Heidi e o Lobo

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Resumo

'Licantropo: início do século XVII, do latim moderno lycanthropus, do grego lukanthrōpos "homem-lobo". Um homem que é parte humano, parte fera. Uma criatura mitológica que deveria existir apenas em contos de fadas e na imaginação.' Heidi sabe que os verdadeiros monstros são as pessoas. Que as verdadeiras feras que fazem barulho durante a noite são apenas humanos sádicos. Após fugir do padrasto por mais de um ano, Heidi e sua mãe se instalam no aconchegante, porém incomum, Penshaw Lake. Sem saber do perigo escondido ali. Sem saber que a floresta é o lar de tal fera. Alpha Mason Stone.

Status
Completo
Capítulos
40
Classificação
4.8 42 avaliações
Classificação Etária
18+

Capítulo 1

Este livro também está no Wattpad, mas em nenhuma outra plataforma de escrita. É inédito, gratuito para leitura e não revisado.

H.L.Wright, 2024. Todos os direitos reservados.

O trem bufou e resfolegou enquanto começava a desacelerar. As pessoas nos vagões se mexiam, arrumando suas coisas, vestindo os casacos e se aproximando das bordas dos assentos, prontas para sair voando e esperar junto às portas quando o trem parasse.

Típico britânico.

O trem parou em uma cidade cujo nome eu mal me dei ao trabalho de ler. Alguma coisa no Norte, tinha certeza. Minha mãe estava meio adormecida, encostada no encosto colorido do assento, e eu olhava preguiçosamente pela janela, esperando o trem seguir viagem. Sempre deixávamos pelo menos três paradas entre um lugar e outro para garantir que não deixássemos nenhum rastro.

Já tínhamos passado um dia e meio viajando e estávamos exaustas. Finalmente, o trem parou em uma pequena plataforma de uma cidade chamada Penshaw Lake.

— Aqui serve — minha mãe disse baixinho, levantando-se para sair do trem, pegando sua mochila pequena e fechando o zíper da jaqueta. Só havia mais duas paradas depois dessa, e ambas eram cidades maiores. Minha mãe escolheu bem ao vir para cá, embora nenhuma de nós duas tivesse ouvido falar desse lugar antes.

Descemos do trem para uma plataforma com dois lados e um pequeno guichê de bilheteria. Um homem lá dentro parecia entediado até a morte. Mastigava devagar um pacote de batatas fritas e olhou para o trem que chegava com certa surpresa. Claramente, não acontecia muita coisa por ali, e pouca gente visitava. Na verdade, éramos as únicas pessoas a descer do trem. Ainda assim, havia vasos de flores enfeitando a estação, e tudo parecia limpo e bem cuidado. Ao longe, dava para ver colinas ondulantes, e eu sorri. Parecia o esconderijo perfeito.

— Tá bom, Heidi. O Johnathan fez essas identidades pra gente há uns dias. Você lembra das informações que estão nelas?

Johnathan era um velho amigo da minha mãe que tinha um bico fazendo documentos falsos. Eu não sabia como ela o conhecia, e nunca perguntei. Ele fazia passaportes, certidões de nascimento, extratos bancários, o que você pedisse, ele criava. Eu torcia para que cada lugar aonde íamos fosse o último, mas minha mãe nunca se sentia segura o suficiente para ficar.

— Sim, agora eu sou a Sophie Moore — respondi, tirando meu novo passaporte.

— Eu sou a Louise Moore. Lembra desses nomes, você andou esquecendo ultimamente. Não quero mais nenhum vacilo!

— Tá bom, mãe — resmunguei.

Passamos pela estação e descemos uma estrada comprida e sinuosa. Alguns carros passaram, mas era bem menos movimentado do que na nossa cidade natal. Reparei na floresta densa à minha esquerda e na ausência de qualquer sinal de vida humana. Era estranho, mas talvez fosse assim que as cidades pequenas do Norte eram. A estrada ficou mais estreita quando viramos uma esquina e entramos no centro da cidade, onde apareceram casas pequenas e impecáveis à nossa esquerda. Jardins bem cuidados e cercas pintadas com capricho davam a impressão de terem sido copiados e colados, uma depois da outra.

