Coração Desprotegido (Romance MM/Suspense/Drama Gay)

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Resumo

Ele. Teimoso, incrivelmente talentoso, paralisado pela desconfiança e atraente de um jeito que nenhum homem deveria ser. E a última coisa que Saffie precisa é de um *one-night-stand* complicado com o deslumbrante atleta celebridade coreano que ele foi contratado para proteger. Quando Saffie Aoki desvia do caminho de sua carreira médica para aliviar a pressão, ele aceita um bico na segurança para preencher o intervalo. Mas isso não é nada parecido com os trabalhos de guarda comum que ele fazia para pagar as contas durante a faculdade. A posição temporária que Saffie consegue é na equipe de segurança de elite de duas pessoas do atleta de classe mundial, Rae Arana. E há algo gravemente errado com essa equipe. Foi um acidente de carro, dizem a Saffie: o motivo pelo qual Rae tem uma fratura no quadril, perdeu o Campeonato Mundial e é atormentado por pesadelos. Mas quando Saffie começa a notar ferimentos no corpo do jovem competidor que não condizem com a história que todos estão contando, o trabalho que ele pensou que o ajudaria a relaxar subitamente começa a virar seu mundo de cabeça para baixo. Indeciso entre denunciar o grave abuso que começa a suspeitar ou pedir demissão imediatamente, Saffie, sem perceber, baixa a guarda contra o garoto asiático de olhos gentis de quem ele parece não conseguir se desprender emocionalmente.

Status
Completo
Capítulos
95
Classificação
4.9 13 avaliações
Classificação Etária
18+

1. How to Get a Girl

Era isso, então. Olhos ovais brilhantes. A pele bronzeada perfeita. Cabelo preto luxuoso, tão liso e brilhante. Os caracteres japoneses pendurados em um colar de corrente fina.

Talvez seus avós estivessem certos. O estresse diário, as noites sem dormir, a carreira que ele odiava — talvez tudo isso valesse a pena se a estabilidade daquele salário lhe desse a chance de chamar algo assim de seu. Aquele rosto. Aquela mão fina e perfeita enquanto se movia para apoiar o queixo liso. Lábios carnudos que se abriam lentamente para dizer algo…

“Então… Sr. Quase-Médico, quantos centímetros tem essa sua ferramenta?”

Um nó viscoso e enjoativo de desconfortos internos pareceu cair bem no colo de Saffie Aoki. Aos poucos, seu torpor passou, e o ambiente voltou ao seu redor: a mesa limpa dos pratos usados, o restaurante sofisticado, o início da noite caindo lá fora. O que exatamente ele tinha feito de errado desta vez?

“Isso é… hum.” As mãos de Saffie roçaram seus joelhos debaixo da mesa, derrubando sem querer um guardanapo de pano no chão. Ele engoliu em seco. “Isso é uma pergunta séria?”

A mulher à sua frente sorriu. Um dedo traçou um decote inegavelmente atraente. “Você me diz… e eu te conto o tamanho do meu sutiã.”

A pontinha do lábio de Saffie ficou presa entre os dentes e se soltou com uma picada dolorosa. Ele respirou fundo. “Isso é… Isso é muito… hum.” Muito o quê? Saffie engoliu em seco. Sorriu. Estreitou os olhos para os pontinhos verdes na toalha de mesa. “Hum… não, obrigado, na verdade.” Inspirando bruscamente: “Eu vou… acertar a conta.” Ele se levantou abruptamente, quase batendo na beirada da mesa.

“Marcus.” O nome no identificador de chamadas iluminou a tela do celular de Saffie nem dois minutos depois de sair do restaurante. Por um momento, Saffie pensou em enfiar o aparelho de volta no bolso do casaco. Ele não estava pronto para conversar. O som oco de seus próprios sapatos na calçada escura encheu seus ouvidos por um momento. O telefone continuou vibrando em sua mão enquanto o estacionamento aparecia à frente.

Ele imaginou por um momento: os olhos dela, o sorriso dela. As coisas que ele achava atraentes nela. Tamanho do sutiã?

Talvez fosse um sinal. As mulheres simplesmente não gostavam dele.

“Cara, elas gostam de você até demais,” Marcus certamente diria.

Merda, por que eu faço isso comigo mesmo? Com dificuldade, Saffie deslizou o ícone de atender no telefone e levou o aparelho ao ouvido. “Alô?”

Seu melhor amigo nem se deu ao trabalho de cumprimentar. “E aí, como foi?”

Saffie lançou um olhar vazio para uma vitrine iluminada. Três segundos se passaram.

“Fala logo, Saf. O encontro. Com a asiática bonitinha.”

Asiática bonitinha? “Você… você está me seguindo?” Por via das dúvidas, Saffie olhou rapidamente por cima do ombro. Sua pergunta foi respondida com uma longa risada do outro lado da linha.

“Cara, eu conheço o seu modus operandi.”

“Tanto faz.” A mão de Saffie encontrou o metal frio do corrimão da escada, e ele começou a subir para o topo do estacionamento.

