Monsters & Angels por theatricalsiren em Inkitt
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MONSTROS & ANJOS

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Resumo

Em uma cidade sufocada por sombras, o Sindicato de Ferro reina. Seu poder é absoluto, sua justiça é brutal e sua arma mais temida é um homem conhecido apenas como o Leviatã — uma criatura de silêncio e tempestade, cujo toque significa a ruína. Ele bebe seu uísque e vive da violência, acreditando que sua alma está condenada demais para qualquer outra coisa. Ela é um ponto de luz em seu mundo sombrio. Rose Carrow entra em sua vida sem ser convidada e sem medo, uma língua afiada em um vestido delicado, enxergando o homem onde todos os outros veem apenas o monstro. Sua persistência silenciosa é uma sedução que ele nunca viu chegar, suas mãos gentis, uma marca que queima mais profundamente do que qualquer lâmina. A atração entre eles é um jogo perigoso. No submundo, a obsessão é uma falha fatal. Quando um chefão rival coloca seus olhos em Rose, o controle do Leviatã se estilhaça. Ele destruirá a cidade para tê-la de volta. Mas Rose não é peão de ninguém. No ventre da fera, ela provará que o veneno mais potente… geralmente vem no frasco mais bonito. Em um mundo de monstros, o amor é o pecado mais mortal. E ele está pronto para incendiar tudo por um gostinho do seu anjo.

Status
Completo
Capítulos
135
Classificação
5.0 6 avaliações
Classificação Etária
18+

Esculpido em Pedra

O primeiro cuspe de sangue atingiu o chão de concreto com um som que lembrava um beijo suave e úmido. Era a única coisa gentil naquele recinto. Cheirava a cobre, sujeira e violência, misturados em um coquetel sombrio.

Kallan Varo estava nas sombras, logo atrás da jaula, com seus braços enormes cruzados sobre o peito, uma estátua de violência contida. O ar estava pesado, carregado com o fedor de suor, uísque barato e o cheiro metálico de sangue. Sob as luzes fortes e zumbidoras do ringue clandestino, seus lutadores — seus garanhões — moviam-se em uma dança de brutalidade controlada.

Ele não precisava olhar para a plateia, com seus rostos contorcidos de ganância e sede de sangue enquanto gritavam suas apostas. Ele observava os homens. Apenas os homens.

Ezra Vorn, uma montanha de músculos e foco silencioso, movia-se com uma graça enganadora. Seu oponente, um fanfarrão qualquer da zona oeste, desferiu um soco desajeitado. Ezra esquivou-se por dentro da trajetória do golpe, recebeu o impacto em um ombro robusto e cravou um punho no plexo solar do homem. O ar escapou dos pulmões do desafiante em um suspiro de derrota. Limpo. Eficiente.

Depois, havia Silas Creed. Jovem, imprudente, puro brilho e fogo. Ele encurralou o oponente contra a grade, castigando-o com uma série de jabs rápidos e exibicionistas. Ele queria aparecer para a plateia, com um sorriso convencido retorcendo seus lábios.

O maxilar de Kallan travou.

Um lampejo de movimento no outro lado da jaula — Dax Mercer, esbanjando charme e ousadia mesmo durante uma luta, piscou para uma mulher na primeira fila. Uma distração. Uma falha.

Os olhos de Kallan, da cor de uma tempestade de inverno, não perdiam nada. Ele era o principal executor, o braço direito de um chefão, e aquele ringue de lutas ilícito, clandestino, sangrento e sem lei era sua responsabilidade mais sagrada. Aqueles homens eram seus garanhões premiados, suas armas vivas que respiravam. Ele os havia esculpido a partir de um potencial bruto e violento, lapidando-os para serem extensões de sua própria vontade. O desempenho deles era um reflexo do seu.

Um homem corpulento de uma gangue rival, encorajado pela vodca barata, cambaleou perto demais do posto de Kallan. “Ei, Besta! Por que você não entra aí? Está com medo de estragar esse rostinho bonito?”

A multidão por perto ficou em silêncio. Kallan não virou a cabeça. Ele apenas deixou seu olhar deslizar lenta, glacialmente, em direção ao homem. Ele não franziu a testa. Não rosnou. Simplesmente olhou, com a expressão vazia e impiedosa como um lago profundo. A bravata do homem desmoronou. Ele empalideceu, murmurou um pedido de desculpas e se dissolveu de volta na multidão.

