Capítulo 1 - O bom filho
O pai e os dois irmãos mais velhos já haviam furado e construído o poço, de onde a família tirava a água para fazer tudo: limpar, cozinhar, dar de beber aos animais e a si próprios. Agora, eles trabalhavam na construção do moinho d’água, enquanto a mãe e a irmã cuidavam da casa. Por vezes, ele tinha ido até lá para bisbilhotar e ajudar um pouco também, e sempre ficava impressionado com a imponência daquela edificação. Em comparação a outros moinhos, não era tão grande assim, mas, para ele..., aquilo era imenso. Via o irmão mais velho, Desmond, olhando as folhas onde tinha desenhado os planos da construção e se admirava de sua inteligência:
— Onde você aprendeu tudo isso, Des? — E muito curioso apontou o indicador para um desenho onde havia a parte de dentro do galpão como se estivesse “cortada”. Ele via a espessura dos blocos usados nas paredes e depois todo o espaço da parte de dentro, com as prateleiras, o piso, a janela vista de frente... e ainda o outro lado da parede.
Sorrindo diante da ingenuidade dele, o bonito rapaz de vinte e poucos anos explicou:
— Você se lembra daquela vez em que o papai me enviou para trabalhar em Grants?
Ele anuiu, indicando que recordava. Foram tempos muito difíceis para eles, pois haviam enfrentado uma seca severa e quase não tinham oportunidades de trabalho. Por esse motivo, o pai se viu obrigado a enviar ele e o outro irmão, Noah, que agora contava dezessete anos, para ir trabalhar dentro da cidade de Grants.
— Então, aquele senhor para quem eu trabalhei era engenheiro. E me ensinou muitas coisas, como esses detalhes nos desenhos que fiz aqui, que chamamos de “planos”.
— E por que “planos”?
— Porque são neles que fazemos os planos de algo a ser construído. Assim fica mais fácil saber por onde começar e ter uma ideia de como se vai ficar, entendeu?
Ele sacudiu a cabeça em concordância. Depois lhe contou que aquele trecho do desenho era um “corte”, onde realmente se podia ver a construção por dentro, de cima para baixo, e a outra parte, que ele apontou o dedo, era o corte de uma “vista lateral” do galpão. Havia a esquerda e a direita, mas como aquela construção era quadrada, ele pôde usar a mesma vista para as duas faces. Com Des explicando, tudo era ainda mais fácil, inclusive aquele desenho onde ele podia mesmo ver como o moinho d’água iria ficar. Mas uma dúvida ainda permeava em sua mente. Se fosse com outra pessoa, ele teria vergonha de perguntar, mas não sentia isso com Des. Puxou a manga de sua camisa, enquanto o rapaz fazia alguns ajustes nos desenhos.
— O que foi, Jason?
— Esse negócio de planos é só para os ricos. O papai mesmo falou que não precisou disso para construir a nossa casa.
— Bom, os pioneiros que aqui vivem e os moradores mais humildes de Grants não precisam mesmo. Um plano custa muito caro, porque o profissional tem que pensar em tudo, inclusive no que pode dar errado. Além disso, é necessário saber fazer muitos cálculos, estudos...
— E você sabe fazer essas coisas?
— Sim, porque o senhor Kingston me ensinou uma parte dessas coisas. Mas depois que a nossa situação melhorar, eu vou aceitar o convite que ele me fez.
— Que convite?
— De ir para Grants e aprender mais com ele. Quero estudar para ser um grande engenheiro e ajudar todos vocês aqui em casa.
— E se isso demorar muito? E se você já estiver velho quando a nossa situação melhorar?
O rapaz deu um meio-sorriso e, com o punho direito, lhe deu um suave cascudo na cabeça, e o garoto riu:
— Nunca se esqueça de uma coisa, Jason: as pessoas, sim, envelhecem, mas os sonhos que elas têm, esses não envelhecem nunca.
O menino puxou as rédeas com toda força que tinha, mas o animal não se moveu do lugar. Parecia bem acomodado no solo batido pelos cascos que tantas vezes passaram ali na tração da pedra de moagem dos grãos de milho que seu pai cultivava, colhia, moía e vendia.
Como era o mais novo dos filhos, o pai o encarregou de tratar das criações e moer os grãos à tração, enquanto a obra não era concluída. Barney, o burro que puxava as pedras mó sempre empacava, tinha a impressão de que ele não gostava de trabalhar! E, naquele dia, não estava sendo diferente.
