Capítulo 1
O canto em que eu tinha me enfiado não me comportaria se eu fosse do tamanho normal. Para ser sincera, mesmo assim, eu já deveria estar sentindo alguma dor, mas eu era imune a ela a essa altura. Fiquei de pé com o nariz encostado na parede, respirando em arquejos curtos enquanto esperava. A voz dele era forte, grave e furiosa. Ele respondia com palavras curtas e ríspidas, e parecia estar ficando ainda mais irritado. Não conseguia vê-lo de onde estava, mas sentia suas emoções irradiando pelo corredor vazio. Ouvi o clique quando a ligação terminou e tentei respirar fundo.
Se não fizesse isso agora, nunca mais faria. Nos dias e semanas antes do meu aniversário de 18 anos, juntei toda a coragem que tinha para isso. Até roubei dinheiro da minha mãe para comprar comida decente, na esperança de que me desse um pouco mais de força por dentro, mesmo que isso pudesse me custar mais machucados. Sentia o mesmo tremor nos dedos agora, igual ao que senti quando tirei o dinheiro da bolsa dela. Ela sempre carregava um maço de notas para o caso de os gêmeos precisarem ou pedirem alguma coisa. Sempre me surpreendia como ela jogava dinheiro fora com eles, enquanto cada centavo gasto comigo era pago com uma cicatriz em alguma parte do meu corpo.
Ele estava sozinho no corredor, se acalmando depois da ligação. Sua voz tinha tanta autoridade ao lidar com negócios que a maioria dos "amigos" não conseguia ficar perto dele sem se curvar à pressão que ela transmitia. Terminou a chamada com um olhar frio de fúria nos olhos, e quase desisti. Havia algo neles, uma força que eu não entendia. O grupo de amigos deles parecia ser feito de gente que queria ser como eles ou estar com eles, mas ninguém era realmente amigo deles, não do jeito que eu via as pessoas serem amigas. As relações deles pareciam mais com ídolos e adoradores do que com amizade, mas o que eu sabia?
Quanto mais eu esperava para me revelar, mais meu coração acelerava no peito. Quanto mais rápido batia, mais pulos eu sentia, como se ele estivesse falhando. Odeio quando faz isso. Cada batida perdida me dava um nó no estômago e fazia o medo subir pela garganta. Sabia que estava perto de ter um ataque de pânico ou desmaiar, nenhuma das duas coisas era novidade para mim, mas ambas eram experiências horríveis, e eu não planejava passar por isso na frente de nenhum dos meus Alfas da Matilha.
— Filhote, estou ouvindo sua respiração e seu coração. Saia, por favor?
O "por favor" foi jogado como uma reflexão tardia, entre os dentes cerrados. Rogan não tinha muita paciência com as pessoas, mas podia ser prestativo se achasse que a causa valia a pena. Eu estava me agarrando a essa esperança, porque era minha última chance.
— Eu pedi para você sair!
Ele deu a ordem como um comando, o tom esperando uma resposta imediata, como era de se esperar pelo seu posto e poder. Se eu fosse qualquer outra pessoa, já estaria de joelhos na frente dele, em rendição total e apavorada. Mas, por algum motivo, as ordens dos gêmeos nunca tiveram muito efeito sobre mim. Talvez porque eu não me sentisse realmente parte da matilha, ou talvez porque minhas irmãs estivessem certas e eu realmente não pertencesse a esse lugar.
Saí devagar do esconderijo entre a parede, ignorando a pontada surda de dor nas costelas recém-quebradas. Fui na direção dele, com cuidado, tentando avaliar seu humor enquanto me aproximava. Ele parecia curioso, mas entediado, como sempre. A inclinação da cabeça sugeria que ele me achava mais uma fã do clube de admiradores dele ou do irmão. Imaginava que ele pensasse que eu não sabia com qual dos gêmeos idênticos estava falando, só feliz pela chance de conversar com um deles a sós.
Eu podia ser uma das poucas, mas sabia. Embora os dois fossem intimidantes e dominadores, eu temia muito menos Rogan do que seu irmão, Rio. Passei o dia todo seguindo Rogan, esperando por uma oportunidade em que ele não estivesse cercado de gente para falar com ele. Não conseguia falar na frente dos outros, e em casa não me deixavam abrir a boca. O problema agora era juntar coragem para dizer as palavras.
— Alfa Rogan, preciso de ajuda.
Consegui. Falei mesmo, ainda que rápido e baixo demais, mas tinha dito o que precisava! Fiquei tão surpresa comigo mesma que mal notei a surpresa de Rogan. A dele provavelmente vinha ou do fato de eu ter usado seu título, coisa que os outros alunos nunca faziam na escola, ou de ele ter se surpreendido por eu saber qual dos gêmeos ele era. Mas ele recuperou a expressão de sempre enquanto eu tentava juntar forças para a próxima parte.
— E então?
Ele me incentivou a falar, e as palavras foram mais gentis do que eu esperava, enquanto tentava fazer contato visual. As minhas morreram na garganta quando ele me olhou. Havia uma mistura estranha de emoções no rosto dele, fazendo seus olhos mudarem de cor enquanto me observava. Parecia um pouco assustado, talvez preocupado.
Respirei fundo e, com o último fiapo de coragem, rasguei as mangas do meu suéter escolar velho e de segunda mão, expondo a pele entre o cotovelo e o pulso. Prendi a respiração enquanto seus olhos se moviam, questionadores, do meu rosto para o braço esquerdo. Os olhos dele, que estavam voltando devagar para o tom normal, um marrom quente e rico como chocolate, ficaram pretos na hora. Quase dava para ver meu próprio braço refletido na escuridão da íris dele. Sua respiração virou um arquejo, e ele começou a xingar sem parar.
— Isso está tão errado, tão fodidamente errado. Eles vão pagar. Que porra é essa?
Ele encarou meu braço por um longo tempo, um rosnado crescendo no peito enquanto eu começava a tremer. Já tinha visto reações assim antes, e geralmente significava que eu ia sentir dor. Tentei controlar a respiração, mas cometi o erro de olhar para o rosto dele. Os olhos pretos estavam acompanhados de presas e um focinho. Parei de respirar por completo. A expressão no rosto dele era assassina, e minha coragem e meus pulmões desistiram de uma vez. Não foi a primeira vez na vida que apaguei.