Prólogo
1931
- Não meu pai. - o príncipe dizia visivelmente irritado. Seu pai queria que ele se casasse com uma rainha que além de ser mais velha, ele nunca a havia visto. Tudo para fazer uma aliança e manter a paz entre os reinos. Que bobagem! - Não irei me casar com mulher alguma!
- Mas meu filho...
- Não meu pai! - ele disse ainda mais irritado. Quantas vezes teria que repetir? - Não me casarei com alguém que não amo. E pior, alguém que eu nunca vi, e ainda por cima que é mais velha do que eu.
- Entenda meu filho, você é um príncipe. É seu dever colocar os seus súditos em primeiro lugar. Se casar será o melhor a fazer para o nosso povo. Se unirmos os reinos nós teremos mais comida para a população, mais água, mais vestes, e menos pessoas morando nas ruas. Não é por minha causa que deve se casar, é por causa deles. - o príncipe respirou fundo e encarou o pai, pensando em mudar de ideia. Só pensando. - Um dia você se tornará um grande rei, como pode querer subir ao trono com um ato de rebeldia como esse?
O príncipe pensou por um minuto. Era isso mesmo que queria para a sua vida? Casar-se com uma velha desconhecida e ser condenado a passar o resto de seus dias ao lado de alguém que não ama, e que ele sabia que não o faria feliz? Não! Definitivamente não!
- Tem razão meu pai. - disse o mais novo e o rei sorriu aliviado pensando tê-lo convencido. - Então eu não sou mais um príncipe. - Ele falou tirando a sua coroa da cabeça e entregando-a nas mãos de seu pai, que estava espantado com a atitude do filho. - Minhas irmãs herdarão o trono. - O príncipe deu as costas a seu pai e caminhou até a grande porta da sala do trono.
- Saiba que se passar pelo portão deste palácio, ele jamais será aberto para você novamente. - o rei disse um pouco mais alto para que seu filho – que já estava um pouco longe – pudesse ouvir bem.
- Assim disse o rei. - ele fez uma reverência e deixou a sala. Nem ao menos se preocupou em se despedir do resto de sua família ou de pegar um pouco de comida e água. Estava tão enfurecido. Ele foi até o estábulo real e preparou o cavalo mais forte e resistente – que também era o seu favorito –, e montado nele, passou por aqueles portões, decidido a fazer a vontade do rei e nunca mais voltar.
Capítulo 1
Eu estava levemente feliz. A muito tempo eu não sabia o que era estar feliz de verdade. Na verdade, não me lembro de momento algum de minha vida em que eu estive feliz. Mas agora, por algum motivo um sorriso resolveu surgir em meus lábios. E não era um sorriso falso. Também, mas é claro. Como não estaria sorrindo? Depois de 2 longos anos preso naquela cadeia eu finalmente estava sendo liberto. Eu caminhava devagar pelo corredor imundo e bem iluminado que continha selas dos dois lados. Ainda algemado e com dois soldados em meu enlaço. Mas em poucos segundos estaria fora daquele lugar. E essa seria a última vez que pisaria lá. Os outros prisioneiros me encaravam com raiva e cochichavam uns com os outros.
- Calma pessoal. Segunda eu estarei de volta. - eu falei cínico. Algumas risadas foram ouvidas.
- Disso nós não temos dúvidas Donahue. - disse um dos soldados. Eu já havia o visto tantas vezes, mas não sabia o seu nome. Mas pelo visto ele sabia o meu. Mas quem não sabia não é?
Caminhamos até a porta de entrada daquela prisão. O outro soldado me puxou e tirou as algemas de mim. E o que havia falado comigo abriu as portas e me empurrou para fora. Logo fechando-a.
- Nem vão se despedir de mim gente? - falei em voz alta e com ironia. A porta logo se abriu novamente e próximo aos meus pés foi jogado um saco com algumas roupas minhas dentro. - Obrigado!
Agradeci á porta já fechada a minha frente. Peguei o saco, que mais parecia um pano com as pontas amarradas – por que na verdade era isso que ela era mesmo. E comecei a andar pra longe dali.
