Surprise Trip
Meu marido de duas semanas estava mentindo para mim.
Eu conseguia perceber pelo modo como o maxilar dele travava toda vez que eu perguntava sobre sua família, e pelo cuidado com que ele escolhia as palavras ao falar da ilha para onde estávamos indo. Riker Maddox — meu implacável banqueiro de Wall Street, capaz de encarar tubarões corporativos sem piscar — estava inquieto no banco de trás de um SUV como um homem a caminho da própria execução.
Eu só não sabia o porquê ainda.
“Você sabe que eu te amo muito, né?” Seus olhos azul-claros estavam cheios de sinceridade e preocupação enquanto ele se virava para mim, segurando meu rosto entre as mãos.
Sorri, apesar do nó de inquietação no estômago. Com quase dois metros de altura e mais de cem quilos de músculos sólidos, Riker sempre foi meu gigante gentil. Quando nos conhecemos há um ano, ele só queria a mim. Fugimos para Niagara Falls há duas semanas — tão deliciosamente escandaloso e ao estilo dos anos cinquenta. Mas eu sou a do meio de oito filhos. Seis dos meus irmãos já eram casados. Meus pais provavelmente me agradeceriam por poupá-los de mais um casamento.
“Claro”, eu disse, deixando meu peito se encher com o amor caloroso que sentia por aquele homem. “E eu também te amo, querido. Vai ficar tudo bem. Com o que você está preocupado?”
Suas mãos desceram para acariciar meus braços, e ele encostou sua testa na minha. “É só que... eu não te preparei o suficiente para a minha família. Eles são diferentes. Pessoas muito boas, mas têm... costumes diferentes.” Ele mordeu o lábio.
Mostrei a língua e lambi sua boca. Ele recuou surpreso e deu uma risada, quebrando a tensão por um momento.
“Eles vão te adorar e, basicamente, pular em cima de você logo de cara. Só um aviso.”
“Tudo bem, amor. Eu sei me adaptar.” Inclinei-me em direção a ele, inalando seu perfume familiar. “Tenho orgulho da sua herança nativa. Sei que será diferente do que estou acostumada, mas não tem problema. Já participei de eventos culturais pelo mundo todo. Vai dar tudo certo.”
Mas, mesmo enquanto eu dizia isso, uma dúvida sussurrava nos cantos da minha mente.
No ano em que estivemos juntos, Riker mencionou sua família apenas três vezes. Cada vez, sua voz ficava baixa, distante. “Nós nos desentendemos”, era tudo o que ele dizia. Sete anos de silêncio. Sete anos que ele passou longe de uma ilha que eu nem sabia que existia até vinte e quatro horas atrás.
Eu não forcei a barra. Não era o meu estilo. Mas sentada ali, vendo a tensão sair dele em ondas, comecei a desejar tê-lo feito.
“Além disso”, eu disse, tentando aliviar o clima, “tenho certeza de que vou gostar deles tanto quanto você. Você sabe que não precisa se preocupar comigo. Sou adulta, e os pais gostam de mim. Na verdade, muito mais pais já se afeiçoaram a mim do que os filhos deles.”
Dei-lhe um selinho, mas ele me segurou, aprofundando o beijo. Corei enquanto quase começávamos a nos pegar no banco de trás do carro. Afastei-me e me aninhei ao lado dele.
Riker riu, o som profundo e maravilhoso ecoando em seu peito. “Estamos em um carro. Isso nem conta como PDA.”
“Tenho certeza de que Viktor não tem o menor desejo de nos ver esquentando as coisas no banco de trás do carro dele”, eu disse mais alto.
O motorista sorriu para mim pelo espelho retrovisor. “Agradeço a consideração”, Viktor disse secamente. O cavalheiro asiático de semblante digno e terno escuro tinha sido nosso chofer pelas últimas horas.
Retribui o sorriso, mas não consegui conter a risadinha quando as mãos de Riker fizeram cócegas em minhas costelas. Ele parecia derreter em volta do meu corpo enquanto eu deitava a cabeça em seu ombro, mas ele ainda estava tenso. Eu não estava acostumada a ver Riker tenso. Aquele homem prosperava sob pressão, vivia por negociações de alto risco e prazos impossíveis.
Mas, agora, com a perspectiva de eu conhecer sua família, ele estava nervoso com alguma coisa.
Provavelmente não havia nada que eu pudesse dizer para ajudá-lo a se sentir melhor, então me contentei com o toque.
Fiquei surpresa quando Riker me acordou na última manhã da nossa lua de mel com uma intensidade urgente.
“Preciso levar você para conhecer minha família”, ele disse, curvando-se sobre mim na cama. Ele afastou gentilmente o cabelo do meu rosto. “Eu te mantive só para mim por muito tempo.” Ele me beijou, e eu retribuí.