— Anda, seu preguiçoso! — Ele bateu com os dois pés descalços nas ancas do animal, que apenas virou a cabeça para ele com pouco caso e não se mexeu do lugar. Frustrado e sentindo que sua paciência findaria em breve, ele apeou e começou a puxá-lo pelas rédeas com todas as forças que tinha, mas nada. Parece que Barney, além de ser mais determinado, havia criado raízes no chão.
— Ainda não moeu nada, Jason? — Era Desmond, que tinha voltado da lida antes dos demais para o almoço. — Mas você é mesmo ruim de serviço, hein?
Jason o fitou com mágoa, mas tentou se justificar:
— Não é culpa minha, Des. Faz tempo que Barney empacou e estou tentando puxá-lo, mas ele não anda!
O jovem alto, com a tez queimada pelo sol, acarinhou o burro pelas orelhas compridas e foi até a casa, voltando com uma cenoura em tamanho médio pouco depois. Deu-a para Barney e, enquanto ele mastigava, o puxou devagar. O danado começou a andar, fazendo com que as pedras passassem a girar em torno de seu próprio eixo.
— Já te falei mil vezes! Quando isso acontecer, é só você fazer um agrado para ele e começar a puxar, sopa no mel! Com Barney é assim!
Não pôde evitar um pequeno riso diante daquela cena que presenciou junto ao irmão. Era como mágica, ele fazia tudo parecer tão simples! Já havia tentado com cenouras e torrões de açúcar, mas Barney não o obedecia, às vezes achava que gostava mais de Desmond do que dele, esta era a razão.
Dando tapinhas leves na cabeça do animal, que parecia satisfeito e disposto a voltar ao trabalho após saborear a cenoura, Desmond fitou o caçula com um olhar sério e prosseguiu:
— Não se pode desistir das coisas assim tão fácil, Jason. Do contrário, você nunca será bom em nada na vida.
De alguma forma, aquelas palavras o atingiram e ele ainda contemplava o irmão quando o pai e Noah, o filho do meio, puderam ser vistos ao longe. Carregavam as ferramentas e pareciam cansados, além de famintos. De fato, o aroma da comida vindo da janela da pobre casa de madeira fez com que salivasse. Desmond passou o braço pelo ombro do pequeno e lhe deu um cascudo de leve, direcionando-o para lá:
— Anda, vamos entrar antes que o pai veja que você não trabalhou quase nada e te dê uma sova.
Era uma casa pequena e muito simples, mas bem cuidada. Havia a sala com uma lareira de pedra ao canto e a mesa para seis pessoas ao centro, a cozinha conjugada e, ao fundo, os quartos: o principal, um que era usado pela filha, e o terceiro, dividido pelos três filhos. O banheiro consistia em uma fossa cercada, em forma de uma casinha aos fundos, anexa à casa.
Jason viu a mãe ao fogão, mexendo na panela, enquanto a irmã punha a mesa. Logo o pai chegou com Noah e, após pendurarem os chapéus no mancebo, foram à tigela esmaltada disposta em um canto ao lado de uma jarra e lavaram as mãos.
A dona da casa chamou por Olivia[1], que se aproximou e pediu aos filhos mais novos: — Agora vamos... estendam as duas. Quero ver se estão mesmo limpas.
Eles obedeceram e a mulher observou atentamente as palmas e as unhas. Satisfeita ao não encontrar nenhuma sujeira, meneou a cabeça em afirmativa e eles as recolheram.
— Mãe, a comida está pronta? — Noah esfregou a barriga e já foi tomando o seu lugar à mesa, sem esperar pelos demais membros da família. O pai o olhou feio, mas o rapaz fingiu não ver seu cenho franzido.
— Sim, filho, a Olivia já vai servir — ela respondeu do fogão, com o rosto suado pelo esforço e o calor da lenha sendo queimada embaixo. O caçula se aproximou e começou a retirar as panelas para ajudá-las, e a mãe lhe lançou um breve sorriso: — Obrigada, Jason. Você é um bom filho. — E lhe deu um beijo rápido na fronte quando ele veio buscar a última panela.
Noah ouviu e curvou a boca em desagrado:
— Então ele é um bom filho? Esse aí, que mal consegue moer os grãos direito?
— Cala essa boca, Noah. — Desmond lhe deu um pontapé de leve após tomar o seu lugar. — Jason é muito esforçado.
— Esforçados somos nós que todos os dias quase rachamos a cabeça debaixo desse sol naquele campo!
O caçula colocou a panela sobre o descanso na mesa e lhe deu as costas, tentando ignorar o deboche. A mãe percebeu sua tristeza e se aproximou, abraçando-o pelos ombros e lhe dando outro beijo, mas, dessa vez, sobre a cabeça:
— Não ligue para ele, Jason. Você é, sim, um bom filho. — E sorriu ternamente.
