Chapter 1
*CAPÍTULO 1 - O CLIENTE DAS 16H30*
Carla Drumond não gostava do Marcelo Duarte. Não era antipatia barulhenta. Era um cansaço polido, mineiro, de mulher de 49 anos que nasceu no Pilar, em Ouro Preto, que cria a neta Maya de 3 anos, cuida de Dona Lúcia de 72, e é secretária administrativa há 11 anos na empresa de consultoria da Bauxita.
Há oito anos, toda terça e quinta, 16h30, ele entrava com a mesma piada: "Dona Carla Drumond, me vende um caminhão?"
Ela respondia com sorriso treinado. Até aquela terça de agosto, com chuva fria da serra que alaga a Rua Direita.
Marcelo entrou encharcado. O Gol dele tinha morrido na ladeira do Rosário. Tinha subido a ladeira da Bauxita a pé.
"Meu Gol morreu de novo."
Carla não levantou os olhos da planilha de dois milhões da filial de Mariana. Estava exausta. Tinha levado a mãe no postinho do Pilar, brigado com Rafael, 26, que queria largar Engenharia na UFOP.
"Seus relacionamentos também morrem assim? No meio da ladeira e você fica empurrando sozinho?"
Silêncio total. A estagiária parou de digitar.
Marcelo ficou parado, pingando. Em oito anos, ninguém tinha falado uma verdade assim com ele.
"Você está diferente, Drumond."
"Estou com 49 anos, Marcelo. Moro em Ouro Preto, subo ladeira todo dia, crio neta, cuido de mãe. Não tenho energia para ser simpática o tempo todo. É Drumond para clientes. Carla só para quem eu gosto."
Na hora de sair, sem a máscara de vendedor, ele disse baixo, só para ela: "Você é muito mais bonita com raiva, Carla. De verdade. De gente de verdade."
Desceu a ladeira debaixo de chuva. Carla ficou com o coração batendo. Não era paixão. Era susto de ter sido vista.
*CAPÍTULO 2 - O CONVITE ERRADO*
Quinta-feira ele voltou. Seco, com pão de queijo da Casa do Pão de Queijo.
"Tô pedindo desculpa pela terça. Quer jantar? Você parece que precisa relaxar."
Carla tirou o óculos fino.
"Marcelo, eu sou Carla de Ouro Preto. Sou avó da Maya. Eu relaxo quando minha neta dorme no meu colo. Não preciso de homem que acha que precisa me relaxar. Se quer me convidar, me convide porque quer conversar comigo."
Ele ficou vermelho.
"Quero conversar com você, Carla. Muito."
"Quinta que vem, 19h30, no Restaurante do Carmo. Não atrasa. Odeio atraso."
*CAPÍTULO 3 - O JANTAR*
Restaurante do Carmo, centro histórico, vista para a igreja. Carla chegou 10 minutos antes, blazer azul-marinho, perfume amadeirado, seu único luxo.
Marcelo chegou 20 minutos atrasado, suado, rodou de carro com medo.
"Trânsito na Inconfidentes..."
"Não era trânsito. Era medo. Ficou rodando com medo de se envolver com mulher como eu."
Ele se entregou. Contou do pai garimpeiro do Antônio Dias que morreu de cirrose quando ele tinha 12, da mãe viúva, da ex Luciana que ficou 8 anos e foi embora porque ele não queria ter filho.
"Tenho pavor de ser pai, Carla."
Carla não consolou. Ouviu. Ela, que criou Rafael sozinha, que pagou dívida de ex vendendo bolo no Pilar, sabia ouvir.
"Você não é confuso, Marcelo. Você é confortável na sua confusão. É mais perigoso."
Ele foi embora apaixonado e apavorado.
*CAPÍTULO 4 - A INCONSTÂNCIA*
Começaram sem rótulo.
Uma semana incrível: café do Café Cultural da Rua Direita, bom dia, ajuda com planilha. Chamava ela de Drumond para provocar.
Na outra, sumia três dias. "Correria na loja, Drumond."
Carla conhecia o padrão. Já tinha vivido com narcisista e homem fraco.
Domingo, ele desmarcou passeio no Parque da Lajinha com Maya por "inventário". Ela foi até a concessionária na Rodovia dos Inconfidentes. Não vou te ensinar a ser homem. Não sou sua mãe. Quero companheiro para subir ladeira, dividir conta e silêncio. Ou faz terapia e resolve seus traumas, ou paramos com respeito. Meio termo já vivi a vida toda."
Ele chorou de verdade. "Nunca aprendi a ser constante."
"Então aprende."
*CAPÍTULO 5 - O MUNDO DE POSSIBILIDADES*
Ela não largou. Mostrou.
Levou ele para palestra na UFOP onde era convidada. Apresentou como "meu companheiro, Marcelo". Ele viu engenheiros chamando ela de Dona Drumond com respeito.
Levou para almoçar com Dona Lúcia no Pilar. Dona Lúcia: "Então é você que tá fazendo minha Drumond perder tempo?"
Levou para o Morro São Sebastião com Maya. Marcelo, que jurava não querer filho, empurrando balanço, sendo chamado de "Tio Malcelo". Entendeu que maturidade não é perder graça, é ganhar paz.
Mas Sandro, da loja, venenoso: "A Drumond é muita areia pro seu caminhãozinho. Vai te transformar em tiozão."
E Rafael: "Mãe, ele vende carro. Mente por profissão."
O cerco fechou. Marcelo, moleque assustado de Ouro Preto, começou a recuar justo quando estava mais perto de ficar. E a história quase acabou antes de começar.