“Não precisamos fazer nada que você não queira, Rike.” Passei meus dedos por seu cabelo escuro enquanto o puxava para outro beijo. “Mas eu adoraria conhecê-los. As pessoas maravilhosas que ajudaram a fazer de você o homem perfeito para mim.”
“Já passou da hora de eu voltar.” Sua voz era baixa enquanto ele beijava meu maxilar e meu pescoço. “E eu quero exibir você.” Ele murmurou as palavras contra minha pele.
Eu sorri. “Então vamos nessa.”
À tarde, ele já tinha reservado nossas passagens. Partimos no mesmo dia.
Agora, após três voos e várias horas no SUV de Viktor, estávamos a minutos de um cais na costa do Pacífico, na Colúmbia Britânica. De lá, pegaríamos um barco até a ilha onde a família de Riker vivia.
O céu estava baixo e com um tom arroxeado quando entramos no estacionamento — mais cascalho do que asfalto. O ar salgado me atingiu no momento em que saí, cortante e selvagem, nada parecido com o cheiro processado do oceano em Niagara Falls. Aquilo era real. Remoto. O tipo de lugar onde você poderia desaparecer e ninguém jamais te encontraria.
Sacudi esse pensamento. Aquela era a família de Riker. Não uma cena de crime.
Puxei meu casaco para perto de mim quando um vento forte veio do oceano. Um longo cais se estendia da praia até a água cinzenta e agitada. No final, um único barco estava atracado — um iate, balançando nas ondas como um brinquedo em uma banheira.
Riker ficou ao meu lado enquanto Viktor fazia uma volta grande para retornar à civilização. Esperei ao lado de Riker enquanto ele encarava o barco, com uma expressão indecifrável.
Uma figura solitária surgiu da escotilha e acenou.
O semblante de Riker pareceu suavizar. Ele sorriu — de forma genuína e calorosa. “Aquele é o Axel.”
"O Axel?”, perguntei, erguendo uma sobrancelha.
“Só existe um.” Riker não pareceu ter qualquer dificuldade com nossas malas enquanto começava a descer pela praia.
Eu o segui, com minhas botas afundando na areia seca. O cais era estreito, e fiz um sinal para Riker seguir na frente — com aquele porte grande dele, teria sido perigoso caminhar ao seu lado.
Axel saltou do barco e se moveu rapidamente para nos encontrar no meio do caminho. Ele era tão alto quanto Riker, embora não tão robusto, com cabelos loiro-escuros e olhos castanhos como chocolate. Jeans preto, botas de motoqueiro e uma camiseta preta esticada em seu peito. Mais esguio que Riker, mas igualmente musculoso.
Eles realmente sabiam como fazer homens naquela ilha.
“Droga, é bom ver você, irmão.” A voz de Axel era áspera enquanto ele puxava Riker para um abraço apertado, dando tapinhas nas costas dele, como os homens fazem.
Fiquei surpresa ao ver os olhos de Riker marejados quando ele se virou para mim. Ele os limpou e pigarreou.
“Axel, esta é a Charlee. Charlee, este é o Axel.”
Estendi a mão com um sorriso. “Você é um dos quatro irmãos de outra mãe. Ouvi coisas ótimas sobre você, Axel.”
Axel veio em minha direção e cobriu minha mão com as duas dele.
A pele onde ele me tocou pareceu formigar — a mesma sensação elétrica que eu só sentia com Riker. Calafrios percorreram meus braços.
Que porra é essa?
Eu só tinha sentido aquilo com Riker. Apenas com ele. Puxei minha mão, sacudindo-a como se tivesse tocado em algo quente. Os olhos de Axel seguiram o movimento, e algo brilhou em sua expressão. Reconhecimento? Satisfação?
“Não consigo descrever o quanto é maravilhoso conhecer você, Charlee.” Sua voz era grave, e ele me encarava com aqueles olhos intensos.
Olhei de relance para Riker, esperando que ele notasse que algo estava errado. Mas ele já olhava para o outro lado, com a atenção no barco.
Ou fingindo estar.
Bem nessa hora, uma rajada de vento me atingiu de lado. Soltei um pequeno grito enquanto balançava os braços, tentando recuperar o equilíbrio.
O braço de Axel passou pela minha cintura em um flash, e eu instintivamente me agarrei a ele. Pude sentir seu calor enquanto ele me puxava firmemente contra seu corpo para evitar que eu caísse do cais. Seus olhos sérios observavam meu rosto, a centímetros do meu.
Eu me sentia confortável e desconfortável ao mesmo tempo.
Assim que me senti firme, pigarreei e me afastei, deslizando sob o braço dele para ficar ao lado de Riker, envolvendo meu marido com o braço.
“Obrigada”, consegui dizer, com o coração disparado. Eu não tinha certeza se era pelo susto de quase cair ou pela proximidade de Axel.
Controle-se, Charlee. Você é uma mulher casada.
Mesmo sendo casada, eu não estava morta. Eu podia apreciar outro homem atraente. Mas não importava o quão atraente outro homem fosse — ele não era o meu Riker.