Richard Renneker, o pai, como todo chefe de família, sempre ocupava a cabeceira da mesa. Tomou a Bíblia que estava sobre um pequeno aparador e, assim que puxou a cadeira, os dois filhos mais velhos se calaram imediatamente.
— Não quero discussões na hora da refeição, entenderam?
— Sim, senhor — disse Noah, que lançou um olhar hostil ao menor.
— Aqui o trabalho que cada um realiza tem igual importância. Mesmo que a cabeça dos mais velhos estoure feito uma mamona sob o sol — e deu um cascudo em Noah, que conteve a queixa ante a dor. Desmond precisou segurar o riso para não levar um também e piscou para Jason, que sorriu e se assentou. Mãe e filha se chegaram por último, e ele abriu a Bíblia em Provérbios 10, lendo dos versículos de 1 a 4: — “O filho sábio dá alegria ao pai; o filho tolo dá tristeza à mãe. Os tesouros de origem desonesta não servem para nada, mas a retidão livra da morte. O Senhor não deixa o justo passar fome, mas frustra a ambição dos ímpios. As mãos preguiçosas empobrecem o homem, porém as mãos diligentes lhe trazem riqueza...” — Em seguida, proferiu a prece e, após agradecerem a vida, saúde e o alimento que tinham à mesa, comeram conversando sobre o trabalho.
Logo mais, a mulher acabou deixando parte da comida intocada, estava sem muito apetite. Levantou os olhos para o esposo, aparentemente descontraído, mas que, no fundo, sabia não ser assim. O conhecia muito bem.
— Richard — ela começou, depositando o garfo de leve sobre o prato —, e quanto aquele homem? Voltou a vê-lo?
Tinha a cabeça baixa, mas sabia estar sendo observada por todos à mesa. Ao não ouvir nenhuma resposta, ergueu o olhar e encontrou o dele, que parecia baço e um pouco apreensivo:
— Depois conversamos sobre isso, Layla.
Era óbvio que aquele assunto não podia ser discutido diante da prole. Jason olhou de um para o outro e os lábios dela não se moveram mais, nem mesmo os do pai para terminar de comer. Empurrou o prato, parecia ter perdido a fome e se levantou abruptamente, jogando o guardanapo sobre a mesa. Pegou o chapéu no mancebo e saiu sem olhar para trás. Layla colocou a mão sobre a fronte, parecendo se arrepender de ter trazido aquilo à tona e Desmond tocou sua mão em um intento de confortá-la:
— Esqueça, mãe. Vamos dar um jeito nisso, não se preocupe mais.
Ela passou o avental sobre o rosto, como se realmente quisesse seguir o conselho dele, e se levantou, sendo seguida pelos filhos.
Jason e Olivia ajudaram a tirar a mesa e o garoto refletiu sobre o que ouvira. Era o “tema proibido” sobre o qual flagrou Des e Noah cochichando certa vez. Ardia em curiosidade para saber do que se tratava, mas não podia tocar no assunto. Caso questionasse, os mais velhos jamais diriam. Só lhe restava Olivia:
— Do que eles tanto falam?
— Não sei, Jason. É melhor você deixar isso pra lá — respondeu enquanto jogava os restos em um balde de madeira. — O papai e a mamãe vão se zangar se você ficar perguntando.
Ele obedeceu e viu quando os rapazes também pegaram seus chapéus e voltaram para a lida em silêncio. Logo ele também iria para a dele, pelejar com Barney. Esperava que, caso voltasse a empacar, o truque da cenoura funcionasse.
Ainda estava claro quando Jason terminou o serviço. À porta, tirou as botas sujas de poeira para poupar o serviço da mãe e da irmã com a limpeza e entrou em casa. Viu Olivia sentada à mesa, batendo um bolo. A mão pequena se movia com rapidez enquanto mexia a colher de pau na massa amarelada e cremosa; estava tão concentrada que não percebeu sua presença.
Já a mãe estava sentada ao pequeno piano que ficava em um canto na sala de jantar. O instrumento era antigo, mas conservado, feito de uma madeira bastante escura e o som entrava suavemente pelos ouvidos do menino. Pertencera ao pai de Layla, que a ensinou a ler as partituras e tocar canções muito bonitas, e às vezes ela as reproduzia à noite, quando a família se reunia. Certa vez Richard disse que quando se casaram, esse havia sido o presente do sogro e ela fez questão de que o levassem para a casa nova. Jason gostava muito de ouvi-la tocar, tanto que insistiu em aprender alguma coisa. Layla consentiu e sempre que ele chegava da lida antes do pai e dos irmãos, ia se sentar ao lado dela na banqueta. Uma estranha emoção transbordava de seu peito ao encostar os dedos nas teclas, seguindo as instruções da mãe. Gostou tanto que começou até a tocar para a família depois do jantar, ignorando as provocações de Noah, que ria e dizia que “música era coisa de mulherzinha”.
