Reivindicada pelos dois

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Resumo

Uma traidora, um Alfa, um Chefe e um laço de alma gêmea... Forçada a espionar o Black Pack para salvar sua família, Ayla suporta torturas e escolhas impossíveis. Quando ela descobre seus companheiros — Damon, o inabalável Alfa, e Kieran, o intenso Chefe da Guarda — seu mundo vira de cabeça para baixo. Embora seu segredo ameace separá-los, sua coragem e espírito inabalável conquistam o perdão e o amor deles. Juntos, eles enfrentam um vínculo forjado através da dor, da confiança e de uma conexão inquebrável que redefine seus futuros.

Status
Completo
Capítulos
35
Classificação
5.0 28 avaliações
Classificação Etária
18+

Capítulo 1

POV: Ayla

A paisagem mudou à medida que o comboio se aproximava das fronteiras da Alcateia Black. Apertei o banco, tentando fazer meu estômago sossegar. A cada quilômetro, meus nervos pareciam ficar mais tensos, e o peso do que eu havia aceitado me sufocava. Pular o café da manhã foi uma escolha sábia; eu já teria posto tudo para fora.

Não era apenas o nervosismo por entrar em um território desconhecido. Era a consciência do que eu estava ali para fazer.

Eu era uma soldado da Alcateia SilverMoon, escolhida — não, forçada — pelo meu alfa a participar de um "programa de intercâmbio" com a Alcateia Black. Oficialmente, eu estava lá para aprender suas técnicas avançadas de guarda, um gesto de paz para fortalecer a relação entre nossas alcateias.

Extraoficialmente? Eu era uma espiã.

A Alcateia Black era uma lenda em nossa região: a maior, a mais rica e a mais poderosa de todas. Seus guerreiros eram inigualáveis, e suas estratégias eram estudadas e invejadas por alcateias próximas e distantes. O Alfa Ryan, meu alfa, queria esse conhecimento, e ele queria que eu o trouxesse para ele.

Porque eu era a melhor. A mais rápida. A mais implacável. Pelo menos, era isso que meus oficiais de treinamento enfiavam na minha cabeça até eu perder o fôlego. Eu era tudo o que eles precisavam para essa missão, mas isso não tornava nada mais fácil.

Especialmente com a tosse fraca do meu avô assombrando meus pensamentos. E com a imagem da minha irmãzinha, com seus olhos arregalados e cheios de lágrimas, me implorando para voltar para ela.

Forcei as lembranças para baixo, enterrando-as bem fundo. Essa missão era a única maneira de mantê-los em segurança.

Quando os enormes portões de ferro da Alcateia Black apareceram, meu peito apertou. Eles se erguiam à frente, com o aço escurecido brilhando sob a luz do sol, tão intimidador quanto os lobos que viviam além deles. Ao passarmos, o mundo se abriu em algo que eu só tinha ouvido falar em histórias.

O território da Alcateia Black era uma metrópole, maior do que qualquer coisa que eu já tinha visto. A Casa da Alcateia — um castelo de pedra imenso — ficava no centro, com sua sombra dominando o horizonte. Ao redor, ruas bem pavimentadas fervilhavam de atividade, com lobos se movendo em perfeita sincronia. O quartel-general da minha alcateia era uma piada comparado a isso.

À medida que nos aproximávamos do quartel-general da guarda, meu deslumbramento deu lugar ao desconforto. O prédio era enorme, torreando acima de nós, e eu podia sentir olhares em mim antes mesmo de sair do carro.

No momento em que saí, um jovem se aproximou. Seu cabelo ruivo se destacava contra o uniforme impecável, e seus olhos azuis afiados desceram para a prancheta que ele segurava.

“Soldado Ayla Stark?”

“Sou eu”, respondi, forçando um sorriso que parecia mais uma careta. Meus músculos doíam pelo esforço de manter os ombros eretos e meus movimentos firmes.

“Bem-vinda”, disse ele com um aceno rápido. “Sou o Cabo Levi. Vou te mostrar o local antes que a cerimônia de apresentação comece.”

“Cerimônia de apresentação?” repeti, as palavras travando na minha garganta.

Levi mal olhou para cima enquanto se virava e fazia sinal para eu segui-lo. “Hoje é a formatura da nossa turma inicial da guarda. A partir de amanhã, os formandos começarão o treinamento especializado em várias áreas. Você vai se juntar a eles.”

Engoli em seco, tentando processar o que ele tinha acabado de dizer. Cerimônias de formatura eram eventos formais e lotados na minha alcateia — eventos que eu evitava sempre que podia. A ideia de ficar na frente de uma multidão ali, em território inimigo, fez meu estômago revirar de novo.