Achei um galho fino de uma árvore jogado no chão e o apanhei. Coloquei o saco pendurado no galho, e o galho sobre os ombros. Lá estava eu, rumo ao reino de Amminóvia. Eu tinha me esquecido do quanto o sol era quente. Também como pudera lembrar, passei os últimos dois anos sem nem ao menos vê-lo. Depois de alguns minutos caminhando finalmente cruzei a ponte que levava até o reino. As pessoas andavam apressadas pra lá e pra cá. Haviam tendas e barracas por toda parte, algumas cheias de joias para vender, outras de roupas, e outras cheias de pão ou frutas. Só Deus sabe o que eu faria para comer um pão daqueles agora. Algumas pessoas conversavam animadamente, algumas crianças corriam e gritavam, outras choravam. E eu simplesmente passava por ali adimirado com tudo. Estava olhando para cima, observando as grandes construções, quando senti que alguém esbarrou comigo.
- Oh! Desculpe! - disse uma moça com cabelos longos e escuros, e com vestido claro.
- Sem problemas senhorita. - eu falei. E ela sorriu. Céus! Como era bonita. O mundo inteiro deveria parar e olhar para ela por um minuto, era até pecado desviar o olhar, afinal, ela também era uma criatura de Deus.
- Parece meio perdido. - ela falou e observou aquela "mala" nos meus ombros, com seus belos olhos azuis. - É um viajante?
- É, acho que posso ser chamado assim. - respondi.
- E para onde está indo? - ela perguntou curiosa.
- Estou indo para todos os lugares, e pra lugar nenhum.
Alguns minutos antes
Por Mavis
- Vasculhem todo o reino! Pedra por pedra! - o rei gritava com seus soldados enquanto eu caminhava calmamente até a sala do trono, que era de onde estava vindo a sua voz. - Ela não deve ter ido muito longe.
Oh! Certamente ele estava falando de mim. Só porque eu havia fugido a noite passada e ainda não havia voltado. Ele já deveria ter se acostumado com isso. Afinal, o que posso fazer se não me deixam ter nenhum momento de liberdade? Eu preciso sair um pouco dessa prisão que chamamos de palácio. Por isso, eu não fugi, apenas saí.
- Não será necessário meu pai. - falei entrando na sala, me preparando para o sermão que teria que ouvir.
- Mavis Elizabeth de Roosevelt. - ele pronunciou meu nome completo, e levantou-se do trono indo para perto de mim. - Quantas vezes vou ter que repetir?
- Você está terminantemente proibida de sair desse palácio sem ser supervisionada por um de nossos soldados. - eu falei junto com ele. Escuto isso desde os meus cinco anos.
- Eu já sei disso, mas como pode ver, nada aconteceu meu pai, eu estou bem. - eu disse. Ele começou a me rodear. - Como todas as outras vezes. Não preciso de guardas me seguindo a todo momento.
- É, você está bem minha filha. Mas devo lembrá-la de que você é uma princesa? Filha de um rei que tem muitos inimigos, e que podem tentar usá-la para me atingir? - ele me encarou. - Sem contar que você também pode ser pega por um daqueles bárbaros, por um daqueles bandidos! - eu apenas ouvia tudo de boca fechada. - Sabia que o maior ladrão do país foi liberto da prisão esta manhã? Ele pode estar em qualquer lugar agora.
Eu abri a boca para perguntar se o ladrão se tratava de Donahue. Mas fui impedida. Donahue era acusado de roubar, centenas, não, milhares de pessoas em vários reinos. Ele fazia isso todos os dias durante três anos e nunca havia sido pego. Mas felizmente conseguiram prendê-lo a dois anos atrás, aqui mesmo no reino de Amminóvia. Eu nunca o vi, na verdade, acho que ninguém sabe como é seu rosto. Mas se tem uma coisa que todos sabem é seu nome.
- Devo lembrá-la também que está prometida em casamento ao Rei Roderick? Tenho certeza que ele não gostaria de ver sua futura noiva sozinha a mercê de qualquer um no meio das ruas. - ele falou.
- Lá vem o senhor com essa história novamente. Meu pai, me desculpe, mas eu não vou me casar o Rei Roderick. - eu falei. - Está claro que ele não é interessado em mim. Ele tem interesse no seu reino e nas suas riquezas meu pai. Ele não se importa com quem vai se casar, só quer saber dos benefícios que este casamento o trará. Sem contar que ele é um velho.
