A Deadly Doctor
“Dra. Angela Hasforth.” Angela sentou-se com as mãos sobre a mesa vazia à sua frente. Ela vestia uma calça e uma camisa cinzentas. Ela olhou para o homem que falava. Ele havia entrado onde ela estava sentada, esperando em uma das salas de interrogatório particulares que aquela prisão possuía.
Salas onde advogados conversavam com seus clientes — normalmente pessoas ricas que tinham dinheiro para mover pauzinhos e conseguir tais regalias, ao contrário da população em geral. Angela tinha dinheiro, mas isso não lhe serviria de nada. Ela não havia pedido essa reunião. Foi convocada sem chance de recusar. Talvez fosse algo útil, e pelo menos a tiraria de sua cela. Era bom dar um tempo de ficar encarando paredes.
Ela estava no corredor da morte, aguardando um recurso que não viria. Angela sabia que não venceria nem sairia da cadeia. O apelo servia apenas para tentar livrá-la da pena de morte, mas ela realmente não sabia o que a esperava do lado de fora daqueles muros. Lá fora, ela era rotulada como assassina.
Alguns condenavam suas ações, outros escreviam para ela diariamente, agradecendo-a. Acho que nunca sabemos o que se passa na cabeça dos outros. Alguém poderia tentar matá-la lá fora ou tratá-la como lixo. A questão era que, para ela, o mundo lá fora não era mais empolgante. Sua carreira tinha acabado, mas ela não se arrependia do que fez.
“Desculpe, eu não o conheço”, disse Angela. O homem deu um passo à frente, alto e elegante. Carregava uma maleta pequena que parecia bastante antiquada para os dias de hoje. Angela franziu a testa enquanto ele se sentava. Ele usava um terno bonito, que parecia caro. Também estava de óculos escuros, muito estranho.
“Você não conhece. Temos acompanhado o seu caso, nem um pingo de remorso pelas suas ações. Sete acusações de homicídio culposo, quatro assassinatos premeditados e uma acusação de agressão”, disse ele, puxando alguns papéis. Angela não respondeu. Quem era aquele cara e o que ele queria dela? Ela não precisava que suas acusações e condenações fossem repetidas. Ela estava ciente.
“Suas chances de conseguir uma redução de pena ou até mesmo sair do corredor da morte por meio de recursos são bem baixas. Por que não sente remorso pelo que fez, se me permite a pergunta? Isso às vezes pesa a favor. Eles gostam daqueles que se arrependem e veem a luz”, disse ele, enquanto organizava seus papéis. Angela suspirou.
“Se você acompanhou o meu caso, sabe o porquê. Ninguém vai derramar uma lágrima por aqueles que não levantaram da minha mesa. Motorista bêbado mata uma família, por que eu deveria me importar? Fiz o meu melhor. Um pai estuprou a filha e morreu bebendo a coisa errada, não vou perder o sono por isso”, disse Angela com rispidez. Em seguida, ela continuou, para que aquele homem soubesse que ela não ia implorar por nada a ninguém. Ela estava simplesmente limpando o lixo.
“Engraçado como um assassino ou pedófilo que morre na mesa faz da médica responsável uma assassina também. Ninguém se importa com esses homens, e se aqueles que me condenaram se importassem com a vida alheia, eu não estaria no corredor da morte. É hipócrita, se quer saber”, disse Angela. Embora ela não estivesse no corredor da morte pelas acusações de negligência que eles não conseguiram provar.
“Muito parecido com o seu Juramento de Hipócrates, não?” Ele perguntou, e Angela sentiu vontade de revirar os olhos. Que se dane, ela não fez mal a ninguém. Raça, religião, sexo, nada disso importava. Eram as ações deles, os atos deles, e ela não achava que isso violasse seu juramento. Novamente, ela deixou assassinos e estupradores morrerem em sua mesa. Quem se importava?
“O que você quer? Quem é você?” Ela não fazia ideia de por que tinha sido levada ali para conversar com aquele homem.
“Não importa quem eu sou. O que importa é o que eu tenho. Sou de um grupo especial, Dra. Hasforth, daqueles que buscam casos especiais. Pessoas especiais com habilidades diferentes que podem nos ajudar a manter... coisas horríveis sob controle. Você se encaixa no que estamos procurando e, se quer sair do corredor da morte, acho que deveria aproveitar esta oportunidade”, disse ele. Angela puxou lentamente os papéis para perto de si. Seu cabelo loiro-escuro estava preso naquele momento. Seus olhos azuis, cínicos.
“Você é uma mulher meticulosa, era uma cirurgiã e médica renomada que salvou muitas vidas. Você sabe como seguir regras e procedimentos muito bem, só pisou na bola uma vez e foi descoberta”, disse ele. Angela ainda não sabia aonde ele queria chegar. Sim, apenas um dos casos tinha levado a ela.
Um erro, mas sabe o que eles não sabiam? Ela tinha mais casos na conta do que aqueles pelos quais foi acusada. Angela jamais perderia o sono pelo lixo que mandou para a cova. Não importava se ela salvou inúmeras vidas fora disso. Tudo o que importava eram os poucos casos de que eles tinham provas, de pessoas que entraram no pronto-socorro e ela deixou morrer. Acho que a história de como ela chegou ali e o que ela fez já não importava. Ela ia morrer naquela prisão.
“Eu era. Olha, tem algum objetivo essa reunião? Você está se oferecendo para ser meu advogado porque...” Angela encarou-o, sabendo que sua história tinha sido notícia grande. Uma médica célebre que virou assassina. Seriam esses papéis uma tentativa dele de contratá-la?
