Entre Uivos e Silêncios

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Resumo

Lívia é uma loba tímida, reservada e deslocada dentro da alcateia Pedra-Lunar. Diferente dos outros, ela nunca conseguiu uivar nem despertar sua loba de forma visível, o que a tornou alvo de olhares, julgamentos e exclusão silenciosa. Acostumada a viver à margem, encontra conforto apenas na solidão do bosque, onde sente um chamado inexplicável que nunca compreendeu. Aren e Kael são alfas gêmeos, iguais no rosto e opostos na essência. Líderes natos, fortes e respeitados, carregam desde sempre a ausência do vínculo de destino que deveria completá-los. Apesar do poder e da liderança, ambos sentem que algo fundamental lhes falta. Durante a cerimônia da Lua Cheia, o destino se revela de forma inesperada. Ao falhar em uivar diante da alcateia, Lívia é tomada pela vergonha — mas, naquele mesmo instante, o vínculo desperta entre ela e os dois alfas. O reconhecimento é imediato, intenso e inegável. Assustada, Lívia foge para a floresta, onde sua loba finalmente começa a despertar, revelando que seu silêncio nunca foi fraqueza, mas força contida. Aren e Kael a seguem, não para impor domínio, mas para oferecer escolha. Pela primeira vez, Lívia não é pressionada nem diminuída. Entre medo e pertencimento, ela começa a compreender que foi destinada não para ser submissa, mas para equilibrar dois alfas — trazendo suavidade, paciência e verdade a um laço que só pode existir se for escolhido. A história acompanha o despertar emocional de Lívia, o conflito interno dos alfas gêmeos e a construção de um vínculo triplo marcado por respeito, espera e destino, provando que até a loba mais silenciosa pode carregar o uivo capaz de mudar toda uma alcateia.

Gênero
Fantasy
Autor
nrosa
Status
Em Andamento
Capítulos
2
Classificação
n/a
Classificação Etária
18+

A loba que caminhava à margem

Lívia aprendera cedo a ocupar pouco espaço.

Na alcateia Pedra-Lunar, onde risadas altas e passos firmes marcavam presença, ela se movia como quem pede desculpas por existir. Seus ombros permaneciam levemente curvados, não por fraqueza física, mas por hábito — o hábito de quem crescera ouvindo que era pequena demais, silenciosa demais, estranha demais.

Sua loba nunca se manifestara como as outras. Não havia impulsos agressivos, nem uivos espontâneos, nem aquela chama quente no peito que todos descreviam ao despertar. O que existia era uma presença calma, profunda, como um lago imóvel que escondia correntes invisíveis sob a superfície.

Por isso, Lívia preferia o bosque.

Ali, entre raízes retorcidas e folhas antigas, ninguém exigia que ela fosse algo além do que conseguia ser. Ela colhia ervas para os curandeiros, aprendendo a reconhecer aromas e texturas, escutando o mundo com mais atenção do que palavras jamais permitiriam.

Às vezes, porém, quando a lua surgia entre as copas das árvores, seu peito doía. Um aperto estranho, quase saudoso, de algo que ela nunca vivera.

Ela não sabia, mas o destino já a observava.

Aren e Kael jamais foram apenas irmãos.

Desde filhotes, caminhavam em sincronia perfeita, como se dividissem não só o rosto idêntico, mas também algo mais profundo — um eco espiritual que os mantinha ligados mesmo quando estavam em lados opostos do território.

Aren falava pouco. Preferia observar, medir riscos, compreender o que se escondia por trás das atitudes. Seu lobo era grande e silencioso, e sua liderança se impunha sem esforço.

Kael era o inverso. Onde o irmão analisava, ele reagia. Seu riso fácil escondia uma intensidade feroz, e seu lobo era fogo puro, sempre pronto para proteger, atacar ou reivindicar.

Os dois sabiam que nasceram para liderar.

O que não sabiam era por que, mesmo com poder, respeito e desejo ao alcance das mãos, algo permanecia faltando.

O vínculo de destino não se manifestara.

E isso os tornava incompletos.

Na noite da Lua Cheia, ambos sentiram a inquietação crescer. O ar parecia pesado demais, como se a própria floresta aguardasse um acontecimento inevitável.

Eles não imaginavam que aquela noite mudaria tudo.

O círculo da Lua Cheia se formou como sempre.

Lobos em posição, energia pulsando, o céu claro demais para ignorar. Um a um, os membros da alcateia uivaram, vozes fortes que se entrelaçavam em orgulho coletivo.

Quando chamaram Lívia, um frio percorreu sua espinha.

Ela deu um passo à frente, sentindo dezenas de olhos sobre si. Respirou fundo, tentando ignorar o nó em sua garganta.

