Capítulo 1
Existem mais de três mil espécies de cobras no mundo e, embora a maioria pertença à família dos répteis, eu estava convencido de que Blake Owen merecia uma categoria só dele.
Com olhos profundos e hipnotizantes como a vegetação de uma floresta, e um sorriso magnético que deixava qualquer um desarmado, as pessoas costumavam confundir sua beleza com doçura.
Eu não era uma dessas pessoas. Não mais. Não quando a queimadura potente do seu veneno ainda percorria a minha corrente sanguínea desde a última vez em que fui descuidado o suficiente para baixar a guarda perto dele.
Eu o acolhi como um irmão e, em troca, ele fodeu o meu. Eu estive lá por ele, cuidei e defendi esse cara desde que éramos crianças, e ele me retribuiu seduzindo meu irmão caçula no segundo em que saí da cidade.
Eu o amava. Agora, eu o odiava para caralho.
E era por isso que eu não entendia por que tinha que ser ele. Havia milhares de pessoas nesta cidade de merda, cansada e velha, e entre elas existia muita gente que eu ainda considerava amiga. Exonerado do cargo de meu melhor amigo, ou de amigo de qualquer tipo... eu realmente não conseguia entender por que tinha que ser ele. Por que, entre todo mundo, tinha que ter sido na porta dele.
As primeiras horas da madrugada já tinham chegado, a meia-noite tinha passado, e o apartamento compacto no centro parecia quase sinistro exposto ao silêncio estranho das três da manhã. Sombras rondavam as paredes, empurradas para os cantos pela iluminação brilhante que vinha do abajur, e a chuva batia contra a parede com tanta força que parecia tentar recriar uma sinfonia esquecida de Beethoven.
A linha onde o brilho do abajur terminava e a escuridão se encontrava caía exatamente onde Blake estava sentado, banhando seu corpo em um contraste conflituoso. Seus pés descalços estavam apoiados na ponta dos dedos, o esquerdo balançando levemente, e uma carranca tomava conta do seu rosto.
O silêncio consumia o ar entre nós. Ele tinha ouvido meu desabafo meio louco e mal sóbrio sem me interromper, mas parecia ter levado isso ao extremo. Com o coração batendo no peito, martelando tão forte que parecia que ia rasgar, eu nunca quis tanto que ele falasse quanto agora. Não. Eu precisava que ele falasse. Eu precisava que ele dissesse algo. Qualquer coisa.
Era difícil imaginar como qualquer coisa que ele dissesse poderia ajudar, mas essa lógica se perdia sob as ondas de náusea que me dominavam como uma puta de esquina. Fechei os olhos com força, forçando uma respiração trêmula, e engoli em seco. Tentei limpar a névoa que havia se instalado nos meus pensamentos, que afugentava a lógica como um lobo mau espantando ovelhas assustadas. Não funcionou. Só parecia destacar a dor de cabeça desgraçada que havia se instalado na base do meu crânio.
— Então — disse Blake, quebrando o silêncio. Seus ombros caíram quando ele se inclinou para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. Ele piscou algumas vezes, com os olhos ainda vidrados do sono interrompido, antes de balançar a cabeça. — Deixa eu ver se entendi: você não é?
— Vai se foder — disparei. Quente. Ardente. A raiva veio forte e rápida, acumulando-se no centro do meu peito, crescendo até a pressão se tornar sufocante. — Eu não sou gay.
— Não o acorde, Eyes — disse Blake suavemente, franzindo a testa. Seus olhos dispararam atrás de mim, demorando-se ali. Eu não precisei me virar para saber para onde ele estava olhando — acho que teria vomitado se virasse. — Ele tem trabalho de manhã.
Oz. Ele estava falando do Oz. Meu doce e inocente irmão caçula. Aquele que ele roubou e corrompeu. Aquele que ele praticamente virou contra mim. Eles moravam juntos agora. Já faziam alguns meses. Ele tornou impossível ver meu irmão sem ver ele também.
Eu mencionei que eu odiava ele para caralho? O que me trazia de volta à pergunta de um milhão de dólares: por que eu estava ali? Por que eu tinha tanta certeza de que ele era a única pessoa com quem eu poderia falar?
— Vai se foder — provoquei novamente. As palavras saíram arrastadas. Com o gosto enjoativo do meu próprio vômito voltando pela boca. — Eu vou acordá-lo agora mesmo se eu quiser.