E, naquele dia, o ritual havia sido o mesmo: Layla tocou duas canções, e ele uma, com um alegre sorriso nos lábios. Ao tomar a banqueta diante do instrumento naquele dia em especial, jamais imaginou que as músicas escolhidas retumbariam em sua memória por muitos dos anos seguintes.
Tarde naquela noite, todos já haviam se recolhido e certamente se encontravam no sétimo sono, menos Jason. Rolou na cama e podia ouvir os suspiros de Des e o ronco discreto de Noah, até mesmo os pigarros do pai no outro cômodo. Olivia e a mãe nunca faziam barulho. Conhecia esses pequenos hábitos noturnos de cada um como a palma de sua mão. Ficava curioso quanto a si mesmo, como seria ele enquanto dormia? Teria alguma mania? Sabia que não era... como era o nome? Olivia mencionou certa vez. Ah, sim, sonâmbulo. Aqueles que se levantam durante o sono e não têm consciência disso. Sabia que não era assim, do contrário, seus irmãos teriam dito. Bom, o fato era que ele conhecia sua família — cada um deles, bem como todos os cantinhos daquela casinha na pradaria.
Virou-se para o lado e fechou os olhos, tentando dormir, quando ouviu o barulho de passos. A curiosidade o venceu e ele se levantou, abriu a porta do quarto, que não rangeu, e viu a luz da lamparina acesa na mesa da sala, onde realizavam as refeições. Encontrou a mãe assentada, fitando o brilho da lua, que entrava por aquela janela sem cortinas. Parecia perdida em pensamentos que a preocupavam, pois mesmo estando de costas para ele, percebeu seus ombros tesos, seu corpo inquieto, em um movimento vaivém.
— Mamãe... — disse[A1] baixinho para que não se assustasse.
Layla Renneker se voltou e, ao ver a luz amarela iluminando parcialmente seu rosto, sorriu e abriu os braços, acolhendo o filho em um amplexo carinhoso. O menino sentiu o calor materno aquecendo-lhe o coração por um minuto que ele desejou que durasse para sempre. Ao se afastar, esfregou a palma da mão em suas costas como se quisesse protegê-lo do frio e perguntou:
— Jason, o que faz de pé a essa hora?
— Não conseguia dormir.
— Nem eu, sabe? — A mãe sorriu fracamente. — Quer um copo de leite quente?
O menino fez que sim com a cabeça, e ela foi para o fogão, preparando duas canecas esmaltadas. Após adicionar o leite, dispôs o açucareiro à sua frente para que ele pusesse os torrões de açúcar feitos por ela mesma. Era muito fácil, certa vez preparou alguns com ela e Olivia[A2] . O pai comprava o saco de açúcar já refinado no armazém do povoado e havia essa forminha com seis furinhos. Colocavam o açúcar e depois adicionavam um pouquinho de água em cada um deles, apertando bem. Após alguns minutos, depois que a água já tivesse secado, viravam a forminha de ponta-cabeça e batiam de leve. Os cubos se soltavam inteiros e os guardavam em um vidro, pondo no açucareiro até em cima. A mãe preferia fazer os cubos, pois comprá-los prontos era bem mais caro. Gostava de ajudá-las com os afazeres domésticos quando podia, não via nenhum mal nisso, embora Noah sempre bulisse com ele: “Cuidar da casa é coisa de florzinha, sabia?” Ele não sabia e nem entendia bem o que aquilo queria dizer. Se querer ser útil o tornava “florzinha”, então, sim, talvez ele realmente fosse um.
Não gostava do leite muito doce, então colocou um torrão apenas em cada caneca, ambas já estavam bem batidas pelo uso. Tomou um gole e sentiu outro gostinho delicioso: era a canela em pau que a mãe havia adicionado sem que ele se desse conta.
Beberam quase tudo envoltos naquele amor fraternal que não se explicava, que ao menos ele não sabia como expressar, apenas sentir, e a escuridão da noite. Viu quando a senhora tocou o dedo anelar direito, girando uma peça grande a envolvê-lo.
— O que é isso, mãe? — Apontou para a sua mão, tirando-a de seus devaneios.