Eu estremeci. Era tão diferente das ruas cinzentas, decadentes e cheias de seringas de casa que parecia que eu tinha caído em algum tipo de ficção utópica. Ou num quadro.

Depois de uns quinze minutos de caminhada — e reclamação —, chegamos a um hotel que parecia ter sido uma antiga casa Tudor, com o estilo preto e branco característico e um belo telhado de palha tradicional. Combinava perfeitamente com a cidade. Uma placa na janela da frente dizia que havia vagas, e eu apontei para ela.

— Sim, vamos entrar aí. Minhas pernas estão prestes a cair — minha mãe respondeu, passando na minha frente e abrindo a porta do hotel.

Fomos recebidas por um casal na recepção; a mulher cuidava de uma pré-adolescente de uns doze anos, com duas tranças francesas e a mão no quadril.

— Oi, como podemos ajudar? — a mulher disse educadamente ao nos ver entrar. Era simpática, mas dava para notar um tom de surpresa e curiosidade na voz.

— Só um quarto, por favor. Duas camas de solteiro — minha mãe respondeu, enquanto eu apoiava os braços no balcão, aliviando o peso dos meus pés doloridos.

— Preciso de algumas informações. Nomes?

— Za-Louise e Sophie. Vamos ficar só algumas noites.

Um homem apareceu de trás do balcão, assumindo o lugar da mulher e da menina. Ele nos olhou com desconfiança.

— Quantas noites são "algumas"? — perguntou, seco.

— Digamos uma semana.

— O quarto custa trinta por noite, café da manhã incluso. Como vão pagar?

Minha mãe suspirou aliviada por ele não ter pedido passaportes ou qualquer outro documento, e tirou um maço de dinheiro da bolsa.

— Em dinheiro.

— Então são duzentos e dez, querida — ele disse, pegando o dinheiro sem hesitar. Contou as notas e, satisfeito, guardou no caixa.

Dinheiro vivo era nossa única forma de sobreviver. Por sorte, meu padrasto guardava uma grana escondida que minha mãe encontrou pouco antes de fugirmos. Alguns milhares. Era mais do que eu jamais tinha sonhado ver. Tinha nos ajudado bem, pulando de cidade em cidade e ficando nos hotéis mais baratos que encontrávamos, mas eu sabia que o dinheiro estava acabando. Em breve, teríamos que nos estabelecer em algum lugar.

— Vocês podem nos falar sobre a cidade? Onde podemos comer? Fazer compras? — minha mãe perguntou.

— A rua principal fica a uns cinco minutos daqui. Lá tem tudo o que vocês precisam. Alguns cafés, um pub, o supermercado e várias lojinhas independentes. Se quiserem algo como um shopping, vão ter que pegar o trem até a cidade. Tomem cuidado ao sair à noite por aqui, tem gente que não gosta muito de forasteiros — a mulher respondeu, com uma expressão séria.

Franzi a testa. — Gangues? Numa cidadezinha dessas?

— Não, mas a cidade é bem dividida. Morei aqui a vida toda e sempre tem um clima de... — ela fez uma pausa, como se procurasse a palavra certa — segregação. Não no sentido racista, claro, mas...

Foi então que a menina se intrometeu: — Eu não viria pra cá se fosse vocês. Forasteiros não ficam muito tempo — disse, cruzando os braços. A mãe balançou a cabeça e a levou para os fundos do hotel, atrás do balcão.

— Estou falando demais. Talvez vocês descubram que Penshaw Lake é o lugar certo pra vocês!

— Não pretendemos ficar muito tempo — respondi.

— Talvez seja melhor mesmo — o homem murmurou depois de uma breve pausa.

Senti um arrepio involuntário subir pela espinha e me dar arrepios. Em que diabos meu padrasto tinha nos metido dessa vez?

***

Joguei minha bolsa na cama e fiquei agradavelmente surpresa ao ver que nenhuma poeira se levantou. Passei o dedo no parapeito da janela e fiquei satisfeita ao ver que estava limpo. O quarto era pequeno, mas agradável, e serviria por um tempo. As duas camas estavam arrumadas do mesmo jeito, e eu escolhi a mais próxima da janela, como sempre fazia. Revirei o criado-mudo, que só tinha uma bíblia, e o armário, com alguns cabides balançando vazios.