Havia uma parte infantil em mim que queria levar essa ameaça adiante. Gritar até acordá-lo, mas eu não fiz isso. Isso teria deixado Blake puto, o que teria sido uma vitória, mas eu me importava com o Oz. Deixando todo o resto de lado, ele era meu irmão. Além disso, a última coisa que eu queria era que ele ouvisse essa conversa.
— Chega, Isaac — avisou Blake. Seus olhos ficaram duros. O tom saiu seco. Ajeitando-se na cadeira, esfregando as mãos nos braços nus, ele franziu a testa. — Você apareceu na minha casa no meio da noite para me dizer que transou com outro cara. Agora, isso não necessariamente faz de você gay, mas não tenho certeza se faz de você hétero também.
— Eu não sou gay — rosnei novamente. Mais baixo. Não parecia ecoar como antes. Encostando-me no sofá, sibilando entre os dentes cerrados enquanto a vontade de vomitar voltava a perturbar meu estômago, minhas unhas cravaram no apoio de braço de couro. Acho que eu estava com frio. Eu estava tremendo, mas havia barulho demais dentro da minha cabeça, pensamentos desorientados demais para saber qual era a causa.
Eu tinha tirado meu casaco e sapatos na porta, mas não adiantou muito para o resto de mim. Gotas frias de água escorriam do meu cabelo, pingando ocasionalmente no meu rosto ou descendo pela minha espinha, e uma pequena poça se formou no chão sob a bainha do meu jeans.
Eu queria ir para casa. Eu queria estar em casa. Mas porra... como diabos a noite acabou desse jeito?
— Você estava bêbado — disse Blake suavemente, sua expressão suavizando. — Todos nós tomamos decisões estúpidas quando estamos bêbados, então, se você quiser tratar isso como um erro único de julgamento, faça isso. Não precisa ser nada além disso. Mas se você foi parar na cama com outro homem e estava sóbrio o suficiente para saber o que estava fazendo, então existe a chance de que talvez a menor parte de você quisesse que isso acontecesse.
Tentei encontrar palavras para discordar. Para colocar a raiva destrutiva em contexto, mas nada saiu. Era difícil encontrar um argumento sólido quando meu rabo doía de um jeito que nunca tinha doído antes e meu orgulho e dignidade tinham fugido para o esgoto no caminho até aqui.
— Eu estava bêbado — consegui dizer finalmente. — Não significou nada.
Nada mesmo. Nem de longe. E embora as palavras de Blake me incomodassem, saber que ele estava certo e que eu estava um tanto consciente e ativo nas escolhas que fiz... não tinha sido nada além da Grey Goose assumindo o controle.
— Okay. — Blake assentiu. Seu cabelo, preto como carvão, balançou com o movimento, os fios rebeldes caindo em seu rosto. — Não estou te julgando, Isaac, então que tal controlar essa atitude?
Foi só quando ele gesticulou em minha direção que percebi que eu estava quase em pé, com as mãos fechadas em punhos. Não durou muito. A exaustão me dominou e minhas pernas, aqueles bonecos de borracha que eram, cederam. Meu rabo atingiu a almofada mais uma vez. A vontade de vomitar precisou ser contida de novo.
— Que tal você me contar de novo? — disse Blake. — Devagar, desta vez. Mais calmo? Eu sei que isso pode parecer assustador, acredite em mim, eu já passei por isso, mas você sabe que estou aqui por você, Eyes.
Por um momento, parecemos voltar ao passado. Seu rosto estava embaçado, ou talvez meus olhos estivessem fudidos, mas o suficiente dele era distinguível para notar seus traços. O desenho acentuado de suas bochechas. A firmeza de seu maxilar. A bondade em seu sorriso.
Por um momento, apenas por uma fração de segundo, toda a mágoa entre nós desapareceu. Tornou-se um tempo mais simples. Um tempo mais feliz, de volta a quando eu protegia ele e ele protegia a mim. Antes de ele decidir que enfiar o pau no meu irmão mais novo era uma boa ideia. E essa lembrança foi tudo o que precisei para que aquela ilusão boba se desfizesse.
— Era aniversário do Micah — eu disse, repetindo minhas palavras anteriores. — E... — Franzindo a testa, segurando minha cabeça, soltei um suspiro curto. A ordem parecia confusa, dançando demais a ponto de eu ter dificuldade em colocar a sequência.
Ele estava fazendo vinte anos. Ele queria que fosse uma noite para ser lembrada. Eu não conseguia lembrar de onde tinha vindo a bebida — era cedo demais na noite. Havia muitos de nós. O porão dele tinha sido convertido em um salão de jogos e passamos o início da noite tomando doses.
