Chapter 1
Frankie
A maioria das pessoas diria que acordar nua em uma suíte de hotel em Vegas com um estranho é sinal de que você perdeu completamente a cabeça.
Mas o problema é que eu nunca afirmei ser sã.
Sanidade é para mulheres como minha irmã, Abigail. Obediente. Polida. Programada desde o nascimento para dizer as coisas certas, usar o sorriso certo, casar com o homem certo.
Eu não.
Eu era a rebeldia coberta de glitter. O dedo do meio em riste dentro de uma tiara de diamantes. A herdeira que pulou a janela aos dezesseis anos só para andar na garupa da moto de um Hell’s Angel, só para sentir o gosto da liberdade e o vento no rosto.
E ainda assim, isso… isso é um novo nível de caos.
Minha cabeça está martelando, como se eu tivesse bebido tequila e seguido com arrependimento. Sinto uma dor latejante atrás do meu olho direito, minha língua está seca como cinzas, e minhas pernas estão presas em um emaranhado de lençóis de seda que não são meus.
A cama tem cheiro de sexo. De pecado. Um perfume caro misturado com o meu, uma fragrância inebriante demais para ser segura.
E o homem ao meu lado.
Puta que pariu.
Eu não grito. Fui treinada bem demais para isso. Bailes de debutantes. Galas de caridade. Incontáveis fins de semana em escolas de etiqueta na França. Minhas reações são privadas. Contidas. Como cicatrizes escondidas sob roupas de alta costura.
Mas meu estômago revira violentamente no momento em que o vejo.
Fico sem fôlego. Porque… ok, caralho.
Ele é lindo.
Tipo, seriamente lindo.
Mesmo meio coberto por um lençol e jogado no colchão como uma maldita escultura renascentista, o homem é um pecado vivo. Cabelo escuro. Tatuagens. Um braço jogado sobre o rosto, como se a luz que entra pelas cortinas blackout estivesse incomodando ele. Peitoral largo em total exibição. Definido. Com o tipo de musculatura que diz que ele não precisa ir à academia — ele é dono da porra da academia. Barba por fazer, maxilar forte, lábios que eu ainda consigo sentir na minha pele se eu pensar demais —
Tem uma leve marca de mordida no pescoço dele e um borrão de batom na curva da garganta. O meu batom.
E graças a Deus, porque pelo menos eu não fui para casa com algum universitário bêbado ou um gerente de fundo de investimento desesperado e careca. Nada de óculos de grau da embriaguez. Nenhum erro vergonhoso.
Ele é mais velho. Refinado, daquele jeito perigoso e poderoso que indica que ele tem pessoas que abrem portas para ele e, provavelmente, um passado pavimentado com regras quebradas e maxilares quebrados. Ele é o tipo de homem sobre quem as garotas sussurram. Aquele que você não apresenta para seus pais — você leva para casa para estragar sua vida e destruir sua alma só pela experiência.
Minhas coxas estão doloridas.
Meus lábios estão inchados.
Com certeza eu transei com ele.
E por um segundo fugaz, sinto-me convencida para caralho.
Pelo menos foi com ele.
Então eu vejo.
Uma aliança de ouro.
No dedo dele.
Meu estômago despenca com tanta força que sinto como se ele tivesse ficado para trás. Minha coluna trava inteira.
Não. Não, não.
Eu encaro aquele anel simples como se fosse uma arma maldita.
Ele é casado.
Oh, meu Deus. Eu dormi com um homem casado.
A euforia de dois segundos atrás evapora. O pânico detona no meu peito.
Eu me afasto num pulo, como se ele fosse contagioso. Nem consigo pensar, não consigo respirar com o nó de horror na minha garganta.
Minha pele se arrepia. Meu coração falha. Não sei se quero gritar, vomitar ou me esfregar até arrancar a pele.
Eu não sou esse tipo de garota. Sou imprudente, sim. Selvagem? Com certeza. Já quebrei regras, corações e talvez algumas leis — mas eu não transo com homens casados.
