Ferro & Marfim

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Resumo

Elara é uma Nula — uma loba nascida sem transformação, sem posição, sem proteção. Em Ironclad, isso a torna descartável. Kaelen é o executor da alcatéia. Temido, controlado e preso a um sistema que recompensa a obediência acima da misericórdia. Quando algo os une, Kaelen se recusa a dar um nome a isso. Em Ironclad, laços são um risco — e Elara já está sendo vigiada. À medida que o inverno se intensifica e a alcatéia se fecha, a sobrevivência torna-se uma questão de proximidade, silêncio e contenção. Elara descobre que passar despercebida não é mais uma opção. Kaelen descobre que o controle tem limites. Em um mundo onde a hierarquia é lei e a fraqueza é punida, algumas conexões são mais perigosas do que um desafio aberto.

Status
Completo
Capítulos
36
Classificação
5.0 12 avaliações
Classificação Etária
16+

Capítulo 1: A Coletora


A floresta não pertence aos animais selvagens. Ela pertence à Ironclad.

Essa é a primeira lei escrita no sangue dos sem patente: a alcateia é dona do silêncio, das sombras e de tudo o que respira dentro delas. Seguros atrás dos portões de ferro eletrificados, os sangue-azul acreditam que seu domínio termina nas pedras de marcação. Eles acham que a natureza selvagem além dali é um vazio esperando para ser conquistado.

Eles estão enganados. A floresta não está vazia. Ela está observando.

Minhas botas tocam o solo congelado, um ritmo alto demais, seco demais para aquela manhã cinzenta. Eu travo. Viro uma estátua esculpida em sal e obediência. O vento muda, arrastando-se pelos dedos esqueléticos dos abetos, trazendo o cheiro de agulhas de pinheiro, umidade podre e algo com um tom metálico de cobre.

Sangue.

Está quente. Está fresco.

Estou a quase dois quilômetros da linha de demarcação. A lei da Alcateia Ironclad é absoluta: o território é soberano e o perímetro é fio de navalha. Para uma Null — uma falha biológica nascida sem uma pele para vestir, um erro na linhagem —, não sou considerada um membro da alcateia. Sou propriedade. Se as patrulhas da fronteira me pegarem invadindo o terreno de caça do Alpha, não serei apenas punida. Serei eliminada. Os guardas veem uma Null perdida não como uma sobrevivente, mas como um defeito no sistema que precisa ser apagado.

Mas a fome é a única autoridade que supera o Alpha. Ela rói meu estômago, uma dor ácida e oca que parece mais pesada do que o risco de execução. As sobras destinadas à casta dos servos têm sido escassas há semanas; restos da mesa dos nobres que viram cinzas na boca. Minhas costelas começam a parecer uma gaiola pequena demais para o pássaro frenético que é meu coração.

Eu me movo novamente, mais baixo desta vez, afundando na postura de uma criatura que sabe que está sendo caçada. Meus dedos, dormentes dentro de luvas de lã sem pontas, roçam a casca áspera de um abeto. O frio aqui é agressivo. Ele busca as frestas do meu casaco esfarrapado, mordendo a pele com dentes invisíveis. Preciso de algo que a alcateia não tenha reivindicado. Um esquilo. Um rato do campo faminto. Qualquer coisa que a Ironclad considere pequena demais para taxar.

Então eu vejo.

Ele jaz na sombra de um rochedo de granito, destacando-se contra o branco sujo da neve. Uma lebre-do-ártico. É enorme, gorda de inverno, com um pelo de um branco puro que envergonha o mundo cinzento ao redor.

Paro de respirar. Ela não se move.

Me arrasto para frente, testando o ar. O cheiro de cobre é mais forte aqui. O pescoço da lebre está quebrado; limpo, preciso. Sem marcas de dentes. Sem carne rasgada. Isso não foi obra de uma raposa ou de um falcão. Foi um abate de eficiência.

Um tributo.

A lógica da alcateia dita que nada se desperdiça, mas o poder é demonstrado pelo que você pode se dar ao luxo de descartar. Deixar a carne esfriando na neve é um ato de arrogância. Isso implica um domínio tão absoluto que uma caça fresca não tem significado, um luxo que ninguém no Lixão possui.

Devo deixá-la. O instinto de submissão formiga na base da minha coluna, um dedo frio traçando minhas vértebras. Armadilha, ele sussurra. Teste.