Não me lembro de sair. Não me lembro por que saí. Talvez a bebida tenha acabado. Talvez o Jordan tenha me deixado puto de novo. Aquela parte estava escura. O bar, no entanto, era algo de que eu me lembrava. Caminhar para casa. A tarde tinha passado. A noite tinha chegado. Chuva. Ruas vazias.
Por que eu entrei?
— Eu fui para casa — continuei, engolindo a saliva que continuava acumulando. — Não, eu estava indo para casa. O Pete me parou. Pete... ele estava lá fora fumando. Me chamou para entrar. Disse que ia me pagar uma bebida.
— Pete? — Blake repetiu. — O irmão mais velho do Charlie?
— É. — Assenti. Me arrependi. Tive que puxar três respirações curtas enquanto a agonia dividia o interior da minha cabeça.
— Mas ele não foi quem acabou indo para casa com você?
Não. Não o Pete. Outro ponto cego na minha memória; eu não fazia a porra de uma ideia do que aconteceu com o Pete. Em um minuto eu estava conversando com ele, no outro, eu estava pegando um copo da mão de um cara aleatório.
— Não.
— Você pegou o nome dele? Conhecia ele? Alguma coisa do tipo?
Infelizmente, sim.
Se não tivesse, eu poderia ter atribuído a noite inteira a uma ilusão. Convencido a mim mesmo de que nada daquilo era real. Mas tudo tinha sido lúcido demais. Qual era a palavra que Blake tinha usado? Consciente? Eu tinha estado consciente demais.
E esse conhecimento me matou, porra.
— Deacon Baxter.
Ele mastigou isso por um segundo antes de seus olhos se arregalarem. — Aquele esquisito? O cara cujo carro a gente tacou ovo?
Fazendo uma careta, confirmei.
Baxter administrava uma loja de vodu do outro lado da cidade. Okay, bem, talvez não fosse uma loja de vodu. Eu não fazia ideia do que era. Vendiam remédios herbais, amuletos de sorte, ofereciam leituras e outras besteiras assim. Não era vodu, mas ainda assim não era normal.
E nossas versões mais jovens achavam o conceito ainda mais estranho. Dois anos atrás, entediados e com nada além de tempo e humor infantil, Blake e eu, quando éramos inseparáveis, transformamos o carro do cara em um omelete. Ele nos pegou no flagra. Deu uma bela bronca na gente pelo nosso esforço.
Nós o apelidamos de "o esquisito" desde então.
— Caramba. — Ele soltou um assobio baixo. — Quero dizer, o cara é bonito, admito isso, Isaac, mas porra. Ele não é bem mais velho que a gente?
— Vinte e seis. — Havia tanta certeza na resposta que, apesar de não lembrar de ter perguntado, eu estava convencido de que era um fato. — Sete anos não é tão ruim, certo?
É. Porque a idade era o problema, certo? Não o fato de que o cacete que balançava entre as pernas dele era o mesmo tipo que o que balançava entre as minhas?
— Ah. — Ele balançou a cabeça. — Não. Eu não sei por quê. Estava pensando que era bem mais velho que isso. Foi... foi...
Toda vez que eu piscava, a imagem dele distorcia. Às vezes ele parecia mais perto. Outras, mais longe. Outras vezes, apenas uma confusão de pixels. A mesma pergunta de antes voltou para me assombrar: Por que o Blake?
Havia muitas respostas para essa pergunta; eu não fazia ideia de qual era a verdadeira.
Talvez porque ele fosse gay. Ou porque eu sabia que ele não ia surtar do jeito que meus amigos teriam surtado.
Ou talvez, a voz cínica no fundo da minha cabeça injetou, seja porque ele é seu melhor amigo e você sabia que ele não ia te julgar?
Aquela voz foi pisoteada e silenciada muito rápido.
— Ele não fez você fazer nada que você não quisesse, certo? — Blake conferiu por fim. — Sei que você disse que ambos estavam bêbados, mas você concordou, certo?
Como um carro batendo em uma parede de tijolos a cem por hora, o impacto das suas palavras foi chocante. Minhas tentativas de negar a realidade da situação se desintegraram.
Ele não tinha feito. Houve muitos momentos confusos, mas eu me lembrava de ter concordado. De ter forçado, inclusive. Eu não achei que tinha bebido tanto, mas claramente bebi, porque não havia porra de chance de eu ter agido como agi se estivesse sóbrio. Nenhuma chance, porra.
— O sexo não foi a pior parte, B — sussurrei. A vertigem tinha começado de novo. A tontura tinha voltado.
— O que foi?
