CapĂtulo 1
POV: Eve
Os dois estavam dormindo, mas eu nĂŁo conseguia fechar os olhos.
NĂŁo com o calor deles me envolvendo como uma armadura. NĂŁo com o som suave da respiração de Gavriel no meu pescoço ou o peso da mĂŁo de Caelum espalhada na minha barriga, possessiva atĂ© no sono. Meus reis. Meus companheiros. Minha ruĂna e minha salvação.
A noite estava densa com o cheiro deles â terra e fumaça e algo mais sombrio, que pertencia apenas a Gavriel, como a meia-noite moldada em carne. E Caelum, selvagem e sempre-verde, a tempestade que sempre me atraiu. Eu ainda sentia o gosto dos dois na lĂngua. Minhas coxas doĂam, a pele formigava, mas havia uma parte vazia em mim que se recusava a se acalmar.
Fazia anos, mas eu ainda queimava.
Mesmo agora, depois de tudo que vivemos â depois de sangue, traição e da coroa que construĂmos das cinzas â ainda havia noites em que eu acordava precisando *sentir* tudo. Precisando me lembrar de que tĂnhamos sobrevivido. De que Ă©ramos reais.
De que *eu* era real.
Virei-me devagar, tomando cuidado para não acordå-los. Gavriel se mexeu levemente, uma ruga fina entre as sobrancelhas que eu alisei com o polegar. Ele sempre era o primeiro a sentir minha inquietação. Mesmo dormindo, ele me buscava.
O aperto de Caelum se intensificou por instinto, puxando-me para mais perto, o nariz enterrado na curva do meu ombro. Seu rosnado era suave, quase inconsciente. Como um lobo ainda sonhando com a caça.
Sorri na escuridĂŁo.
â Ainda sĂŁo meus â sussurrei. â Cada centĂmetro maldito de vocĂȘs.
Beijei o maxilar de Gavriel, depois os lĂĄbios de Caelum, devagar, reverente. Poderia ter ficado assim para sempre. Mas algo me puxava. Uma sombra na beira do pensamento. Daquelas que arrepiam a espinha, silenciosas demais para nomear.
NĂŁo era medo. Era *instinto*.
Deslizei para fora da cama, os resmungos de protesto deles quentes Ă s minhas costas. Peguei uma das camisas de Caelum â surrada e grande demais â e caminhei descalça atĂ© a sacada. O ar da noite mordeu minha pele. LĂĄ embaixo, o pĂĄtio se estendia silencioso, prateado pelo luar. PacĂfico. ImĂłvel.
E, no entantoâŠ
Meus olhos encontraram o campo de treinamento ao longe.
Ele ainda estava lĂĄ.
Claro que estava.
Theron se movia como uma tempestade contida em mĂșsculos. Sem camisa, encharcado de suor, a lĂąmina na mĂŁo. Seus movimentos eram brutais, implacĂĄveis, precisos. De novo e de novo, atacava, girava, desviava de um inimigo invisĂvel. A lua captava a curva de seu ombro, o movimento do cabelo. Deuses, ele era lindo.
E era meu.
Fiquei observando-o por muito tempo. Nosso filho. Nossa herança. Um alfa de dezenove anos que carregava o peso de trĂȘs linhagens nos ossos e ainda assim se movia como se tentasse fugir de algo.
Ele nĂŁo sabia que eu o observava na maioria das noites. NĂŁo via como eu apertava a mĂŁo de Caelum quando Theron tropeçava, ou como a respiração de Gavriel prendia toda vez que nosso filho encarava o prĂłprio reflexo por tempo demais â como se buscasse o lobo que ainda se recusava a responder.
Ele nĂŁo tinha se transformado. Nem uma vez. Nem por completo.
Nunca lhe dissemos o que aquilo significava. O que temĂamos que significasse.
Ele era forte. Feroz. Respeitado por todos os guerreiros da corte. E, ainda assim, havia uma parte dele que olhava no espelho e via *falta*.
Eu sentia aquilo como uma ferida dentro de mim. Porque lembrava o que era ser marcada como diferente. Carregar um poder que nĂŁo se comportava como o mundo esperava.
