A Loba de Fogo

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Resumo

Liberdade era um sonho distante. Cama era um luxo. Comida era apenas para sobrevivência. Privada de tudo, Lyra foi arrancada de sua vida antes mesmo de descobrir quem era. Forçada a viver como um animal e ser exibida como um prêmio. Assistiu outros como ela passarem pelas celas ao lado. Menos Oscar, ele foi o único que assim como ela resistiu e sobreviveu ao destino cruel das grades. Então um lobo trazido na calada da noite transforma a vida atrás das grades. Dante traz uma nova luz às paredes frias que os prendem. Um sopro de esperança, uma esperança de que ainda há algo fora desse lugar. Um último ato de rebeldia em busca de uma liberdade merecida.

Status
Completo
Capítulos
46
Classificação
5.0 2 avaliações
Classificação Etária
16+

O Início do Fim

Ela tinha decidido ver um filme essa noite.

Nós estávamos juntos há um ano, mas parecia que foi ontem. Ainda me arrepia lembrar da primeira vez em que a vi: o sorrisinho no rosto e as bochechas coradas.

Ela não fazia ideia do que era um companheiro. Ela não fazia ideia de que o meu mundo existia.

Mas meu coração batia diferente por ela.

Minha companheira.

Há um ano eu a vi e soube: era com ela que eu passaria o resto da minha vida.

Com quem teria filhos e envelheceria.

Mesmo que, para isso, eu tivesse que deixar a minha própria vida para trás. Viver como ela, na cidade, e abandonar o animal dentro de mim.

Eu a amei no instante em que coloquei meus olhos nela.

Ela não sentia o mesmo que eu — bom, pelo menos não naquela intensidade. Humanos não sentem o vínculo da mesma maneira. Mas ela se apaixonou por mim e me aceitou do jeito que eu sou.

Nós achamos um meio-termo: uma casa mais afastada da cidade e mais próxima da natureza.

Nossa vida ia bem.

Cada manhã, acordar ao lado dela, sentindo seu calor contra o meu corpo, e toda noite dormir com ela segura em meus braços.

Não havia muito mais que eu pudesse desejar na vida.

“Querido, você gostou do filme?”

Eu não tinha nem visto que o filme acabou.

Acho que passei o tempo todo olhando para ela, perdido em pensamentos; até esqueci que estávamos aqui.

“Claro, maravilhoso.”

Ela era maravilhosa e ela queria ver o filme. Havia poucas coisas que eu não faria para agradar essa mulher.

“Você nem assistiu, não é?”

Ela disse com um sorriso se formando em seu rosto. Pegou minha mão e se levantou para sairmos juntos com os outros.

Minha querida companheira me contou todo o enredo do filme com seus maravilhosos comentários. Era muito melhor do que ver o filme.

Para mim, o som da sua voz era melhor que qualquer melodia. Era quase hipnótico.

Eu poderia ficar horas ouvindo-a falar sobre qualquer coisa.

Quando paramos na faixa para atravessar, senti os pelos da minha nuca se arrepiarem.

Nós íamos jantar próximo ao cinema — afinal, era nosso aniversário de um ano.

Ignorei o arrepio.

Eu estava ansioso. O anel no meu bolso pesava como chumbo.

E ela parecia tão radiante essa noite em seu vestido branco.

“Querido, você está distraído de novo.”

Ela colocou a mão delicada na minha bochecha. Eu inalei fundo, precisando do seu cheiro.

“Sua beleza é distrativa, ainda mais nesse vestido e com essas pernas”, eu disse e dei uma olhada nas suas costas e bunda.

Como eu tive sorte com essa mulher; ela era perfeita para mim.

Ela me deu um tapinha e estava de olhos arregalados, olhando para mim, tentando não sorrir de volta.

Eu sabia que ela era tímida em público; mesmo com o vínculo, ela se segurava até estarmos sozinhos.

Tudo o que eu podia fazer era segurar sua mão, abraçá-la e dar beijos muito comportados.

Ela me mantinha sob controle.

“Achei que talvez você tivesse percebido algo no meu cheiro...”

Ela parecia tímida, sussurrando isso baixinho enquanto atravessávamos a rua. Não tinha certeza se ela queria que eu ouvisse.

“Por quê?”

Eu poderia ter ficado preocupado se os sentimentos dela pelo vínculo não fossem tão felizes e esperançosos.

Ela fez sinal para que eu me aproximasse mais.

Parei de andar assim que chegamos à calçada e deixei que ela sussurrasse:

“Eu estou atrasada.”

Ela corou lindamente, completamente fofa.

Eu levei um instante para processar o que ela me disse, entender o que estava atrasado.

“Você nunca atrasa. É o que estou pensando? Vamos ter um bebê?”

O sorriso no rosto dela se ilumina e a felicidade em meu peito explodiu, mas o arrepio na nuca ficou mais intenso.

O modo protetor superou a minha alegria; eu a puxei para meus braços e farejei ao redor, tentando evitar que ela percebesse minha preocupação.

Estávamos em uma cidade humana. Só sentia cheiro de humanos, carros, máquinas e pipoca de cinema.

Eu a solto do meu abraço com um sorriso que espelha o dela.

Eu não sabia o quanto queria esse bebê até ela falar da possibilidade.

Nunca tínhamos conversado sobre isso; estávamos focados em nós nesse primeiro ano.

E agora seríamos três.

“Querido, não se empolgue. Pode ser um alarme falso.”

Ela disse, ficando na ponta dos pés para me beijar. Senti o leve toque dos seus lábios nos meus.

