Capítulo 1
POV: Marina
A estrada vai ficando mais estreita à medida que me aproximo de casa.
Não que ela mude de fato — é o mesmo asfalto, as mesmas curvas, as mesmas árvores inclinadas como se estivessem compartilhando segredos —, mas meu peito aperta, como se meu corpo se lembrasse de algo que minha mente tem tentado esquecer.
Eu reduzo a velocidade sem querer.
Cada placa parece familiar. Cada curva parece pessoal.
Agarro o volante com mais força do que o necessário; minha aliança de casamento há muito se foi, mas o fantasma dela ainda está lá, uma pressão que minha pele não esqueceu. O GPS anuncia a rua dos meus pais como se fosse um destino.
Não é.
É um retorno.
Saí desta cidade acreditando que estava escolhendo um futuro.
Estou voltando sabendo que sobrevivi a um.
Lembro-me de partir.
Não desta vez — da primeira vez.
Jonathan e eu estávamos no meu quarto de infância, com caixas empilhadas contra as paredes e meus pôsteres já retirados. Éramos tão jovens. Tão certos. Tínhamos sido aceitos no mesmo programa, na mesma cidade, no mesmo futuro.
Cardiologia, juntos.
Lembro-me da minha mãe chorando baixinho na cozinha. Do meu pai fingindo não notar. Lembro-me de dizer a mim mesma que era assim que a ambição se parecia. Que amor significava escolher a mesma direção.
Eu não sabia, na época, quantas escolhas eu estava fazendo pela mulher que eu me tornaria.
A casa aparece no fim da rua, exatamente da maneira que existe em minha memória há anos. Paredes brancas. Porta da frente azul. A insistência da minha mãe em flores que exigem cuidado demais e nunca parecem naturais.
Eu estaciono e fico sentada por um segundo, com as mãos ainda no volante.
Um ano atrás, minhas mãos estavam cerradas na grade de uma cama de hospital, os nós dos dedos brancos, ouvindo um monitor cardíaco perder o ritmo. O coração do Jonathan. Um coração que eu entendia melhor do que a maioria. Um coração que o traiu mesmo assim.
A cardiologia é cruel desse jeito.
Eu saio do carro antes que o pensamento termine de se desenrolar.
A porta se abre quase imediatamente.
Minha mãe me puxa para seus braços com a mesma urgência de quando eu tinha cinco anos e caí da bicicleta. Seu cabelo loiro roça minha bochecha, seus olhos azuis já estão brilhando.
“Você chegou”, ela sussurra, como se fosse algo frágil.
Meu pai está logo atrás dela — mais alto do que eu me lembrava, ou talvez mais magro —, seu cabelo totalmente grisalho agora, olhos verdes firmes e calorosos. Ele beija minha testa como sempre fez, me mantendo com os pés no chão com um toque que diz você ainda é minha filha antes de qualquer outra coisa.
Alex vem por último, sorrindo enquanto pega minha mala da minha mão.
“Bem-vinda de volta, cardiologista”, diz meu irmão.
Alex. Mais velho. Mais largo. Engenheiro agora. Confiante de um jeito que só vem de construir coisas que não morrem com você.
O almoço é leve de um jeito que eu não esperava.
Minha mãe insiste em cozinhar comida demais, como se sustento pudesse consertar tudo. Meu pai conta uma história sobre os vizinhos. Alex fala sobre um novo projeto — outro prédio, outra expansão — e menciona casualmente que ajudou no planejamento estrutural da nova ala do hospital.
“Não é mais o mesmo lugar”, diz ele. “Você vai se surpreender.”
Eu aceno, mastigando devagar.
Eu me pergunto se o hospital sabe o quanto ele tirou de mim.
Ou se ele só se lembra do que eu dei.
A certa altura, minha mãe diz: “Ah — os Stokes perguntaram por você”, ela diz, cuidadosa, como se estivesse testando a temperatura da sala. “Uma família tão adorável.”