Levi continuou falando enquanto caminhávamos pelos corredores impecáveis, suas palavras se misturando ao barulho de fundo. Meu foco estava no que me cercava — a arquitetura grandiosa, os pisos de pedra polida, as fileiras de guardas se movendo com precisão militar. Tudo ali gritava eficiência, poder e controle.

Eventualmente, Levi apontou para uma sala forrada com sofás confortáveis e uma mesa cheia de café e lanches. “Espere aqui até que eu venha te buscar para a cerimônia.”

No momento em que ele desapareceu, soltei um suspiro aliviado. Não tinha como eu ficar sentada ali, girando os polegares. Não quando cada instinto gritava para eu me mover, agir e aprender.

Vagueando pelo corredor, senti-me atraída por uma grande porta de madeira entreaberta. Minha curiosidade falou mais alto e eu entrei.

O ar estava denso com o cheiro de madeira polida e metal envelhecido. Era uma sala de troféus, cheia de prateleiras com prêmios, placas e medalhas. Armas penduradas nas paredes brilhavam sob a luz suave. Machados, lanças, espadas — cada uma era de uma época diferente, contando uma história de vitória e domínio.

Era lindo. Era perigoso.

E era exatamente onde eu não deveria estar.

A Sala de Troféus não era nada como eu esperava.

Cheirava levemente a madeira polida e aço antigo, uma mistura de reverência e história. Armas forravam as paredes, penduradas em expositores que capturavam a luz de formas dramáticas, enquanto escudos e estandartes preenchiam os espaços entre elas. Algumas peças eram antigas, amassadas e marcadas, enquanto outras brilhavam como se nunca tivessem visto uma batalha.

Passei meus dedos pela lâmina de uma alabarda; estava afiada, mas era pouco prática. O equilíbrio estava errado, o cabo era longo demais para um combate próximo, e eu não conseguia imaginar por que alguém teria escolhido aquilo.

Passei para uma espada longa montada logo ao lado. Era impressionante, o punho decorado com entalhes intrincados de lobos uivando. Mas franzi a testa para o peso gravado na placa abaixo — pesada demais para ser manejada com velocidade.

“Bonita, pelo menos”, murmurei para mim mesma, minha voz ecoando suavemente pelos tetos altos.

“Essa é uma forma de dizer”, uma voz disse atrás de mim.

A voz dele era profunda e grave, como um rosnado envolto em veludo, e puxou algo primitivo dentro de mim. Eu disse a mim mesma que era medo. Tinha que ser medo.

Dei um salto, girando nos calcanhares. Um homem lindo estava na porta, encostado casualmente no batente, com os braços cruzados sobre o peito largo.

Sua presença preenchia a sala, maior que a própria vida. Eu não entendia por que meu peito estava apertado, por que meus instintos gritavam para eu me aproximar, mesmo quando minha mente exigia que eu ficasse bem longe.

Seus olhos verdes eram brilhantes, quase inquietantes, contrastando com os traços afiados de seu rosto e emoldurados por longos cabelos loiros bagunçados. Ele era realmente muito bonito, mas parecia que não ligava para isso. Ele parecia… relaxado, mas havia algo nele — algo em sua postura, em seu olhar — que me deixou instantaneamente tensa.

“Não ouvi você entrar”, falei rapidamente, endireitando-me.

“Não quis te assustar”, disse ele, com o tom leve. “Você estava muito absorvida na sua crítica.”

Estreitei os olhos levemente. “Você estava ouvindo?”

Seus lábios se curvaram. “Você não estava exatamente silenciosa.”

“Você não vai se explicar?” ele perguntou, arqueando uma sobrancelha. Limpei a garganta, forçando meu corpo a colaborar.

“Eu não estava… quer dizer, eu não sabia que esta sala era proibida.” Ele não se moveu, mas algo em sua postura tornou o ar mais pesado.

“E, no entanto, aqui está você.” O calor subiu pelo meu pescoço.

“Eu estava explorando”, respondi na defensiva, meu olhar voltando para as armas como se pudessem me oferecer uma fuga. “Ninguém me disse onde eu não podia ir.” O canto da boca dele se contraiu. Não era exatamente um sorriso, mas também não era uma carranca. Meu estômago deu um nó de qualquer jeito.

“E essas armas chamaram sua atenção?” Sua voz era calma, mas havia uma nitidez nela, como uma lâmina escondida sob o veludo.

“Elas são… impressionantes”, admiti, olhando para a lança que eu estava estudando. “Melhores do que qualquer coisa que tínhamos na minha alcateia.”

