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Resumo

Natalia Cotillard escapou de seu abusivo clã Syndicate. Dez anos de liberdade, de construção de uma vida que ela amava — até que as dívidas de sua família a arrastaram de volta para o mundo que matou sua irmã e quase a destruiu. Alexius Valko não quer uma esposa. Ele quer ordem. Para consolidar sua conquista sobre o clã Cotillard, ele precisa de duas coisas: legitimidade e um herdeiro. Exigir Natalia é lógico. Eficiente. Definitivo. O amor é desnecessário e um risco perigoso. Mas o que Lex prevê ser um acordo limpo se transforma em caos. Porque Natalia não é a noiva perfeita do Syndicate — ela é um furacão forjado pela sobrevivência. E furacões, assim como o amor, não obedecem a planos cuidadosamente elaborados.

Gênero
Romance
Autor
LA_Nichols
Status
Completo
Capítulos
66
Classificação
5.0 38 avaliações
Classificação Etária
18+

Capítulo 1

Capítulo 1 Natalia

O diabo escolheu um dia infernal para me arrastar de volta para o Inferno.

Depois de um turno exaustivo de 12 horas no pronto-socorro que se estendeu para 15 — um turno que incluiu a morte de uma criança atropelada por um motorista bêbado —, meus músculos doem, meus ossos doem e eu estou completamente exausta. As únicas coisas que eu quero são um banho quente, uma cerveja gelada e dormir até o próximo Natal.

Chuto os sapatos no segundo em que entro pela porta, borrifando as solas com água sanitária de uma garrafa que deixo sempre à mão. Quem sabe que porcaria nojenta eu trouxe do pronto-socorro? O cheiro de doentes e moribundos — sangue e outros fluidos — gruda em mim como uma segunda pele. Não me dou ao trabalho de acender as luzes. Não tenho energia para isso.

Arrastei meus pés pelo chão enquanto ia direto para a máquina de lavar na cozinha — a única coisa da qual não abro mão ao alugar um apartamento novo. Tiro meu uniforme, sutiã esportivo e minhas calcinhas de vovó preferidas — prezo pelo conforto acima de tudo. Certamente não estou tentando ser sexy para meus contatinhos. Ainda quente pelo calor do verão, de repente estremeço com o frio do ar-condicionado do apartamento. Não meço o sabão, apenas despejo, adiciono o desinfetante hospitalar que peguei escondido e bato a porta da máquina.

O som da máquina quebra o silêncio do lugar, e eu giro o pescoço, decidindo se levo uma cerveja comigo para o chuveiro.

Foi só quando me virei, completamente nua, que ouvi o pigarro baixo e deliberado — alguém limpando a garganta. Meu sangue gelou. Meu coração disparou.

Peguei uma toalha de banho limpa do cesto de roupa suja e me enrolei nela num movimento rápido. No mesmo instante, alcancei a arma que escondo sob o balcão da cozinha. Meus dedos envolveram a empunhadura fria. Destravei a arma, com o coração batendo forte enquanto acendia as luzes.

Reconheci os três homens imediatamente. Os dois de terno, sentados naquelas cadeiras horrorosas que já vieram com o apartamento, são membros da segurança da minha família. Não conheço seus rostos, mas cada um ostenta o distintivo de um membro graduado na lapela.

O terceiro homem está recostado casualmente contra o balcão da cozinha, com os braços cruzados, como se tivesse todo o tempo do mundo. Madoc Rossetti. O segundo em comando do meu tio e um rosto familiar da minha infância — um playboy bonito demais, com cabelos grisalhos, olhos cor de esmeralda e um sorriso sarcástico de quem sabe de tudo.

Porra. Eles me acharam.

Em vez de baixar a arma — como alguém deveria fazer ao ver um velho amigo —, apertei mais o cabo, com o dedo pronto no gatilho. Meus olhos se fixaram no rosto de Madoc, e a fúria subiu como uma onda.

“Merda, Nat, cadê suas roupas?” Mac revira os olhos, mal olhando na minha direção enquanto faz um gesto de desdém com a mão, virando o rosto como se já tivesse visto tudo aquilo antes. Ele nem pisca para a SIG Sauer apontada para o seu rosto — e, de alguma forma, isso me irrita ainda mais.

Quando uma mulher nua aponta uma arma para você e não se dá ao trabalho de se vestir, você deveria levá-la a sério.