Um sussurro deslizou pelos espectadores. “Aquele é a Besta do Rook.”

“Ele não fala, a menos que seja para matar.”

A luta terminou com Ezra aplicando um estrangulamento que parecia quase terno, até que o homem ficou inerte. Silas terminou a dele com um golpe teatral e desnecessário que fez os dentes de Kallan rangerem. Quando o portão da jaula se abriu com um estrondo, seus lutadores se reuniram ao redor dele, respirando fundo, cheirando a esforço e vitória. Eles eram seus homens. Ele era a coluna vertebral deles.

“Ezra,” a voz de Kallan era um estrondo grave, mal audível sobre a barulheira, mas exigia atenção absoluta. “Sua guarda esquerda está caindo. Uma fração de segundo. Corrija isso.”

Ezra assentiu, um aluno aceitando uma lição de seu mestre. “Sim, Chefe.”

Os olhos frios de Kallan se voltaram para Silas. O jovem lutador ainda estava sentindo a euforia, com o peito estufado. “Silas.” O nome soou como uma chicotada. “Se você fizer exibicionismo no meu ringue de novo, eu mesmo quebro seus joelhos. Você luta para vencer. Não para dar show.”

O sorriso desapareceu do rosto de Silas, substituído por um rubor de medo. “Entendido.”

Então, ele se voltou para Dax, que já passava a mão pelo cabelo suado, procurando sua próxima admiradora. “Dax. Você flerta demais. Mantenha o foco ou saia do meu ringue.”

Dax teve a ousadia de oferecer um sorriso torto. “Não tenho culpa se as mulheres adoram um vencedor, Chefe.”

Kallan não retribuiu o sorriso. Apenas sustentou o olhar do homem até que o sorriso vacilasse. “Foco,” ele repetiu, a palavra definitiva.

Eles o temiam. Eles o respeitavam. À sua maneira distorcida, eles o amavam. Ele era o deus da guerra deles.

No vestiário úmido e azulejado, os homens atacaram a refeição pós-luta — nacos gordurosos de carne fibrosa, ovos passados do ponto e um leite que andava com um aspecto aguado. Eles comiam com a voracidade de animais exaustos. Kallan permaneceu afastado, encostado na parede. Ele desenroscou a tampa de uma coqueteleira de metal e bebeu seu shake de proteína. Era espesso, arenoso e sem gosto. Perfeito.

“Chefe, essa carne tem gosto de borracha cozida,” comentou Ezra, cutucando o prato com o garfo.

Kallan não respondeu. Ele deu outro longo gole em seu shake. Comida era combustível. Sustento. Nada mais. Ele não conseguia se lembrar da última vez que comera algo por prazer. O conceito era estranho, uma fraqueza que ele não podia se dar ao luxo de ter. Uma dor profunda e persistente morava permanentemente em seus músculos, um sussurro constante de que seu corpo funcionava à base de exaustão, mas ele ignorava. Disciplina era a supressão da necessidade.

A porta se abriu e Cassian Rook entrou, sua presença alterando a química da sala. O Don era um homem que vestia seu poder como um terno bem cortado — natural, elegante e inegável. Ele dispensou seus dois guarda-costas com um aceno sutil e deu um tapinha no ombro de Kallan.

“Mais uma noite limpa,” disse Cassian, sua voz um barítono suave. “As apostas estão jorrando.”

Kallan deu um único aceno seco.

“Más notícias, no entanto,” continuou Cassian, seus olhos escaneando a sala, absorvendo cada detalhe. “O velho Hemlock. O fornecedor. Morreu esta manhã. Ataque cardíaco.”

A expressão de Kallan não mudou. Pessoal era substituível. Ativos, não.

“Precisamos de um novo,” disse Cassian. “Encontre um. Alguém de confiança. Os garanhões precisam de manutenção.”

“Eu resolvo isso,” respondeu Kallan com voz rouca.

O olhar de Cassian demorou-se nos pratos de comida mal-acabados e com aspecto deplorável. “Tente encontrar algo comestível desta vez, Kall. Meus garotos parecem estar comendo como castigo.” Seus olhos então desviaram para o shake de proteína na mão de Kallan. Um suspiro fraco, quase imperceptível, escapou dele. “Sabe, a maioria dos homens come comida de verdade.”

