O cheiro da chuva
O bushveld guardava memórias.
Elas viviam na terra rachada e nas acácias, no capim alto que sussurrava quando o vento descia da escarpa, e no silêncio que se instalava após o pôr do sol, quando até os pássaros sabiam que era melhor não cantar. A terra lembrava do sangue. Lembrava da fome. Lembrava dos lobos muito antes de os homens construírem cercas, alojamentos e chamarem a selva de sua.
Kaelan Anderson estava descalço no cume, o solo vermelho ainda quente sob seus pés, mesmo com o resfriamento da noite. Abaixo dele, a terra se estendia sem fim — árvores mopane, afloramentos rochosos espalhados e a fita prateada de um rio cortando o vale. Além disso, o Drakensberg erguia-se como dentes ancestrais contra o céu que escurecia.
Uma tempestade está chegando.
Ele podia sentir o cheiro horas antes de as nuvens se formarem. Chuva, ozônio, relâmpagos distantes. O perfume percorria a terra, agitando algo inquieto sob sua pele.
O lobo dentro dele se moveu, andando de um lado para o outro.
Minha.
O maxilar de Kaelan tensionou. "Não esta noite."
A palavra saiu baixa, quase um rosnado.
Durante três anos, ele manteve o controle. Três anos desde que se tornou Alpha após a morte de seu pai. Três anos mantendo a alcatéia unida durante secas, disputas territoriais e a ameaça constante de humanos invadindo terras que não lhes pertenciam.
Um Alpha não tinha o luxo de seguir o instinto. O instinto cometia erros. O instinto levava pessoas à morte.
E as companheiras...
Companheiras tornavam os Alphas fracos.
Ele já tinha visto isso acontecer. Viu homens fortes se dobrarem, perderem o foco, escolherem uma vida em detrimento de muitas. Seu pai quase destruiu a alcatéia tentando proteger a mãe de Kaelan. Amor, destino, laços — fosse qual fosse o nome que as pessoas dessem — eram coisas perigosas.
Kaelan jurou há muito tempo que, se o laço viesse atrás dele, ele o ignoraria.
O lobo rosnou em discordância.
Ele exalou lentamente, forçando a calma a percorrer suas veias. Abaixo dele, as terras da alcatéia estavam em silêncio. As patrulhas estavam fora. Os lobos mais jovens caçavam perto do rio. Tudo estava como deveria estar.
Exceto pelo desconforto que percorria sua espinha.
Algo estava mudando.
O vento mudou.
E então, ele sentiu.
Um cheiro.
Não era presa. Nem estranho. Nem ameaça.
Algo quente. Vivo. Impossível.
Kaelan congelou.
Seu coração deu um solavanco — forte o suficiente para doer.
Não.
O cheiro subiu o cume novamente, envolto em chuva, poeira e jasmim selvagem. Humano... mas não inteiramente. Sob ele jazia algo mais antigo, enterrado profundamente, como uma memória esperando para despertar.
Seu lobo avançou violentamente.
Minha.
Kaelan cambaleou um passo para trás, o ar faltando em seus pulmões. Um calor se espalhou por seu peito, intenso e desorientador. Cada instinto que ele possuía o puxava em direção à estrada do vale, de onde o cheiro vinha.
"Não", ele disse novamente, com mais aspereza desta vez.
Não podia ser.
Não agora.
Nunca.
Ele se virou, afastando-se do vento com os músculos rígidos, forçando-se a caminhar em direção à casa da alcatéia. Cada passo parecia errado, como caminhar contra a correnteza. O laço puxava insistentemente, um fio que apertava a cada segundo.
Ele o ignorou.
Ele precisava.
Porque se o destino finalmente o encontrou, ele escolheu o pior momento possível.
E Kaelan Anderson não tinha a menor intenção de se render a ele.
Tanisha Thornton detestava estradas de terra.
O carro alugado chacoalhava violentamente enquanto ela dirigia, com o cascalho estalando sob os pneus. O sinal do GPS tinha sumido vinte minutos atrás, deixando-a apenas com direções vagas rabiscadas no verso de um recibo e a suspeita crescente de que ela estava completamente perdida.
O sol baixou, tingindo o bushveld de dourado.
Lindo, ela admitiu a contragosto.
