Capítulo Um
Largo Glitzer já havia sobrevivido a três tentativas de assassinato, duas guerras interestelares e um banquete cerimonial que envolvia enguias vivas. Nada disso o preparou para lidar com seus pais. Pelo menos os assassinos se anunciavam.
“Largo, você já tem idade”, disse sua mãe, cruzando suas quatro mãos com uma calma aterrorizante.
“Estou ciente.”
“E ainda assim, você nem tentou procurar uma parceira. Você é o herdeiro do trono. Você tem responsabilidades”, continuou ela.
A cauda de Largo chicoteou atrás dele: “Mãe, eu só tenho 400 tics. Há muito tempo para eu acasalar”.
“Você não está na mesma posição que os outros da sua idade”, disse seu pai, andando de um lado para o outro diante do trono, as costas retas como um militar, dois braços cruzados firmemente atrás das costas. A dele, perfeitamente comportada junto à perna. “O tempo deve passar mais rápido para você.”
“Tentei encontrar uma parceira neste planeta. Elas não se interessam por mim. Tudo o que lhes interessa é se tornarem princesas. E eu... Bem, não encontrei nenhuma que prendesse minha atenção”, explicou Largo.
“Estamos invocando o Ritual de Seleção”, proclamou sua mãe, com um braço apontando para o pergaminho que parecia inofensivo sobre a mesa.
“O Ritual de Seleção!”, rugiu Largo, agarrando seus chifres como se estivessem prestes a traí-lo.
Ele já havia comparecido a Rituais de Seleção antes. Já tinha encarado os estandartes dourados e ouvido os aplausos educados, enquanto duas pessoas fingiam não parecer presas.
Seu pai assentiu, como se estivessem discutindo o tempo e não uma tradição de casamento milenar que envolvia alianças políticas e pessoas aplaudindo enquanto você tentava não desmaiar. “Nós escolheremos sua parceira”, disse ele.
“Com todo o respeito”, disse Largo. “Eu… não sou contra o acasalamento. Conceitualmente.”
Sua mãe sorriu levemente, como se tivesse acabado com uma rebelião com um aceno de mão. “Excelente. Então será simples.”
“Não será”, disparou Largo.
Silêncio.
Largo se endireitou, porque se ele ia morrer, morreria de pé.
“Digo”, corrigiu-se, “não será simples porque sou um indivíduo complexo.”
Rubdig, parado ao lado como testemunha cerimonial designada de Largo, fez um barulho que soou suspeitosamente como um engasgo.
“Complexo”, repetiu Largo, olhando de soslaio para seu amigo antes de focar novamente em seus pais com mais confiança, porque insistir no erro era basicamente um esporte real. “Com... profundidade. E preferências. E...”
“E um dever”, interrompeu seu pai.
O maxilar de Largo tensionou-se.
Seu pai continuou: “Um dever para com sua Casa, sua linhagem e seu planeta. Você vai se casar com um membro adequado das famílias nobres. Já analisamos as candidatas”.
A mãe de Largo deslizou o pergaminho dourado pela mesa com a lenta inevitabilidade de uma guilhotina sendo colocada no lugar. Ele encarou o objeto.
“Não”, disse ele antes que pudesse se conter.
A palavra ecoou no salão mais alto do que pareceu em sua boca. Rubdig fez um som estrangulado novamente – este, de puro deleite.
As sobrancelhas de sua mãe se elevaram. “Como disse?”, perguntou ela, ainda perfeitamente calma.
Largo respirou fundo e convocou todas as lições de etiqueta que já suportou, cada hora gasta aprendendo a se curvar sem parecer que estava desmoronando, cada palestra sobre não dizer a palavra não para alguém que tecnicamente estava acima dele na hierarquia cósmica.
“Eu solicito”, disse ele cuidadosamente, “um adiamento temporário.”
Seu pai soltou uma risada áspera. “Um adiamento. Você não está pedindo uma sobremesa.”
“Estou”, disse Largo. E então: “Não... pedindo. Apenas... solicitando.”
Rubdig estava agora mordendo o próprio punho.
Sua mãe inclinou a cabeça. “E por que”, perguntou ela, “adiaríamos algo que já foi decidido?”
O coração de Largo batia tão forte que ele temia que pudesse transparecer através de sua couraça cerimonial. Porque ele não podia. Porque ele tinha visto o que casamentos políticos faziam – como transformavam pessoas em enfeites. Como o riso morria.
“Porque”, disse ele, encarando os olhos da mãe, “eu gostaria de encontrar alguém que valha a pena.”
Os olhos de seu pai se estreitaram. “Que valha a pena?”
“Sim”, disse Largo, mantendo-se militarmente reto, ombros para trás, cauda comportada por uma vez junto à perna, “Alguém... alinhada com meus valores.”
Rubdig fez um som sibilante. Largo se recusou a olhar para ele.
“E quais”, perguntou sua mãe, cruzando os braços à frente, “são seus valores?”
Largo pausou. Seus valores eram: não morrer sozinho em um palácio cheio de silêncio caro; riso, gentileza e alguém que não o tratasse como um ativo cerimonial; e não ser casado com uma pessoa cuja parte favorita dele fosse seu título. Mas esses não eram valores que você admitia no Salão dos Julgamentos de Veludo. E nenhum deles poderia ser escrito em um tratado.
