais próximo, ou a flor. Uma violeta, murcha, presa entre os dedos entrelaçados dela, como se ela mesma tivesse escolhido segurá-la ali.

Ajoelhou-se, sem tocar ainda, o treinamento vencendo por um segundo o horror. O corte na garganta era limpo demais, pensou — não era o corte de pânico, de raiva, de alguém apressado a fugir. Era o corte de quem tinha tempo. De quem quis fazer daquele jeito.

Foi então que notou a faca.

Não a dela — não havia faca perto do corpo, nenhuma arma largada como costumava acontecer quando o assassino entrava em desespero depois do ato. Era outra coisa: um resquício, quase invisível, de um padrão ondulado gravado na borda exata do ferimento, como se a lâmina que tivesse feito aquilo carregasse um desenho próprio, gravado no próprio aço. Thorne já tinha visto ferro comum cortar carne. Nunca tinha visto uma marca assim.

Não compreendia o nome daquilo. Não sabia, ainda, que passaria o resto de uma vida bem mais longa do que deveria tentando descobrir.

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