Era uma vez em Paris
A chuva miudinha continuava a cair. Pelo passeio molhado e escorregadio Emanuel caminhava, acompanhado pelos seus pensamentos. Os paralelepípedos desenhavam formas engraçadas que ele noutra situação admiraria. Quase tropeçou numa ilha ecológica que acabou por contornar sem se aperceber. Os carros estacionados na confluência do passeio faziam com que os seus passos provocassem um som cavo ao tocarem o solo. A luz, proveniente dos candeeiros de iluminação tornava-se difusa em contacto com a chuva, transmitindo um ambiente mágico à noite. Alguns transeuntes passavam embrulhados nos seus agasalhos, com a cabeça inclinada e as abas dos sobretudos ou casacos virados de modo a proteger a cabeça dos pingos teimosos, outros transportavam guarda chuvas que teimavam em escorregar das mãos molhadas. Atravessou a rua absorto sem reparar num veículo que quase o atropelou, buzinando compulsivamente o condutor desviou-se a tempo, não deixando de proferir um insulto que ele não ouviu. O cheiro da chuva normalmente era-lhe agradável, principalmente quando já não chovia há muito, sentia se o cheiro da terra; mas no momento não lhe provocava qualquer sensação, nem tão pouco reparou que estava todo encharcado. Não levava rumo, seguia errante ao sabor dos últimos acontecimentos. Tinha vindo para Paris como professor convidado da Université Paris Sorbonne, das “Unités de Formation et de Recherche d’Études Ibériques et Latino-Américaines Espagnol et Portugais”, cargo que aceitou, não só porque lhe daria prestígio para a sua carreira, como também seria uma fuga para a sua vida passada e infeliz. Chegara há poucos dias, naquele Outubro chuvoso e frio. Resolveu assim refugiar-se na cidade da luz, na cidade da liberdade, essa cidade descrita por Victor Hugo, pintada por Renoir e procurada por aqueles que apreciam a liberdade. Não conhecia ainda bem a realidade estudantil, tinha já dado algumas aulas, contudo não estava ainda bem ambientado. Continuava a chover amiúde e a água entranhava-se nos seus ossos, pelo que pensou em entrar num qualquer café do Quartier Latin. O antigo centro Galo-romano académico por excelência da tão prestigiada universidade. O seu nome deriva da língua falada à volta da Universidade. O latim. Foi igualmente o lugar de onde partiu a insurreição estudantil do Maio de 68. Ali perto situa-se igualmente o importante monumento. - O Panteão – localizado no monte de S.Geneviéve. Continuava a chover e necessitava de um abrigo quanto antes. Procurou um café e entrou no Le Piano Vache onde se ouvia a sua música preferida, o Jazz.
O Piano Vache é o tipo de bar que, quando passas à porta, te olha com aquela cara de “não sou bonito, mas sou simpático”. A fachada tem aquele charme de quem já viu mais noites do que tu viste episódios da tua série favorita. Madeira antiga, letreiro meio desbotado, vidros cheios de autocolantes que parecem ter sido colados por alguém com zero coordenação motora — provavelmente um estudante às três da manhã.
É o tipo de entrada que te diz: “Aqui dentro não há dress code, só histórias.”
Entrar no Piano Vache é como entrar no quarto de um adolescente… mas com 50 anos de acumulação. As paredes estão tão cheias de posters, fotos, recortes, desenhos, bilhetes de concertos e coisas que ninguém sabe de onde vieram, que se tirasses um único papel provavelmente desabava tudo como um castelo de cartas.
A luz é baixa, perfeita para fingir que tens ar misterioso. As mesas e cadeiras são todas diferentes — parece que cada uma foi adotada de um sítio aleatório, tipo “orfanato de mobiliário vintage”. E claro: o piano velho, que já não toca nada, mas continua ali firme, como aquele amigo que não contribui muito mas faz parte do grupo. E a cabeça de vaca. Sim, há uma vaca. Não, ninguém sabe bem porquê. Sim, ela observa-te. Não, não julgamos.
Quando começa a música, o bar transforma-se numa espécie de sardinha musical: toda a gente apertada, feliz, a dançar sem espaço para dançar, músicos quase a tocar em cima das mesas, copos a vibrar com o jazz manouche. É confusão? É. É maravilhoso? Também.