Eu murmuro em reconhecimento.
“Eles ficaram tão felizes quando souberam que você estava voltando”, acrescenta meu pai. “Parece que todo mundo está voltando ultimamente. Eles sentem sua falta. O Brennan também acabou de voltar. Faculdade de medicina. Dá para acreditar?”
Eu visualizo a casa dos Stokes na minha mente — quente, familiar, barulhenta do melhor jeito possível — e então me contenho.
“Ele é médico agora”, acrescenta meu pai, orgulhoso. “O garoto de ouro, aquele ali.”
A última vez que vi o filho deles, ele era só joelhos, cotovelos e potencial. Um garoto que olhava para o mundo como se o mundo lhe devesse algo emocionante.
Agora ele é médico.
O pensamento passa por mim e não deixa rastro. Ou pelo menos é o que digo a mim mesma.
Naquela tarde, desfaço as malas devagar, deliberadamente. Meu quarto de infância ainda cheira a lençóis limpos e livros antigos. As paredes são as mesmas. O teto também. Sento-me na beira da cama e deixo o silêncio se instalar em meus ossos.
Conheci Jonathan na faculdade.
Éramos jovens, arrogantes e convencidos de que poderíamos ser mais espertos que a exaustão. Estudamos juntos, sobrevivemos à faculdade de medicina juntos, escolhemos a residência juntos. Quando decidimos pela cardiologia, pareceu romântico — como uma promessa envolta em ambição.
Dois corações. Uma especialidade.
Não me permito seguir essa lembrança longe demais.
Quando o sol começa a se pôr, ouço uma batida na minha porta.
Clara não espera permissão.
Ela entra como uma lembrança que ganhou carne — cabelos escuros, risada alta, respeito zero pelo espaço pessoal — e imediatamente me puxa para um abraço que cheira a perfume e a lar.
“Você está mais magra”, ela anuncia. “E mais gostosa. O que é uma ofensa.”
Angela entra mais calmamente, com um sorriso suave e uma presença que me traz segurança. Ela trabalha no RH agora — organizada, eficiente, exatamente a pessoa que você quer controlando quem é contratado e quem não é.
Elas se sentam na minha cama, de pernas cruzadas, me encarando como se isso fosse uma intervenção.
“Como você está?”, pergunta Angela gentilmente.
Abro a boca. Fecho-a. Tente de novo.
“Estou… funcionando”, eu digo. “Alguns dias melhor que outros.”
Elas não pressionam. Nunca fazem isso.
Eu lhes conto sobre o último ano em fragmentos. Sobre a doença do Jonathan. Os quartos de hospital. O silêncio depois. Sobre decidir voltar não porque eu estivesse pronta, mas porque não conseguia mais ficar lá. Eu não conseguia trabalhar no mesmo hospital onde meu marido morreu, nem mesmo depois de um ano. Quando a Angela me ofereceu o emprego, não pensei duas vezes.
Os olhos da Clara brilham, mas ela mantém o tom leve. “Ok. Chega de tristeza por uma noite.”
“Eu não vou sair”, digo imediatamente.
“Sim, você vai.”
“Não.”
“Você está de luto, não morta”, ela rebate. “E você precisa de um drink.”
Angela acena. “Só uma noite. Sem expectativas.”
Elas me olham como se já soubessem a resposta.
Uma hora depois, estou vestida e parada diante do espelho, mal reconhecendo a mulher que me encara de volta. Não a viúva. Não a médica. Apenas… Marina.
No bar, a música é alta o suficiente para abafar meus pensamentos. Clara pede as bebidas como se fosse uma missão. Angela mantém um olhar protetor sobre mim.
Eu sinto isso.
Aquele formigamento na nuca, a sensação inconfundível de estar sendo observada. Eu mudo o peso do corpo, levando o copo aos lábios, fingindo que não percebo. Já tive olhos demais sobre mim na vida — colegas, pacientes, olhares de pena depois que o Jonathan morreu.
Não estou com disposição para curiosidades.