— Oh, isso? — O tirou, entregando a ele. Pesou na palma de sua mão o que ele viu ser um lindo anel. Trazia incrustado ao metal uma bonita gema, que ele moveu à luz da lua provinda da janela e descobriu possuir um lindo tom de verde. — É um presente que seu pai me deu quando me pediu em casamento. Foi da avó dele, sabe? — completou com orgulho. — Richard já me deu outros presentes, mais simples, claro... No início da nossa vida juntos, precisei me desfazer da maioria, mas, por algum motivo, nunca consegui me separar deste... até agora. Creio que esse anel será a solução de um grande problema que temos.
Estava certo, tinham mesmo algum problema... se sentiu tentado a perguntar o que era, mas sabia que ela não lhe diria.
Layla acarinhou sua fronte e Jason estendeu a mão, devolvendo o anel. Ela o guardou em um lenço branco, com renda costurada na borda e algumas flores bordadas em ponto cheio. Dobrou com cuidado e o colocou dentro da camisola, junto ao peito.
— E, então, vamos tentar dormir?
O pequeno passou a mão pelos olhos, denotando estar mesmo sendo vencido pelo sono. Sentiu o seu braço amparando-o até a cama e o beijo que ela depositou em sua testa após cobri-lo. Ainda viu quando ela lançou-lhe um último olhar da porta, antes de puxá-la. Ouviu o ranger da cama de molas quando ela se deitou. Ouviu... até sentir Morfeu[A3] levá-lo pelo colo ao mundo dos sonhos.
Dormia profundamente até ser desperto pelo grito agudo de Olivia. Abriu os olhos de súbito e olhou ao redor, não vendo os irmãos no quarto. Puxou as cobertas e se levantou, ainda se sentindo um pouco sonolento.
Trôpego, foi à sala e à cozinha, não havia ninguém. Pela janela, pôde ver o sol brilhando muito forte lá fora e teve a impressão de que já estava tarde, provavelmente todos já haviam saído para cuidar de seus afazeres. Mas por que a mãe ou os irmãos não o acordaram como sempre? O pai fazia questão de que levantassem todos na mesma hora, visto que considerava o trabalho de cada um essencial. Algo em seu íntimo lhe dizia haver alguma coisa errada, mas não queria pensar nessa possibilidade. Os pais pareciam preocupados na noite anterior, a mãe confirmou que tinham problemas. Jason sacudiu a cabeça para afastar aquela sensação ruim e foi até a porta dos fundos. Chegando à soleira, percebeu uma movimentação estranha do lado de fora.
Havia um grupo de quatro homens montados diante da casa. Dois tinham a pele bem queimada pelo sol, aparentavam cerca de trinta e quarenta anos e estavam vestidos como vaqueiros, enquanto os outros dois, à frente, levavam trajes melhores. O primeiro parecia ter trinta e poucos anos e ostentava uma estrela de prata pequena junto à lapela, usava esporas também de prata, botas e chapéu de couro. Jason não tinha visto, mas, atrás dele havia um quinto cavalo, um pouco menor em relação aos demais e, montado nele, estava um garoto com cerca de catorze anos, que também usava roupas novas. Já o outro homem, que estava à frente e parecia ser o líder, era um pouco mais velho... devia contar uns cinquenta anos de idade. De porte altivo, usava o chapéu mais bonito que Jason já tinha visto, grande e escuro, e suas roupas eram negras. As botas possuíam a mesma cor e ele usava protetor de couro nas calças, como se não tencionasse gastá-las com a montaria. As esporas eram de ouro, afiadas e, em seu peito, havia uma estrela bem maior, igualmente moldada no vil metal. Seu brilho refletido no sol quase cegou Jason.
Olivia estava tremendo e muito assustada, próxima a Des, que apoiava as duas mãos nos ombros da menina e olhava feio para os invasores. Viu Noah com os ombros tesos, ajoelhado junto ao corpo de Barney. O pobre animal se encontrava imóvel em frente ao poço de moagem. Lado a lado estavam os pais e fitavam os forasteiros com grande apreensão. Jason sentiu que ali, de pé, diante daqueles homens, todos eles pareciam bem indefesos, e isso o entristeceu.
A mãe era uma figura de amor, assim como a irmã. Noah sempre pegava no seu pé, mas tinham o mesmo sangue, gostava dele. Des era seu irmão mais velho, o admirava com todo o seu coração e sonhava em algum dia ser como ele. E quanto ao pai, bem... era bom e diligente, mesmo em meio às dificuldades da vida no campo, nunca permitiu que faltasse nada a eles. Desde que conseguia se lembrar, jamais deixou de ter a sensação de que ele era um homem forte, valente e indomável... até aquele preciso momento.
— E, então, Renneker? Já tem o meu dinheiro? — questionou o homem da estrela de ouro, e o pai tirou o chapéu, parecendo estar com medo:
— Ainda não, xerife McGiven. Meus filhos e eu temos trabalhado muito, mas o senhor sabe... as coisas estão muito difíceis.
