Capítulo 1 - Floresta Proibida
Ponto de vista de Aris
Dizem que, no fundo da floresta amaldiçoada, uma flor floresce uma vez por ano.
Ela brilha intensamente o suficiente para realizar um único desejo.
E é perigosa o suficiente para roubar seu último suspiro.
Talvez eu tenha sido tolo por acreditar em algo assim. Talvez perseguir lendas tenha sido imprudente.
Mas se aquela flor pudesse me libertar desta vida, eu enfrentaria quaisquer espinhos que ela tivesse.
O ar da noite mordia minha pele, frio e cortante. Puxei meu manto para mais perto, rezando para que ele escondesse o som do meu coração, que batia como um tambor de advertência em meu peito. Mas eu não podia voltar atrás. Não quando já tinha passado dos muros do palácio.
Eu estava descalço. Sem fôlego. Desesperado.
Ao amanhecer, eu completaria dezoito anos.
E, por lei, meu lugar seria decidido.
Guarda do palácio.
Funcionário.
Soldado.
Ou talvez, um conselheiro. Eu tinha feito o teste. Eu poderia passar. Mas o que isso importaria?
A ideia de ficar de guarda perto daqueles nobres que bebiam sangue fazia meu estômago revirar. Mas sentar atrás de pergaminhos, sussurrando nos ouvidos de monstros, não era muito melhor.
Nenhum desses papéis foi feito para alguém como eu.
Porque eu não era quem o mundo pensava que eu era.
Desde o dia em que nasci, meu pai decidiu que eu seria um filho. Não por amor ou tradição, mas por medo. Ele contou a todos que eu era um menino. Isso era mais seguro. Mais esperto. Então, eu me tornei um. Pelo menos por fora.
Nunca usei o cabelo comprido. Nunca aprendi a trançá-lo ou a prendê-lo com seda. Ele sempre foi curto, rente ao meu pescoço, o suficiente para enganar. A garota que eu era morreu no momento em que recebi meu nome. Enterrada sob regras, sob mentiras, sob necessidade.
Ninguém, nem o palácio, nem nossos vizinhos, sabe o que eu realmente sou.
Apenas Aris, o menino. Aris, a sombra.
Mas esta noite, sob a cobertura da escuridão, eu não era nada disso.
Eu era apenas uma garota atrás de um boato, porque essa talvez fosse minha única chance.
Ouvi a história sussurrada pelos rapazes mais velhos. Uma flor que realiza o desejo mais profundo de quem for corajoso o suficiente para encontrá-la. Escondida além das linhas vigiadas da floresta amaldiçoada.
Se apenas uma parte disso for verdade...
Se houver pelo menos a menor esperança de que eu possa escolher quem serei...
Então, que as criaturas da floresta venham atrás de mim.
Que tentem.
Porque eu estive fugindo de mim mesmo por muito tempo e, esta noite, estou correndo em direção a algo.
Um milagre. Uma escolha. Uma vida que finalmente possa ser minha.
A floresta estava densa de névoa, as árvores retorcidas como garras contra o luar. Cada estalo de folhas secas sob meus pés me fazia estremecer. Ainda assim, segui em frente, uma mão segurando a borda do meu manto, a outra afastando os galhos.
Mas, quanto mais fundo eu caminhava, mais o silêncio me oprimia.
Nenhum som. Nenhum vento. Nenhuma criatura.
Apenas minha respiração e o medo crescente que se enrolava dentro de mim.
Minutos se passaram. Talvez horas. Não sei. Mas então eu a vi.
A mesma árvore torta. O mesmo pedaço de grama prateada. O mesmo galho quebrado por cima do qual eu tinha passado antes.
Não.
Não, não, não.
“Eu andei em círculos”, sussurrei, com o coração afundando. “Estou perdido.”
O pânico subiu pela minha garganta. Dei meia-volta, procurando por qualquer sinal, qualquer marco que ainda não tivesse me traído.
“O que eu faço?”, murmurei, com a voz agora trêmula. “O que eu...”
Virei-me e dei de cara com algo sólido.
Não. Alguém.
Um suspiro escapou da minha garganta enquanto eu cambaleava para trás, mas braços fortes me seguraram sem esforço. Minhas mãos instintivamente se estenderam, agarrando seus antebraços — duros, frios, inflexíveis.
E então eu olhei para cima.
O luar filtrava-se pelo dossel acima, lançando sombras nítidas sobre seu rosto.
Prendi a respiração.
Ele era bonito da maneira mais perigosa. Olhos como obsidiana derretida, imóveis demais, indecifráveis demais. Um nariz esculpido com precisão cruel. Lábios cheios curvados em algo entre um escárnio e um sorriso, como se ele já tivesse visto através de mim.