“Comida me deixa lento,” disse Kallan, a resposta automática, um mantra que ele seguia há anos.

“Você não é uma máquina, Kall,” disse Cassian, com uma nota rara de cansaço na voz.

Kallan sustentou o olhar dele, seus próprios olhos planos e impenetráveis. Ele era. Esse era o objetivo principal.

Mais tarde, no refeitório comum, a atmosfera era mais barulhenta e relaxada. A adrenalina da noite de luta estava dando lugar à camaradagem e à exaustão. Kallan sentou-se em uma mesa pequena no canto, um copo de uísque âmbar agora acompanhando sua coqueteleira. Ele observava, ele escutava, ele controlava.

Dax dominava a conversa, gabando-se de sua vitória. Silas ria alto demais. Jiro, o cozinheiro assistente nervoso, corria entre as mesas, pedindo desculpas pela qualidade dos mantimentos. Maude, a cozinheira-chefe, deu um tapa na nuca de Silas.

“Coma o que tem ou passe fome, seu idiota,” ela resmungou, mas havia uma certa afeição em seus olhos pelo jovem lutador imprudente.

Aquela era sua máquina. Cada peça móvel, cada engrenagem, ele entendia e direcionava.

Exceto pelo vazio corrosivo em seu próprio estômago. Isso, ele não podia controlar. Ele o alimentava com proteína, uísque e força de vontade, ordenando que ficasse em silêncio.

À medida que a noite começava a cair, um homem magro e de rosto afiado deslizou para a cadeira oposta à dele. Bishop Kane. O intermediário. Sua presença sempre significava informação, e informação nunca era de graça.

“Kallan,” cumprimentou Kane, com um sorriso que não chegava aos olhos. “Ouvi dizer que alguns rivais estão farejando suas novas rotas de suprimento. As que você terá que estabelecer agora que Hemlock se foi. As Garras Cinzentas. Os rapazes do Viktor. Talvez seja hora de apertar o cerco.”

Kallan tomou um gole lento de seu uísque, deixando a queimação se espalhar pelo peito. “Deixe-os farejar.”

O sorriso de Kane era uma linha fina e perigosa. “Eles sentem o cheiro da fraqueza. Uma transição é sempre um momento vulnerável.”

Lentamente, Kallan pousou seu copo. O som foi estranhamente alto naquele cantinho da sala. Ele virou a cabeça e cravou em Bishop Kane um olhar que já fizera assassinos endurecidos urinarem nas calças. Era o olhar de um predador que acabara de identificar uma ameaça em seu território.

“Mostre-me quem sente o cheiro de fraqueza,” a voz de Kallan caiu para um sussurro mortal. “Eu arrancarei as línguas deles.”

Kane ergueu as mãos em um gesto de pacificação, embora o sorriso permanecesse. “Só estou repassando a previsão do tempo, Besta. Não há necessidade de uma tempestade.”

Ele se levantou e desapareceu nas sombras de onde viera.

O salão estava finalmente esvaziando. Cassian aproximou-se dele ao sair, parando para acender um charuto.

“Quase esqueci,” disse o Don, soprando uma nuvem de fumaça perfumada no ar. “Seu novo fornecedor. Chegam amanhã de manhã. Quer ver a operação, avaliar as ‘necessidades do cliente’.” Ele deu uma risadinha. “Profissional.”

Kallan deu um grunhido de desdém. Fornecedores vinham. Fornecedores iam. Eram apenas um serviço.

As próximas palavras de Cassian, carregadas de diversão, fizeram-no congelar.

“Disseram que *ela* insiste em ver tudo pessoalmente.”

*Ela?*

Kallan ergueu a cabeça, estreitando os olhos levemente.

Cassian sorriu, lendo a pergunta não dita no rosto de seu executor. “Tente não assustar essa. Precisamos dos mantimentos.”

“Quem quer que seja,” disse Kallan, sua voz voltando ao seu tom habitual, um cascalho sem emoção, “fará o seu trabalho ou irá embora.”

Cassian deu uma risadinha, um som rico e conhecedor. Ele deu um tapinha no ombro de Kallan mais uma vez antes de se virar para sair.

“Veremos, Besta,” ele chamou por cima do ombro. “Veremos.”

Sozinho novamente, Kallan olhou para suas mãos. Para os nós dos dedos cheios de cicatrizes, o mapa de uma vida violenta gravado em sua pele. Ele pegou um pano limpo e branco da mesa e começou a limpar metodicamente o sangue inexistente delas.

