A Lenta Conquista da Sua Queen Luna

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Resumo

Elira Aurelain só conheceu o sofrimento — até descobrir que é a companheira de Caelan Virelden, o Alpha King da Corte Ocidental. Entre lobos ligados pelo poder, pelo sangue e pelo destino, o vínculo deles é tanto sua salvação quanto seu maior perigo. Enquanto sussurros de traição e segredos ancestrais surgem, Elira precisa decidir se tem força para assumir seu lugar como Queen Luna… ou ser destruída pelo mesmo mundo que deveria ter sido dela.

Gênero
Romance
Autor
Dani
Status
Completo
Capítulos
50
Classificação
4.9 7 avaliações
Classificação Etária
18+

Dor

Elira

Ai.

Tudo doía.

Eu estava deitada no meu quarto — se é que aquele cubículo de madeira podre merecia esse nome — com sangue escorrendo de um corte fresco acima da têmpora direita. O chão frio e irregular pressionava minha bochecha. Era o único alívio que eu tinha. A visão embaçava, riscada de vermelho enquanto o sangue escorria para dentro do meu olho. Nem me dei ao trabalho de limpá-lo.

A vidraça rachada da minha única janela me dava vista para o velho relógio da torre lá embaixo. 2h37 da madrugada.

O mundo lá fora estava parado, quieto. Zombando de mim.

Não havia mais barulho na casa. Nada de gritos. Nada de socos. Só silêncio. Um silêncio que sempre vinha depois da tempestade. Não era paz — era o silêncio cruel da sobrevivência.

Meu pai estava furioso naquela noite.

Eu não tinha trazido dinheiro suficiente.

Quando isso acontecia, ele compensava com dor. Uma "dívida", como ele chamava. Sempre devida. Sempre punida.

E minha mãe? Ela era a leiloeira da minha alma. Desde os treze anos, todas as noites, ela me vendia para quem pagasse mais.

Essa era a idade em que ganhávamos nossos lobos. A idade em que nos tornávamos "adultos" na sociedade dos lobisomens. Deveria ser um rito de orgulho. De transformação.

Mas, em vez disso, minha primeira transformação foi marcada pela primeira vez em que fui vendida. A primeira vez em que alguém me tocou como se eu não passasse de uma mercadoria.

Havia leis. Claro que havia leis. O que faziam comigo — o que aqueles homens e, às vezes, mulheres faziam — era ilegal, até entre lobisomens.

Mas quem acreditaria na garota do sótão? Eu tentei uma vez. Contei a verdade.

Uma colega de turma tinha visto um hematoma no meu pulso e perguntou com cuidado. Eu contei. Sussurrei a verdade, como se ela pudesse me despedaçar. Ela contou para a orientadora da escola, que chamou a polícia, que acionou o Conselho Tutelar.

Eles vieram. Andaram pela casa. Mas nunca viram a verdade.

Porque meus pais tinham um palco.

Nossa casa era linda.

Vitoriana, coberta de hera por fora. Por dentro, parecia saída de uma revista — móveis elegantes, bancadas de granito, flores frescas.

Eles tinham um quarto preparado para inspeção. Um "quarto" impecável, com bichos de pelúcia, uma colcha rosa e uma estante cheia de clássicos que eu nunca tinha lido.

O Conselho Tutelar acreditou neles. Sempre acreditavam. Eles viam uma família perfeita. Nunca viam o sótão. Onde eu realmente morava.

Meu "quarto" não passava de um cubículo. Frio no inverno, abafado no verão. O ar cheirava a mofo e madeira velha. Eu dormia em um cobertor rasgado de oficina, manchado de óleo e sangue. Um pedaço de espuma tirado de um lixo — algumas manchas eram minhas, outras… eu preferia não saber.

Minhas roupas? Trapos. Puídos, rasgados, fedendo a abandono.

Mas, para a escola, eles me vestiam com marcas de luxo. Gucci. Versace. Ralph Lauren. Tons de rosa e roxo, macios e limpos. Tudo para fingir.

Uma vez, quando eu tinha seis anos, manchei uma camisa. Uma professora me deu um sanduíche de pasta de amendoim com geleia. Eu chorei. Não pela mancha — mas pelo pânico. Eu sabia o que vinha pela frente. Esfreguei na pia, desesperada, mas a marca não saía.

Saí da escola naquele dia tentando chegar em casa antes dos meus pais. Não consegui. Naquela noite, eles me bateram tanto que mal conseguia me mexer.

No dia seguinte, foram à escola e convenceram a direção a demitir a professora — por me dar um sanduíche. Disseram que eu tinha alergia a amendoim.

A senhora V. Ela era gentil. Sempre carinhosa. Nunca forçava, mas sabia. Olhava para mim com uma tristeza silenciosa, como se quisesse me salvar, mas não soubesse como. Ela sabia dos inúmeros casos do Conselho Tutelar que tinham sido arquivados. O sistema estava falhando.

