Chapter 1
POV: Eve
“Não.” Minha voz mal passa de um sussurro, mas ecoa pelo escritório do meu pai como uma sentença de morte.
Ele não recua. Não pisca. Apenas me encara com aquele olhar inabalável e calculista — o olhar de um homem que já tomou sua decisão.
“Não”, repito, agora mais alto, enquanto meu peito aperta até eu mal conseguir respirar. “Você não pode me obrigar a fazer isso.”
“Já está feito.”
As palavras me atingem com mais força do que um tapa. Meus joelhos quase cedem.
“Não.” Balanço a cabeça violentamente, como se a força bruta pudesse desfazer a decisão dele. “Não, você não entende, você não pode...”
“Eu entendo perfeitamente”, diz ele, com a voz fria como aço. “Você é minha filha e fará o que for necessário por esta alcateia.”
Meu estômago embrulha. Minhas mãos tremem. Sinto como se o chão estivesse desmoronando sob meus pés e, por mais que eu tente me agarrar a algo — a qualquer coisa — eu continuo caindo.
“Você está me vendendo”, digo com a voz embargada e áspera. “Vendendo-me para um monstro.”
Um brilho de algo passa pelo seu rosto — culpa, talvez. Arrependimento. Mas desaparece tão rápido quanto surgiu. “Estou garantindo o nosso futuro.”
Solto uma risada estrangulada, aguda e quebrada. “Nosso futuro?” Meu coração bate tão rápido que chega a doer. “Não, isso é sobre você. Sobre sua aliança, seu poder, sua maldita mina de prata.”
Sua mandíbula trava. “É sobre manter você viva.”
Algo afiado e gelado atravessa minhas costelas. “Você está mentindo.”
“Será?” Sua voz fica mais baixa, firme, impiedosa. “Você tem alguma ideia do que está por vir? Do que acontecerá se não garantirmos essa aliança?”
“Eu não me importo!” As palavras escapam de mim e nem percebo que estou gritando até minha garganta arder. “Não me importa o que aconteça com esta alcateia se o preço for me jogar para ele.”
Caelum Alaric.
Apenas o nome faz a bile subir pela minha garganta.
O Alfa da alcateia Shadowfang. Um homem sobre quem se sussurra com medo. Um homem cujo nome está banhado em sangue.
Um homem que matou a própria companheira.
Minha respiração falha.
Isso não está acontecendo. Isso não pode estar acontecendo.
“Eu vou fugir”, sussurro, mal conseguindo formar as palavras. “Vou embora antes que você possa...”
“Você não vai.”
Sua certeza me causa náuseas.
Giro em direção à porta, mas, antes que eu possa dar um passo sequer, dois guardas entram e bloqueiam meu caminho.
Uma jaula. Estou em uma jaula.
E não há saída.
Um soluço escapa do meu peito, mas eu o engulo. Não vou desmoronar. Eu não vou.
Encaro meu pai, com a visão embaçada pelas lágrimas que insisto em segurar. “Eu nunca vou amá-lo.”
Ele solta o ar, um traço de tristeza em seu olhar. “Eu não estou pedindo que você o ame.”
Isso deveria ser um alívio.
Não é.
Porque o amor não é a pior coisa que poderia acontecer em um casamento como este.
A sobrevivência é.
“Por que ele?” Minha voz vacilou, mas eu não me importei.
Fiquei diante do meu pai, com as mãos cerradas em punhos, as unhas cravadas nas palmas como se a dor pudesse me ancorar à realidade. Porque, certamente, isso não poderia ser real.
“Por que o monstro?” Cuspi a palavra como veneno, balançando a cabeça em descrença. “Caelum Alaric matou a companheira dele — a que a Lua escolheu para ele. Como você espera que eu acredite que isso não é uma sentença de morte?”
Meu pai suspirou, passando a mão pelo rosto cansado. Ele envelheceu nos últimos meses — mais rugas, mais olheiras. Mas a compaixão não me convenceria. Não quando ele estava me vendendo para um homem temido em todas as fronteiras.
“Não é uma sentença de morte”, disse ele, com a voz baixa e controlada, como se escondesse algo. “É uma aliança. Uma que manterá você — e todos nós — vivos.”