Eu não me lembrava do que tínhamos conversado no bar. Não me lembrava de ter saído e ido para a casa dele. Lembrei-me de estar na casa dele. Lembrei-me... da coisa que fizemos. Mas havia mais.
Havia mais... e embora eu estivesse mais bêbado do que pensava... será que foi o suficiente para justificar?
— Você sabe que pode me contar qualquer coisa, Isaac. — Suave. Gentil. Todas as coisas que eu sabia que aquele bastardo traíra, comedor de irmão, não era.
Então por que eu sentia que podia contar para ele?
— Ele me fez chamá-lo de Daddy — disparei. O silêncio se seguiu. Observei uma grande variedade de emoções tomar conta da sua expressão antes que ela se fechasse, contendo-se.
— Repete?
O calor subiu para minhas bochechas. Meus olhos caíram para o chão. A raiva tinha ficado em segundo plano, mas ainda estava lá, vibrando no meu sistema como um fio desencapado. Essa raiva era tão familiar quanto meu próprio rosto no espelho; ela nunca realmente me deixava.
— Nós estávamos... ele queria que eu o chamasse de Daddy. — Eu não conseguia lembrar como isso tinha surgido. Tinha sido antes do sexo? Depois do sexo? Durante?
Porraaaa! Eu nunca mais ia beber na vida!
— E você chamou?
Lágrimas picaram meus olhos. Minha garganta fechou. — Acho que chamei — sussurrei por fim. — O que ele fez comigo? Ele me transformou em um esquisito de merda como ele.
Porque transar com outro cara não era o suficiente. Tínhamos que adicionar essas merdas esquisitas? O esquisito era nomeado adequadamente, ao que parecia. Mas se fosse esse o caso, onde isso me deixava?
Levantando-se da cadeira como fumaça, Blake fez uma careta, alongou-se tão forte que os ossos das costas estalaram, antes de balançar a cabeça. Ele tinha crescido durante o verão. Ele costumava ser mais baixo que eu, mas agora estávamos com o mesmo um metro e oitenta e cinco. Mas ele era mais largo. O trabalho ao ar livre tinha valido a pena e seus ombros estavam duas vezes maiores do que antes, curvando-se em um conjunto sólido, e seu corpo tinha definido. Sua sombra cresceu, ficando cada vez maior até se tornar tão alta e orgulhosa quanto a de um rei.
— Você não é um esquisito, Eyes. — Ele diminuiu a distância entre nós. Colocou uma mão no meu ombro. Eu me esquivei.
— Não me toca — rosnei.
Ele cerrou os dentes, mas removeu a mão. Deslizou para o outro lado do sofá. — Você não é um esquisito — ele repetiu. — E talvez ele também não seja. Vocês dois são velhos o suficiente para fazer suas próprias escolhas. Quero dizer, parecia que vocês dois estavam bêbados demais para fazer qualquer escolha, mas merda acontece. Quero dizer, poderia ser pior. Eu prefiro estar com alguém que tenha fetiche por Daddy do que fetiche por axilas.
— Fetiche por axila? Que porra é essa?
— É exatamente o que parece — uau! Eyes, eu juro por Deus, não vomita no meu chão.
Tarde. Demais.
Explodindo em jatos de uma nojeira quente, qualquer tentativa de chegar ao banheiro foi em vão. Um gemido escapou dos meus lábios. Mãos e joelhos atingiram o piso de madeira.
— Acho que você vai ficar aqui hoje à noite — Blake suspirou. — Tente levantar e ir ao banheiro. Vou pegar umas roupas para você. Suponho que terei que limpar isso também.
— Eu preciso ir para casa, B — disse, engasgando, cuspindo, tentando me livrar daquele gosto horrível. — Preciso de um banho. Preciso tirar a sensação dele de mim.
Por um momento, eu estava de volta às ruas. Confuso. Perdido. Desorientado. Eu tinha acordado na cama do esquisito, com os braços dele em volta de mim e um monte de arrependimento nascendo. Eu tinha fugido. Corrido como se o próprio inferno estivesse na minha cola. Não importava que estivesse chovendo ou que eu não tivesse ideia de onde estava. Eu só precisava sair de lá.
— Tome um banho aqui. Sua mãe me mataria se eu te deixasse sair a esta hora nesse estado. O Oz também.
Eu não estava bêbado agora. Isso tinha passado, na maior parte. Estar bêbado era fácil. O problema era ficar sóbrio. Era a ressaca começando enquanto ainda estava acordado. Era a transição de estar alheio para o "oh, porra".
Em vez de responder, vomitei novamente.









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Re-read number 5001 😌