— Isso não é problema meu. — E lançou um olhar frio para os demais. — É seu e de sua família. O prazo que eu te dei venceu há dois dias e você ainda não foi me procurar.
Richard baixou a cabeça e Jason se sentiu mal ao contemplar a aparente fragilidade de seu pai diante daquele sujeito. Era um homem tão esforçado, trabalhador... e, acima de tudo, honesto. Não podia acreditar que ele devesse dinheiro a alguém. Sempre honrava seus compromissos e ensinou aos filhos a seguir seu exemplo. Ainda podia se lembrar de suas palavras certa noite, na mesa de jantar: “Você pode até ser pobre... mas se conseguir viver carregando um nome limpo, terá tudo. Ainda mais riquezas do que quem possui ouro e prata”.
— Você está cansado de saber que agora sou o xerife desse maldito arraial. Represento a ordem nesse buraco... a minha palavra é a lei e os meus comandos também! — Jason viu o homem da estrela dourada, a quem seu pai chamara de xerife McGiven, pigarrear e cuspir no chão, perto de onde o chefe de família estava. — E eu deixei bem claro que quem vive aqui precisa pagar um tributo.
— Mas não entendo, xerife — Richard protestou —, que tipo de tributo? Já luto para pagar os impostos... agora o senhor vem até aqui e me diz que ainda preciso pagar mais? Mais o quê? Explique-me.
— Um tributo, já disse! — McGiven alterou o seu tom de voz. — Uma proteção, um encargo... entenda como quiser.
— Por acaso você é tão burro assim, Renneker? — Era um dos homens com a pele queimada pelo sol. — Não teve instrução? Não sabe o que significa tributo?
O outro, que estava ao lado deste, lançou um olhar de desprezo para os filhos, que os encaravam com medo. Depois se voltou para a senhora e lambeu os lábios de forma lasciva, visto que era uma mulher ainda muito bonita: — Esse povo do campo entende é de terras, Roy... e de se reproduzirem como coelhos.[A4] Só isso.
Layla engoliu em seco. Olhou do esposo para o xerife, como se não tivesse outra saída, e colocou a mão dentro da gola do vestido puído, tirando o lenço que Jason viu com ela à noite, onde havia guardado o anel. Não o desenrolou, apenas se aproximou um pouco mais do cavalo que ele montava e estendeu a mão, oferecendo-o:
— Não temos dinheiro, xerife... mas, quem sabe, com esse anel, o tal tributo possa ser pago. — McGiven não se moveu, bem como nenhum de seus homens. Layla ainda insistiu: — Por favor, aceite. É uma joia de família.
Ele pigarreou, mas permaneceu imóvel. Por causa do chapéu, não era possível ver bem a cor dos cabelos dele... Mas tinha um bigode farto e escuro, que se moveu um pouco, como se quisesse falar. O ombro de Richard se retesou, parecia não querer que a esposa se desfizesse daquela peça, porém, se calou. Quem sabe McGiven concordasse e assim ganharia mais tempo para juntar o dinheiro que precisava pagar a ele e convencê-lo a devolver o anel. Por fim, ele disse:
— Isso não é suficiente. Preciso de muito mais.
Layla recolheu a mão e apertou o lenço em sua palma com muita força. Enrolou-o, colocou dentro da gola e voltou para junto do marido, que a abraçou pelo ombro e susteve o olhar do xerife e seus homens.
O representante da lei puxou as rédeas e fez um gesto indicador a seus homens, direcionado à família Renneker. Imediatamente um deles replicou:
— Você quem manda, patrão. — E sacou o Colt.
Os olhos de Richard se arregalaram, antevendo o que aconteceria. Naturalmente, foi pego desprevenido com a chegada deles e não costumava andar armado naquela calmaria, onde todos se conheciam. Sobressaltou-se e o pistoleiro foi muito ágil. A bala atingiu o homem de família na testa e ele tombou morto nos braços da esposa, que começou a gritar histericamente.
— Nããããooo! Pai! — A voz de Desmond irrompeu o ar em meio ao desespero dos demais membros.
— P-por que fez isso? O que farei sem o meu marido? — a pobre mulher balbuciou. Mas aquele sujeito, que abusava de seu poder, não tinha um pingo de misericórdia no olhar, em vez disso, era possível ver apenas uma sombra carregada de malignidade. E respondeu apenas:
— Em Grants e adjacências, quem não paga o deve com dinheiro vivo, paga com sangue.