O banheiro era igualmente simples, com móveis brancos, paredes brancas e piso branco. Branco até demais, sem graça, sem personalidade. Eu tinha trocado a mochila pequena que levei de casa por uma malinha preta e comecei a guardar minhas poucas coisas nos cabides e no banheiro. Tinha comprado algumas roupas aqui e ali nos lugares por onde passamos no último ano. Nada que chamasse atenção: camisetas simples, jeans, um ou dois moletons. Não podia me destacar, tinha que ser o mais invisível possível.

— Já explorei esse quarto até não poder mais. Vamos comer alguma coisa e dar uma volta — minha mãe disse com um sorriso.

Pulei da cama, onde tinha me sentado para testar o conforto, ansiosa para conhecer a cidade e ver onde viveríamos num futuro próximo. Saímos do quarto e passamos pela recepção, onde o homem ainda estava. Ele nos deu um aceno curto e seco quando deixamos o hotel.

Caminhamos rápido e animadas até o centro da cidadezinha. Não era longe do hotel, e percebi que a floresta ocupava a maior parte do lugar. Ela parecia cercar toda a cidade, como uma armadilha sinistra mantendo os moradores presos lá dentro. Pelo que dava para ver, só havia uma ou duas saídas. Ainda assim, era um lugar bonito, bem cuidado e limpo. Não tinha lixo na rua, e o ar parecia puro e fresco.

Do nosso lado esquerdo, vi uma senhora idosa olhar rapidamente para os lados antes de sair de casa com um cachorrinho marrom na coleira. O bicho cheirou o ar por um tempo, depois soltou o rabo que estava escondido entre as pernas e começou a abanar.

A senhora passou por nós enquanto caminhávamos e nos lançou um olhar desconfiado antes de puxar a coleira do cachorro e acelerar o passo.

— Que vizinha simpática! — comentei, sorrindo.

Minha mãe riu e revirou os olhos. — Ela é velha demais, dá um desconto.

Chegamos ao centro da cidade, que tinha algumas lojas de roupas independentes, um supermercado grande, mercearias, cafés, um restaurante e uma fonte enorme no meio. Foi a fonte que chamou minha atenção. Era linda, com três lobos brancos brincando no centro, e água jorrando ao redor deles. Em volta da fonte, flores desabrochadas davam um toque de beleza ao lugar.

— Que lindo, né? — chamei a atenção da minha mãe para a fonte.

Ela desviou o olhar de uns vestidos bonitos numa boutique e olhou para a fonte. — Ah, é mesmo. Por que lobos?

— Bom... — fiz uma pausa. — Lobos são animais incríveis, não são? Se eu fosse um animal, acho que seria um lobo.

Minha mãe riu, uma risada de verdade que eu não ouvia há tempos. — Seu latido às vezes é pior que a mordida. Vamos comer alguma coisa? — disse, mudando de assunto e me fazendo desviar o olhar da fonte para onde ela estava olhando.

Era um café charmoso chamado Blossom’s, e eu assenti. Parecia agradável, com algumas mesinhas do lado de fora e um cardápio na vitrine. Quando entramos, fomos recebidas por uma garota simpática, pouco mais velha que eu, que nos levou a um cantinho do café, onde havia uma mesinha com uma flor num vaso no meio. Ela nos entregou dois cardápios e, com um sorriso largo, nos deixou à vontade.

— Nossa, que ar fresco — minha mãe sussurrou, e eu não soube dizer se ela estava sendo sarcástica ou sincera. Ultimamente, era difícil saber.

— Ela é a primeira pessoa simpática que a gente vê. Tomara que os outros sejam minoria — respondi baixinho.

Ela não respondeu, fingindo analisar o cardápio, mas eu sabia que tinha ouvido. Minha mãe não tinha paciência para a maioria das pessoas, e mal olhava nos olhos dos homens. As mulheres tinham mais sorte. Revirei os olhos e olhei o cardápio, meus olhos logo se fixando no café da manhã completo. Não comia um inglês completo há anos.

A garçonete voltou com um bloquinho e uma caneta e sorriu para nós. — Já sabem o que vão pedir?

