Bilhetes & Broncas
24/01/26
Uma coisa engraçada, do tipo hilária mesmo: ele me falou “eu não sou gay”. Eu, claro, ri. Achei que ele estava me zoando, mas não — parecia sério ao dizer isso. Só que antes dessa revelação digna de stand-up ruim, ele já tinha soltado o kit completo de frases feitas: “eu não posso mais fazer isso”, “espero que entenda”, “não é você, sou eu”. Cruéis, banais, nada honestas, eu sei.
Ele me olhou nos olhos e repetiu, como se fosse um juramento, “eu estou namorando agora pra valer”. E eu não sabia se ria, chorava ou arrancava os cabelos dele até deixá-lo careca de vergonha. Porque, convenhamos, sim, ele namorava — comigo, há um ano e meio. Mas de que adiantaria dizer isso? Ele parecia decidido, decidido a se afundar na própria hipocrisia.
Hipocrisia que convenientemente esquece todas as vezes em que me disse que me amava: me amava de quatro na cama, me amava nos beijos, me amava lambendo cada pedaço do meu corpo como se fosse um banquete secreto. Agora, do nada, resolveu que é hétero. Uma epifania mágica, quase religiosa. Maldito mentiroso.
Mas isso não vai ficar assim. Eu vou contar para todos os amigos dele o que acontecia depois da escola, na casa dele, enquanto os pais trabalhavam. Vou rir por último. Ah, eu vou.
O meu nome e todo o resto eu vou deixar que outra pessoa fale por mim já que no momento eu só quero morrer.
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Relato imaginado do meu professor de química tirado de um relatório qualquer sobre os alunos, adaptado pra realidade atual:
Elijah Morrison, 17 anos. Cursa o Junior Year (11ª série do High School) Estudante exemplar, mas não do tipo que vive de boletins perfeitos — exemplar porque sabe exatamente quem é, mesmo quando o mundo insiste em dizer o contrário. Tem aquele olhar de quem já viu demais para a pouca idade, e uma ironia afiada que corta mais que faca de cozinha.
Não é vaidoso, mas também não é um desastre ambulante como o James, que se jogou no lixo emocional e ainda quis levar Elijah junto. Não conseguiu. Elijah é do tipo que cai, mas levanta com um plano. E o plano agora é vingança — épica, cinematográfica, com trilha sonora de riso sarcástico e sorvete de morango no final, porque sim, ele merece.
Tem um jeito de falar que mistura inteligência com veneno doce. Não grita, não esperneia — ele observa, calcula, e quando age, é certeiro. O tipo de pessoa que você subestima e depois se pergunta como foi parar no chão.
E agora, depois de um ano e meio de mentiras bem embaladas, Elijah está pronto para expor o maior hipócrita que já pisou na Terra. E vai fazer isso com estilo, porque se tem uma coisa que ele aprendeu, é que a verdade, quando bem contada, é mais destruidora que qualquer escândalo.
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Agora que já nos conhecemos, eu só quero que vocês saibam: o James não me deu escolhas. Então aqui vai a minha vingança.
O vestiário masculino está vazio, como deveria estar naquele horário. O eco dos meus passos ressoa entre os azulejos frios e o cheiro de desinfetante barato. Carrego minha mochila pesada, recheada com uma série de papéis que imprimi — conversas, fotos, provas. Um monte de nudes também. Ele me mandava como quem manda flores, só que com menos romantismo e mais tesão. Vamos ver como os amigos dele vão reagir ao ler isso.
Me aproximo dos armários com a determinação de quem vai cometer um ato simbólico. Quero socar o maior número possível de folhas dentro de cada fresta, como se estivesse plantando sementes de escândalo. Abro a mochila, pego os papéis, começo a enfiá-los entre as portas metálicas. O som do papel sendo empurrado contra o metal é quase terapêutico.
— O que você está fazendo? — pergunta uma voz grossa atrás de mim.
— Eu não… — digo, sem graça, me virando com o coração disparado.
A visão que se estende é do treinador Michaels. Short curto, bigode aparado, aparência de homem de meia-idade que parece saber mais do que diz. Ele me olha com uma mistura de curiosidade e suspeita.
— Não, não é isso que você está pensando — digo, tentando parecer inocente, mas falhando miseravelmente.