Desmond ergueu os olhos e, bufando de raiva, exclamou:
— Seu maldito!... Filho do cão! — E avançou contra o cavalo que McGiven montava com as mãos nuas, mas o outro empregado atirou nele, ferindo-o mortalmente no peito.
A mãe mal teve tempo para processar a cena de horror que aconteceu em seguida. A menina Olivia começou a gritar, Noah, que até então estava paralisado de medo, se virou para correr e tentar escapar. No entanto, McGiven e seus homens ergueram os revólveres e apontaram para eles, atirando. O cheiro de pólvora se espalhou pelo ar, bem como a breve fumaça formada pelas armas de fogo. Os dois caíram mortos e o pranto de Layla era sentido e desesperado:
— Meus filhos!
— Anda logo com isso, papai. Não gosto de ver mulheres chorando — disse o garoto, que observava toda a cena com uma aterradora expressão de indiferença. Ele fitou o filho, visivelmente impaciente, e fez outro gesto. O comissário, que olhava Layla com interesse, apeou e se aproximou dela. A imobilizou pelas mãos, enquanto ela resistia com todas as forças que tinha e, quando começou a levá-la em direção à casa, o líder quis saber:
— O que vai fazer com ela, Carson?
— Bom, xerife... — ele parou, ainda forçando-a a ficar quieta —, antes de terminar o serviço, queria me divertir um pouquinho. Mesmo tendo parido três filhos — e lançou um olhar devasso à pobre, que compreendeu seu intento e o fitou com pavor —, ela não é de se jogar fora.
— Não! Não faça isso! — Layla pensou que fosse desfalecer de tanta aflição e medo, mas a revolta e a vontade de escapar ainda lhe davam energia o suficiente para protestar. O tipo lhe deu uma bofetada para que parasse de lutar e, mesmo com a face queimando pela dor do golpe, ela era valente e não deu indícios de que desistiria.
— Pare com isso, Carson. Estamos aqui a serviço e meu filho veio conosco. — Voltou-se para o garoto, que parecia olhar tudo ao seu redor com desprezo, inclusive o pobre sítio em que estavam. O comissário ajeitou o cós da calça e assentiu para o patrão, praguejando baixinho.
Escondido atrás da casa, Jason viu tudo sentindo a dor mesclada à adrenalina a corroer o estômago. Era como se toda força estivesse sendo drenada de seu corpo e suas pernas bambearam ao ver a família sendo assassinada. Mas agora sua mãe estava ali, fragilizada e precisando dele. Reuniu coragem e deixou seu refúgio, gritando a plenos pulmões:
— Deixem a minha mãe em paz, seus covardes! — E correu até ela, que se voltou assustada e com lágrimas nos olhos:
— Jason!
Pela surpresa da aparição do menino, os homens se viraram repentinamente, inclusive Carson, que soltou Layla. Ela também correu e o acolheu em seus braços, beijando sua fronte e beliscando suas bochechas delicadamente, para que a cor de seu rosto retornasse.
— Ora... — disse Carson com admiração —, então havia mais um!
— Aproveite seus últimos minutos com o único filho que lhe restou, senhora Renneker.
— Não... — ela se agarrou ainda mais ao pequeno e acariciou seus cabelos lisos —, por favor, não o machuque. Ele só tem dez anos. Eu... eu não vou aguentar ver a morte de outro filho.
— Tudo bem... — McGiven tirou um tablete de tabaco do bolso, o desembrulhou e mordeu um pedaço, tomando segundos para mascá-lo e aproveitar seu sabor. Após cuspir o resto, prosseguiu: — Então a senhora morre antes.
Sacou o Smith & Wesson e deu-lhe um tiro certeiro no peito. Gotículas de sangue ainda respingaram em Jason antes que ela caísse para o lado, sem vida. O queixo dele tremeu com o susto ao presenciar a mãe sendo executada, os olhos azuis tão bonitos perdendo o brilho, a expressão de dor em seu semblante... A vista nos olhos do pai e dos irmãos fora igualmente terrível, mas, por alguma razão, a dela havia sido pior, e soube que jamais se esqueceria daquilo enquanto respirasse. Seu corpo pequeno e franzino bambeou e ele desmaiou.
— Anda, preguiçoso! Não temos o dia todo! — Jason ouviu ao recobrar a consciência após sentir o choque da água gelada molhar o seu corpo. Abriu os olhos lentamente e encontrou o rosto lívido e sem vida de sua mãe, que parecia olhar para ele. O vermelho vivo do sangue se espalhou ao redor do buraco da bala que perfurou seu coração e ele pareceu se lembrar do ocorrido.