“Ah, não. O que ela fez? Disse um daqueles palavrões japoneses que nem existem? Recusou uma xícara do chá roxo da sua avó? Errou o alvo em um dos seus seiscentos e cinquenta requisitos? Pediu para transar com você?”

Marcus: alto, negro, bonito para qualquer garota, bem-sucedido na carreira, com a esposa perfeita esperando em casa. Como se ele soubesse o que é procurar uma conexão que simplesmente não existe. Saffie sentiu seus dentes cravarem no lábio inferior. Ele não respondeu.

“Ah, ela queria dar uns pegas.”

Ele conseguia imaginar perfeitamente: Marcus em sua cadeira giratória; um banco de dados aberto no laptop à sua frente; um pequeno caderno cheio de sua caligrafia de garrancho; aquele olhar de detetive sabichão, provocador e sempre no controle…

“Ela queria dar, Saf. Queria transar.”

“Cara, cala a boca. Ela só não era para casar.”

“Hum. Sabe o que mais não é para casar?”

Para alguém que malhava três vezes por semana, suas coxas não deveriam estar queimando tanto em uma simples escada. Saffie parou em um patamar e tirou a poeira do corrimão com a ponta dos dedos. “Marcus…”

“Um garotinho que não quer vestir as calças de homem — cortar essa porra de cabelo — e arrumar uma carreira. Cara, por que eu vi uma renovação de segurança armada com o seu nome?”

Saffie soltou um longo suspiro. “Achei que você fosse detetive. Eles te deixaram no trabalho de escritório agora?”

“Eu fico de olho nas coisas.”

“Exatamente quantos olhos você tem?” Ele começou a subir as escadas novamente.

“Isso não vem ao caso. Saf, seus avós vão mandar a porra da Yakuza atrás de você se descobrirem que você renovou sua licença.”

“Não, não vão.”

“Sim, eles vão, porra! Não. Você tem razão. Eles vão mandar a Yakuza atrás de MIM, porque fui eu quem te arrumou esses bicos de segurança. Cara, qual é, você sabe que eu não preciso desse drama.”

“Meus avós te adoram.”

“Você quer dizer que adoravam, antes de…”

“Eu só preciso de um emprego, está bem? Vou me estabilizar e depois farei planos de longo prazo.”

“Seu emprego é no Lynn Memorial. Literalmente te esperando.”

O silêncio tomou conta da conversa. Os pensamentos de Saffie podem ter passado brevemente por isso enquanto ele terminava de subir as escadas e saía no último andar do estacionamento — aqueles quatorze meses. Quatorze meses torturantes e sem dormir na residência do pronto-socorro do Lynn Memorial, concedidos a um aluno brilhante. Um aluno que achava que tinha nascido para vestir o jaleco de médico. Um aluno que achava que conseguiria lidar com aqueles momentos em que salvar vidas se transformava em ajudar as pessoas a morrer…

“Ei, Marcus, falo com você depois, tá?” Saffie desligou o telefone quase um segundo depois. Ele não ia se permitir pensar nisso. Ele não precisava entrar nessa. Não agora. Não quando havia tantas coisas que ele tinha que conquistar antes dos trinta.

“Tenho vinte e sete anos. Sou um adulto feito,” Saffie murmurou para si mesmo enquanto caminhava em direção à silhueta escura de seu carro.

E, no entanto, aquele adulto feito tropeçou nos próprios sapatos nem trinta segundos depois. Havia algo estranho caído no chão a trinta centímetros do para-choque dianteiro de seu sedã. Algo grande.

Não é o que parece, foi a primeira coisa que passou pela mente de Saffie. Ele deu uma olhada casual para o céu nublado. Um saco de lixo. Uma lata de lixo. Uma peça de carro. Um saco de areia. Uma pessoa.

Era.

O sangue de Saffie gelou nas veias. De repente, dedos trêmulos enfiaram-se no bolso em busca das chaves. Seus pés se moveram sem permissão, os joelhos ficando fracos enquanto ele se aproximava.

Estava vivo. Ele podia ouvir a respiração.

“Ei? Hum… olá?” O som dos sapatos de Saffie parou no concreto. Lentamente, ele se abaixou em direção àquela silhueta. Sem resposta. Estava escuro demais para distinguir um rosto. Com um olhar para uma das luzes do estacionamento, estranhamente apagadas, Saffie se levantou e caminhou rapidamente para o carro. Com uma mão abrindo o teclado do telefone, ele entrou no veículo, colocou as chaves na ignição e acendeu os faróis.

“911, qual é a sua emergência?”

“Estou no último andar do estacionamento sul no centro — uh, Winchester, Arkansas. Tem uma pessoa inconsciente aqui em cima…” E foi só até aí que ele conseguiu ir. Os faróis do sedã de Saffie cortaram o concreto nu em um ângulo em V, iluminando a pele macia e as roupas encharcadas. O rosto apoiado no chão não se parecia com nenhum que Saffie já tivesse visto. Traços incrivelmente delicados. Maxilar liso. Cabelo escuro e sobrancelhas marcantes. Lábios femininos. Uma beleza como a de um modelo.