Eu não me movo. Não sou recatada, e a toalha cobre o suficiente para eu me manter firme sem hesitar.

“Dá o fora da minha casa, Mac.”

Ele levanta uma sobrancelha, totalmente indiferente. “Tecnicamente, pertence ao Sindicato Cotillard.”

“Desde quando?” retruquei, estreitando os olhos. Eu verifiquei antes de alugar este lugar. Eu sempre verifico. E nunca trabalho em território Cotillard.

“Desde cerca de uma hora atrás”, ele responde, com aquele sorriso irritante puxando o canto da boca.

“Vai se foder.”

Ele apenas abre um sorriso maior e faz um gesto preguiçoso em direção ao quarto. “Coloca uma roupa. Precisamos conversar.”

“Dá. O fora.”

Uso minha voz mais perigosa — aquela que promete consequências. A mesma que faz pacientes psiquiátricos se acalmarem, gângsteres voltarem para a cama e deixa os idiotas saberem que fizeram merda. Os dois seguranças se mexem desconfortáveis nas cadeiras, trocando olhares tensos.

Mas Mac? Ele não recua.

“Não vai rolar, Natalia.”

Sua voz cai. Merda. Ele usou meu nome formal. Por um breve segundo, vejo algo a mais em sua expressão — compaixão, talvez arrependimento. Ele não quer estar aqui tanto quanto eu não quero que ele esteja. Mas ambos sabemos que nenhum de nós tem escolha.

Nos encaramos por um momento, então abaixo a arma.

“Tudo bem”, eu disparo, embora meu pulso ainda bata forte nos meus ouvidos. “Mas se você quer que eu ouça qualquer merda de motivo que você tenha para invadir minha vida, eu vou tomar banho primeiro.”

“Enrole o quanto quiser”, diz ele, já se servindo de um punhado de cereal da caixa que ele acabou de roubar do meu armário. “Não vai mudar as coisas.”

Ele joga um pedaço de cereal açucarado para o alto e o pega com a boca, como se fosse dono do lugar.

Verdade.

Fugir, mudar de nome, viver como uma pessoa totalmente diferente — era tudo de fachada. Uma férias, na melhor das hipóteses, da vida em que nasci. Eu nunca tive realmente um futuro. Não há escapatória para alguém como eu: filha de um Padrino do Sindicato Cotillard. Eu sempre soube, no fundo, que eles me encontrariam. Que eles me arrastariam de volta. Este dia era inevitável.

A liberdade sempre foi uma ilusão.

Mas, droga, parecia real.

Parecia tão fodidamente real.

Tomo um banho e visto meus jeans favoritos e uma camiseta que diz Quem Manda Sou Eu, com a imagem de uma enfermeira segurando uma seringa. Certifico-me de que a arma esteja de volta ao coldre no meu quadril, escondida sob a barra da camisa. Meus ossos praticamente ardem de exaustão, e estou anestesiada demais pelo dia para sentir qualquer coisa além de irritação por os homens do meu tio estarem na minha sala.

Me deem algumas horas de sono, e eu terei energia o suficiente para entrar em crise de pânico. Isso não vai ser divertido?

Quando saio do quarto, vejo que eles já empacotaram quase tudo. Os dois de terno entram no quarto e ouço-os remexer nas minhas gavetas e no armário, encaixotando o resto dos meus bens escassos. Espero que peguem meu conjunto de penteadeira. Eu mandei fazer sob medida.

Minha cozinha está vazia — exceto pela comida.

Algo sobre Mac estar empacotando meus pratos favoritos do My Little Pony de repente me deixa tonta.

Mais provável que eu tenha entrado na parte louca do cansaço.

“Padrino Cotillard nos enviou para te buscar”, diz Mac, calmo, mas decidido. “Hora de voltar para casa.”

Eu reviro os olhos, pego uma cerveja na geladeira e abro. A espuma transborda enquanto dou um gole. “Não me diga. Por quê?”

Mac se mexe — desconfortável, pela primeira vez — e meu estômago dá um nó. Tem algo errado. Ele raramente se abala. E quando isso acontece, é sempre algo grande.

“Estamos nos unindo a outro Sindicato”, diz ele, com a voz baixa.

As palavras atingem como um soco. Existem vários motivos para um Sindicato se fundir a outro — e nenhum deles é bom.

Aceno lentamente, limpando a espuma dos lábios.

