Um Tipo Diferente de Silêncio
🏒 Leo
A lâmina do meu patim bate uma vez contra o gelo.
Eu me agacho na linha azul e espero pelo apito do treinador.
O ar frio morde a faixa de pele entre a minha proteção de pescoço e o capacete. Normalmente eu gosto disso. Isso me mantém acordado. Me mantém atento. Lembra ao meu corpo onde ele está.
Hoje, só parece frio mesmo.
"De novo", dispara o treinador.
Nós nos reposicionamos para o treino de suporte ao ciclo.
Do canto para a ponta.
De volta para baixo.
Repete.
Já fiz esse exercício tantas vezes que deveria conseguir fazê-lo dormindo. Meu corpo deveria saber para onde ir antes mesmo de o meu cérebro processar.
Mas, durante toda a manhã, tudo esteve meio segundo atrasado.
O apito soa.
Eu arranco, corto pela ala e tento entrar no ritmo.
Recebe.
Move.
Gira.
Dá suporte.
Simples.
Só que não é.
Minhas pernas parecem pesadas. Meu tempo de reação parece errado. O passe vindo da tabela bate no meu taco e não fica limpo. Eu me recupero rápido o suficiente para que ninguém diga nada.
Mas eu sinto.
Aquele pequeno erro.
Aquele tranco feio.
A repetição seguinte é pior.
Eu chego ao canto, tento girar, e minha lâmina direita escorrega.
Por meio segundo, meu corpo esquece o que deveria fazer.
Então, eu impacto o ombro contra a proteção lateral com força suficiente para fazer minhas costelas estalarem.
Eu fico ali.
Só por um segundo.
As luzes ficam brancas e turvas acima de mim. Meu taco desliza para longe. Meu peito arde com aquela mistura quente de dor e vergonha, que sempre dói mais quando tem gente vendo.
E eles viram.
Claro que viram.
Lá nas arquibancadas, um homem de casaco escuro está sentado atrás do vidro com uma prancheta apoiada no joelho.
Um olheiro, talvez.
Representante de patrocinador.
Não importa.
Ele está olhando direto para mim.
"Levanta, Thorne", grita o treinador.
Eu engulo em seco, forço meu corpo para cima e pego o taco.
"Estou de pé."
Minha voz soa rouca.
Ótimo.
Combina com o resto de mim.
Nós nos alinhamos de novo.
O rinque tem cheiro de fita velha, equipamento úmido e da máquina de pipoca do quiosque lá fora. Minhas luvas estão molhadas por dentro. O suor cola minha camisa à pele debaixo das proteções.
Tudo está barulhento demais.
Patins raspando.
Tacos batendo.
Treinador gritando.
Caras ofegantes.
Normalmente tudo isso vira ritmo.
Hoje é só barulho.
"Mexam os pés", grita o treinador.
Eu mexo.
Eu patino na próxima repetição.
Depois na seguinte.
E depois na outra.
Minhas mãos estão lá. Meus instintos estão lá. Meu corpo é que não segue o movimento como deveria.
Eu continuo errando por centímetros.
Um passe um pouco torto.
Uma virada um pouco lenta.
Um chute solto tarde demais, estragando tudo.
Ontem, eu perdi um arremate de primeira tão feio que bateu no vidro e quase acertou o café do assistente técnico.
Ninguém disse muito.
Não precisavam.
Eu vi o olhar deles.
Que diabos está acontecendo com ele?
Venho ouvindo isso na minha cabeça desde então.
"Capricha aí", alguém chama atrás de mim.
Marcus patina ao meu lado e toca minha caneleira com o taco. Ele faz por bem. Eu sei disso.
Neste momento, até um suporte parece pressão.
Eu não quero incentivo.
Eu quero um turno em que me sinta eu mesmo de novo.
Os playoffs estão próximos. Os olheiros têm aparecido mais. Os patrocinadores pedem aparições. Vincent vive ligando sobre entrevistas, visibilidade e timing, como se minha vida fosse uma campanha política que ele tenta vencer.
Cada treino parece valer em dobro.
Se eu faço merda em março, as pessoas falam disso em abril.
É esse o trabalho.
Eu sei disso.
Ainda assim, não faz com que eu me sinta melhor.
Nós repetimos o exercício.
Depois de novo.
Ao final do treino, meus pulmões ardem e minha camisa está encharcada. Estou me movendo pela irritação, não pelo foco, e o treinador sabe disso.
O apito finalmente soa.
Ninguém fala muito ao sair do gelo.
Isso é quase pior.
Geralmente alguém começa a conversar antes mesmo de chegarmos ao túnel. Brincadeiras. Reclamações. Rindo de alguma besteira.
Hoje é apenas o som dos patins nos tapetes de borracha e o equipamento se movendo enquanto todos seguem para o vestiário.
O vestiário cheira a suor, desodorante e tecido molhado deixado na bolsa por tempo demais.
Marcus está com música tocando no celular. Com muito grave. Irritante o suficiente para entrar na minha pele.
Alguns caras resmungam enquanto tiram o equipamento, mas ninguém está realmente conversando.