O ambiente estava pesado, bastante fumo, muito álcool, muita gente. No palco o saxofonista improvisava. A conversa rodeava aquelas mesas deixando no ar aquele zunido característico, envolvido no som rouco e doce do saxofone. A maior parte dos clientes embrenhava-se nas conversas, bebendo cerveja ou se mesada o permitia, uísque. De vez em quando o som de uma voz subia, ou o riso provocado por uma anedota, explodia. Os empregados bailavam entre as mesas levando os pedidos dos clientes.
Movimentavam-se ao sabor do momento, esgueirando-se por entre as mesas equilibrando as bandejas como os melhores artistas de um circo, o que emprestava ao lugar um ar de movimento adicional equilibrado com os movimentos melancólicos do saxofonista, que tirava do instrumento as notas que voavam lânguidas para os nossos ouvidos, provocando uma imensidão dos mais variados sentimentos.
Um par, muito apaixonado saiu, deixando uma mesa vaga, a qual Emanuel ocupou. Pediu um uísque, afinal a sua condição de professor convidado, ainda dava para usufruir daquela bebida. O ambiente continuava pesado do muito tabaco que ali se consumia. Resolveu olhar para quem o rodeava. Sempre fora bastante bom fisionomista, observar as pessoas dava-lhe uma sensação de poder que ele conhecia tão bem. O seu olhar acutilante, por vezes incomodava quem estava a ser vítima de uma minuciosa radiografia. A maior parte eram estudantes universitários que discutiam as últimas notas, ou conversavam sobre o último filme. Se todos pareciam atentos ou participavam na conversa, não pode deixar de reparar numa rapariga, ainda jovem, que bebia em quantidade, intrometia-se na conversa, desestabilizava o conjunto de jovens.
Aquele grupo despertou-lhe a atenção, gostaria de saber do que falavam, interrompidos muitas vezes pela rapariga que continuava a beber. A rapariga que se chamava Matilde aproximou‑se da vaca com a solenidade de quem vai confessar pecados. Encostou os cotovelos ao balcão, piscou os olhos para tentar focar melhor e murmurou:
— Minha senhora vaca… a sua postura… é inspiradora.
O barman, já habituado a fenómenos etílicos, limitou‑se a levantar uma sobrancelha.
Matilde, completamente extasiada, começou a acariciar o focinho da vaca como se fosse um animal vivo:
— Percebe tudo, não percebe? Está aí a olhar para mim com essa sabedoria bovina…
A vaca, claro, não reagiu. Mas Matilde interpretou o silêncio como uma forma superior de comunicação.
— Eu sabia! Tu és uma vaca filosófica! Uma vaca existencialista! Uma vaca… uma vaca que me compreende!
A certa altura, tentou brindar com a vaca, levantando o copo:
— À nossa amizade eterna!
O copo bateu no balcão, não na vaca, mas Matilde achou que tinha sido correspondida.
Quando o pianista começou a tocar uma melodia suave, Matilde virou‑se para a vaca e disse:
— Esta é para ti. Uma homenagem à tua elegância. A vaca mais bonita de Paris.
E ficou ali, a balançar ao ritmo da música, completamente convencida de que a vaca estava a apreciar o concerto.
Quase no final da noite, Matilde acenou para a vaca:
— Obrigada por tudo. És incrível. Não mudes nunca.
O barman, atrás dela, comentou baixinho:
— A vaca agradece.
