Capítulo 1: Apenas um Amigo
10 de junho de 1818
Londres, Inglaterra
John Osborne não tinha do que reclamar. Como terceiro filho de um conde, ele foi forçado a trilhar seu próprio caminho, e o fez com sucesso. Depois de ingressar no Ministério da Guerra ainda jovem, mudou-se rapidamente para departamentos mais sigilosos que lidavam com ameaças nacionais. Lá, obteve um sucesso moderado em filtrar dissidentes e espiões. Era um trabalho que ele apreciava, pois o mantinha alerta e com a mente ocupada.
O que era mais do que se podia dizer daquele baile. Abafando um bocejo atrás da mão, ele passou os olhos pelo salão e pela multidão reunida. Os bailes da Lady Bates eram sempre populares, e os convidados se moviam como formigas em torno de uma torta de maçã. Como sempre, seu olhar se desviou para sua amiga, a senhorita Olivia Newton. O aperto familiar em seu peito se fez presente ao vê-la rindo com o amigo deles, Anthony Dashwood. O homem por quem ela era apaixonada há anos, mas que a via apenas como uma amiga. Um sentimento conhecido, já que era exatamente assim que ela olhava para John, completamente alheia aos sentimentos dele.
“Você algum dia vai contar a ela?”
Uma voz ao seu lado quase o fez pular. Não era comum que alguém conseguisse se aproximar dele sem ser notado, mas Lady Mary Kinson parecia ter pés silenciosos. Ajustando sua expressão para uma máscara de interesse educado, ele olhou para a jovem que parara ao seu lado.
“Como assim?”
Um leve sorriso brincou nos lábios dela enquanto ela acenava na direção de Olivia. “Você vai confessar o que sente? Já faz literalmente anos. Você não acha que já está na hora?”
Ele era assim tão óbvio? Ele acreditava ser capaz de esconder seus sentimentos. Será que Olivia sabia? A ideia de ela saber e sentir pena dele fazia seu estômago revirar de desconforto.
“Não sei do que você está falando”, respondeu ele de forma rígida, o que só lhe rendeu uma risada baixa.
Mary era a melhor amiga de Olivia, e ele a conhecia razoavelmente bem, já que costumavam se encontrar socialmente no grupo de amigos que compartilhavam, mas ele nunca tinha ido com a cara dela. Ela era barulhenta demais, franca demais. Ele resmungou interiormente. Sincera demais.
“Por favor”, disse ela, soando divertida, o que só o irritou ainda mais. “Não se faça de bobo. Nós dois sabemos o que você sente por ela.”
“Supondo que eu... — Ele hesitou, escolhendo as palavras com cuidado. — Tenha sentimentos por ela... não vejo motivo para contar quando ela claramente me vê apenas como um grande amigo.”
“E ela nunca pensará em você como outra coisa se você não der a ela um motivo.” Lady Mary revirou os olhos. Ele não gostou disso. “Talvez descobrir o que você sente seja exatamente o que ela precisa para superar sua paixonite pelo Dash.”
“Você não acha que ele acabará percebendo e se casará com ela?” A pergunta escapou antes que ele pudesse se conter. Ele se perguntara isso muitas vezes, e talvez um motivo para não ter contado a ela fosse pensar que o amigo acabaria percebendo seu erro. Quem não gostaria de Olivia? Era impensável para ele que alguém não quisesse se casar com ela.
“Sinceramente? Não, não acho que ele vá. Suspeito que ele saiba como ela se sente. Ele apenas não sente o mesmo.”
Lá estava aquela franqueza novamente. Ele supôs que não deveria ficar tão surpreso. A outra amiga de Mary — mais uma em seu círculo de amizades — era a mulher mais sincera que ele já conhecera. Lady Nicola Howerty — não, Lady Nicola Winter, agora — nunca media palavras. Ele não tinha certeza de por que aquela qualidade o irritava mais em Mary do que na outra amiga.
Ele a observou enquanto ela tomava um gole de limonada. Tanto ela quanto Olivia já tinham participado de várias temporadas sociais, e embora ele soubesse os motivos de Olivia para permanecer solteira, não sabia os de Mary. Como filha de um conde, ela não estava sem pretendentes, mas ele não conseguia se lembrar se ela já tinha recebido alguma proposta. Talvez eles a achassem tão insuportável quanto ele.
“Você deveria contar a ela”, disse ela. “O que você tem a perder?”
“A amizade dela?”, ele comentou com ar seco.
“Bem”, ela admitiu. “Tem isso.”
Tirando um relógio de bolso do colete, ele verificou as horas. Tinha marcado um encontro noturno com Gabriel Winter sobre um possível caso conjunto entre a Rose Agency e o Ministério da Guerra.
“Corteje-a.”
“Perdão?” Ele guardou o relógio de bolso e olhou para sua parceira indesejada. Ela nem estava olhando para ele; seus olhos estavam nos amigos que agora estavam na pista de dança, e seus pés acompanhavam o ritmo da música.
“Corteje-a”, repetiu ela. “Você está sendo um covarde. Quem não arrisca, não petisca.”