Oh, Deus.
“Nem fodendo”, sussurro, o pânico virando raiva ao olhar de volta para o rosto presunçoso e adormecido dele.
“Ei!”, disparo, empurrando o ombro dele.
Nada.
Pego o travesseiro e bato nele.
“Acorda logo, seu pedaço de merda nojento!”
Ele geme, rolando para o meu lado — e é aí que eu dou um chute nele. Forte. Bem na costela. “Tira sua bunda traidora dessa cama!”
“Que porra é essa?”, a voz dele está rouca, pesada de sono e confusão. Ele franze a testa, um braço se curvando protetoramente em volta do torso enquanto pisca para mim. “Você está falando sério...?”
“Você é casado?!”, grito. “Porque se for, juro por Deus que eu acabo com você. Vou fazer sua esposa parecer uma vilã da Disney e serei a princesa que ela nunca viu chegando.”
Ele pisca de novo. “O quê?”
“Não se faça de idiota comigo, babaca. Estou vendo a aliança. Esqueceu de tirar antes de me foder? Ou isso é coisa sua? Algum joguinho doentio — pegar uma garota bêbada e torcer para que ela esteja chapada demais para notar que você é um canalha traidor?!”
Minha pele se arrepia só de estar na cama com ele. Antes que eu consiga pensar, já estou saindo da cama e levando o lençol comigo.
Ele geme de novo, semicerrando os olhos como se a luz estivesse espetando facas em seu crânio. “Jesus Cristo, dá para parar de gritar?”
“Não até você responder à pergunta!”, grito de volta, andando de um lado para o outro como um bicho enjaulado. “Você é casado?”
“Você é casado?”, grito novamente, com a voz esganiçada, minhas mãos apertando o lençol com mais força contra o peito.
Ele geme, sentando-se com uma careta, passando as duas mãos pelo rosto como se estivesse tentando fisicamente apagar minha voz da cabeça dele. “Não.”
Uma palavra. Ríspida. Cortante. O som de um homem perdendo a paciência — e não do tipo que perde silenciosamente.
Então ele se move.
Sai da cama.
Completamente nu.
Sem nem um segundo de hesitação.
Solto um som estrangulado e viro metade do corpo, olhos arregalados enquanto tento não olhar — e imediatamente falho.
Jesus Cristo.
Ele é enorme. E não apenas da forma que meu cérebro, infelizmente, registrou. Cada centímetro dele é definido em linhas afiadas, músculos duros, contornos brutais. Não há um traço de suavidade nele. Nem no corpo. Nem nos movimentos. Nem na porra da alma dele, claramente.
As costas dele se contraem enquanto ele atravessa o quarto, ombros largos, tatuagens serpenteando por um lado como uma armadura de tinta. O andar dele é natural e aterrorizante — como o de alguém que sabe que ninguém no mundo é estúpido o suficiente para arrumar confusão com ele.
Ele abre o frigobar com um puxão, pega uma garrafa de água e gira a tampa num movimento só.
Bebe.
Três longos goles.
Ainda porra de nu.
Ainda sem olhar para mim.
E eu não consigo parar de olhar para ele. Meu cérebro está em colapso, mas meu corpo? Meu corpo está excitado, profundamente confuso e a um olhar de distância de me trair completamente.
“Dá para vestir uma calça?”, disparo, furiosa comigo mesma por notar qualquer coisa nele além do fato de que ele é um bastardo traidor e possivelmente um serial killer.
Ele termina de beber e limpa a boca com as costas da mão, finalmente virando-se para me encarar.
“Não”, diz ele simplesmente.
Meu queixo cai. “Como assim, não?”
“Quero dizer não”, ele rosna, jogando a garrafa vazia na pia com um barulho seco. “Não vou me vestir como um debutante só porque você está fazendo birra.”
“Um tantrum?!” Eu gaguejo. “Você está falando sério ao chamar isso de tantrum?”