E talvez por isso eu tenha pressentido antes de qualquer um.
A tempestade no horizonte. A escuridĂŁo que se aproximava.
Algo estava mudando. Na terra, no vento. *Nele*.
Levei a mĂŁo ao peito.
Que venha.
JĂĄ tĂnhamos sobrevivido ao fogo antes. SobreviverĂamos de novo.
Só percebi o quanto apertava o corrimão quando os braços de Caelum me envolveram por trås.
â VocĂȘ estĂĄ remoendo de novo â murmurou no meu pescoço, a voz rouca de sono. â JĂĄ Ă© tarde para isso. Volte para a cama.
Sua boca encontrou aquele ponto sensĂvel logo abaixo da minha orelha, os dentes roçando a pele como uma promessa.
Apoiei-me nele, deixando seu calor derreter nas minhas costas, mas nĂŁo respondi. Gavriel se juntou a nĂłs em silĂȘncio, sempre mais quieto que Caelum, sempre *observando*. Seus dedos roçaram meu pulso, me ancorando.
â VocĂȘ estĂĄ pensando nele. â NĂŁo era uma pergunta.
Assenti, sem conseguir esconder a dor no peito. â Ele nĂŁo para. Treina atĂ© sangrar. Acha que nĂŁo o vemos, mas eu vejo. Vejo tudo. O jeito como encara as prĂłprias mĂŁos, como se esperasse que virassem garras. Como fica Ă espreita na beira da floresta, como se algo nele estivesse quebrado e ele esperasse ouvir a solução.
Caelum suspirou contra minha pele, os braços se apertando. â Ele Ă© forte, Eve.
â Ele estĂĄ sofrendo â retruquei, a voz baixa e crua. â E nĂŁo sei como ajudĂĄ-lo.
Houve um longo silĂȘncio.
Então Gavriel se aproximou, a mão deslizando pela minha garganta, erguendo meu queixo até que eu encontrasse seus olhos. Aquelas profundezas douradas e avelãs em que eu poderia me afogar.
â VocĂȘ nĂŁo precisa consertĂĄ-lo. SĂł precisa amĂĄ-lo. Como fez conosco.
Um arrepio percorreu minha espinha.
Ele me beijou. Devagar, profundo, como se despejasse anos de calor, mĂĄgoa e devoção na minha boca. Derreti sob ele, sob os dois. As mĂŁos de Caelum deslizaram para baixo, passando por baixo da camisa que eu tinha roubado, encontrando o calor entre minhas coxas como se aquele fosse seu lugar â porque era.
Gemi no beijo de Gavriel quando os dedos de Caelum deslizaram para dentro de mim, lentos e certeiros, curvando-se no ponto certo. Meus joelhos fraquejaram, mas eles estavam lĂĄ, como sempre, me segurando. Dois deuses forjados em carne. Meus protetores, minha ruĂna. Eu era fogo selvagem em suas mĂŁos, e eles nĂŁo temiam a queimar.
â Eu preciso⊠â tentei dizer, mas Gavriel engoliu as palavras com um beijo que roubou o ar dos meus pulmĂ”es.
â NĂłs sabemos do que vocĂȘ precisa â murmurou contra meus lĂĄbios, a voz aveludada e quente.
O rosnado de Caelum vibrou baixo no meu ouvido, carregado de fome. â Deixe a gente tirar isso de vocĂȘ, rainha. Deixe a gente tomar tudo.
Ele retirou os dedos com uma lentidĂŁo deliberada e molhada que me fez gemer, e entĂŁo Gavriel segurou minhas mĂŁos, seu sorriso sombrio e conhecedor enquanto me puxava gentilmente para dentro do quarto. Mas nĂŁo me deixaram chegar atĂ© a cama â ainda nĂŁo.
Ficamos Ă beira dela, meu peito subindo e descendo rĂĄpido. Caelum voltou a se posicionar atrĂĄs de mim, os dedos deslizando de volta para dentro, mais fundo dessa vez. Meu gemido escapou, cru e necessitado, enquanto minha cabeça caĂa contra seu ombro.