“Eu pediria que gentilmente guardasse suas opiniões para você”, murmurou ele, sem apreciar o conselho, mesmo que fizesse algum sentido. Ele era um covarde, mas a ideia de dizer a Olivia o que sentia e ver a pena nos olhos dela o enchia de pavor. Ninguém queria ser alvo de piedade. Especialmente da pessoa que amava. Em um momento de mau humor, acrescentou com rispidez: “Talvez você devesse se preocupar em encontrar alguém para você.”
“Não, obrigada.”
A resposta o surpreendeu o suficiente para despertar seu interesse. “Você não deseja se casar?”
Ela finalmente voltou a olhar para ele, seus olhos verdes sondando os dele, antes de dar de ombros. “Não sou contra a ideia, mas não vou sair do meu caminho para encontrar um marido.”
“Bem... Por que não?”
“Não sei”, ela admitiu com um sorriso leve. “Se eu encontrar alguém com quem cogitaria me casar, talvez eu mude de ideia. Mas estou bem contente como estou.”
“Hmm.” Ele não teve outra resposta. O casamento era algo que ele sempre assumiu que entraria em algum momento — idealmente com Olivia — e ele se esforçava para imaginar um mundo onde permaneceria solteiro pelo resto da vida. Não era um futuro que ele queria; ele gostava da ideia de ter alguém para compartilhar a vida, mas supôs que não poderia assumir que todos queriam o mesmo. Pessoalmente, ele mal podia esperar para ter alguém esperando por ele na cama quando voltasse para casa.
“Eu poderia te ajudar se você não souber como.” O comentário de Lady Mary o fez erguer as sobrancelhas enquanto seus pensamentos tomavam um rumo equivocado por um momento.
“Como disse?”
Ela sorriu, exibindo duas covinhas. “Corteje-a. Eu posso te ajudar.”
“Eu sei como cortejar uma dama”, resmungou ele.
“Sabe mesmo?” Ela deu outro gole em sua bebida enquanto o observava por cima da borda da taça, e ele teve a nítida impressão de que ela estava rindo silenciosamente dele. “Nunca vi você cortejar ninguém.”
“Apenas porque ninguém despertou meu interesse.” Sinceramente, que atrevimento o dessa mulher. Frustrado com o rumo da discussão, ele passou a mão pelo cabelo.
“Se você diz”, ela respondeu de forma indiferente, mas com o ar de quem não acreditava em uma única palavra do que ele dizia.
Isso. Era exatamente por isso que ele não gostava dela.
“Tenho um compromisso anterior ao qual preciso comparecer. Como sempre, foi um prazer conversar com você, Lady Mary”, disse ele, e se ela percebeu o sarcasmo em sua voz, não reagiu. Fazendo uma reverência curta, ele se despediu.
Ao descer os degraus da casa de Lady Bates, ele ainda resmungava ao entrar em sua carruagem à espera. Lady Mary era uma das pessoas mais irritantes de seu convívio. Por que ela não podia guardar suas opiniões para si, como a maioria das pessoas na sociedade polida? Ele bateu no teto da carruagem e ela começou a se mover. Seu cocheiro sabia para onde ir, então ele relaxou no assento, olhando pela janela para as ruas escuras de Londres. Se Lady Mary sabia de seus sentimentos... Mais alguém sabia? Será que Olivia sabia?
Ele se endireitou no assento. Ficara tão frustrado ao falar com Lady Mary que esquecera de se despedir de Olivia. Mais um ponto negativo para a jovem.
A carruagem parou do lado de fora da Rose Agency pouco tempo depois. A uma hora tão avançada da noite, o local estava quase vazio, mas a porta estava aberta. A luz brilhava vindo da sala nos fundos, onde ele sabia que estaria o gerente da agência. Três homens o cumprimentaram ao entrar na sala: Lorde Gabriel Winter, um dos donos da agência; Sr. Hemsworth, o novo gerente; e Sr. Tavisham, seu supervisor no Ministério da Guerra.
“Ah, Sr. Osborne!”, disse Winter com um sorriso tranquilo. “Obrigado por vir a esta hora tardia. Era o único horário em que conseguíamos reunir todos.” Ele apontou para os outros dois homens. “Creio que já conheça meu gerente e, obviamente, Tavisham.”
Ele acenou para os outros homens antes de voltar a olhar para Winter. “Pelo que entendi, há um caso conjunto em que querem que eu trabalhe?”
Tavisham, um senhor mais velho com um bigode farto, deu um passo à frente. “Sim. Há uma pessoa de interesse da Coroa que estamos querendo abordar há algum tempo, e a Rose Agency tem um cliente que pode proporcionar uma oportunidade incomum para fazê-lo.”
“Sim”, disse Winter. “Estamos apenas esperando o cliente chegar, e então discutiremos os detalhes.”
“Para proteger sua identidade como um dos espiões da Coroa, você agirá como um agente empregado pela Rose Agency para esta missão”, acrescentou Tavisham.
Ouviu-se um barulho quando a porta da frente se abriu e fechou. John se virou para ver uma mulher de capa com capuz se aproximando. Algo se agitou inquieto dentro dele ao sentir que reconhecia aquele andar descontraído. Ao entrar na sala, a mulher encapuzada ergueu as mãos e puxou o capuz para trás. Lady Mary Kinson.
Ah, nem pensar.
~~~~~~