Ele se vira totalmente para mim agora, com os braços levemente abertos, como se estivesse me desafiando a continuar. “Como você chamaria isso?”
“Eu chamaria de uma reação justificada por acordar ao lado de um homem casado que eu nem conheço!”
Ele se encolhe levemente. O suficiente para eu notar. Mas não por culpa — por confusão.
“Casado?” A voz dele está afiada agora, cortando o ar como uma lâmina. “Do que porra você está falando?”
Eu aponto, tremendo de fúria. “Você está usando uma aliança, seu psicopata!”
Ele levanta uma mão, depois a outra, as sobrancelhas se unindo enquanto seu olhar cai sobre o dedo anelar da mão esquerda.
A aliança brilha na luz.
Um silêncio lento e pesado se instala entre nós.
“Que porra é essa?” ele murmura, encarando o anel como se ele tivesse surgido do nada.
“Ah, agora você vê?” eu disparo. “Você seriamente não percebeu isso até agora?”
Seu maxilar trava e seus olhos se estreitam. “Não.”
“Você acha que eu estou gritando só por diversão? Que estou inventando isso?”
Ele ainda está encarando sua mão, virando-a lentamente, mexendo os dedos como se pudesse fazer a aliança desaparecer.
“Eu não uso joias”, ele diz secamente, mais para si mesmo. “Eu nem sequer tenho uma aliança.”
“Bom, parabéns pra porra, agora você tem.” Eu jogo o travesseiro mais próximo nele. Ele rebate no peito dele e cai aos seus pés.
Ele não reage. Nem pisca.
“Você não é casado?” eu insisto, minha voz subindo novamente. “Você está seriamente me dizendo que não se lembra de ter colocado isso? Ou da parte em que você subiu na cama comigo e — ah, eu não sei — fez sexo com uma total estranha?”
“Eu não me lembro de porra nenhuma”, ele dispara, sua voz cortando a minha com uma finalidade afiada como aço. “Eu não me lembro de chegar aqui. Eu não me lembro de você. E, porra, eu com certeza não me lembro de ter colocado uma aliança no meu dedo.”
Eu cambaleio para trás como se ele tivesse me batido.
Ele passa a mão pelo cabelo, murmurando algo entre dentes enquanto caminha até a cômoda e começa a puxar as gavetas. “Onde, caralho, está meu telefone?”
“Você acha que eu estou com ele?” eu disparo, ainda apertando o lençol como se fosse a única coisa que me prendia à realidade. “Eu nem estou de calcinha, cara.”
Ele faz uma pausa. Olha para mim. Realmente olha para mim agora. Para o lençol enrolado em meu corpo e para os hematomas em minhas coxas.
Eu vejo o momento em que a ficha cai.
Seus olhos ficam mais intensos. Seu maxilar endurece.
“Nós transamos.”
Eu jogo as mãos para o alto. “Parabéns, Sherlock.”
Ele não recua. Nem parece abalado pelo fato de que nenhum de nós se lembra disso.
Apenas frio.
Calculista.
Como se ele já estivesse dois passos à frente, resolvendo um problema do qual eu nem sabia que fazia parte.
Meu cérebro é uma tempestade de pânico, e ele está ali parado como se estivesse acima dos raios. Sua calma absoluta em contraste com meu colapso total me faz querer gritar mais alto — arrancar o maldito papel de parede só para sentir que tenho controle sobre alguma coisa.
“Você pode...” eu gaguejo, então pressiono a palma da mão na testa. “Você pode, por favor, colocar alguma roupa?”
Ele se vira, com a sobrancelha arqueada como se eu tivesse acabado de pedir para ele fazer uma cirurgia no cérebro.
“Eu não consigo te levar a sério com seu pau aparecendo”, eu disparo, cortando as palavras como se fossem vidro. “Isso distrai.”
Um músculo salta no maxilar dele.
“Sério?” Eu gesticulo para ele com uma mão e aperto o lençol com a outra. “Você sempre discute totalmente nu?”