E pela primeira vez em muito tempo, sentiu um tremor fraco e inquietante de antecipação pelo amanhecer.

Claro. Aqui está a continuação, mergulhando nas reações dos homens e na tensão crescente antes da chegada de Rose.

A notícia, como sempre acontecia no mundo fechado e volátil do sindicato, espalhou-se mais rápido do que um vazamento de gás.

Cassian mal tinha saído do salão antes que os sussurros começassem. Um novo fornecedor era algo banal. Um novo fornecedor que era uma *mulher*? Aquilo era uma novidade. E para homens cujas vidas eram um ciclo monótono de treino, luta e tratamento de ferimentos, uma novidade era uma distração perigosa.

Dax foi o primeiro a expressar, jogando um braço ao redor de um Ezra com aparência exausta. “Ouviu isso? Uma mulher. Finalmente, algo mais bonito de se olhar do que a sua cara feia durante as refeições.”

Ezra o empurrou, mas havia um brilho fraco e curioso em seus próprios olhos. “Desde que ela consiga trazer carne que não tenha gosto de sola de bota, não me importo se for uma bruxa de três cabeças.”

“Uma bruxa? Use a imaginação, Ez!” Silas se intrometeu, sua repreensão anterior já esquecida diante da fofoca fresca. Ele se inclinou sobre a mesa, sua voz caindo para um sussurro conspiratório. “Aposto que é uma cozinheira durona, ex-militar. Sabe o tipo. Cabelo em um coque brutal, bíceps maiores que os meus, capaz de quebrar o pescoço de um homem com um rolo de massa. Ela olharia para essa gororoba,” disse ele, gesticulando para seu prato com nojo, “e teria um aneurisma.”

Dax riu, um som agudo e brilhante. “Cozinheira militar? De jeito nenhum. Vai ser uma viúva velha. Concorrência do Hemlock. A Senhora Potts dos contos, com um sorriso caloroso e uma receita secreta de ensopado que faz você ver Deus. Ela terá uma dúzia de filhos em casa que ela sustenta com o nosso dinheiro.”

A especulação girou, tecendo uma tapeçaria de personas selvagens para a mulher desconhecida. Uma esposa de fazendeiro prática, com mãos calejadas pela terra, que entregaria os produtos com um aviso severo sobre o desperdício. Uma nutricionista corporativa elegante, armada com gráficos e um sorriso condescendente. Uma mãe solteira desesperada, fácil de intimidar, que manteria a cabeça baixa e os preços baixos.

Kallan ouviu tudo de seu canto, o tecido de suas fantasias se desfazendo sob seu controle. Uma distração. Era só isso que ela era, e ela nem tinha pisado no complexo. Ele podia ver isso na forma como o foco de seus homens mudava de suas dores e vitórias para esse jogo inútil de conjecturas. Suas mentes, que ele havia treinado para serem armas, estavam agora se poluindo com bobagens.

Ele se levantou, as pernas de sua cadeira raspando contra o chão de pedra com um som que cortou a conversa como um disparo. A sala ficou instantaneamente silenciosa. Todos os olhares se voltaram para ele.

Ele não abordou a especulação. Ele não precisava. Sua presença era um comando por si só.

“Treino,” disse ele, a única palavra sendo um estrondo baixo de esforço iminente. “Cinco da manhã. Quem estiver atrasado corre vinte voltas com uma mochila de cinquenta quilos.”

O encanto foi quebrado. A fantasia da mulher misteriosa foi momentaneamente substituída pelo medo muito real e físico do treino de Kallan. Ombros caíram. Gemidos foram engolidos. Eles começaram a se dispersar, o foco forçosamente retornado à rotina.

Mas, enquanto Kallan se virava para sair, seu olhar varreu a todos uma última vez. Ele viu os olhares persistentes, os sorrisos sutis que Dax lançou a Silas. A distração tinha criado raízes. Era uma erva daninha em seu jardim perfeitamente ordenado.

Ele caminhou para o ar frio e úmido da noite do complexo, os sons da cidade sendo um zumbido distante além das muralhas altas. Ele inclinou a cabeça para trás, olhando para o fiapo de lua preso entre o arame farpado. Uma cozinheira militar. Uma viúva velha. Uma fazendeira.