Soltei uma risada amarga e dei um passo para trás. “Vivos? Você acha que estarei viva ligada a ele? Ele não me quer, pai! Eu serei nada para ele.”
Ele suspirou. “Ele me deu sua palavra...”
“A palavra dele?” Interrompi-o, sentindo meu sangue virar gelo. “A palavra dele não significa nada. Um homem como ele não faz promessas. Ele toma. Ele destrói.”
O olhar do meu pai tornou-se mais intenso, sua paciência diminuindo. “Você não o conhece, Eve.”
“E você também não!” retruquei, com o peito arfando. “Com o que ele ameaçou você? O que ele te ofereceu para você me jogar para ele desse jeito?”
Sua expressão endureceu, a mandíbula travada como pedra. “Eu fiz isso para proteger você.”
“Então me deixe rejeitá-lo”, sussurrei. “Me deixe recusar. Eu tenho uma escolha...”
“Você não tem.”
A finalidade em seu tom sugou o ar dos meus pulmões.
“Você não entende, Eve”, disse ele, mais suave desta vez, mas não menos firme. “Rejeitá-lo é que é a sentença de morte. Não apenas para você, mas para nós. Todos nós.”
Balancei a cabeça, com a mente a mil. “Você acha que Caelum Alaric massacraria uma alcateia inteira por minha causa?”
Meu pai não piscou.
E foi então que eu soube.
Foi então que entendi o peso do meu destino.
Caelum faria isso.
Ele poderia.
E faria sem nem piscar.
Um pavor lento e esmagador instalou-se no meu peito, pressionando, apertando, tornando impossível respirar. Não havia escapatória. Nenhum caminho para fora.
Eu poderia recusar e ver minha família, meu povo, minha alcateia inteira queimar.
Ou poderia me casar com o monstro e rezar para que ele não me destruísse.
Senti a mão do meu pai no meu ombro, seu toque carregado de palavras não ditas. “Eu sei que não é justo. Mas é a única maneira.”
Lágrimas arderam em meus olhos, mas me recusei a deixá-las cair. Se este era meu destino, eu não quebraria — não ali, não agora.
Levantei o queixo, engolindo o soluço em minha garganta.
“Então espero que você esteja certo”, sussurrei. “Porque se estiver errado, você acabou de me condenar a um destino pior que a morte.”
E, com isso, virei as costas — porque se eu olhasse para ele por mais um segundo, eu me despedaçaria.
A porta do meu quarto está trancada.
Eu sei, porque tentei. Balancei a maçaneta até meus dedos doerem e soquei a madeira maciça até meus braços ficarem fracos. Ninguém veio. Ninguém ouviu.
Sou uma prisioneira na minha própria casa.
Minha cama está coberta de vestidos, mantos e peles, dobrados com cuidado pelos criados que meu pai enviou mais cedo. Arrume suas coisas. Você parte hoje.
Hoje.
Uma sensação oca e angustiante se instala em meu peito. Esta manhã, achei que tinha tempo. Talvez dias, talvez semanas. Uma chance de lutar. Mas meu pai nunca pretendeu me dar uma. Meu destino foi selado muito antes de eu ser chamada ao salão.
Engulo o nó na garganta, com as mãos fechadas em punhos. Não arrumo minhas coisas porque quero ir. Faço isso porque me recuso a deixar que outra pessoa faça por mim.
Alguém bate à porta.
Não é uma batida hesitante. É um comando.
A maçaneta gira e, desta vez, a porta não está trancada. Dois guardas entram, com expressões impassíveis.
“É hora”, diz um deles.
Não me movo. Meu coração martela tão violentamente que dói.
Eu não quero ir. Quero lutar, arranhar e gritar até ficar sem voz. Mas sei a verdade. Eu a conheço desde o momento em que meu pai tomou sua decisão.
Eu perdi antes mesmo de ter a chance de lutar.
Então, levanto o queixo, estofo o peito e saio pela porta como se eu estivesse no controle.
Como se esta não fosse minha execução.
O grande salão está frio quando entro. O ar está pesado de silêncio, denso com algo não dito.
E então eu o vejo.