“As coisas não vão bem há algum tempo, mas quando a Matroni morreu…” Mac para de falar, observando meu rosto. Ele sabe melhor do que ninguém como era minha relação com minha mãe.

Um nó se forma na minha garganta. Minha mãe assumiu o Juramento após a morte do meu pai, quando eu tinha três anos. Ela governou como Matroni do Sindicato Cotillard até sua morte súbita — uma ferida aberta que nunca deixei cicatrizar completamente. Assim como nossa relação.

Eu não estava lá quando ela morreu. Descobri através de um daqueles documentários sobre os Segredos dos Sindicatos quase um ano depois. Tivemos uma relação de merda, claro — mas, ainda assim, três anos depois, algo sobre isso ainda me corrói quando deixo pensar demais. Então eu não penso.

“A dívida que seu pai assumiu — venceu. Não podemos pagar”, diz Mac, e a aspereza em sua voz me pega de surpresa. Não há rodeios. Nenhuma pretensão. Apenas uma honestidade brutal. “De acordo com o acordo, como não podemos pagar… nós perdemos tudo.”

Engulo seco, tentando ignorar o nó gelado que se forma no meu peito.

“Quanto?” Minha voz soa mais firme do que me sinto, mesmo com a pergunta pesando entre nós.

Ele franze a testa, encontrando meu olhar por um tempo longo demais. “Tudo.”

“Para quem?”

“Os Valko.”

“Foda-se”, murmuro. Isso é muito pior do que eu pensava.

Meu pai — um bom homem, mas inepto como Padrino — deu o Sindicato inteiro como garantia para o empréstimo. O calote significava a entrega de todos os ativos Cotillard. Todos eles. Incluindo eu.

Dou outro gole longo, sem deixar Mac ver o impacto que essas palavras têm. De qualquer forma, isso sempre foi inevitável. Mas algo está errado. Lanco-lhe um olhar de lado, estreitando os olhos. Ele está escondendo algo.

“E o quê, eu tenho que estar lá para provar que vocês ainda me têm? Não podem simplesmente enviar uma foto?” pergunto, tentando parecer indiferente, embora meu coração bata forte no peito.

Ele hesita um segundo longo demais — tempo suficiente para eu saber que ele não me contou o pior.

“Eles exigiram um vínculo matrimonial. Uma noiva de sangue.”

Meu coração bate contra minhas costelas, forte o suficiente para doer. Tento recuperar o fôlego que foi arrancado dos meus pulmões.

“Eu”, sussurro, minha voz áspera e crua. O quarto gira, as paredes se fechando ao meu redor.

“Você deve se casar com Alexius Valko. O filho mais velho do Sr. Valko. Ele é o Padrino agora”, diz Mac calmamente.

Engulo seco, fúria e pânico se emaranhando no meu peito como arame farpado. Não consigo pensar. Não consigo respirar. Meu corpo treme com o peso disso, minha mão apertando a lata de cerveja como se fosse a única coisa que me prende à realidade.

Quero gritar. Jogar algo. Esfaqueá-lo com uma faca de cozinha — uma cega. Algo que realmente doesse. Não que eu ganharia uma luta contra ele, mas, droga, eu me sentiria melhor tentando.

Em vez disso, me obrigo a tomar outro gole, tentando estabilizar o caos dentro de mim.

Eu estava certa. É ruim. E eu estou furiosa.

“Vocês ficaram sem outras mulheres Cotillard para jogar no altar? Estão raspando o fundo do tacho agora?” disparo, estreitando os olhos para ele.

“Eles querem sangue puro.”

Não respondo. Mac faz um gesto para os dois brutamontes, e eles começam a carregar minhas malas. Ouço-os descendo as escadas.

Então ele se vira para mim. “Nat, eu sei que não é o que você queria. Ou o que planejamos. E se sua—”

“Não ouse dizer isso”, rosno, virando a cerveja, deixando o frio atingir meu estômago vazio. O calor do álcool se espalha por mim, mas não toca o gelo em meus ossos.

Eu sabia, no fundo, que teria que voltar para Port Harmony algum dia. Mas não assim.

Não como o cordeiro sacrificial.

Não vendida em casamento para o rival da minha família.

Não como recompensa por uma dívida.

Não para pagar pelo erro de merda de outra pessoa.

Vejo o jeito que ele olha para mim. Sei o que ele está pensando — sobre quem deveria ter sido enviada como noiva. A perfeita. Aquela que teria dado conta do recado. Aquela que morreu, partindo meu coração em mil pedaços quando ela se foi — pedaços que ainda não juntei.