Eu queria que ela tivesse tentado mais, mas nunca a culpei.

Lobos se curam rápido. Até de manhã, os hematomas somem. Geralmente. Mas se me batiam tarde da noite — quando eu já estava exausta — às vezes a cura demorava. Foi o que aconteceu com o hematoma no meu pulso.

Eu não podia tomar banho dentro de casa. Eles diziam que eu sujaria o chuveiro. Usava uma mangueira no quintal. O lugar era cercado por uma parede alta de madeira, sem frestas, sem chance de ser vista.

Não podiam me deixar cheirando a sujeira na escola. Ou na frente dos "clientes". Não dá para vender uma garota quebrada que fede ao que ela é.

O cliente daquela noite foi pior que o normal. Fiz tudo o que ele pediu. Chupei ele, mesmo fedendo a suor e podridão. Montei nele com força, como ele queria. Deixei que me batesse, me mordesse, puxasse meu cabelo. Finjo gemer quando ele mandava. E ainda assim — não era suficiente.

Ele reclamou. Disse que eu não estava "grata". Como se eu devesse agradecer. Os machucados físicos vão sumir até de manhã. Sempre somem, mas os emocionais… esses demoram mais. Mesmo quando eu me desligo durante. Tento me imaginar em outro lugar.

Sempre me vendiam para humanos. Criaturas doentes, nojentas, repugnantes. Eles nunca percebiam o quão rápido a gente se cura.

Tenho vinte e três anos. Dez anos disso.

Tentei fugir uma vez.

Me trancaram por duas semanas. Uma tigela de água. Um balde. Um pedaço de pão por dia. Eles entravam todo dia — não para me alimentar, mas para me lembrar a quem eu pertencia. Nunca vou escapar. A não ser que eles morram.

Um destino pelo qual rezo todas as noites, para a Deusa da Lua. Ela nunca escuta. Nunca responde.

Ou pelo menos era o que eu pensava.

Uma noite, senti um cheiro no ar. Cedro e pinho. Quente. Confortante. Poderoso.

Ele me envolveu como segurança, como braços em que eu queria me afundar. Nunca forçado. Nunca imposto. Quase o segui.

Mas a voz do meu pai ecoou na minha cabeça. "Volte para casa com o meu dinheiro!" Ele sempre dizia.

Voltei para casa. Mas o cheiro ficou. Constante. Como se me seguisse. Como se se lembrasse de mim.

Entrei na casa. Eles pegaram o dinheiro. Me despiram. Me mandaram para cima. Nada de diferente de qualquer outra noite. Encolhi-me na espuma imunda e me agarrei àquele cheiro maravilhoso como se fosse uma tábua de salvação.

Pela primeira vez, deixei-me adormecer com um sorriso.

***

No dia seguinte, enquanto lavava a louça, minha mãe gritou para eu ir comprar vinho para um jantar. Um evento importante do trabalho do meu pai. Troquei de roupa — jeans preto justo, uma blusa Gucci, botas que apertavam meus pés — e fui até a loja da esquina com o cartão dela.

Escolhi uma garrafa de Riesling e um Pinot Grigio. Algo seco. Algo forte.

Então, senti o cheiro de novo. Intenso. Limpo. Másculo. Virei-me bruscamente, o coração disparado, os olhos vasculhando os corredores. Ninguém parecia familiar. Mas o cheiro estava em toda parte.

Meu corpo reagiu. Minha loba se mexeu. Eu não a sentia há anos. Pensei que ela tivesse morrido.

Mas agora…

Ela estava inquieta. Sussurrando.

Paguei, peguei o vinho e saí. O celular vibrou. "Onde você está, Elira?! Volte para casa agora!"

Suspirei e digitei: "Já estou indo. Tinha fila."

Depois, voltei para casa. Ignorando o chamado. De novo.

***

A festa começou. Meus pais me trancaram no sótão. Procedimento padrão. Os convidados foram chegando.

Eu conseguia ouvir as risadas, o tilintar das taças de vinho, o murmúrio da música baixa.

Então, o cheiro voltou.

Forte. Perto.

Apertei-me contra as frestas do telhado, tentando enxergar. Lá estava ele, perto da piscina.

Alto. Másculo. Olhos cor de mel derretido. Cabelo castanho-escuro penteado para trás. Ombros largos sob um terno bem cortado. Uma energia poderosa irradiava dele. Meu pai apertava sua mão.

— Muito obrigado, senhor Vexmoor. Não vou decepcionar o senhor!

— Não tem problema, Damon. E, por favor, me chame de Silas.

Silas.

Aquele nome ecoou dentro de mim. Ele tomava o vinho que eu tinha comprado, e meu coração batia dolorosamente. Esse homem — esse homem que cheirava a liberdade — conhecia meu pai. Trabalhava com ele.

De repente, ele olhou ao redor. Eu mal sussurrei "uau", mas ele reagiu. Os olhos procurando. Então… nossos olhares se encontraram. Pelas frestas do telhado.