Ele não se digna a responder. Apenas caminha, lento e com passos pesados, pelo quarto em direção a uma pilha de roupas descartadas. Nem um sinal de modéstia. Apenas abdômen. Tatuagens. E o jeito confiante de um homem que é temido há mais tempo do que é admirado.
Ele se abaixa, pega uma cueca box preta e a veste como se estivesse me fazendo um favor.
“De nada”, ele murmura sem olhar para trás.
“Ah, você é um verdadeiro cavalheiro”, eu disparo. “A cavalheirismo não morreu — ele só está parado aqui, meio excitado e de ressaca.”
Ele me lança um olhar fulminante por cima do ombro. “Acredite em mim, querida. Tenho certeza de que você não estava reclamando disso ontem à noite.”
Eu inspiro bruscamente. “Eu não me lembro da noite passada.”
“Nem eu”, ele murmura. “O que significa que temos um problema maior do que sua indignação moral com a minha nudez.”
“É”, eu respondo. “Tipo como, diabos, eu acabei em uma cama com um homem que parece que estrangula pessoas para viver.”
“Eu não estrangulo pessoas”, ele diz calmamente, vestindo calças de moletom escuras, baixas nos quadris. “Não a menos que elas mereçam.”
“Jesus Cristo.”
Ele abre o frigobar novamente, pega outra garrafa de água — nem tenta me oferecer uma — e a vira como se fosse a única coisa que o mantinha ligado à realidade. Meus olhos voltam para a mão dele. A aliança ainda lá. Ainda brilhando como um aviso.
“Isso não faz sentido”, eu murmuro, mais para mim mesma. “Por que um homem casado dormiria com uma estranha?”
“Eu já te disse”, ele dispara, jogando a garrafa no balcão. “Eu não sou casado.”
Eu rio com deboche. “Então explica a porra da aliança.”
Ele se vira, seus olhos percorrendo meu corpo como um calor lento — e então ele dá um sorriso de lado. Uma torção sombria e sem humor em seus lábios.
“Essa é boa”, ele murmura, acenando para a minha mão. “Considerando que você está usando uma também.”
Meu estômago afunda.
“O quê?”
Ele gesticula com preguiça, como se estivesse cansado demais para lidar com o quão estúpidos nós dois claramente somos. “Mão esquerda. Dedo anelar. Uma puta pista.”
Eu olho para baixo.
E lá está.
Brilhando. Zombando. Uma aliança de ouro simples, bem ajustada ao meu dedo, como se sempre tivesse pertencido ali.
“Não”, eu sussurro, levantando a mão como se estivesse infectada. “Não, não, não, não — não.”
O ar sai de mim em um suspiro curto e quebrado. Minha visão escurece nas bordas. Eu cambaleio um passo para trás, quase tropeçando no lençol enrolado em meu corpo.
“Viu?”, ele diz, com a voz tensa e seca. “Não sou só eu.”
Eu balanço a cabeça. “Isso não é possível. Isso não é porra de verdade.”
Ele cruza os braços. “Começando a achar que nós não apenas transamos, princesa.”
“Não”, eu grito. “Não diga isso.”
Ele dá de ombros, então murmura entre dentes: “Vegas.”
Essa única palavra atinge como um soco no peito.
Meus olhos vão direto para a mesa de cabeceira — gavetas meio abertas, papel espiando para fora. Algo grosso. Dobrado. Com aparência oficial.
Eu me inclino para frente, pegando-o com as mãos trêmulas.
E quando eu o desdobro, o mundo para.
Certidão de Casamento
Francesca Moreno
Matteo Romano
Silêncio.
Denso. Sufocante.
Eu balanço onde estou, piscando para o papel como se fosse uma bomba prestes a explodir em minhas mãos.
Ele pega de mim lentamente, examina.
Um suspiro lento e brutal deixa seus pulmões.
Então, secamente —
“Bom. Porra.”