Ela não queria ter vindo.
Após a morte de sua avó, Limpopo era o último lugar onde ela queria estar — muitas memórias, muitas perguntas sem resposta. Mas o advogado insistiu que a propriedade não poderia ser cuidada à distância. Documentos precisavam ser assinados. Pertences pessoais precisavam ser organizados.
Fechamento, eles chamaram isso.
Tanisha apertou o volante.
Fechamento não existe. Não de verdade.
O ar tinha um cheiro diferente ali. Mais limpo. Mais selvagem. Algo estranho se agitou em seu peito — uma energia inquieta que ela não conseguia explicar. Desde que chegara naquela manhã, seus sentidos pareciam... mais aguçados. Os sons mais altos. As cores mais vivas. Até suas emoções estavam à flor da pele.
Luto, principalmente.
E algo mais.
Algo que ela não sabia nomear.
Um calafrio repentino percorreu seu corpo, apesar do calor.
Ela reduziu a velocidade do carro, olhando para a linha das árvores. Por um momento, ela poderia jurar que estava sendo observada. A sensação foi forte o suficiente para acelerar seu pulso.
Ridículo.
Provavelmente antílopes. Ou macacos.
Mesmo assim, ela trancou as portas.
A estrada fez uma curva, subindo levemente, e a vista se abriu para revelar montanhas ao longe — azuis e infinitas sob nuvens de tempestade. Trovões ecoaram fracamente.
A chuva está chegando.
O cheiro dela preencheu o ar.
E então, sem aviso, algo dentro de seu peito se apertou bruscamente.
Sua respiração falhou.
Um calor estranho se espalhou por seu corpo, desconhecido e perturbador. Seu coração começou a disparar sem motivo aparente. Parecia antecipação. Parecia reconhecimento.
Parecia voltar para casa.
Tanisha balançou a cabeça, tentando afastar a sensação.
"Controle-se", ela murmurou.
Ela pisou no acelerador.
Ela não percebeu o grande lobo parado silenciosamente no cume acima da estrada, com os olhos dourados fixos em seu carro que passava.
Não viu o jeito que ele a seguiu com um foco inabalável.
Ou como ele se virou e correu em direção às terras da alcatéia no momento em que ela desapareceu de vista.
Kaelan bateu a porta da casa da alcatéia com força suficiente para fazer as janelas tremerem.
Seu Beta olhou para cima, da mesa da cozinha, com a sobrancelha erguida. "Tão ruim assim?"
Kaelan andava de um lado para o outro, passando a mão pelo cabelo escuro. "Ela está aqui."
O silêncio tomou conta.
Seu Beta se endireitou lentamente. "Você tem certeza?"
"Eu consigo sentir."
As palavras tinham gosto de derrota.
O laço pulsava sob sua pele, constante e incansável. Cada instinto gritava para ele voltar, encontrá-la e reivindicar o que o destino decidira ser seu.
Ele odiava isso.
Odiava a perda de controle. Odiava a certeza.
"Humana?", perguntou seu Beta com cautela.
Kaelan hesitou. "Eu não sei."
O cheiro dizia que era humana. A sensação dizia o contrário.
E isso o assustava mais do que qualquer coisa.
Porque se ela fosse humana, seria vulnerável. Frágil. Uma fraqueza que seus inimigos poderiam explorar. Uma distração que ele não podia se dar ao luxo de ter.
E se ela não fosse...
Então alguém escondeu uma loba de seu território por mais de duas décadas.
De qualquer maneira, significava problemas.
Kaelan parou de andar, com o maxilar travado. "Vou ficar longe dela."
Seu Beta não discutiu imediatamente — o que dizia a Kaelan exatamente o quanto ele acreditava que aquele plano funcionaria.
"Você sabe que o laço não vai deixar você ignorá-la para sempre."
"Veremos."
Lá fora, um trovão estalou no céu.
A chuva começou a cair, gotas pesadas atingindo o teto de zinco.
Em algum lugar ao longe, Tanisha Thornton saiu do carro e olhou para a tempestade, alheia ao fato de que sua vida — e a dele — já tinha começado a mudar.
E alto nas colinas, os lobos uivaram.
Não como um aviso.
Mas em reconhecimento.