Sento-me no banco, arranco as luvas e depois o capacete, jogando ambos com mais força do que pretendia.
Minhas mãos estão tremendo.
Não o suficiente para que mais ninguém perceba.
O suficiente para mim.
Tiro minhas proteções e visto um moletom, em vez de me trocar direito.
Boné abaixado.
Cabeça baixa.
Sair daqui.
Eu costumo trocar a fita do meu taco antes de ir embora.
Hábito idiota.
Mas isso me acalma.
O mesmo com checar meus cadarços. O mesmo com guardar tudo na mesma ordem, toda vez. Fita. Luvas. Proteções. Patins. Camisa.
Controle em pequenos pedaços.
Hoje, não fiz nada disso.
Hoje, só preciso sair.
No segundo em que passo pelas portas da arena, alguém grita meu nome.
“Leo!”
Eu me encolho.
Um grupo de garotas com moletons dos Thunderbolts corre pela calçada como se estivessem me esperando. Celulares já em mãos. Uma delas tem glitter nas bochechas em forma de raios. Outra carrega um cartaz com o meu número escrito com caneta prateada.
Normalmente, consigo lidar com isso.
Sorriso.
Selfie.
Um obrigado rápido.
Continuar andando.
Hoje não.
“Meu Deus, é ele mesmo.”
“Leo, podemos tirar uma foto?”
“Você foi incrível no último jogo.”
“Adoro seu cabelo.”
Uma delas quase derruba seu café gelado tentando mudar para a câmera frontal.
Forço um sorriso e dou um passo para trás.
“Valeu. Na verdade, estou com um pouco de pressa.”
Elas ou não me ouvem, ou não se importam.
Elas se aproximam ainda mais.
Eu desvio delas e começo a caminhar rápido pela calçada.
Atrás de mim, ouço gritos.
Passos apressados.
Uma voz chamando: “Só uma selfie!”
Continuo seguindo em frente.
A calçada está cheia de gente na hora do almoço. Uma mãe empurrando um carrinho de bebê. Dois homens de escritório discutindo por causa de um tablet. Um homem carregando uma capa de violoncelo como se estivesse atrasado para a sinfonia.
Eu corto caminho entre eles, passo empurrando um jornaleiro com o ombro e puxo o capuz sobre o boné.
As garotas ainda estão atrás de mim.
“Leo!”
“Espera!”
“Você está saindo com alguém?”
Isso quase arranca uma risada de mim.
Quase.
Em vez disso, entro em uma rua lateral e começo a trotar.
Minhas costelas doem por causa das tabelas da pista. O suor esfria rápido sob o meu moletom. Meu pulso não baixou desde o treino, então agora sinto como se estivesse sendo perseguido pela pior extensão possível do meu dia.
Viro a esquina e consigo três segundos de silêncio.
Então eu as ouço novamente.
Passos.
Risadas ofegantes.
Meu nome.
Murmuro um palavrão e olho para cima, procurando um lugar para desaparecer.
Só por um minuto.
Foi quando eu vi.
Uma vitrine escondida entre uma alfaiataria e uma floricultura.
Uma fachada pequena.
Uma placa pintada à mão.
Uma luz suave atrás do vidro.
Uma galeria.
Não parece com nada do resto do quarteirão. Não tenta chamar a atenção. Não brilha, não grita nem desafia ninguém a entrar.
Apenas está lá.
Quieta.
Estável.
Como se não tivesse nada a provar.
Atrás de mim, alguém chama meu nome de novo, desta vez mais perto.
Não penso duas vezes.
Agarro a porta, puxo-a e entro.
O sino sobre a moldura dá um toque agudo e curto.
A porta se fecha atrás de mim.
E tudo muda.
O ar está mais quente.
Calmo.
Tem cheiro de argila, tinta e algo limpo que não sei definir.
Sem apitos.
Sem patins.
Sem fãs chamando meu nome.
Sem câmeras.
Apenas silêncio.
Silêncio de verdade.
Não vazio.
Não constrangedor.
Calmo.
Fico ali por um segundo, respirando fundo, deixando a sensação me envolver.
Meu peito se solta pela primeira vez no dia todo.
O espaço é quieto de uma maneira que o rinque nunca é. Do tipo que não me pede nada. Do tipo que deixa uma pessoa existir sem ter que atuar.
Olho através da luz suave para as formas no ambiente.
Pinturas.
Esculturas.
Uma mesa no fundo com potes alinhados em filas cuidadosas.
Um espaço que parece intencional em cada detalhe.
Eu ainda não a conheço.
Não sei por que este lugar parece a primeira respiração profunda que dou no dia.
Só sei que não vou sair.
Ainda não.
Hi Great Author
I just wanted to say your work is really impressive truly enjoyed it. If you don’t mind, I’ve got a few tips and suggestions I’d love to share that might be helpful from a reader’s perspective: you can find me on this facebook: https://www.facebook.com/peace.smith.975526 or https://www.instagram.com/peacesmith08?igsh=ZnVuMG9hZXU0cGR4
why is each word on a different line?? will this be like this throughout?