— Sim, eu quero o café da manhã completo e um chá. Mãe?

— Um sanduíche de bacon e um latte, por favor.

— Vocês são novas por aqui? Nunca vi vocês antes! — ela perguntou, animada.

Lá vinha a pergunta temida, embora feita de um jeito tão simpático que quase parecia uma entrevista.

— Não — minha mãe respondeu, seca. — Duvido que a gente fique muito tempo, só estamos de passagem.

— Ah, que pena, é um lugar lindo! Vou levar esses pedidos e já trago as bebidas.

Ela saiu da nossa mesa, e eu a vi se inclinar para uma mulher mais velha e sussurrar algo no ouvido dela. Não consegui ouvir o que dizia, mas ficou claro que falava de nós quando a senhora se virou para nos dar uma olhada rápida. O olhar foi breve, mas o rosto dela, marcado pela preocupação, me deixou inquieta. Ainda mais quando ela se apressou para os fundos do café.

Ela voltou e deu um aceno seco para a garçonete, que retomou o sorriso amigável e trouxe as bebidas para nossa mesa.

— A comida não demora — ela cantou e saiu saltitando. Vi quando cumprimentou duas garotas que entraram no café com um abraço e uma história animada, da qual só consegui pegar algumas palavras. Elas também nos olharam de relance, mas não pareceram tão preocupadas. Não como a senhora. A garçonete as sentou numa mesa antes de voltar para a cozinha e sair com nossos pratos.

Agradeci e comecei a comer. Tinha tanta comida, muito mais do que eu já tinha visto num prato só, e nem sabia por onde começar. Logo, empurrei o prato e minha mãe pegou um garfo para comer o que tinha sobrado. Terminei meu chá e, quando dei o último gole, a campainha da porta tocou, anunciando que alguém estava entrando.

Olhei, esperando mais um cliente habitual, mas quem vi fez um arrepio descer pela minha espinha e me dar calafrios nos braços.

Era um homem. Mas não um homem qualquer. Esse parecia um Adônis. Um deus grego. Um modelo. Tinha o cabelo preto e bagunçado caindo até as orelhas e olhos escuros e hipnotizantes, que pareciam atravessar minha alma. Era alto, largo, de postura imponente e simplesmente lindo. Minha mãe também se virou para olhar e soltou um suspiro longo.

— Meu Deus — ela murmurou.

Como se tivesse ouvido, o homem virou a cabeça na nossa direção, e seus olhos se arregalaram, como se alguém faz ao ver alguém que reconhece — ou que não esperava encontrar. A garçonete simpática apareceu de repente e bloqueou minha visão dele.

— Já terminaram? — ela perguntou, e eu apenas assenti, observando enquanto ela tirava nossos pratos.

Não consegui evitar perguntar: — Quem é ele?

Ela riu. — Notou, né? Não se preocupe, toda garota aqui vira geleia quando o vê. Ele é meu primo, então eu não vejo graça, mas dizem que é um gato.

— Só um pouquinho — falei, minhas bochechas esquentando. Olhei para minha mãe e vi sua expressão franzida de descontentamento. Imediatamente, tirei o sorriso do rosto e pedi a conta para a garota.

Ela pareceu surpresa com a mudança repentina de tom, mas assentiu e foi buscar a conta.

Quando ela saiu, minha mãe segurou meu pulso por cima da mesa. — Nem pense nisso. Homens são todos iguais ao seu padrasto. Quer apanhar de novo?

Puxei meu pulso e balancei a cabeça depressa, suspirando. Claro que ela tinha razão. Por mais bonito que ele fosse, não dava para confiar. Uma palavra errada e aquele sorriso lindo podia se transformar num rosnado e me jogar do outro lado da sala. Depois do que meu padrasto nos fez, nunca mais deixaríamos outro homem entrar em nossas vidas. Era só nós duas contra o mundo, e sempre seria.

Virei-me para olhar para o homem de novo, e dessa vez seus olhos, ainda cravados nos meus, me fizeram sentir um arrepio diferente, que percorreu minha espinha e me deixou com os braços arrepiados, como se meu corpo todo estivesse tocando um alarme.

Homens são maus, Heidi. Lembre-se disso e nunca confie em nenhum. Não importa quem ele seja.