Abriu a boca.

Nada.

O silêncio caiu pesado, cruel.

Alguns desviaram o olhar. Outros cochicharam sem pudor. A vergonha queimou em sua pele, e ela sentiu o velho impulso de desaparecer.

Foi nesse exato instante que o vínculo despertou.

Aren sentiu como se algo o puxasse violentamente para fora de si. Seu lobo rosnou, não em ameaça, mas em reconhecimento absoluto.

Kael levou a mão ao peito, o impacto tão forte que o fez perder o fôlego por um segundo.

Os dois viraram o rosto ao mesmo tempo.

E encontraram Lívia.

Pequena. Trêmula. Quebrada pelo peso de um mundo que nunca a acolhera.

O destino não hesitou.

Lívia sentiu o ar faltar. Seus instintos gritaram perigo, e ela correu.

Para longe do círculo.Para dentro da floresta.

Sem saber que, pela primeira vez em sua vida, não fugia sozinha.

A floresta a recebeu como um abraço antigo.

Lívia caiu de joelhos, lágrimas escorrendo livres agora que ninguém a observava. Seu corpo tremia, não apenas pelo choro, mas pela energia que começava a despertar dentro dela.

— Eu não posso… — sussurrou, a voz quebrada. — Eu não sou como eles.

Foi então que sentiu.

Não uma voz, mas uma presença.

Forte.Calma.Antiga.

Sua loba se ergueu dentro dela, não com violência, mas com firmeza.

Você nunca foi fraca, a sensação pareceu dizer.Você apenas esperava ser vista.

A energia do vínculo atravessou o bosque como um chamado.

Aren e Kael chegaram minutos depois, parando a alguns passos de distância. Não avançaram. Não exigiram.

Aren ajoelhou-se primeiro.

— Nós sentimos — disse, com voz baixa. — E não vamos ignorar.

Kael respirava fundo, lutando contra o instinto possessivo que rugia dentro dele.

— Mas a escolha ainda é sua — completou.

Lívia ergueu o olhar, surpresa.

Ninguém jamais lhe dera escolha.

E, naquele instante, ela soube:

Seu silêncio não era ausência.

Era força contida.

O retorno à alcateia não foi simples.

Lívia caminhava entre Aren e Kael como se o mundo tivesse se tornado grande demais de repente. Cada olhar lançado em sua direção parecia carregar julgamento, curiosidade ou incredulidade. Ninguém dizia nada abertamente, mas o silêncio coletivo era denso, quase sufocante.

Ela sentia o vínculo pulsar — não como uma corrente que a prendia, mas como um fio vivo, atento, reagindo às emoções dela. Quanto mais nervosa ficava, mais forte sentia a presença dos dois alfas ao seu redor.

Aren mantinha o passo calmo, estrategicamente um pouco à frente, absorvendo os olhares mais hostis. Kael caminhava mais próximo, atento a qualquer ameaça, seu corpo tenso como o de um lobo pronto para avançar.

— Eles estão olhando — sussurrou Lívia, quase sem voz.

— Olhar não é atacar — respondeu Aren com suavidade. — Ainda.

Kael lançou um olhar de aviso a um dos betas mais próximos, que desviou o rosto imediatamente.

— E se não aceitarem? — ela perguntou.

Aren parou.

— Então a alcateia terá de aprender — disse ele. — O vínculo não pede permissão.

Lívia engoliu em seco. Pela primeira vez, não era apenas invisível.

Era central.

E isso a aterrorizava.

Os dias seguintes revelaram algo que Lívia jamais experimentara: atenção.

Aren a procurava nas horas silenciosas. Sentava-se ao seu lado enquanto ela separava ervas, observando em silêncio respeitoso. Não tocava sem permissão, não exigia respostas imediatas. Sua presença era constante, firme, como uma âncora.

— Você pensa demais — disse ele certa vez.

Ela sorriu de leve.

— É a única coisa que sempre me deixaram fazer.

Kael era diferente.

Ele aparecia de surpresa, trazia comida, ria alto demais só para vê-la reagir. Tentava arrancar dela algo que poucos conheciam: pequenas gargalhadas contidas, olhares curiosos, coragem ensaiada.

— Você não precisa desaparecer — dizia ele. — O mundo pode se ajustar a você.

À noite, quando Lívia finalmente ficava sozinha, sua loba se manifestava com mais clareza. Não havia medo nela. Havia reconhecimento.

Eles não vão te quebrar, sentia. Eles vão te revelar.

Ainda assim, o conflito crescia.

Como dividir um vínculo que sempre fora contado como singular?

Como ser suficiente para dois?