Capítulo 1
Richard sempre foi um cara magro, até que um dia decidiu que não queria mais ser assim. Ele mesmo não sabia direito por que tinha tomado essa decisão. Talvez fosse porque os dois filhos já tinham saído da escola e ele não precisava mais se preocupar em sustentá-los. Talvez fosse porque fazia pelo menos dois anos que ele e a esposa não dormiam juntos. Ou talvez porque, aos poucos, ele estava percebendo que admirava o corpo masculino não só pela estética.
Seja qual fosse o motivo, Richard Weiss estava melhor aos cinquenta do que em qualquer outra fase da vida. E, mesmo não sendo mais jovem, ele notou que chamava a atenção de muitos homens e mulheres — e gostava disso.
Então, quando Suzanne, sua esposa de vinte e cinco anos, disse que ia passar um mês na Flórida para ajudar a mãe doente, Richard decidiu que era hora de ceder às fantasias que vinha alimentando desde que percebeu sua atração por outros homens, por mais medo e vergonha que sentisse de se expor. O filho, Richard Júnior, tinha se formado em tecnologia e morava em Austin, trabalhando por lá. A filha era editora de livros e vivia em Nova York. Ele sabia que nenhum dos dois apareceria de surpresa. Desde que os filhos saíram de casa para a faculdade, mal mantinham contato. Tinham suas próprias vidas agora, e Richard não podia dizer que reclamava.
Depois de deixar Suzanne no aeroporto e voltar para casa, Richard sentou no sofá e baixou um aplicativo de pegação gay no celular, um que tinha ouvido falar no Reddit. O coração batia acelerado no peito. Não sabia direito o que estava fazendo, e quando pediu para colocar uma foto de perfil, escolheu uma do seu torso nu e bem definido, sem mostrar o rosto nem a parte de baixo. Não queria que ninguém o reconhecesse, por isso tirou a foto na frente de uma parede branca da casa, sem nada que identificasse o lugar. Também colocou o nome como Bill, já que seu nome do meio era William, e porque ninguém nunca o chamava assim — Richard nunca tinha contado seu nome do meio para ninguém. Não que ele não fosse bonito: tinha olhos grandes e amendoados, cor de chocolate derretido, rosto anguloso, maçãs do rosto altas e um sorriso sedutor. O cabelo era preto, mas agora estava mais grisalho, porém ele o mantinha bem curto, quase careca. Agora, o visual combinava com ele. Quando era mais magro, ficaria ridículo de cabeça raspada, e ele sabia disso.
Assim que terminou de montar o perfil, não demorou para chegar a primeira mensagem. Depois a segunda. E a terceira. Richard rolou a tela e ficou impressionado com a quantidade de homens gays ao redor, todos esperando e ansiosos pela sua atenção. Chamavam-no de "papai" e "raposa prateada", e todos aqueles caras mais novos pareciam querer o pau dele. Richard ficou lisonjeado, o coração ainda batendo forte, mas não era isso que ele queria: ele queria ser comido com força pelo pau de outro homem. Queria se entregar por completo e virar a putinha de alguém, mas por causa da idade, todos achavam que ele queria dar o pau. Não que Richard fosse contra. Só não era o que ele queria para a primeira vez. Imaginava que transar com um homem seria parecido com transar com uma mulher, e não era essa a experiência que ele buscava. A maioria daqueles caras tinha vinte e poucos anos, o que não era ruim (Richard até tinha reparado em alguns personal trainers da academia que frequentava, todos com no máximo vinte e cinco), mas achou que seria melhor se fosse com alguém mais experiente.
Foi então que recebeu uma mensagem de um perfil sem foto. Abriu e, assim que leu, o coração disparou e o pau deu um pulo. posso ver uma foto da sua bunda??, dizia a mensagem.
Richard pensou um pouco e, antes de responder, clicou no perfil do cara. Não tinha foto, só um espaço em branco. O nome era um simples ponto, e dizia que o cara (se é que era mesmo um cara) tinha vinte e quatro anos. Richard franziu a testa, mas não podia ignorar o fato de que o sujeito estava a apenas seis quilômetros de distância e foi o primeiro a perguntar sobre a bunda dele — algo em que Richard tinha se esforçado muito e mal podia esperar para mostrar. Enquanto os outros mandavam fotos não solicitadas dos próprios rabos, esse pelo menos tinha pedido. Achou que valia a tentativa. Podia só conversar, afinal, não estava obrigado a nada.
Olá para você também, digitou Richard, porque o cara era claramente mal-educado e não tinha modos.
Ficou um tempo sem resposta, até que o perfil chamado Ponto escreveu: cara, tô tentando foder. se puder ver uma foto da bunda, ótimo. se não, fala logo pra eu não perder meu tempo.
O coração de Richard bateu ainda mais forte. Estava pronto para isso agora? Não tinha certeza. Queria, mas eram três da tarde de uma quinta-feira. Qualquer um podia vê-lo indo para a casa de um desconhecido. Estava nervoso, mas por sorte tinha um pouco de maconha escondida da esposa, que era totalmente contra. Foi lá, fumou um baseado enquanto escolhia uma foto boa da bunda e mandou para o desconhecido.
caralho!! disse Ponto. cê tem mesmo 50?!