“De jeito nenhum. Estou oferecendo trabalho, uma transferência. Você ainda estará presa, de certa forma, mas trabalhando e vivendo de uma maneira muito mais normal. Tire um momento para ler este documento. Se você concordar com os termos, não importa o quão bizarros sejam, será realocada e receberá um espaço para morar, um emprego e todas as necessidades básicas. Você só não poderá sair do complexo”, disse ele, e Angela franziu a testa de verdade.
“Que tipo de piada é essa? Estou no corredor da morte. Fui condenada pelos quatro crimes. Não vou sair caminhando daqui”, disse ela, achando que aquilo era algum truque. Quando ela empurrou os papéis de volta, ele colocou a mão em cima e os deteve.
“Leia, Angela. É muito real, e você é exatamente o tipo que queremos. Essa bússola moral forte, não é fraca onde conta. Além disso, esta é uma oferta que você não pode recusar: viver em um lugar normal, e tudo o que você precisa fazer é seguir as regras. Faça o que for mandado e, quem sabe, talvez você possa escapar do seu destino um dia”, disse ele, gesticulando para os papéis. Ele não sorriu, apenas gesticulou.
Angela o encarou por um minuto, tentando decidir, e então puxou os papéis de volta lentamente. Esse cara parecia oficial, e ele tinha sido autorizado a entrar na prisão para falar com ela. Portanto, ela não achava que ele fosse algum repórter, já que ela não tinha tido a opção de falar com ele.
A curiosidade falou mais alto, e ela pegou os papéis para ler. Eram muitos, e não parecia que ele ia levantar e sair até que ela desse uma resposta.
Com um suspiro pesado, ela começou a ler. No começo, era um jargão padrão sobre trabalho e remuneração. Então, conforme ela lia mais, parecia que estava sendo alvo de uma pegadinha ou algo do tipo. Quando chegou à última página, ela não sabia o que pensar. Tudo o que ela realmente entendeu foi que, se assinasse para ser médica naquela... instituição desconhecida, seria apagada do sistema. Angela Hasforth não existiria mais; ou ela viveria sua vida a serviço desse estranho contrato governamental, ou morreria ali. Dizia claramente que era um contrato vitalício.
“Eu assino isso e o quê?”, perguntou Angela.
“Você sai comigo agora mesmo. Para o mundo, Angela Hasforth é encontrada morta em sua cela. Você será treinada, alimentada e poderá manter sua vida contanto que siga as regras”, disse ele. O jeito que ele falou “seguir as regras” a fez franzir a testa.
Angela olhou para os papéis e levantou uma mão. Que se dane, se isso fosse alguma pegadinha, o que ela tinha a perder assinando? Ela acabara de ler aquela porra toda, então que apenas seguisse o jogo e voltasse para a cela. Ele ficou sentado em silêncio enquanto ela lia. Muito paciente, na opinião dela, algo que ela apreciava.
“Perfeito, eu sabia que você concordaria. Estamos de olho em você há algum tempo”, disse ele, entregando-lhe uma caneta muito estranha. Ela olhou para a ponta prateada e ergueu uma sobrancelha.
“Não sabia que canetas esferográficas eram um problema. Tem tinta?”, perguntou ela, sarcástica. O sorriso dele foi sombrio desta vez.
“Apenas assine, vai funcionar”, disse ele. Ela o olhou, mas encostou a caneta de tinta seca no papel e fingiu rabiscar seu nome. Que estupidez. No entanto, enquanto terminava o ‘A’ de seu nome e seguia para a próxima letra com sua assinatura invisível, ela sentiu uma fisgada e soltou a caneta na metade do nome.
Seu dedo indicador estava sangrando, pois algo na caneta a havia picado. Seus olhos se arregalaram quando a caneta que ela soltou não caiu de verdade. Ela terminou de assinar seu nome legal e só então caiu sobre o papel. Seu nome estava em tinta vermelha, mas não era tinta; com certeza parecia sangue.
“Que porra é essa?”, disse Angela, inclinando-se para frente, chocada com uma caneta que assinava sozinha. Que tipo de tecnologia fodida era aquela?
“Perfeito”, disse ele em um tom satisfeito, pegando a caneta e o papel. “Agora, se quiser me acompanhar, Dra. Hasforth”, disse ele, levantando-se e fechando sua maleta com um estalo. Ele sinalizou para que ela fosse com ele até a porta.
Angela levantou-se e olhou para o dedo, que tinha uma gota de sangue borrada. Ela franziu a testa e olhou para a porta. Ele estava em pé, com uma expressão séria. Ele gesticulou com um pouco mais de firmeza.
“Dra. Hasforth”, disse ele. Angela moveu-se em direção à porta, olhando em volta, mas eram apenas ela e ele. Sem guardas, sem mais ninguém. De repente, ela teve um pressentimento muito ruim. No que ela tinha acabado de assinar? Quando chegou à porta e ele caminhou atrás dela, alguém a abriu para ela.
Outro homem vestido da mesma maneira, muito parecido com os “homens de preto”. Ela teria rido se não estivesse sendo conduzida por um corredor para fora da prisão. Ela foi colocada em um carro sem identificação no estacionamento, e então eles saíram em disparada da prisão, sem ninguém os parando. Angela ficou em silêncio durante todo o trajeto, e eles também.
Foi assim que ela soube que, qualquer que fosse a coisa com a qual ela tinha concordado por capricho para sair daquela prisão, não era uma piada. Ela não fazia ideia de que ficar no corredor da morte pelo resto da vida seria muito melhor do que o lugar para onde estava indo. Era muito menos perigoso, mas era tarde demais para Angela voltar atrás agora.