Sorri apreciativamente para meu marido, tentando me manter centrada.
Axel esticou a mão para nossas malas. “Cuide da Charlee, que eu pego isso aqui.”
Riker me apertou e nos virou em direção ao barco. Notei o nome “Grizz” pintado na lateral. Axel não tinha baixado a rampa, e a borda do barco estava bem mais alta que o cais.
Riker me soltou e saltou, agarrando a lateral do barco e puxando-se para bordo com uma facilidade impressionante.
Admirei os músculos das costas dele que flexionavam sob a camisa.
“Hum, espero que você não esteja esperando que eu faça isso.” Apoiei meu peso em um quadril e cruzei os braços.
“Claro que não.” Axel riu com desdém.
Ele estava logo atrás de mim, e me virei para deixá-lo passar. Ele facilmente jogou primeiro minha mala, depois a de Riker, para os braços de Riker que esperavam no alto.
Meus olhos se arregalaram. Não é que eu tivesse algo muito valioso nelas, mas ainda assim —
Minha mochila voou pelo ar.
“Ei! Cuidado!”, gritei. “Meu laptop está aí dentro.”
Riker pegou a mochila suavemente, com uma expressão de desculpas no rosto.
Coloquei as mãos na cintura e me virei para enfrentar Axel.
No entanto, tudo o que pude fazer foi soltar um grito quando braços fortes e quentes me tiraram do chão. Instintivamente, envolvi o pescoço de Axel para não cair.
“Com licença!”
“Você confia em mim?”, perguntou Axel, com um brilho no olhar.
“Acabei de te conhecer. Por favor, me põe no chão!” Soltei o pescoço dele e empurrei seu peito. Olhei para Riker buscando ajuda, mas ele estava se afastando com as malas, completamente alheio.
Ou fingindo estar.
“O Rike confia em mim. Você não?” Axel perguntou de novo, com a voz séria.
Eu estava prestes a chamar por Riker, mas por algum motivo, parei e olhei para Axel. Olhei de verdade para seus olhos cor de chocolate. Eles eram sinceros, fortes e gentis.
Eu me senti... segura.
“Acho que sim”, admiti, deixando minhas mãos voltarem suavemente aos ombros dele.
“Bom. Eu nunca vou deixar nada acontecer com você, Charlee.” A voz de Axel era solene.
Então, antes mesmo que eu pudesse processar o que estava acontecendo, Axel dobrou as pernas e saltou do cais.
Sem tomar impulso, ele pulou — e aterrissamos no convés do barco. Deve ter sido um salto de mais de três metros. Meu coração estava na boca, e eu segurava Axel com força quando ele pousou, gentil como um gato.
“Chegamos.” Axel soltou minhas pernas, mas ainda segurava a parte superior do meu corpo. Fiquei de pé, ainda agarrada aos ombros dele por puro instinto de sobrevivência. “Sãos e salvos.”
Minhas mãos deslizaram para o peito dele, mas não as afastei. Que atração era aquela que eu estava sentindo? Era tão semelhante à que eu sempre senti por Riker. O perfume de Axel — amadeirado e limpo, além do seu cheiro masculino — me cercava de uma forma agradável. O sorriso dele fazia meus joelhos ficarem fracos.
O outro braço de Axel envolveu minha cintura, e o movimento me trouxe de volta à realidade. Afastei-me, pigarreando. Uma onda atingiu o barco, e tive que segurar no parapeito para me manter de pé.
Axel continuava sorrindo para mim.
“Ainda bem que tomei remédio para enjoo”, eu disse, tentando mudar de assunto.
Riker se aproximou, sem as malas. “Barco novo?”, ele perguntou, parecendo alheio à tensão entre mim e Axel. Ele foi para o lado e, de alguma forma, puxou a corda que nos prendia ao cais. Ela se soltou e ele a enrolou no convés.
Axel sorriu como uma criança no Natal. “Sim! Em parte por sua causa, cara. Alpha diz que você triplicou a renda da ilha. A maioria dos i... insulares consegue caber aqui. Quinhentas pessoas. Fica meio apertado, mas funciona se precisar.” Ele deu outro tapinha nas costas de Riker. “Mikael não queria me deixar pilotar, mas eu o convenci. Deixa eu te dar um tour geral.”
“Você o convenceu?”, Rike perguntou.
Axel deu de ombros. “Talvez eu tenha pegado emprestado sem pedir. Mas resolvemos as coisas no caminho para cá.”
Riker explodiu em uma gargalhada enquanto Axel ria também. Axel caminhou ao nosso redor e Riker pegou minha mão, levando-a aos lábios para um beijo rápido.
Senti uma pontada de culpa pelo meu momento com Axel.
O que eu estou pensando? Por que estou deixando o Axel me tocar?
Balancei a cabeça. Eu não deixaria isso acontecer de novo. Riker era o único homem para mim.