Ele não era humano. Eu podia sentir.
Ele era imóvel demais, como uma estátua esculpida em algo mais antigo que o tempo.
Silencioso demais, como se a própria noite se curvasse ao redor dele.
No controle demais, como se nada pudesse tocá-lo sem permissão.
Seus olhos não se moviam. Eles me mantinham ali, como correntes envoltas em veludo.
Então, seus lábios se abriram.
“Quem é você?”
A pergunta foi baixa. Quase um sussurro. Mas carregava um peso que tornava o ar mais pesado.
Sua voz era áspera, profunda e perturbadoramente calma, como fumaça subindo pelas frestas de um incêndio ainda não visto.
Não era alta.
Não precisava ser.
Ela deslizou pela minha espinha como gelo.
Minha garganta ficou seca.
Meu corpo inteiro tencionou enquanto eu me soltava de seu aperto. Ele me largou sem resistência, como se só tivesse me segurado porque eu permiti.
Dei alguns passos para trás, com o coração acelerado e a respiração curta. A distância entre nós parecia pouca. Pequena demais.
“V-você não deveria estar aqui”, eu disse, forçando minha voz a ficar mais grossa e áspera. “Esta área é proibida.”
Minhas palavras tremeram, patéticas até para os meus próprios ouvidos. Mas me forcei a encontrar seu olhar, fingindo que eu não tinha encolhido de medo.
Ele arqueou uma sobrancelha lentamente, como se eu o tivesse divertido. Ou talvez insultado. Não conseguia dizer. O canto da boca dele se elevou, mas não era um sorriso.
Não.
Era algo mais sombrio. Algo cruel. Um aviso envolto em veludo.
“É mesmo?”
Sua voz era baixa, tingida de divertimento, mas carregava aquele mesmo peso, como se a própria gravidade se curvasse ao seu redor.
Minha espinha se enrijeceu. Minhas mãos se fecharam em punhos ao lado do corpo.
“Você será preso”, eu disse, levantando o queixo com uma bravata que não chegava às minhas pernas trêmulas. “Estar aqui é uma violação da lei do palácio.”
Isso o fez sorrir de verdade, de forma lenta e letal.
“Você quer dizer que você vai me prender?”
Antes que eu pudesse responder, ele deu um passo à frente. Eu dei um para trás.
Ele deu mais dois. Silencioso. Seguro.
Busquei algo atrás de mim às cegas. Meus dedos se fecharam em torno da faca escondida no meu cinto, o cabo escorregadio de suor nervoso. Eu a puxei de forma desajeitada, apontando-a para ele com as duas mãos.
“Dê meia-volta”, eu consegui dizer, com a voz trêmula. “Eu tenho uma arma.”
Ele parou.
Então seu olhar desceu. Um vislumbre da minha empunhadura, e aquele sorriso arrogante retornou.
“Vá em frente, tente”, disse ele, com a voz mergulhada em seda e veneno.
“Mas se é assim que pretende me matar, com essa pegada ridícula, então estou decepcionado.”
Seus olhos subiram, travando nos meus, implacáveis.
“Já vi crianças segurando colheres com mais convicção.”
Meu estômago afundou.
Merda.
Eu pisquei e, naquele único batimento cardíaco, ele se moveu.
Rápido demais. Suave demais. Silencioso demais.
Antes que eu pudesse sequer gritar, minhas costas bateram na casca áspera de uma árvore. O ar fugiu dos meus pulmões.
Sua mão estava plantada ao lado da minha cabeça. Seu corpo pairava, a centímetros do meu. Eu não conseguia me mover, imobilizado não apenas pelo braço dele, mas pela força que ele emanava. Sua presença. Seu calor. Seu controle absoluto do momento.
Ele se inclinou, a cabeça inclinada apenas o suficiente para que o luar captasse as linhas nítidas de seu rosto.
Sua voz caiu para um sussurro, que arranhou a borda de algo proibido.
“Qual é o seu nome, garoto?”
Meu coração batia tão alto que eu tinha certeza de que ele podia ouvir. Sentir.
“Aris.”
Seus olhos escureceram. Ele não repetiu. Ele apenas deixou que o nome se assentasse.
"Por que você está aqui?"
Sua voz era baixa, mortalmente baixa. Sem gritos, sem rosnados, apenas falada como uma faca gentilmente colocada sobre a pele antes de cortar.
Abri a boca.
"Eu... eu..."
As palavras se enredaram na minha garganta como espinhos.
Porque como eu poderia explicar?
