DROWNING
Brandon Fiquei encarando aquilo por tanto tempo que as palavras se gravaram em mim. A caligrafia maldita da Aria — limpa, cuidadosa, quase gentil demais. Era isso que tornava tudo pior.
“Não consigo fazer isso agora. Você me confunde. Não sei o que é o amor. Preciso de tempo.”
Tempo. Que diabos isso significava? Ela não ia voltar. Era isso que significava.
Meu apartamento estava silencioso, silencioso demais. Garrafas vazias e cinzas de cigarros mal apagados cobriam a mesa como provas de quem eu realmente era. Meu peito estava apertado, minha garganta, arranhada, mas eu não conseguia ficar parado. Ficar parado significava pensar, e pensar significava dor.
A coceira estava lá de novo. Aquela inquietação rastejando sob minha pele. Aquela fome. Aquela necessidade maldita.
Então peguei minhas chaves e saí antes que eu fizesse alguma loucura naquele silêncio.
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O bar estava vibrante, barulhento, com a música batendo nas minhas costelas. Era mais fácil aqui. Mais fácil me afogar. Dose após dose descia rápido, queimando, entorpecendo. Whisky, vodka, não me importava. Qualquer coisa para calar a voz dela na minha cabeça.
Foi quando a vi.
Pele cor de caramelo, cachos caindo ao redor do rosto, olhos aguçados, mas calorosos. Ela me pegou olhando e sorriu. Cristo, aquele sorriso.
Então ela me ouviu falar. Apenas uma frase: "Outra, meu chapa" — para o barman, e os olhos dela brilharam como se eu tivesse acabado de fazer um truque.
“Você é britânico?”, ela perguntou, inclinando-se.
Eu sorri de lado, bêbado, mas charmoso. “É o que dizem.”
A partir daí foi fácil. Fácil demais. O jeito que ela se aproximou, sua risada, o modo como sua mão roçou a minha. Ela estava com fome do sotaque, com fome de mim.
Antes que eu percebesse, estávamos lá fora, nos beijando contra a parede como adolescentes. Seus lábios eram macios, doces, sua língua ávida. Minhas mãos enterradas no cabelo dela como se ela pudesse apagar Aria da minha cabeça. Ela gemia quando eu falava, cada palavra a deixando ainda mais excitada.
Acabamos no apartamento dela, tropeçando pela porta, com a boca dela já em mim. Ela caiu de joelhos sem hesitar, os cachos roçando as bochechas, e eu me perdi. Bêbado, carente, desesperado.
“Porra…” eu gemi, com a cabeça jogada para trás, os lábios dela se movendo sobre mim como se estivesse esperando por isso a vida toda. O álcool embaçava tudo, mas o alívio era nítido, violento, rasgando-me até que eu não conseguisse respirar.
Depois, desabei no sofá dela, com a calça entreaberta, o peito arfando. Ela se encolheu ao meu lado, lábios inchados, sorriso convencido.
Eu não tinha forças para mais nada. Nem queria. Eu já estava longe, à deriva, com o whisky me puxando para o fundo.
Quando acordei na penumbra do apartamento dela, com a boca seca e a cabeça latejando, eu entendi.
Não era sobre ela. Nunca foi.
Era sobre a coceira. O vício. E a carta maldita da Aria, da qual eu não conseguia escapar.
Brandon tropeçou no trabalho ainda de óculos escuros, com o colarinho engomado, mas a camisa amarrotada e a gravata pendurada como se tivesse sido amarrada no banco de trás de um táxi. Sua cabeça latejava a cada passo; o mundo estava brilhante demais, barulhento demais. Café não estava ajudando. Nada estava ajudando.
“Bom dia, cara”, alguém disse quando ele passou. Ele deu um sorriso forçado, a voz seca, mas firme: “Tudo bem?”.
Ele era bom nisso. Em fingir.
Dentro do seu escritório, as paredes pareciam se fechar. A mesa parecia estranha, com papéis empilhados cuidadosamente desde o dia anterior, como se pertencessem a um homem que tinha a vida em ordem. Aquele não era ele. Não mais.
Ele se sentou, abriu o notebook, encarou e-mails que não faziam sentido, números que ficavam borrados. Suas mãos tremiam. As palavras de Aria se repetiam, mais altas do que qualquer alarme: “Não sei o que é o amor”.
Seu peito apertou. Ele não conseguia respirar. Precisava de alívio. Aquela velha coceira estava lá, rastejando sob sua pele, gritando por atenção. Ele fechou as persianas, trancou a porta, recostou-se na cadeira.
Sua mão se moveu antes que seu cérebro pudesse impedi-lo.
Ele se odiou por isso, odiou o desespero, mas o impulso era mais forte que a vergonha. Abriu abas que não deveria, imagens enchendo a tela. Ele se masturbou, com a cabeça inclinada para trás, mandíbula travada, pensando nela. Sempre nela. A risada de Aria, os lábios de Aria, Aria indo embora. A mistura de dor e luxúria se contorcia dentro dele até que ele gozasse, rápido, vazio.
Depois, ficou ali tremendo, o peito arfando, o nojo se acumulando no estômago. Limpou a mão em um lenço, fechou o notebook e recostou-se na cadeira, com os olhos ardendo.
Ao meio-dia, ele estava de volta à sua mesa, de paletó, caneta na mão, rosto sereno como se nada tivesse acontecido. Para todos os outros, ele era o mesmo Brandon — perspicaz, confiante, intocável.
Por dentro, ele estava desmoronando.
Cada reunião, cada sorriso, cada “valeu, cara” era uma atuação. Ele era um maldito ator, não era? Um homem com uma máscara colada tão firmemente que ninguém podia ver a podridão por baixo.
E quando ele viu seu reflexo no vidro da sala de reuniões, pensou: É isso que eu faço de melhor, não é? Fingir. Mentir. Atuar.
Mas os impulsos não paravam. Eles sussurravam para ele mesmo quando os colegas riam, mesmo quando ele apertava mãos, mesmo quando assinava papéis com mãos firmes. Ao final do dia, seus nervos estavam em brasa novamente, e ele conhecia a verdade da qual não podia escapar.
Ele mal conseguia funcionar. E Aria — sua ausência — era a ferida que ele continuava abrindo.
Eu já estava tenso pelo dia — contratos, reuniões, abutres da diretoria circulando, prazos acumulados na minha mesa como tijolos de porra no meu peito. Quando dirigi para casa, pude sentir a coceira arranhando sob minha pele. Aquele ardor familiar. Aquela voz sussurrando: Só um alívio, Dean. Só um.