“Mas?” ele instigou, seus olhos verdes se estreitando levemente. Hesitei. Não diga, meu cérebro avisou, mas minha boca me traiu.

“Mas não são práticas. Pelo menos, não todas elas. Algumas dessas armas são mais para exibir do que para o combate. E a estratégia desta alcateia…” Parei de falar, mordendo o lábio.

O silêncio dele me pressionou, e eu não consegui me impedir de terminar o pensamento.

“Poderia ser melhor. Muito melhor, na verdade.” O ar entre nós mudou. Ele descruzou os braços e seus dedos bateram uma vez contra a coxa. Sua expressão permanecia indecifrável, mas algo brilhou em seu olhar — interesse? Irritação? Os dois?

“Você está dizendo que a estratégia desta guarda é fraca.” O peso de suas palavras me atingiu como um soco. Meu peito apertou quando sua autoridade finalmente se registrou. Ele não era apenas um estranho bonito com uma presença intimidadora. Ele era alguém importante.

“Eu não quis dizer isso”, falei rapidamente, o pânico subindo. “Quero dizer, vocês claramente têm a força, e as armas são incríveis. Mas força sem estratégia só te leva até certo ponto. Minha alcateia foca na adaptabilidade. Treinamos para lutar com o que estiver à mão — garras, dentes, até pedras. Aqui…” Gesticulei para a sala. “É como se vocês confiassem demais nas ferramentas e de menos no instinto.” O silêncio se estendeu dolorosamente. Meu pulso batia forte nos ouvidos, e tive que me forçar a não ficar inquieta sob seu olhar. Que merda eu tinha acabado de fazer?

“Você claramente pensou muito sobre isso”, ele disse finalmente, com a voz serena. Soltei um fôlego que nem tinha percebido que estava prendendo.

“Eu só… gosto de observar. É só isso.” Por um momento, ele apenas me observou, com seus olhos verdes sem piscar. Havia algo nele que fazia meu corpo me trair — um calor se concentrando lá embaixo, uma consciência que fazia minha pele arrepiar. Eu odiava isso. Eu o odiava.

O calor subiu pelo meu pescoço. “Eu não estava criticando, apenas… observando. Algumas dessas armas não são exatamente práticas para o combate moderno.”

Ele arqueou uma sobrancelha, dando um passo à frente. “É mesmo?”

Assenti, cruzando os braços para me firmar. “Pegue esta lança, por exemplo.” Apontei para um dos expositores. “O cabo é reforçado, mas o equilíbrio está ruim. Se eu fosse usá-la, eu a encurtaria, talvez ajustasse o contrapeso.”

“E aquela?” ele perguntou, apontando para uma maça com espinhos pendurada ali perto.

“Lenta demais”, respondi imediatamente. “Boa para força bruta, mas inútil contra alguém mais rápido. Eu substituiria os espinhos por um design mais leve ou descartaria totalmente.”

Ele inclinou a cabeça, como se considerasse minhas palavras. “Você pensou bem nisso.”

“Sou da guarda”, respondi, levantando o queixo. “Analisar armas é algo natural para mim.”

“Interessante.” O olhar dele permaneceu em mim, e senti o peso de sua curiosidade.

Virei-me para um grande escudo montado perto do centro da sala, com as bordas decoradas com detalhes em ouro. “E este…” — toquei a superfície gentilmente, testando sua durabilidade — “…este não aguentaria uma flecha moderna. É antigo demais. Lindo, mas não pronto para o combate. Eu reforçaria as bordas e talvez refizesse o trançado para dar mais flexibilidade.”

O homem não respondeu, e quando olhei para ele, vi que me observava com uma expressão indecifrável.

“O quê?” perguntei, na defensiva.

“Nada”, disse ele, com um sorriso de canto. “Só imaginando o que mais você mudaria no resto da coleção.”

Antes que eu pudesse responder, uma voz chamou do corredor. “Chefe Kieran!”

Meu estômago caiu.

Cada músculo do meu corpo travou.

Chefe.

Meu coração afundou quando a ficha caiu. Ele não era apenas um guarda. Ele era o guarda. O homem que eu tinha acabado de insultar comandava os próprios guerreiros que eu estava criticando. Eu queria morrer. Ali mesmo, na hora. Apenas afundar no chão e desaparecer.

“Chefe Kieran”, repeti lentamente, enquanto o nome assimilava. “Como em… Chefe Kieran Reddick?”

O homem — Kieran — deu um sorriso sarcástico, claramente apreciando minha descoberta. “Sou eu.”

A humilhação me atingiu como um soco no estômago. Eu tinha acabado de passar os últimos dez minutos criticando as armas do chefe da guarda.