Viu-se cercado por todos aqueles tipos, inclusive o garoto, filho do xerife, que o fitava com displicência. Um segurava o balde de madeira que sua mãe costumava usar para colocar a roupa lavada e torcida, e o outro estava com a pá que seu pai guardava no pequeno barraco anexo. Jogou o objeto pesado, atingindo sua perna e lhe provocando uma algia imediata.
— Não ouviu, pirralho? Pegue logo essa pá e comece a cavar!
Jason ergueu o tronco e, ao virar o rosto, deparou-se com os outros quatro corpos da família estirados lado a lado. Um dos sujeitos morenos se afastou e começou a arrastar o cadáver de sua mãe pelas pernas, trazendo-o para o lado do de seu pai naquele alinhamento macabro. Ainda se sentia um pouco confuso, tentava se convencer de que aquilo não era real, apenas um sonho ruim. Segurou o cabo da pá com força, até os nós dos dedos de sua pequena mão ficarem brancos, mas sentiu a dureza e a textura da madeira, as pequenas farpas que, ao arranharem e entrarem em seus dedos, lhe provocaram uma pequena dor... naturalmente, nada comparada à que sentia dentro de si, em sua alma. E, então, ele soube que estava, sim, acordado, piscava e, ao abrir os olhos, aqueles infelizes ainda estavam ali, diante dele e lhe dando ordens para... para começar a cavar.
O xerife McGiven foi até o corpo de Layla e, puxando seu vestido, tirou o lenço que ela guardara entre os seios. Desenrolou-o e segurou o anel, admirando a beleza daquela pedra verde. Jogou o tecido bordado no chão e guardou a peça no bolso. Depois olhou para o menino e se achegou. Com a paciência a zero, o segurou pela camisa com fúria, forçando-o a se levantar e firmar as pernas:
— Anda logo, moleque! Se não quiser que seus parentes sejam comidos pelos urubus, cave! E rápido! — Tirou o belo Smith & Wesson do coldre e deu um tiro para o alto, assustando-o. E o menino obedeceu, consciente o tempo todo de que estava sob a mira daquele revólver.
As covas precisaram ser rasas, pois Jason não tinha energia o suficiente para cavar mais fundo, além da aparente pressa daqueles facínoras. Estava muito fragilizado, tremendo feito vara verde com a lembrança cruel do som dos disparos mesclada à visão de sua família sendo morta voltando à sua mente como um vórtice de horror.
Um longo tempo se passou, tempo que ele pensou nunca mais ter fim, até fincar a pá no solo, exaurido pelo enorme esforço sob a grande árvore. Queriam ainda forçá-lo a arrastar todos os corpos para dentro dos buracos, mas como viram que ele era fraco, precisaram ajudá-lo. Praticamente jogaram as vítimas nos espaços que seriam seu descanso eterno, e o corpo de Olivia ficou de bruços. Jason quis virá-lo, mas seus algozes não o permitiram.
— Não estamos por sua conta, seu merdinha! Só pegue a pá e jogue a terra por cima! — exclamou Carson, e foi o que ele fez. Pouco a pouco, as camadas de terra foram cobrindo os corpos daquelas pessoas que ele amou tanto e a consciência de que nunca mais os veria o atingiu com grande intensidade. Quando sentiu que iria desfalecer, o filho do xerife caminhou até o outro balde de madeira cheio d’água e jogou todo o conteúdo nele para que despertasse e prosseguisse com o serviço. Ao terminar, seus joelhos fraquejaram e ele caiu no chão, diante dos túmulos.
— E agora, chefe? O que fazemos com ele? — quis saber um dos homens morenos.
McGiven o fitou sem compaixão, deu um meio-sorriso e respondeu:
— Essa família não valia nada mesmo... sempre foram fazendeiros e não representam perigo algum. — Guardou o revólver no coldre e montou seu cavalo, sendo seguido pelos demais, inclusive o filho. Puxou as rédeas e completou, antes de partir: — Vamos deixá-lo para contar história e alertar os demais sobre o que acontece com quem não paga o que me deve.
E deram as costas, partindo. Chorando, o último dos Renneker aguardou que os animais se afastassem até se levantar e pegar o lenço de Layla que estava jogado no chão. Lançou um olhar para as cinco covas ao seu lado e seus olhos se detiveram por mais tempo à da mãe. Enquanto vivesse, as palavras da boa senhora jamais o abandonariam: “Jason... você é, sim, um bom filho”.
[1] Prezado leitor, os nomes próprios tônicos como Olivia e Patricia, e a cidade estadunidense de Santa Fe, por exemplo, foram mantidos em suas grafias originais — sem os acentos agudos — propositalmente em referência à língua inglesa.