â VocĂȘ estĂĄ encharcada â sussurrou, mordiscando de leve meu pescoço. â TĂŁo pronta para nĂłs.
Gavriel se ajoelhou Ă minha frente, adoração em cada movimento. â Deixe eu te provar, amor. â Ele tirou minha camisa com um movimento suave, seu olhar me devorando como se eu fosse a coisa mais sagrada que jĂĄ tinha visto. EntĂŁo sua boca seguiu o caminho dos dedos de Caelum, a lĂngua quente e implacĂĄvel enquanto me lambia, me sugava, me devorava.
Minhas mĂŁos voaram para seu cabelo enquanto ele gemia contra mim, como se o meu gosto o enlouquecesse.
Caelum sussurrou no meu ouvido, baixo e ĂĄspero. â VocĂȘ carrega peso demais. Sempre tentando ser forte. Deixe a gente carregar. Deixe a gente te desmontar.
Sua mĂŁo livre veio atĂ© meu mamilo, rolando-o entre os dedos atĂ© deixĂĄ-lo duro. NĂŁo consegui conter o som que escapou da minha garganta â algo entre um soluço e um gemido.
Eles me conheciam bem demais.
A lĂngua de Gavriel se movia em cĂrculos perfeitos e implacĂĄveis no meu clitĂłris, perversa. NĂŁo consegui me segurar â me despedacei, gritando os nomes deles, as coxas tremendo enquanto o orgasmo me atingia como um raio. Cortante. Devastador. Puro.
Mas eles nĂŁo tinham terminado.
Beijaram e reivindicaram cada centĂmetro da minha pele como se lhes pertencesse â porque pertencia. Eu era o fogo deles, e eles precisavam queimar.
Quando me levaram para a cama, eu tremia, sem fĂŽlego, desfeita.
Suas mãos percorreram meu corpo, mapeando-me de novo, como se jå não conhecessem cada caminho. Provocando. Despertando. Acendendo cada nervo até que eu me contorcesse sob eles.
â Preciso de vocĂȘs â sussurrei, a voz destruĂda. E foi o suficiente.
Caelum se posicionou atrĂĄs de mim, entrando em mim com uma estocada longa e lenta que me fez gritar. Sua mĂŁo se enroscou no meu cabelo, puxando o suficiente para que eu arqueasse as costas contra ele.
â Porra, Eve â rosnou. â VocĂȘ Ă© o paraĂso.
Gavriel me beijou durante tudo, lento e profundo, seus dedos encontrando meu clitĂłris de novo enquanto Caelum se movia dentro de mim.
â Goze para nĂłs, rainha â Gavriel sussurrou contra meus lĂĄbios, reverente.
E eu gozei. Me despedacei de novo, o prazer me atravessando como uma onda, me arrastando para baixo. Meu corpo pulsou ao redor de Caelum, e com um gemido, ele me acompanhou, estocando fundo enquanto gozava com meu nome nos lĂĄbios.
Mas eu nĂŁo tinha terminado.
Desabei na cama, sem forças, mas Gavriel jĂĄ estava ali â duro e pronto, os olhos cheios de fogo. Ele entrou em mim com um gemido que vibrou em nĂłs dois, me preenchendo por completo.
â VocĂȘ Ă© perfeita â sussurrou. â TĂŁo perfeita pra caralho.
Meu corpo estava sensĂvel, elĂ©trico, cada terminação nervosa acesa. E eles sabiam exatamente como me desmontar.
Os dedos de Caelum roçaram meu clitóris de novo, gentis mas certeiros. Minhas costas arquearam quando outro orgasmo me atingiu, e apertei Gavriel com tanta força que arranquei um grito abafado dele.
â Eve⊠porra⊠vou gozar⊠â ele ofegou, e entĂŁo se derramou dentro de mim, o corpo tremendo sobre o meu, a boca pressionada no meu ombro.
E naquele momento, envolvida pelo calor deles, marcada por suas bocas, mĂŁos e amor, acreditei.
Por um instante, a tempestade dentro de mim se acalmou.




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