Caelum Alaric está parado perto do centro do salão, com a postura rígida enquanto meu pai fala com ele em tons baixos. Ele não olha para mim no início, mas sua presença é sufocante, inegável.
Alto. Largo. Um predador em repouso.
Sua túnica é preta, debruada com fios de prata, e o manto pesado sobre seus ombros lhe dá o ar de um governante intocado pelo medo. Uma espada descansa em seu quadril, com o punho gasto pelo uso, mas não tenho dúvidas de que ele poderia matar com as mãos com a mesma facilidade.
E então, há seus olhos.
Não apenas verdes. Afiados. Implacáveis. Como lâminas forjadas no gelo.
Algo aperta em meu peito.
Então, seu olhar se desvia para mim.
E entendo por que as pessoas o temem.
As histórias o seguiram como sombras — sussurros sobre um Alfa sem piedade, uma besta de guerra que eliminou a própria companheira e derramou o sangue de seu amigo mais próximo.
E agora, devo ser sua esposa.
“Eve”, diz meu pai. “Venha.”
Forço minhas pernas a se moverem. Cada passo é medido, mesmo com meu pulso batendo como tambores de guerra sob minha pele. Quando chego até eles, levanto o queixo, desafiando Caelum com o olhar.
“Eu não quero isso”, digo. Minha voz está firme.
Um lampejo de algo passa por seu olhar, rápido demais para nomear.
“Ela está... resistente”, murmura meu pai. “Ela aprenderá.”
Viro o rosto bruscamente para ele. “Diga-me, pai, e quanto ao meu verdadeiro companheiro? E se ele estiver por aí?”
Silêncio.
Caelum fala primeiro.
“Ele não está.”
A finalidade em seu tom faz meu estômago despencar. “Você não sabe disso.”
“Eu sei.” Sua voz é calma, inabalável. “Ele está morto.”
Não deveria doer. Eu não deveria me importar. Mas as palavras atingem como uma lâmina entre minhas costelas.
“Você está mentindo.”
Nenhuma emoção passa por seu rosto. “Não tenho motivos para mentir.”
Minha garganta aperta, a raiva borbulhando sob minha pele. “E quanto à sua companheira, Alfa? Você a matou, não foi?”
Um silêncio cortante e sufocante cai sobre o salão.
Caelum não se move. Não recua.
Então, lentamente, ele inclina a cabeça. “Sim.”
Um arrepio percorre minha espinha. Espero que meu pai interfira, que me repreenda por ousar desafiar o homem que agora é meu dono. Mas ele não o faz.
É Caelum quem dá um passo à frente. Não muito — apenas o suficiente para que eu tenha que erguer mais o queixo para encontrar seu olhar.
“Se você a matou”, digo, forçando firmeza em minha voz, “então o que o impedirá de me matar?”
Espero que ele sorria com escárnio. Que zombe de mim.
Em vez disso, sua expressão permanece indecifrável.
“Eu não farei isso.”
Duas palavras. Frias. Absolutas.
Uma risada amarga escapa de mim. “Simples assim? Devo confiar na palavra de um homem que deixou o mundo acreditar que assassinou a própria companheira?”
“Sim.”
Meu pulso falha. Não há hesitação em sua voz.
“Meu casamento com você é uma aliança, não uma sentença de morte”, continua Caelum, sua voz soando como pedra esculpida. “Você tem valor para mim. Não tenho motivos para feri-la. Você terá segurança. Conforto. Um lugar ao meu lado.”
Um arrepio percorre minha espinha. Não de medo.
De outra coisa.
Algo que me recuso a nomear.
“É hora”, corta meu pai.
Caelum estende a mão.
É grande, forte — cicatrizada em alguns lugares, embora o resto dele esteja perfeitamente composto.
Eu a encaro. Depois encaro ele.
Eu poderia recusar. Poderia deixar este momento se estender em uma batalha de vontades. Mas o que isso mudaria?
Então, levanto minha mão.
No momento em que nossas palmas se tocam, um choque percorre meu braço, queimando meu peito como um incêndio florestal.
Sua mão aperta, apenas um pouco. O suficiente para me dizer: isso está acontecendo.
Ele está me levando com ele.
E não há como voltar atrás.
Caelum