Ofeguei e recuei para as sombras, o coração acelerado, a respiração trêmula.

Silas


Eu odiava esse tipo de festa. Conversa fiada corporativa. Sorrisos falsos. Papo furado. Mas o Damon insistiu. Disse que queria me agradecer pessoalmente.

Ele era um bom homem. Trabalhador. Quieto. Focado. O tipo de homem em quem se pode confiar. Tinha uma esposa — Mireya — e uma filha que eu nunca tinha conhecido. Elira. Eles falavam dela como se estivesse fora. Escola, amigos, sempre ocupada.

Eu admirava um homem assim. Um homem que construiu uma vida boa. Eu também queria uma. Mas não com qualquer uma. Estava esperando pela minha companheira. E ontem à noite — achei que a tinha encontrado.

Segui o cheiro dela até uma casa vitoriana deslumbrante.

Ela parecia ter tido uma noite difícil. Talvez tivesse saído para beber. Já passei por isso. Não me aproximei — só anotei o endereço. Devia ter olhado melhor. Para dizer que minha mente estava em outro lugar seria pouco. Eu queria encontrá-la hoje.

Mas hoje o trabalho engoliu minha agenda. Reuniões. Ligações. E agora, essa festa. Talvez amanhã eu voltasse.

O Damon me deu o endereço antes de sair. Agradeci e voltei para o computador. Queria me concentrar, mas não conseguia tirar aquela garota da cabeça. Talvez até fosse aos bares depois da festa. Podia dar sorte.

Olhei para o relógio e não percebi que duas horas tinham passado. Estava atrasado. Peguei minhas coisas, desliguei o computador, coloquei a mochila do notebook nas costas e desci para a garagem com cheiro de gasolina.

Digitei o endereço no GPS e parti para a festa. Não demorou muito para reconhecer as ruas.

Por fim, parei em frente à mesma casa. A casa do Damon. Droga, que sorte. Quando saí do carro, senti o cheiro dela de novo.

Lírio-d’água e pepino. Leve. Limpo. Inocente. Ele me envolveu como seda. Como destino. Hoje à noite, finalmente conheceria minha companheira. Estava eufórico. Minha vida ia realmente começar hoje.

Devo ter chegado com uma hora de atraso, mas, quando entrei, ninguém pareceu notar. Peguei uma taça de vinho no balcão. Riesling. Boa escolha.

Um vinho semisseco, deixando um toque fresco na boca. Um retrogosto de uva que deixava a gente querendo mais.

Embora estivesse ali pelo Damon, não me importava. Queria minha companheira. Observava cada mulher que passava. A quantidade de gente naquela noite fazia todos os cheiros se misturarem.

Ainda sentia o cheiro dela, mas não conseguia localizar exatamente de onde vinha. Então, o Damon finalmente me encontrou.

— Senhor Vexmoor! Que bom que conseguiu vir! — Ele sempre tinha um sorriso enorme no rosto.

— Ei, Damon! Não perderia por nada. Quer dizer, eu sou o motivo dessa festa. — Dei uma risada para aliviar o clima. — Brincadeira. Você mereceu a promoção.

Ele riu de volta.

— Onde está sua linda esposa hoje à noite? — Ele olhou ao redor até avistá-la.

— Ah, ali está. Está conversando com a Linda. A esposa do Carlisle. — Ele apontou.

— Nossa, ela é realmente linda. — Inclinei-me para perto, para que só nós dois ouvíssemos. — Como conseguiu uma companheira assim? — O Damon e eu éramos os únicos lobos que conhecíamos na festa ou na empresa. Isso nos deixava mais próximos que a maioria.

Temos uma alcateia, mas aqui fora a gente se vira sozinho. Reportamos ao Alfa uma vez por mês.

— Bom, tive sorte. Ela é uma mulher perfeita. — Rimos e brindamos.

— Falando em mulheres perfeitas, onde está sua filha hoje à noite? Elira, certo? — Vi sua boca se contrair levemente. Esperava não ter tocado em um ponto sensível.

— Ela saiu com amigas hoje. Queríamos que ficasse, mas a amiga dela, Melissa, veio de outra cidade. Não quis que perdesse a chance de vê-la.

Foi muito gentil da parte dele. Sei que muitos homens gostariam de ter a família toda presente. Principalmente lobos. Gostamos de mostrar união. Especialmente em momentos importantes.

— Bom, meu amigo, você mereceu esse momento. Parabéns.

— Muito obrigado, senhor Vexmoor. Não vou decepcionar o senhor!

— Não tem problema, Damon. E, por favor, me chame de Silas.

Então, senti um arrepio na espinha. Minha companheira estava me olhando. Só precisava me sintonizar com essa sensação. Minha cabeça girava, tentando localizá-la.

Por fim, meus olhos pararam na casa. Especificamente, no telhado. Que diabos?