Falei e ouvi alguém pigarrear atrás de mim. Virei-me na direção do barulho e dei cara com o Rei Roderick.
- Oh! Perdão. - eu disse do jeito mais educado que pude. - Eu não quis ofendê-lo Roderick.
Ele me lançou um sorriso sem mostrar os dentes.
- Filha por favor me deixe conversar a sós com seu futuro noivo, sim? - meu pai falou frisando bem a parte sobre ele ser meu futuro noivo. Eu concordei.
- Com licença. - fiz uma reverência e saí de lá. Não só da sala, mas do castelo também. Eu não queria ficar ali mais nem um minuto. Eu passei pelo buraco que havia feito na parede, que ficava escondido por uma planta. Acho incrível como nunca descobriram meu lugar de fuga. Logo já caminhava pelas ruas movimentadas do reino de Amminóvia. As pessoas dizem que eu tenho sorte de ser uma princesa. De ter tantas coisas só pra mim. Porque será que então não me vejo feliz assim? Sorte têm as pessoas que não são da realeza, porque apesar não serem ricas, elas têm a chance de saberem o que é amor de verdade. Elas têm a chance de se apaixonar e casar com alguém que realmente as mereça, e não com um estranho qualquer. Ser princesa era mesmo uma...
- Oh! Desculpe! - eu exclamei depois de ter esbarrado com um homem. Ele usava roupas um tanto sujas mas isso não o impedia de ser deslumbrante. Seus cabelos escuros eram cortados na altura do pescoço e uma parte do mesmo estava amarrado atrás. Tinha uma barba por fazer e olhos escuros e profundos.
- Sem problemas senhorita. - ele falou. Eu tive que sorrir. Deus! Como ele era bonito. Eu acho incrível que ele não esteja rodeado de mulheres neste momento. Ah, com certeza eu queria rodeá-lo pro resto da vida. Controle-se Mavis! Ele é um plebeu! Um lindo plebeu...
- Parece meio perdido. - eu disse. Eu e minha mania de não saber me afastar rapidamente. Observei o galho com um pequeno saco pendurado sobre os seus ombros. Certamente ele estava de passagem. - É um viajante?
- É, acho que posso ser chamado assim.
- E para onde está indo? - perguntei novamente.
- Estou indo para todos os lugares, e pra lugar nenhum. - ele sorriu.
- Pode explicar-me o que isso significa? - ele sorriu novamente.
- Significa que estou aproveitando meu momento de liberdade, que tenho vontade de ir para todos os lugares. Mas no final das contas não ficarei em lugar nenhum. - ele deu de ombros. - E você o que faz aqui?
- Sabe, é até bem parecido... - eu comecei. - Você está aproveitando seu momento de liberdade e eu estou aproveitando meus últimos momentos de liberdade antes de me casar com um homem velho, antipático, e mesmo eu sabendo quem ele é, pra mim é um estranho completo. - eu suspirei triste. Porque mesmo estava contando meus problemas pessoais para um estranho?
- Então não o ama? - ele perguntou. Porque mesmo ele estava interessado em minha vida?
- Não. - eu falei olhando para longe.
- E porque não desmancha o noivado? - ele perguntou.
- Não é tão simples. - eu falei baixando minha cabeça.
- Tudo é simples se você não tiver medo de quebrar algumas regras. - ele disse levantando minha cabeça com o dedo indicador.
- Não sou do tipo que pode quebrar regras. - eu disse o encarando.
- Ninguém é do tipo que pode quebrar regras. Mas simplesmente, as quebram.
- Se espalhem! Procurem a princesa! - eu ouvi um soldado gritar. Tentei não me preocupar, este homem não poderia saber que eu era a princesa.
- Nossa, está tarde tenho que ir. - falei dando as costas para ele.
- Espere. - ele disse segurando levemente o meu braço. - Eu nem sei o seu nome.
- E nem eu o seu. - eu disse. - Estamos quites.
Tentei voltar a andar mas ele apertou mais o meu braço.
- Eu vou voltar a vê-la? - ele perguntou me encarando. Observei seus olhos se moverem de um lado para o outro levemente.
- Assim eu espero. - eu disse, ele soltou meu braço. - Adeus, viajante.
- Adeus, moça.