“Eu queria esperar ter certeza para te falar...” Ela hesitou, sorrindo. “Mas não consigo guardar segredos de você.”

Minha nuca arrepiou de novo.

Senti um frio gelado na espinha. Era o oposto do calor elétrico do beijo da minha amada companheira.

“Vamos, querida. Vamos te alimentar e tirar você da rua”, eu disse.

Ela sorriu e seguimos para o restaurante.

Durante todo o jantar eu estava inquieto. Tinha a sensação constante de estar sendo observado. Olhava ao redor e farejava discretamente à procura de perigo, mas nada se destacava.

Apenas cheiros da cidade: humanos e comida.

Paguei a conta e voltamos andando até onde nosso carro estava, no cinema. As ruas estavam quase vazias agora. Era uma cidade relativamente pequena; não funcionava muita coisa à noite.

Minha companheira parecia com frio e coloquei meu casaco nela. Foi quando ouvi alguém se aproximar.

Um jovem bem vestido, com roupas escuras e discretas, estava se aproximando demais.

Passei meu braço nos ombros dela de maneira protetora e nos tirei do caminho.

O jovem, porém, diminuiu o passo.

Isso ativou algo profundo dentro de mim, algo que estava dormente na minha bolha de felicidade. Outros dois homens se aproximaram pelo outro lado da rua.

Seguimos mais rápido para o estacionamento, agora praticamente vazio.

Xinguei-me internamente por ter demorado tanto no restaurante tentando criar coragem para pegar o anel e pedi-la em casamento, como era seu sonho, mas a inquietude não me deixou.

Quando disparei o alarme do carro para abrir a porta mais rápido, o caos irrompeu sobre nós. Senti o dardo me acertar nas costas.

Minha companheira gritou.

Em segundos confusos, onde minha visão estava embaçada, eu socava e chutava por puro instinto.

A fera dentro de mim exigia se libertar, mas não conseguia. Eu não podia me transformar.

Maldito dardo.

Sacudi a cabeça e procurei por ela; o desespero superava a lógica.

No momento em que a vi e parei de me mover, fui atingido por um bastão. Ela gritou e tentou lutar com seu captor.

Eu corri em sua direção, mas a faca do maldito desgraçado foi mais rápida.

Um movimento forte contra seu abdômen e ela caiu. Sangue escorrendo. O cheiro doce e maravilhoso da minha companheira agora enchia o lugar.

O grito gutural e inumano que saiu de mim assustou os homens ao redor. Senti mais dois dardos enquanto eu matava qualquer um que alcançasse.

As únicas palavras que se repetiam em meus lábios eram: “Ela é humana”.

Ela não se recuperaria facilmente do golpe; o bebê lá dentro, nosso filhote, poderia não sobreviver.

Tentei afastar essa imagem da cabeça, mas eu podia vê-la caída enquanto lutava com cada homem que se punha entre nós.

Outro tiro soou. Dessa vez não era um dardo, era uma bala.

Eu estava sangrando, mas não sentia nada além de fúria cega e medo.

Mais dois tiros. Nesse ponto nem sabia se era em mim que estavam atirando, mas vi o chão se aproximando.

Mesmo contra minha vontade, vi-me caindo próximo a ela. Estendi meu braço, mas não conseguia alcançá-la.

Eu a vi tentar se mover, o sangue brotando de sua ferida e escorrendo pela boca. Ela tentou, mas sua respiração falhou.

Seus olhos fecharam.

A expressão de dor se desfez quando seu corpo ficou mole.

O vínculo se rompeu.

Nada, nenhuma dor se comparava àquela.

Era como se minha própria alma tivesse sido estilhaçada.

Ouvi um grito monstruoso, mas não conseguia saber se era eu mesmo gritando.

Meu mundo acabou.

“Eu vou adorar estourar seus miolos, animal imundo. Veja o que você fez. Você a matou.”

“Ela deveria estar segura, mas você a tocou com essas patas imundas. Você a maculou. Ela está morta por sua causa.”

Eu mal sentia a arma encostada na minha cabeça. Suas palavras doeram muito mais fundo.

Ela estava morta por carregar meu filhote, nosso bebê, por me amar e por me deixar amá-la.

Eu fiz isso.

Era minha culpa. Fechei os olhos. Logo estaríamos juntos novamente.

“Não atire, seu idiota!”, outra voz disse, e eu quase implorei para que atirassem.

“Não seja estúpido, você sabe quanto podemos conseguir por um desses vivo? Ele vale uma fortuna.”

“Quem vai querer uma coisa imunda como essa? Ele vale mais morto, para não arruinar mais ninguém.”

Ele me chutou nas costelas. Tentei revidar e provocar, mas eu estava entorpecido.

Eles tinham que me matar.

Eu precisava encontrá-la, não havia vida sem ela.

“Ele é inofensivo agora. A garota dele morreu, ele vai ser só uma casca. A espécie deles não vive muito sem o companheiro, é o ponto fraco deles. O dele era bem fraco.”

Ele cuspiu no corpo da minha companheira.

Meu corpo não respondia a nenhum comando; era uma luta apenas manter os olhos abertos.

“Você com certeza é um dos azarados, não é?”

Ele franziu o rosto em desprezo.

“Uma companheira que te faz fraco e, ainda por cima, uma que nem é um animal podre como você. Só serviu como sua fraqueza. Espero que, pelo menos, ela tenha sido boa na cama para fazer tudo isso valer a pena.”

Eu jurei matar o maldito.

Mas naquele ponto nem sabia mais quem estava falando. Eu sabia que lembraria do cheiro de cada um deles.

E, quando conseguisse, mataria cada um de forma lenta e dolorosa.

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