— Por que está enfiando papéis com… — ele se abaixa, pega uma das folhas que caiu no chão e a examina. Seus olhos se arregalam. — … fotos nuas do James. Todo mundo já viu ele pelado, afinal, isso aqui é um vestiário.
Ele então passa os olhos rapidamente pelas palavras impressas abaixo da imagem e lê em voz alta, com a voz trêmula: — “Eu gostaria de te ver pelado, Lijah coberto de chantili no meu aniversário.”
Ele fica vermelho. Muito vermelho. O tipo de vermelho que não se vê nem em tomate maduro.
— Eu… eu… é… eu… — gaguejo, tentando encontrar alguma dignidade no meio da confusão.
— Essas mensagens são bem particulares — diz ele, tentando manter a compostura. — Gostaria de deixar bem claro que expor mensagens de cunho sexual para constranger outra pessoa é crime.
— Eu só… quer dizer, é que…
— Que o quê? O James tem direito de mandar mensagens pra qualquer garota dessa escola. Não tem nada de errado nisso — diz ele, suando nervoso, como se estivesse tentando escapar de uma armadilha.
— Ele não mandou elas pra qualquer uma — digo, firme. — Ele mandou pra mim. Lijah Elijah.
— Oh, pra… — diz ele, surpreso. — Pra você? Isso é diferente. Então quer dizer… tenho certeza de que ele deve ter mandado elas como uma brincadeira.
— Uma brincadeira? — digo, rindo cínico. — Uma brincadeira de um ano e meio com direito a quase tudo o que está escrito nas mensagens feitos.
O treinador enrijece o corpo. Está desconfortável, como se tivesse pisado em um campo minado emocional.
— Bom, eu preciso relatar isso ao diretor — diz ele, completamente sem graça. — Vocês rapazes não deveriam fazer essas atividades na escola.
— Nunca fizemos na escola — digo, rindo de nervoso e também dele, por estar tão constrangido.
— Que bom — diz ele. — Que bom que não sujaram a escola com essas atividades… que não deveriam ser feitas por aqui.
Os olhos do treinador percorrem a foto impressa ali. Ele olha pra ela surpreso.
— O James é bem avantajado. Eu nunca tinha percebido isso — diz ele. — Deve ser porque eu não fico olhando.
Eu seguro o riso. Quase engasgo com ele.
— Vamos à diretoria — diz ele.
— Por favor, não — digo. — Eu não posso ser suspenso. Eu sinto muito por isso.
— Suas ações precisam de consequências.
— Eu te imploro, Sr. Michaels, eu estou só frustrado com aquele idiota — digo. — Só me deixa ir, por favor. Eu prometo que não faço mais isso.
Ele para. Pensa por alguns segundos. O silêncio pesa como concreto.
— Por favor, senhor — imploro mais uma vez, com a voz embargada.
Ele hesita mais um pouco e depois suspira, derrotado.
— Tudo bem, só vai embora. Se livra dessas coisas indecentes — diz ele. — E não volte a fazer isso nunca mais. Não a parte de se relacionar com… Você me entendeu.
— Obrigado — digo, pegando minha mochila do chão, dando uma última olhada nele e puxando o papel da mão dele antes de sair dali.
O resto do dia foi basicamente evitar cruzar com o treinador de novo e também evitar — ou ser evitado — pelo maldito do James, que agora namora com a falsa da Karen Smith. Aquele projeto de ser humano que mal sabe que eu já tive aquele homem do jeito que ela nunca vai ter.
Sentado na sala de aula, eu não presto atenção em nada. Só nos dois, trocando carícias, e aquilo me enoja, me corrói por dentro como ácido.
Na hora da saída, tudo o que eu quero é ir pra casa e deixar aquilo pra trás. Chorar sozinho ouvindo músicas da Winona Tyler, aquelas que eu e o James costumávamos ouvir escondidos, já que ele tinha que fingir que gostava de rap quando estava com os amigos. Mas o que ele realmente curtia eram os acordes suaves das músicas românticas. Ele me falou isso. Ele me falou muita coisa.
Passando no estacionamento dos fundos da escola, com minha mochila pesando mais pelas emoções do que pelos livros, eu vejo o professor Michaels entrando no carro dele.