E eu, a falha. A que estraga tudo. Eu esperava que minhas inadequações fossem suficientes para me poupar.

Mas, em algumas coisas, o sangue importa mais do que as conquistas. Talvez se eu tivesse tatuado “Vão se foder” na testa — ou feito uma histerectomia — eles teriam reconsiderado.

“O que acontece se eu recusar?”

Madoc se mexe, seus olhos escurecendo. “Não faça isso.”

“Você vai vir atrás de mim?”

“Não me faça ter que ir, Natalia.”

O tom dele me causa um arrepio na espinha. Ele iria. Não porque ele quer, mas porque se não o fizesse — outra pessoa iria. Alguém que não seria gentil. Ou compreensivo.

Pergunto-me se ele está esperando que eu faça uma cena, como costumava fazer quando criança — quando eu era empurrada longe demais e minha raiva superava meu medo.

Mas essa é uma luta que não vou ganhar. Nunca ganhei dele.

E não seria justo fazer Mac sofrer por algo que não é culpa dele. Ele não quer isso para mim tanto quanto eu não quero. Durante a maior parte da minha infância, ele me protegeu. Muitas vezes, ele foi o único que o fez.

Ele ganhou minha misericórdia.

E eu não tenho energia para isso de qualquer maneira.

Bebo o resto da cerveja, a lata se amassando na minha mão antes de jogá-la no lixo. Um olhar ao redor do apartamento confirma isso — eles realmente empacotaram tudo. Não que eu tivesse muita coisa. Sou enfermeira viajante, afinal. Sempre me mudando. Nunca ficando tempo suficiente para criar laços.

Eu pensei que isso me manteria à frente deles. Mudar de cidade. Usar um pseudônimo. Estupidez.

“Você sabia onde eu estava?” pergunto.

“Sempre.” Mac acena. “Desde o dia em que você saiu.”

“Você contou?”

“Não.” Ele balança a cabeça. “Levou mais de um ano para o pessoal do Louis te encontrar.”

“Por quê?” pergunto. “Por que manter segredo?”

Ele me olha como se eu já devesse saber a resposta. Eu sei. Só quero ouvi-lo dizer.

“Eu queria que você tivesse uma vida, criança. Mesmo que fosse apenas por um tempo.” Sua voz suaviza, e eu engulo seco ao ouvir aquele apelido. “Eu queria que você fosse feliz — pelo maior tempo que pudesse.”

Passo a mão no rosto, limpando lágrimas invisíveis. As verdadeiras virão depois.

“Obrigada.”

Ele se aproxima e me abraça. Por um momento, tenho oito anos de novo — me escondendo da minha mãe, esperando ele vir me encontrar. Seu perfume — tabaco, pólvora e cedro — me invade. Ele é uma das poucas coisas da minha vida antiga que eu realmente senti falta.

Então ele se afasta e faz um sinal com a cabeça em direção à porta.

“Precisamos ir.” Sua voz é uma ordem não dita.

Não respondo. Apenas passo por ele, me movendo pelo apartamento no piloto automático, conferindo tudo.

Patético, realmente, como é fácil arrancar toda a minha vida.

Sem amigos para me despedir neste emprego. Sem laços nesta cidade. Apenas algumas malas e meus pratos favoritos.

Amanhã, o peso disso tudo vai me atingir.

Amanhã, sentirei o pânico sufocante. A dor crua de ser arrancada da vida que construí — uma vida que eu amava.

Amanhã, lutarei para me agarrar à mulher que me esforcei tanto para me tornar, e não murchar de volta na garota que fui dez anos atrás.

Eu vou chorar. Vou gritar. Eu vou quebrar.

Mas esta noite?

Esta noite, cheguei ao meu limite. Não consigo absorver mais nenhuma merda.

Não sobrou nada.

Quando saio, Mac está segurando minha bolsa.

Eu a arranco de sua mão e dou uma espiada dentro. Todos os meus medicamentos estão lá, tilintando como ossos. Aceno. Vou precisar deles. Dou-lhe um olhar que diz que cansei de lutar — por enquanto.

A essa altura, estou disposta a seguir o próprio Diabo até o Inferno, contanto que ele me deixe dormir no caminho.

Azar o meu — porque é para lá que estou indo. Um lugar que mata tudo o que há de bom em uma pessoa.