Prólogo
Eu sonho com a escuridão. Com o vazio ao meu redor, sem ter para onde ir. Porque não importa para onde eu vá, ele me segue. Há folhas sob meus pés e minha respiração sai em suspiros. Alguém está me perseguindo, mas não sei quem é nem o que quer de mim.
Quando viro a cabeça para olhar para trás, vejo seus olhos. Olhos dourados brilhando na escuridão. Acompanhando o meu passo. O pânico toma conta de mim e eu entro mais fundo na floresta. Sozinha, desesperada por alguém que me salve. A última coisa que vejo antes de acordar é uma mão grande. Uma mão de dedos longos e aperto firme. É essa mão que se estica e me agarra pela nuca.
Eu sempre acordo suando frio. Agitada e sentindo como se estivesse em um jogo cujas regras eu não conheço. Nunca me contaram as regras. É uma sensação de pavor. Aquele cansaço profundo de tudo que parece continuar vindo na sua direção.
E a certeza absoluta de saber que tudo o que você faz não é o suficiente. Isso me faz pensar qual é o meu propósito. Qual é o meu objetivo na vida, porque tem que haver algo melhor do que trabalhar neste restaurante caindo aos pedaços.
Pego meu celular quando ele começa a vibrar e faço uma careta. Sei que preciso atender, mas não quero. Sei o que eles querem. A mesma coisa que todo mundo quer. A única coisa da qual não tenho o bastante.
Dinheiro.
“Alô?”, respondo.
“Você tem ignorado minhas ligações, Srta. Rains. A conta do seu pai está atrasada. O último pagamento foi feito há mais de dois meses”, ouço sua voz sarcástica do outro lado da linha.
“Sim, eu sei. Tenho trabalhado para conseguir o dinheiro. Me dê até o final da próxima semana e farei o pagamento”, digo a ela.
“Você entende que estou fazendo isso como um favor, não é? Precisaremos de pelo menos o valor atrasado. Se não for pago integralmente, seu pai terá que encontrar outro lugar”, ela me diz, como se estivesse realmente me fazendo um favor e não me perseguindo três vezes por dia atrás de dinheiro.
“Eu entendo. Obrigada.”
Tiro um momento para me sentir sobrecarregada e com pena de mim mesma, depois guardo isso a sete chaves. Coloco o celular de volta no avental, limpo as lágrimas recentes do rosto e volto ao mundo dos vivos. O intervalo de almoço acabou.
O rangido dos meus tênis gastos no chão recém-encerado é a única coisa em que foco no meio da multidão de conversas ao meu redor. Não respondo a estalos de dedos. E meu atendimento não melhora por causa da sua atitude.
Eu devolvo a sua energia. Então, você decide como eu vou agir.
É uma atitude ruim? Talvez, mas trabalho neste lugar de merda há tempo suficiente para saber que sorrir e balançar a bunda não me rende mais gorjetas. É uma lanchonete perto da universidade. A maioria dos estudantes já está bêbada quando chega aqui.
Esta noite, a lanchonete está cheia de universitários ricos e sem educação. Você conhece o tipo. Eles vão para festas e gastam o dinheiro que os pais enviam regularmente. Mas nunca aprendem nada. Principalmente modos. Eles parecem atletas. Daqueles que acham que foram escolhidos a dedo por todas as mulheres do mundo.
“Ei, gostosa! Pode encher meu refrigerante?”, grita o idiota número três.
Gostosa?
“Claro”, murmuro.
“Já que está aí, quero seu número também. Parece que você precisa de uma boa trepada. Aposto que essas pernas não são abertas para um pau de verdade há algum tempo”, ele ri.
Fico tensa, mas não pelo que o filhinho da mamãe acabou de dizer. É pelo calor que agora me cerca por trás. A aura sombria que sinto como algo vivo e pulsante. Está praticamente me sufocando.
“É assim que você sempre fala com mulheres bonitas? Além disso, se ela quer uma boa trepada, como você diz, tudo o que ela precisa sou eu. Não um moleque com energia de pau grande que não tem nada para sustentar além do dinheiro do papai.”
Eu me viro e encontro o homem que corresponde à voz. Meus olhos se arregalam com a cena à minha frente e não sou a única. Esses universitários também não disseram uma palavra. Todo mundo sabe que não se deve afrontar alguém da Bratva, e o nome deste aqui é Darin Acosta.
Ele é um pesadelo em ascensão, mas todos sabem que ele mata por muito menos do que desrespeitar uma mulher. Ele levanta a sobrancelha e se vira para mim.
“Eles terminaram por hoje. Preciso falar com você”, ele me diz.
Não discuto e balanço a cabeça. Ele olha para a mesa e, de repente, todos eles começam a procurar desesperadamente por suas carteiras, colocando todo o dinheiro que têm sobre a mesa. Eles saem correndo pela porta antes que eu possa sequer entregar as contas. Limpo a mesa e volto para o balcão para processar os pagamentos.
“Foi o suficiente?”, este homem pergunta.
“Desculpe, o quê?”
“O dinheiro. Eles deixaram o suficiente?”, ele repete.
“Ah, sim. Foi o suficiente para cobrir tudo”, digo a ele.
“E a sua gorjeta?”, ele continua insistindo.
Depois de pagar pela comida, não sobrou quase nada. Não que eu esperasse alguma coisa. Sei que preciso encontrar outro emprego, mas este me permite pegar turnos extras quando necessário e é perto do meu pai. Além disso, o ônibus para bem na frente. Você certamente não quer andar sozinha nesta cidade.
“Foram alguns dólares”, finalmente digo a ele sem olhar para cima. Mas, pela visão periférica, vejo quando ele coloca a mão no bolso e deixa uma nota de cem impecável no balcão. Balanço a cabeça e finalmente olho para o homem bonito, porém mortal.
“Não posso aceitar isso.”
“Você pode e vai. Vamos chamar de pagamento pelo seu tempo. Tenho uma proposta para você.”