Mas então meu estômago se contrai, um lembrete violento e retorcido dos três dias desde minha última refeição. Olho para a lebre. Olho para as árvores vazias.

Roubo, a Matrona costumava dizer antes de nos bater, é apenas sobrevivência que foi pega.

Eu a alcanço. Minha mão se fecha ao redor do pelo quente.

O ar muda.

Não é um som. Os pássaros não param de cantar porque nem estavam cantando para começo de conversa. É uma queda de pressão, um vácuo se formando na atmosfera, como se o próprio céu estivesse se preparando para se rachar. Os pelos finos dos meus braços se arrepiam, pressionando contra a lã áspera das minhas mangas.

Meu coração martela um ritmo frenético contra minhas costelas — coelho, coelho, coelho —, mas minhas pernas viram chumbo. O instinto de sobrevivência grita corra, mas o instinto de casta, o sangue de lobo adormecido que se recusou a se manifestar em meu corpo, sussurra submeta-se.

Eu olho para cima.

Ele está parado no cume acima de mim, uma silhueta recortada contra o céu cinza-ferro.

Kaelen. O Grande Executor. O braço direito do Alpha.

Eu só o vi da distância das janelas da cozinha, um ponto escuro nas varandas da Fortaleza. De perto, a distância não o favorece. Ele não parece um homem. Ele parece um deslizamento de terra prestes a acontecer.

Ele é enorme, seu equipamento tático preto esticando sobre ombros largos demais, tensos demais. Ele não usa casaco, apesar de o ar estar na casa dos dez graus negativos. O frio não ousa tocá-lo. Ele permanece perfeitamente imóvel, um predador alfa observando uma paisagem que pertence inteiramente a ele.

Ele pula.

É uma queda de quase quatro metros do cume até a clareira. Uma perna humana se quebraria. Um lobo normal tropeçaria. Kaelen aterrissa agachado, silencioso como a neve que cai, absorvendo o impacto com uma graça que me deixa enjoada de inveja.

Ele se levanta. Ele se vira. E, pela primeira vez, ele olha para mim.

O mundo não para. Ele tomba.

Não é romântico. É violento. Isso me atinge no centro do peito como um soco, roubando o oxigênio dos meus pulmões e substituindo-o por ele. O perfume dele é um peso físico — fumaça de lenha, ozônio e o cheiro metálico de sangue seco. Ele inunda meus sentidos, abafando o frio, a fome, o medo. Cria um vínculo, um cabo grosso e invisível de gravidade que se encaixa entre o esterno dele e o meu.

Parceiro.

A palavra não sussurra. Ela grita. É antiga, inegável e aterrorizante. É um imperativo biológico superando vinte anos de lógica. É o som de uma chave girando em uma fechadura que deveria ter permanecido enferrujada.

Meus joelhos atingem a neve. Não me lembro de decidir cair.

Kaelen para a um metro e meio de distância. Ele não se move para me ajudar. Ele fica ali, sua imobilidade absoluta. Ele tem uma cicatriz que vai da têmpora ao maxilar, uma linha branca e irregular que interrompe a simetria brutal de seu rosto. Seus olhos são cinzentos, mais claros que as nuvens de tempestade, vazios de qualquer calor. São os olhos de um homem que viu tudo morrer e não sentiu nada.

Ele inala.

Vejo suas narinas dilatarem. Vejo o músculo em seu maxilar saltar enquanto ele range os dentes. Ele sente. Eu sei que ele sente. A atração é forte o suficiente para arrastar a lua do céu. É uma ressonância, uma frequência que apenas duas pessoas no mundo podem ouvir, e é ensurdecedora.

"Levante-se", diz ele.

Sua voz é baixa, um estrondo de placas tectônicas se movendo profundamente sob a terra. Ela vibra pelo chão congelado e se instala em minha medula. É uma voz feita para dar ordens que terminam em enterros.

Eu me levanto com dificuldade, meus movimentos desajeitados e frenéticos. Aperto a lebre morta contra o peito como um escudo, como se o corpo pequeno e frio pudesse me proteger da força que está diante de mim.

Minhas mãos estão tremendo. "Eu... eu a encontrei. Já estava morta."

A explicação é patética. Ele ignora a lebre. Ignora o roubo. Ele dá um passo à frente.

O calor que irradia dele é inebriante. É uma fornalha em pleno inverno. Meu corpo me trai, inclinando-se em direção a ele, ansiando pela proximidade, desesperado para diminuir a distância. Cada célula do meu corpo está subitamente voltada para ele, como limalha de ferro encontrando um ímã.