Tenho, sim, respondeu Richard, tragando a fumaça no quintal dos fundos. Esperava que os vizinhos ainda estivessem no trabalho e não sentissem o cheiro.
normal eu não curto caras mais velhos, mas quero comer & foder essa bunda, disse Ponto. quer dar uma passada aqui??
O estômago de Richard deu um nó, e as mãos tremiam enquanto digitava: Nunca fiz isso antes.
Ponto respondeu na hora: qualé, cara!! a gente não tá aqui pra brincadeira.
Richard sentiu o rosto esquentar. Não estava mentindo. Por que o cara achava que ele estava blefando? Não tô mentindo, escreveu. Sou casado e nunca estive com outro homem.
mano, estamos no século 21. gente gay também casa hoje em dia.
Richard estava gostando cada vez menos desse cara. Além de não saber escrever direito, ainda era grosso e o acusava de ser homofóbico. Richard não era homofóbico. Só estava com medo, porque nunca tinha se colocado em primeiro lugar e achava que era por isso que nunca tinha percebido sua atração por homens antes. Além disso, a época em que ele cresceu era diferente da de hoje.
Sou casado com uma mulher, disse Richard, sem saber direito por que estava se explicando para aquele sujeito. Só queria que a conversa acabasse. E não sou seu "mano". Nem sei por que tô falando com você, já que nem tem foto no seu perfil.
Ficou um silêncio, e Richard teve certeza de que o grosso do Ponto não ia responder. Então chegou uma mensagem, e ele esqueceu completamente por que estava irritado quando viu a foto que recebeu. Era uma imagem sem cabeça, mas mostrava um corpo esguio, nem magro demais nem musculoso, atlético e definido, com peitorais firmes, um tanquinho bem marcado e coxas grossas, entre as quais um pau grande apontava para cima. Não dava para ver os joelhos nem as panturrilhas, e só um braço aparecia. A foto tinha sido tirada no banheiro.
ainda não me assumi, escreveu Ponto. mas essa é uma foto de verdade. acabei de tirar & tô louco pra foder. vai vir ou a gente vai perder a tarde toda??
Richard deu mais uma tragada. Já estava relaxado o suficiente para não se importar tanto.
Você fez exames? perguntou.
fiz, tô na prep e tenho que fazer exame a cada 2 meses. tô limpo, cara, juro.
Richard respirou fundo e fechou os olhos por um segundo. O THC correndo nas veias lhe dava uma sensação boa.
Tá bom, disse finalmente. Qual o seu endereço?
Ponto mandou o endereço, e Richard entrou no carro e ligou o motor.
É isso, pensou, respirando fundo mais uma vez antes de sair da garagem. O endereço ficava a apenas seis quilômetros pela rodovia, em um condomínio que Richard passava quase todos os dias, mas nunca tinha prestado atenção.
Estacionou onde o cara tinha indicado e xingou a si mesmo por não ter perguntado o nome do sujeito antes de se meterem nisso. Subiu as escadas, já que o apartamento ficava no terceiro andar, e bateu na porta.
— Tá aberta — ouviu de dentro. — Entra, já saio do banheiro. E tranca a porta!
Richard abriu a porta e entrou, sentindo-se extremamente ansioso e desconfortável com a situação. O apartamento estava uma bagunça, para dizer o mínimo, e cheirava a maconha. Um jogo estava pausado na TV, e havia embalagens vazias de fast food espalhadas por todo lado.
Em que fui me meter?, pensou, mas achou que seria falta de educação desistir agora que já estava dentro do apartamento do cara. Virou a chave e trancou a porta, ficando ali parado, sem jeito.
A porta do banheiro estava entreaberta, e a luz passava pela fresta, mas as cortinas e persianas estavam todas fechadas, deixando o apartamento meio escuro.
— Pode tirar a roupa, se quiser — disse o cara do banheiro, enquanto jogava água no rosto. Richard não sabia como ele sabia, mas não ficou pensando muito nisso. Já estava duro por causa da maconha e por estar numa situação com que sonhava (conscientemente) havia pelo menos cinco anos. Tirou a camisa e o short, mas deixou a cueca. Estava usando um suspensório, e queria que o cara admirasse sua bunda quando saísse do banheiro, então virou de costas para a porta, esperando.
Finalmente, ouviu o interruptor apagar atrás de si, e a porta rangeu quando o cara saiu do banheiro.
— Puta merda — disse ele. — Que bunda linda, cara.
O coração de Richard batia tão forte no peito que, ao se virar para encarar o desconhecido que estava prestes a colocá-lo no seu lugar, quase teve um treco. Tropeçou em uma das cadeirinhas em volta da mesinha de centro e caiu de bunda no chão, com força.
— JÚNIOR!
Júnior, que estava completamente nu e já se masturbando, se abaixou atrás do balcão da cozinha e escorregou numa poça no piso de vinil, caindo de costas e gemendo de dor.
— PAI!? QUE PORRA É ESSA?!