Então ele disse: “Honra, dever, respeito mútuo. E...” Ele entrou em pânico e acrescentou: “Boa postura”.
Sua mãe encarou. Seu pai encarou. Rubdig fez um som que só poderia ser descrito como um despertar espiritual violento.
Largo insistiu. “Solicito três ciclos. Para encontrar uma parceira por conta própria. Alguém que valha a pena. Alguém... real.”
A expressão de seu pai tornou-se mais severa.
A voz de sua mãe suavizou-se ligeiramente, o que, no caso dela, era o equivalente a sacar uma faca com uma fita amarrada nela. “E se você falhar, nós escolheremos por você.”
Seu pai levantou uma sobrancelha. “Onde você pretende encontrar essa... parceira que valha a pena?”
Largo sorriu vitoriosamente: “Há uma Estação Espacial Internacional a um ciclo de distância. Uma população diversa. Um grupo maior. Procurarei entre outras linhagens nobres”.
Rubdig deu-lhe um sinal de positivo rápido. Largo ignorou-o com ressentimento profissional.
Os olhos de sua mãe se estreitaram. “Uma estação espacial”, repetiu ela, como se soasse estranho.
“Sim”, Largo assentiu. “Vou me portar com dignidade.”
Rubdig fungou tão alto que ecoou. Largo lançou-lhe um olhar fulminante, mas seu amigo apenas abriu as mãos como se dissesse: Eu te apoio, mas também estou ciente de que você é você.
A cauda de seu pai bateu uma vez no chão. Largo olhou para ela, engoliu em seco, desviou o olhar. “Fora do mundo. Um ambiente público. Um...” seu pai parecia ligeiramente enjoado, “pool de namoro.”
Largo se recusou a recuar novamente. “Sim. Um pool. Com... opções.”
Sua mãe inclinou-se para frente. “Nós permitiremos.”
O peito de Largo relaxou com um alívio tão grande que ele quase tropeçou.
Rubdig fez um som vitorioso que era basicamente um guincho disfarçado de tosse.
“No entanto”, continuou ela suavemente, “temos uma condição.”
Largo congelou. É claro. Sempre havia uma condição.
“Você não voltará”, disse ela, “com uma plebeia.”
Ele se forçou a assentir, mesmo quando algo pequeno e teimoso dentro dele recuou. “Uma plebeia.”
“Sim”, disse seu pai. “Sem trabalhadores da estação, sem artistas.”
“Você deve encontrar alguém da sua classe”, continuou sua mãe. “De posição, de linhagem.”
A cauda de Largo contraiu-se. Ele se forçou a assentir. “Combinado. Sem plebeias.” As palavras pareciam mais pesadas do que deveriam.
Sua mãe levantou-se, o que significava que a conversa havia terminado. “Você pode partir ao amanhecer”, disse ela. “Nos deixe orgulhosos.”
“Não nos envergonhe”, acrescentou seu pai.
Rubdig murmurou: “Sem pressão”.
Largo virou-se bruscamente. “Rubdig”, sibilou ele baixo enquanto saíam do salão. “Você prometeu não comentar.”
Rubdig levantou as duas mãos. “Não estou comentando. Estou apenas... observando sua condenação iminente.”
“Eu não estou condenado.”
Rubdig sorriu alegremente. “É exatamente isso que as pessoas condenadas dizem. É como o bordão delas.”
Eles seguiram pelo corredor, longe dos estandartes de veludo e dos retratos ancestrais de pessoas que pareciam nunca ter se divertido na vida. Assim que ficaram longe o suficiente para não serem ouvidos pelas estátuas emocionalmente críticas do palácio, Rubdig deu um encontrão no ombro de Largo.
“Você percebe”, disse Rubdig, “que acabou de se voluntariar para namorar?”
“Sim”, disse Largo, olhando fixamente para frente.
“Com estranhos.”
“Sim.”
“De espécies desconhecidas.”
“Sim, eu estou ciente.”
“Em um ambiente cheio de lanches, golpes e o tipo de gente que tenta te vender ‘joias de meteorito autênticas’ que na verdade são pedras pintadas.”
“Sim”, disse Largo, raspando seus chifres contra a parede, provocando faíscas, “Sim, Rubdig, eu estou ciente.”
O sorriso de Rubdig aumentou. “Perfeito. Porque eu vou junto.”
Largo parou de andar. Rubdig continuou por dois passos antes de perceber. Ele se virou. “O quê?”, perguntou Rubdig.
“Não”, disse Largo imediatamente.
“Não?”, Rubdig piscou.
Largo cruzou os braços. “Esta é uma missão nobre.”
Rubdig assentiu. “Exatamente. Você precisa de apoio emocional.”
“Eu não...”
“E você precisa de alguém para te impedir de casar com a primeira pessoa que elogiar sua cauda.”
O rosto de Largo esquentou. “Isso não vai acontecer.”
Rubdig arqueou as sobrancelhas.
“De novo”, disse Largo. “Nós éramos apenas crias naquela época.”
“É por isso que vou com você.”
Largo soltou o ar lentamente. “Tudo bem.”
Em algum lugar lá fora, em uma estação cheia de estranhos, havia alguém real. Ele só tinha três ciclos para encontrar essa pessoa. Depois disso, ele não poderia escolher.
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Você deixaria outra pessoa escolher o seu futuro?