Mas a camisa rasgada quase até embaixo denunciava o gênero da criatura como a queda de uma bola preta. No final da adolescência ou início dos vinte anos, este garoto era atlético, de corpo esguio e musculoso, tonificado como um atleta. Asiático.

“Oh, merda.” Surdo ao pedido de endereço da atendente de emergência, Saffie se abaixou até o concreto. Tremendo como se o diabo estivesse espiando por cima de seu ombro, ele verificou a extensão de um abdômen machucado. Hematomas no peito. Tinta. Uma pequena tatuagem na borda do peitoral esquerdo, terminando logo antes da curva do ombro. Ambas as marcas pareciam não naturais. Se esse garoto tivesse sido atropelado por um carro, teria que ter sido horas atrás para aquele tipo de coloração infiltrar sob a pele.

Isso é ruim, algo no fundo da cabeça de Saffie já sabia. Ele olhou novamente para o rosto do garoto. A possibilidade remota e assustadora passou por sua mente de que este jovem pudesse ser alguém do bairro de Saffie, alguém com quem Saffie tinha estudado, de uma das famílias em Sol Park, filho de alguém que seus avós conheciam…

“É… é isso…?” Ainda segurando o telefone pressionado contra a orelha, Saffie estendeu cautelosamente dois dedos sobre o jeans preto. Um suspiro de choque escapou de sua garganta quando suas pontas dos dedos ficaram vermelhas.

“Senhor, a vítima está respirando?” a atendente do 911 parecia ter se materializado novamente.

“S… sim.” Respiração irregular e forçada. Os olhos de Saffie baixaram para o sangue em seus dedos. “Eu acho… eu acho que ele pode ter…” O quê? O quê, exatamente? O fêmur estava intacto. Não havia trauma suficiente no tronco que sugerisse qualquer chance de uma fratura exposta na parte inferior do corpo.

“Senhor, pode ter o quê?”

“Uh. Algum… algum tipo de… tipo…” As pontas dos dedos de Saffie roçaram o tecido de suas calças. Ele olhou ao redor do estacionamento. “Algum tipo de…” Nada. Nenhum objeto descartado ou rastro de sangue que sugerisse qualquer tipo de facada, perfuração, laceração ou arrasto de corpo.

Estava escancarado na cara de Saffie. Os hematomas delicados ao longo das pálpebras. Marcas de pressão no pescoço. Abrasões em forma de anéis ao redor dos pulsos e antebraços. Isso não foi um simples atropelamento.

“Meu Deus, quem fez isso com você?” A pergunta saiu da garganta de Saffie em um sussurro, as palavras congelando no ar. O telefone baixou inconscientemente em sua mão.

Uma buzina de carro soou na rua abaixo. O som enviou um leve sobressalto através do corpo no concreto. Saffie aproximou-se, uma mão movendo-se para estabilizar o pescoço machucado, depois a outra se juntando para evitar que o estranho tentasse mover a cabeça.

O toque de Saffie parecia despertar um pouco mais de vida em um batimento cardíaco fraco e trêmulo. Cílios escuros tremeram contra a pele pálida. Uma fresta dos olhos apareceu um segundo depois. Lábios sem cor se moveram. Um lampejo de pupilas desfocadas. Então, palavras fracamente murmuradas.

Elas caíram em ouvidos que não compreendiam. Saffie inclinou-se um pouco mais antes de reconhecer o idioma. “Ei. Oi. Eu… eu não falo coreano. Você fala inglês?” Ele não queria aquilo, a conexão que se abriu ao observar aquele rosto, testando a capacidade de fazer contato visual. A conexão com alguém que ele não conhecia, de quem não podia ter certeza se ficaria bem, e de quem talvez nunca soubesse o que aconteceu. “Pode me dizer seu nome?”

Esse garoto tinha olhos lindos. O pouco que eles viam, e o quanto menos registravam, não mudava a forma gentil, o tom castanho suave, os reflexos brilhantes. “N… não…” Havia sangue em seus lábios. Sangue em sua boca. Fiel à preocupação de Saffie, ele tentou virar a cabeça, tentou ver a pessoa que o tocava.

“Qual é o seu nome? Pode me dizer o seu nome?” A voz de Saffie era uma sombra esquálida do que deveria ser para alguém com sete anos de estudos médicos. Ele moveu o joelho para bloquear o brilho dos faróis daqueles olhos errantes.

Sangue brotou do canto dos lábios pálidos enquanto o garoto formava outra palavra. “…Lembrar…” Ela se espalhou pela pele macia e caiu no concreto abaixo. “Eles… disseram… que eu não…”

“Ok, ok,” Saffie sussurrou. “Não fale. Não fale. Está tudo bem. A ajuda chegará em breve. Você vai ficar bem. Por favor, não se mova.”

Aquele corpo exausto tremeu com uma tosse, um pequeno respingo atingindo o chão, gotas espalhando-se pela perna da calça de Saffie. Saffie suspirou baixinho e desviou o olhar. “Você precisa ficar quieto.”

Se a ambulância demorasse muito mais, esse garoto desmaiaria de novo. Ele poderia até entrar em parada cardiorrespiratória.