Ele recua.

A rejeição é física. É um tapa na cara.

Seus olhos percorrem meu corpo, notando as botas gastas com as solas presas por fita, as calças de lona remendadas e a trança emaranhada escapando do meu gorro. Seu olhar é clínico, desnudando-me até o osso. Ele cataloga os ângulos agudos e famintos do meu rosto, vendo como a pele se estica sobre as maçãs do rosto encovadas por anos de racionamento — pálida o suficiente para revelar o mapa azulado das veias nas minhas têmporas. Ele estuda meus olhos, de um âmbar profundo e arregalados de terror, parecendo grandes demais para o meu crânio. Sou um amontoado de articulações ossudas e tensão nervosa, uma criatura de fome parada diante de um homem feito para a guerra. Minhas mãos, vermelhas e arruinadas pela água gelada da cozinha, agarram a lebre como uma tábua de salvação, parecendo patéticas contra a densidade letal de seus nós dos dedos cicatrizados.

Ele olha para mim não com desejo, nem com a reverência que as histórias antigas prometiam, mas com uma irritação profunda e gélida. Como se eu fosse uma complicação que ele não tem tempo para resolver. Um borrão em sua guerra imaculada.

"Você é a Null", diz ele. Não é uma pergunta. É uma categorização. "A ajudante de cozinha."

"Elara", sussurro. O nome parece pequeno na vastidão da floresta.

"Eu não perguntei seu nome."

A crueldade disso arde mais do que o vento. Ele olha para o espaço entre nós, sentindo o vínculo vibrar ali, zumbindo com energia potencial. Seu lábio se curva. É um desdém de puro nojo.

"Volte para a Fortaleza", ele ordena. Ele vira a cabeça levemente, como se a visão de mim fosse fisicamente dolorosa.

"Mas..." Não consigo conter as palavras. O vínculo me torna ousada, ou talvez estúpida. "Você sente. Você sabe o que é isso."

Kaelen fecha a distância em um borrão de movimento.

Em um segundo ele está a um metro e meio; no outro, ele é a única coisa no mundo. Antes que eu possa piscar, sua mão está na minha garganta.

Ele não aperta. Ele não precisa. O peso de sua garra é absoluto. Sua pele é áspera, calejada, quente contra meu pescoço congelado. Ele me prende contra a casca áspera do abeto, seu rosto a centímetros do meu.

De perto, ele é terrivelmente bonito. Uma obra-prima arruinada. Posso ver os pontos de prata em suas íris, a barba rala sombreando seu maxilar, os poros de sua pele. Posso sentir o cheiro da violência nele, o perfume da caça grudado em suas roupas como uma segunda pele.

Meu pulso bate freneticamente contra sua palma. Tu-tum, tu-tum. Sou um pássaro preso em uma armadilha, mas não quero ser libertada.

"Não sinto nada", ele mente.

Sua voz é um sussurro suave, perigoso e afiado como um bisturi. Ele me encara nos olhos, desafiando-me a apontar sua mentira, mas a muralha por trás de seu olhar é impenetrável.

"Vejo um incômodo", diz ele, enunciando cada palavra. "Vejo uma distração. Vejo um erro."

Ele se inclina. Seus lábios roçam o lóbulo da minha orelha. Eu estremeço, uma onda traiçoeira de calor se acumulando no baixo ventre, apesar de sua crueldade. A proximidade é uma droga. Estou tendo uma overdose dele.

"Fique fora da minha vista, Null", ele sussurra. A ameaça é íntima, um segredo compartilhado entre inimigos. "Se você disser uma palavra sobre isso a alguém — se olhar para mim, se falar comigo — eu vou tratar você como qualquer outra invasora no meu território."

Ele me solta.

Eu escorreguei pelo tronco da árvore, minhas pernas virando água. Ofego por ar, segurando minha garganta onde a mão dele acabara de estar. A pele arde, marcada pelo toque dele.

Ele vira as costas para mim. Não olha para trás. Ele caminha para dentro da mata, uma sombra escura engolindo a luz, movendo-se com o silêncio de um fantasma.

Fico sozinha na neve. O vento aumenta, enterrando suas pegadas, apagando a evidência de que ele esteve ali. Mas o cheiro de ozônio permanece na minha língua, e meu coração martela contra minhas costelas, batendo pela mesma coisa que prometeu matá-lo.