Que eu tinha vindo procurar uma flor que talvez nem existisse?
Que eu tinha arriscado a morte por um desejo?
Que eu era uma mentira envolta em coragem emprestada?
Seu olhar me queimava, prendendo-me ali como se eu fosse algo sob vidro. Eu não conseguia me mover. Não conseguia respirar direito. Seu braço ainda estava apoiado ao lado da minha cabeça, e o calor de seu corpo a centímetros do meu fazia meu pulso disparar.
Forcei-me a olhar em seus olhos.
Sombrios. Observadores. À espera.
Mas ele não estava impaciente, estava divertido. Como se já soubesse que eu estava prestes a mentir. Como se ele fosse gostar de ouvir.
"Você...?", ele incentivou, uma sobrancelha subindo apenas o suficiente para fazer o ar parecer mais rarefeito.
Fechei os punhos ao lado do corpo. “Eu... eu ouvi... que há algo na floresta.”
Sua expressão não mudou, mas o ar ao redor dele sim. Ficou mais pesado. Imóvel.
"Algo?"
“Uma flor”, sussurrei. “Disseram que ela realiza desejos.”
Silêncio.
Então ele riu. Uma vez. Baixo, agudo e sem uma gota de bondade.
“Então você veio até aqui”, disse ele, com a voz se enroscando nas palavras como fumaça, “em território restrito... apenas para perseguir contos de fadas?”
Enrijeço. “Eu não quis dizer—”
"Você não pretendia ser pego."
Ele se inclinou mais. Eu recuei para a casca da árvore, mas não havia mais para onde fugir.
“Diga-me, Aris”, disse ele, com a voz caindo para um sussurro baixo enquanto seus lábios roçavam meu ouvido, “o que você veio buscar aqui desejando tanto a ponto de estar pronto para morrer por isso?”
Fechei os olhos, lutando contra o rubor que subia às minhas bochechas e as palavras que ameaçavam escapar. Minha garganta apertou com o esforço de não falar.
Liberdade, eu queria dizer.
Escolha. Uma vida só minha.
Mas permaneci em silêncio.
Quando abri meus olhos novamente, ele recuou o suficiente para ver meu rosto — perto, mas ainda fora de alcance. Captei o brilho fraco em seus olhos, como brasas brilhando profundamente em um fogo escuro. Ele me estudou lentamente agora, como um caçador decidindo se sua presa valia a perseguição.
Suas próximas palavras arranharam minha espinha.
“Você é um mentiroso terrível.”
Minha respiração falhou.
Eu deveria ter olhado para o outro lado. Deveria ter pedido desculpas ou corrido. Mas o calor em meu peito se transformou em algo teimoso, e eu retruquei.
“Eu poderia te perguntar a mesma coisa”, disparei, com a ousadia tornando minha voz mais aguda. “Por que você está aqui?”
No momento em que as palavras escaparam, o arrependimento brilhou na borda da minha mente.
Ele inclinou a cabeça levemente, como se surpreso com minha audácia. Seus lábios se curvaram em algo sombrio e indecifrável.
“Você faz perguntas como se tivesse direito a respostas”, disse ele, com a voz baixa e suave. “Mas este lugar... não é seguro para você.”
Minha garganta apertou. Meu coração trovejou, mas encarei seu olhar.
Ele deu um passo mais perto, e senti a casca da árvore pressionar minhas costas novamente.
“Estou aqui porque quero estar”, disse ele calmamente, com a voz carregando uma autoridade silenciosa, sem revelar nada. “Sem contos de fadas. Sem desejos.”
Então, seus olhos se estreitaram um pouco, algo perigoso cintilando ali.
“E agora”, ele acrescentou, com a voz caindo, “tenho uma distração que não esperava.”
Eu congelei.
Uma distração?
Sua respiração roçou meu ouvido, quente e fria ao mesmo tempo.
“Vá para casa, garotinho”, sussurrou ele, com a voz baixa e marcada por algo perigoso. “Antes que eu decida manter você aqui.”
Não precisei ouvir duas vezes.
Com o coração batendo como um tambor em meu peito, virei nos calcanhares e corri — meus pés mal tocando o chão, os pulmões ardendo a cada respiração desesperada.
Estranhamente, a floresta parecia se abrir para mim. As sombras não se emaranhavam mais como antes. Meus pés conheciam o caminho de casa o tempo todo.
Antes que eu percebesse, a floresta amaldiçoada estava para trás, e o ar frio da noite enchia meus pulmões. Eu não estava perdido afinal.
Mas algo tinha mudado.
Algo dentro de mim sussurrou que aquilo era apenas o começo.