Entretanto Emanuel, sorrindo, aproximou-se da mesa e pediu autorização para se sentar. Os jovens aquiesceram e sentou-se. Solicitou mais um uísque, pois o seu tinha acabado há muito. O empregado trouxe-lhe o pedido na sua esvoaçante bandeja, andarilhando entre as mesas pejadas de copos e garrafas que tilintavam com a vibração provocada pelos movimentos incontidos e pela transpiração das palavras, que feriam ou amenizam o ambiente. Falavam de Sartre, o existencialista, o filósofo da liberdade. Acrescentou uma nota para lembrar a companheira do filósofo, a grande Simone de Beauvoir, que ele conheceu na École Normale Supérieure em 1929. Ele acreditava na liberdade fundamental dos seres humanos e reflectia na natureza consistente desta liberdade. Abraçou o comunismo, sem nunca ter sido um comunista. - Depois de "falar com a vaca", rapariga dirigir-se ao grupo, mas depressa adormeceu-. O direito político, a legal capacidade, a determinação própria como uma expressão do querer individual, tudo isto está no conceito de liberdade sartreana. Simone, a sua companheira foi talvez a que soube melhor defini-lo, no seu livro “A Farewell to Sartre”. Um estudante chileno, que talvez não soubesse o que foi o terror dos anos de tortura que exterminaram milhares de seus compatriotas, acrescentou que o feminino pós 68teria em Simone uma mãe que direccionou o seu pensamento para o existencialismo sartreano. Aliás oseu trabalho posterior, “The Second Sex” de 1949 contém uma análise detalhada da opressão feminina. Acrescentou que foi o Maio de 68 onde as razões profundas eram tensões, tédios e insatisfações quese haviam acumulado na sociedade, particularmente entre os jovens; sem elas Maio de 68 não teria sido possível e as ruas não se teriam enchido, nem o movimento ultrapassaria os muros das universidades, espalhando-se como uma mancha de azeite pelas periferias operárias. Os estudantes contestaram também a situação social e política do país e o governo do general Charles de Gaulle, em virtude do desgaste provocado pela guerra de independência da Argélia. Aqui mesmo, continuou o estudante chileno, no Quartier Latin, bairro dos intelectuais em Paris, houve barricadas. Os policiais lançaram bombas de gás lacrimogéneo, respondidas com pedras pelos jovens. Entre os líderes estudantis destacaram-se Daniel Cohn-Bendit e Tiennot Grumbach. Nos dias seguintes, referiu ele, continuaram as manifestações. A princípio, o governo francês ficou paralisado. Mas a situação foi controlada no final de Maio, com violenta repressão. O governo de De Gaulle, abalado, sustentou-se no poder somente até Abril de 1969. Uma rapariga loura, com um semblante simpático, que sabia conquistar a plateia com os seus vinte e dois anos acrescentou: O pretexto de uma reforma de ensino, na Universidade de Nanterre, que redundou na Revolução foi igualmente um dos fios condutores para a emancipação da mulher, e foram as teorias sociais e políticas motivadas pelas anteriores experiências das mulheres que tinham muito tempo livre depois de terem abandonado a cozinha, o croché, e a arrumação da casa. Sartre até concordaria, mas o pior foi o fanatismo seguinte - o feminino radical -,forma de feminismo que apareceu numa segunda onda, mas que já não era considerado hoje como tal; a mulher conquistou o seu lugar na sociedade sem extremismo, transferiu-se para esta esfera como uma revolução tranquila. Um estudante marroquino, com uma tez escura e com um pequeno bigode ralo e negro revelou que nesse movimento filosófico enfatizava a liberdade individual e a subjectividade tal como Kierkegaard, Hegel ou Husserl. A "Existência precede Essência" ou melhor, não há moral predefinida ou mesmo espiritual predefinida na humanidade além daquela que fazemos para nós próprios.
O homem existe, descobre-se, surge no mundo e só depois é que se define. A essência é o que faz com que uma coisa seja o que é e não outra coisa. A única coisa que define o homem é o seu acto. E esse acto é livre, onde quer que esteja o homem. O ambiente continuava pesado, pelos muitos cigarros já fumados. O saxofonista há muito que tinha abandonado o palco, um estrado colocado à frente de uma parede decorada com posters de Toulouse Lautrec, onde sobressaiam Jane Avril e Moulin Rouge: La Goulue.
Tocava neste momento um duo composto por piano e trompete, lembrando Stan Getz e o seu Autumm Leaves, emprestando ao lugar uma atmosfera mágica, de uma qualquer cena, transposta de um livro qualquer que evoca a saga do Rei Artur e os Cavaleiros da Távola Redonda. Aliás, aquela hora, três da manhã, lá fora tinha parado de chover, aquele nevoeiro gélido, que nos ensopa os ossos e a atmosfera de fumo que invadia o café, fazia lembrar uma cena dos padres apóstatas da Idade Média - os Carmina Burana, principalmente quando se juntavam na taberna.