Nada disso importava. Ela era uma fornecedora. Uma ferramenta. Um meio para um fim. Se ela fosse competente, ficaria. Se não fosse, seria removida. Era simples assim.

Ele repetiu a lógica para si mesmo, um mantra tão familiar quanto a sensação de seus nós dos dedos contra um saco de pancadas. Mas, pela primeira vez, as palavras soaram ocas. Um zumbido fraco e irritante de antecipação havia se acendido na boca de seu estômago, bem ao lado da fome sempre presente.

*Ela*, Cassian dissera.

O maxilar de Kallan travou. Ele estava com um mau pressentimento sobre isso.

***

O silêncio de seu quarto era uma presença física. Era a única coisa que ele se permitia desfrutar — uma ausência total e absoluta de som, de demanda, de vida. As paredes eram de concreto nu, o chão o mesmo. Um catre simples, um guarda-roupa para suas poucas roupas escuras e idênticas, e uma única cadeira. Era uma cela. Era um santuário. Era o único reflexo de seu eu interior que ele permitia que o mundo visse.

Ele sentou-se na beira da cama, as molas rangendo sob seu peso, e desamarrou metodicamente suas botas. A rotina era sagrada. Bota esquerda, depois a direita. Colocadas lado a lado, perfeitamente alinhadas contra a parede. Cada movimento era preciso, um ritual de controle que acalmava a besta que constantemente agitava-se sob sua pele.

Mas, naquela noite, o ritual falhou com ele.

As vozes de seus homens ecoavam na quietude de sua mente. *Cozinheira militar. Viúva velha. Fazendeira com filhos.*

Ele zombou, um som baixo e áspero no escuro. Tolos. Eles viam uma história onde havia apenas uma transação. Eles construíam fantasias sobre uma base de mantimentos e pagamento. No entanto, apesar de seu desprezo, uma imagem, não convidada e indesejada, piscou atrás de seus olhos.

Não de uma cozinheira endurecida ou de uma viúva gentil. Mas de uma mulher. Uma silhueta contra as luzes fortes da doca de carga. Alguém que não vacilaria ao ver sangue no concreto. Alguém com uma espinha dorsal de aço, que olharia para seu mundo, para *ele*, e não desviaria o olhar.

O pensamento era tão estranho, tão violentamente intrusivo, que ele balançou a cabeça fisicamente para afastá-lo.

*O que o futuro deles reservava?*

A pergunta, vaga e vasta, o deixou inquieto. Ele nunca pensava nesses termos. O futuro era a próxima luta. O próximo carregamento. A próxima ordem de Cassian. Era um caminho reto, estreito e manchado de sangue. Ele era o guardião desse caminho, garantindo que ninguém — e nada — se desviasse dele.

Essa mulher, essa *fornecedora*, era uma variável. Uma incógnita. E incógnitas eram ameaças.

Ele se levantou e caminhou até a pequena janela gradeada, olhando para o complexo adormecido. Seu reino de violência e ordem. Ele via o futuro ali com perfeita clareza: mais lutas, mais dinheiro, mais poder. Mais cicatrizes em seus nós dos dedos, mais fantasmas em seu silêncio. Era um futuro que ele havia esculpido para si mesmo com suas próprias mãos, um futuro que lhe servia tão perfeitamente quanto um caixão.

Mas agora… agora, uma pergunta única e insignificante, desencadeada pela chegada de uma pessoa insignificante, havia criado uma fissura naquela certeza.

Ela seria difícil? Ela seria fraca? A presença dela interromperia o ecossistema delicado e brutal que ele construíra? Seus homens ficariam distraídos, moles? *Ele* ficaria?

O último pensamento era o mais perigoso de todos.

Ele se virou para longe da janela, a imagem fantasmagórica do olhar inabalável da mulher ainda queimando no limite de sua visão. Ele se deitou no catre, o colchão fino não oferecendo conforto, e encarou o teto rachado.

O futuro sempre fora uma equação simples e brutal. Agora, parecia uma pergunta que ele não sabia como responder. E para um homem que lidava exclusivamente com absolutos, essa era a perspectiva mais aterrorizante de todas.

O sono, quando finalmente veio, não foi uma fuga. Foi um mar inquieto onde os rostos de seus lutadores se misturavam com a silhueta de uma mulher que ele nunca conhecera, e o cheiro de sangue se fundia ao aroma impossível e esquecido de uma refeição caseira.

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