A gota d'água
POV: Andie Hackett
Eu estava no meio de uma cópia de chave quando o som de pneus cantando cortou o ar. Um carro disparou em direção à minha loja, subiu a calçada e, num piscar de olhos, eu soube que ele ia atravessar a vitrine de vidro.
Instintivamente, me abaixei atrás do balcão enquanto a janela estilhaçava. O barulho ensurdecedor preencheu o ambiente, cacos de vidro voaram para todos os lados, enquanto meu coração disparava de descrença.
Ouvi a porta de um carro abrir e passos correndo para longe da loja. Eu sabia exatamente quem era. Era o jeito do Kyle de me punir, e ele não ia parar até me destruir ou me matar. Na semana passada, jogaram uma pedra na vitrine e, embora eu tivesse seguro, ainda tive que pagar a franquia. Trocar o vidro me custou uma nota preta.
Mesmo tendo falado do Kyle para a polícia, eu não conseguia provar que era ele, e não houve testemunhas.
Eu tinha o pior azar com homens e deveria me conformar com o celibato.
Meu Deus, quem me dera nunca ter conhecido o Kyle. Se eu soubesse o que ele era, teria corrido para longe. Ele apareceu na loja querendo uma cópia de chave, e eu fiquei encantada com sua boa aparência e charme, aceitando jantar com ele em cinco minutos — meu primeiro erro. Especialmente porque meu relacionamento anterior tinha sido uma merda total, com um cara tão ciumento que me acusava constantemente de ser infiel. Por mais de um ano, fiquei longe de homens, recusando todas e quaisquer investidas, até o Kyle aparecer.
Não demorou muito para ele se mudar para minha casa. Primeiro, ele deixou uma escova de dentes, depois algumas peças de roupa, e quando me dei conta, ele estava morando lá permanentemente. Esse foi meu segundo erro. É claro que tivemos aquela conversa. Se ele quisesse morar comigo, teria que pagar metade do aluguel e dividir todas as despesas.
No início, foi ótimo, mas depois pequenas coisas começaram a me irritar, especificamente seus horários estranhos de trabalho e sua incapacidade de levantar um dedo ou até de levar o lixo para fora. Ele se tornou controlador, e quando eu tocava no assunto, ele começava a me tratar de forma diferente, me criticando e me diminuindo. Eu sabia que precisava terminar, mas seu gênio irascível me deixava esgotada.
Uma noite, abri o zíper da mochila de academia dele, com a intenção de colocar suas roupas esportivas para lavar. Em vez disso, encontrei cheia de saquinhos com um pó branco. Não precisava ser um gênio para descobrir o que era, e aquilo foi a gota d'água. Ele era um traficante e, provavelmente, um usuário também.
O choque dessa descoberta foi como um golpe físico, consolidando o sentimento de desconfiança. Talvez eu tenha sido um pouco precipitada, mas chamei a polícia, achando que esse seria um jeito fácil de tirá-lo da minha vida. A polícia já estava de olho nele, e eu pensei que o prenderiam e que eu estaria livre, mas não foi bem assim que aconteceu.
Ele não voltou para casa naquela noite, como se tivesse um sexto sentido. Troquei as fechaduras e deixei as roupas dele com o porteiro, o que eu sabia que ia deixá-lo puto da vida, mas eu nunca esperei que ele fosse chegar a tais extremos.
"Meu Deus, Andie. Você está bem?", gritou Sandra, da floricultura, ansiosa.
Tirando o pó dos vidros do meu corpo, levantei-me. "Estou bem", disse eu, em choque e tremendo enquanto via o estrago. O valor do seguro tinha subido exponencialmente depois da última ocorrência, e eu não tinha como pagar a franquia. Eu era uma chaveira autônoma, não ganhava uma fortuna.
"Graças a Deus. Eu chamei a polícia, mas não consegui ver o motorista direito. Ele estava de capuz e manteve a cabeça baixa. Você acha que...", ela parou de falar quando eu balancei a cabeça afirmativamente. "O que você vai fazer?"
Dei de ombros. Tudo o que eu queria fazer era sentar e chorar. Pensei que, depois que ele jogou a pedra na janela, as coisas parariam, mas agora eu sabia que o Kyle nunca pararia até me destruir completamente ou pior. Não restava nada para mim aqui.
"Acabou, Sandra", eu disse, com o queixo trêmulo.
Ela mordeu o lábio e balançou a cabeça tristemente. "Estou aqui para o que precisar, e se houver algo que eu possa fazer, é só falar."
"Obrigada, eu agradeço. Você acha que pode guardar algumas caixas para mim?"