O professor Michaels é um homem de meia-idade, com aparência comum e discreta. Seu traço mais marcante é o bigode bem aparado, que parece ser parte inseparável de sua identidade. Costuma usar shorts vermelhos, quase como uma marca registrada, e carrega consigo aquele ar de quem já viu muita coisa, mas prefere não comentar. Não é exatamente simpático, nem intimidador — apenas alguém que ocupa o espaço com a naturalidade de quem está acostumado à rotina da escola.
Eu tento seguir em frente sem chamar atenção, mas então o escuto me chamar. Puta que pariu, alerta vermelho. Só foge, finge que não ouviu.
— Elijah, oi. Pode vir aqui um minuto — diz ele.
E então eu tenho que parar e me virar pra ele.
— Treinador Michaels — digo, sorrindo falsamente. — Eu posso te ajudar no quê?
Eu me aproximo dele, arredio, cada passo pesado como chumbo, esperando tudo. O ar parece mais denso, o sol da tarde reflete no carro e me cega por um instante. Mas não tanto quanto a sensação de estar prestes a ser engolido por algo que eu não controlo. O olhar dele me atravessa, não acusatório, mas carregado de uma curiosidade desconfortável. É o olhar de quem sabe que há segredos escondidos e talvez esteja pronto para puxar o fio.
— Elijah, eu só queria conversar com você — diz ele.
— Eu já me livrei das fotos — digo, antecipando o que poderia ser uma bronca.
— Que bom — diz ele.
— E eu não vou mais fazer isso — digo. — Eu nem sei por que fiz isso em primeiro lugar.
— Legal, Elijah. Você parece ser bem maduro pra sua idade.
— O que você quer comigo, treinador? — pergunto, impaciente. — Eu preciso ir pra casa.
— Bom, eu só… — diz ele, escolhendo as palavras com cuidado. — Você e o James eram… proximos, certo? Enfim… e quando vocês começaram isso aí?
— Começamos a namorar? — pergunto. — Depois da festa da Molly, no verão passado. Ele bebeu demais fomos pro quarto dos pais dele e o resto é história.
— E antes disso? — pergunta ele, nervoso. — Você deve ter tido outra pessoa.
— Eu namorava o Kyle Morgan.
— O Kyle também é gay? — pergunta ele, surpreso. — Eu não sabia disso.
— Por três meses nós ficamos juntos — digo.
— E antes disso… tinha mais alguém?
— Só o Chad. E eu fiquei com uns caras que conheci por aí — digo. — Por que está tão interessado nisso?
— Não, eu só queria saber — diz ele.
— Sobre a minha vida sexual?
— Não — diz ele, hesitando. — Sobre… sobre esse negócio de ficar com rapazes. Isso é uma coisa que você sempre soube?
— Sim — digo, rindo nervoso. — Eu sempre soube que gostava de garotos. Por quê?
— Não, por nada — diz ele. — Era só curiosidade mesmo. E antes disso, teve mais alguém?
— Teve, na pré-escola. Eu beijei um garoto de lá, de brincadeira, nada sério — digo. — Você está bem?
— Eu? Claro que estou — diz ele, sorrindo.
— Eu pergunto isso porque você está suando — digo.
— É só o calor — diz ele. — Você sabe como é.
— Olha, treinador, eu preciso mesmo ir — digo. — Mas foi bom conversar com você.
— Claro — diz ele. — Vai lá. Boa viagem pra casa. A gente se vê amanhã.
— Tchau — digo, mas assim que me viro ele tosse, como se tivesse algo mais pra perguntar. Eu me viro de novo.
— Eu gostei de conversar com você — diz ele.
— Olha, professor, por que você não pega o meu telefone? — digo. — Pode me ligar se tiver mais alguma dúvida sobre algo.
— Bom, eu não acho que um professor possa ter contato com alunos fora do horário escolar.
— Vamos fazer disso o nosso segredo — digo. — Anota aí o meu número.
Ele pega o celular de dentro do carro e anota o número que eu passo pra ele.
— Pode me ligar quando quiser, professor — digo. — Minha vida é um livro aberto.
— Obrigado — diz ele. — Me ajudou bastante saber sobre você.
Ele parece genuinamente agradecido, e eu só sorrio antes de sair do estacionamento, com a cabeça fervendo. O que diabos foi aquilo? Eu estou criando um vínculo com um professor? Por quê? Pra quê? Melhor eu ir embora antes que ele me pergunte sobre a minha primeira experiência sexual com um cara.