“Ok”, diz Clara, inclinando-se para perto, sua voz brilhante de malícia. “Quem é aquele?”
Eu franzo a testa. “Quem?”
Angela nem finge ser sutil. Ela vira a cabeça totalmente, escaneia o bar uma vez e então sorri devagar. “Ah. Ele.”
Eu suspiro. “Isso não é uma resposta.”
Clara segue o olhar dela e solta um assobio baixo. “Uau. Aquilo sim é um homem.”
Eu reviro os olhos. “Você é dramática.”
“Não”, diz Angela calmamente. “Ele é alto. Ombros largos. Cabelo escuro. E ele está te encarando como se você fosse a única pessoa na sala.”
Meu estômago aperta contra a minha vontade.
Digo a mim mesma que é o álcool.
“Tenho certeza de que vocês estão exagerando”, digo, finalmente me virando — só um pouco — para olhar.
No início, é só uma impressão.
Uma silhueta encostada no bar. Pernas longas e fortes. Uma estrutura sólida e masculina que preenche seu espaço sem esforço. Cabelo escuro, levemente bagunçado. Maxilar forte. O tipo de rosto que faz seu cérebro parar antes que seu nome venha à tona.
Gato.
Bonito.
E um rosto que eu já vi antes.
E então — o reconhecimento me atinge.
Não como um raio.
Como a gravidade.
“Ah”, murmuro.
Clara se anima. “Ah, o quê?”
“Eu o conheço”, digo, minha voz estranhamente firme. “Aquele é o Brennan Stokes.”
Elas piscam para mim.
“O filho dos vizinhos”, acrescento rapidamente. “Eu o conheço desde sempre.”
Angela arqueia uma sobrancelha. “E?”
“E isso muda as coisas.”
Clara ri. “Não, não muda.”
“Ele é mais novo”, argumento. “E eu o conheço desde que ele era criança.”
Angela inclina a cabeça. “Marina… ele claramente não é mais uma criança.”
Eu olho novamente — realmente olho desta vez.
O menino de quem me lembro se foi. Em seu lugar está um homem que parece confortável em seu corpo. Confiante. Silenciosamente perigoso do jeito que os homens são quando não precisam se anunciar. Seus olhos encontram os meus — cor de avelã, percebo — e ele não desvia o olhar.
Um calor se espalha lá no fundo do meu estômago.
Eu me viro para minhas amigas, perturbada. “Isso é uma ideia horrível.”
Clara sorri. “Quando foi a última vez que você transou?”
A pergunta cai mais pesada do que o esperado.
Abro a boca, pronta com uma resposta sarcástica — e então paro.
Eu conto.
A doença do Jonathan. O hospital. Os meses antes do fim. O ano depois.
“Ah”, digo baixinho.
O sorriso da Angela desaparece um pouco. “Marina?”
“Quase dois anos.”
A boca da Clara cai. “Nós vamos dar um jeito nisso hoje à noite.”
“Não”, digo imediatamente. “Nós não vamos.”
“Ok, não vamos te pressionar, vamos continuar bebendo”, disse Angela.
“Concordo com isso”, eu disse antes de tomar outro gole.
Elas pedem outra rodada mesmo assim.
O álcool solta algo dentro de mim — não imprudência, mas exaustão. A vigilância constante. A voz que diz seja cuidadosa, seja respeitosa, seja boa.
Do outro lado do bar, Brennan não parou de observar.
Não com fome. Não de forma vulgar.
Como se ele estivesse esperando.
Nós trocamos olhares — breves no início, depois mais longos. Sei que é errado. Sei os motivos. Eu ensaiei todos eles.
Mas com cada gole, eles se confundem.
A certa altura, Clara aperta meu joelho e levanta. “Banheiro.”
Angela a segue, lançando-me um olhar que é metade aviso, metade encorajamento.
Estou sozinha por exatamente três segundos antes que uma sombra caia sobre a mesa.
“Marina.”
Sua voz é mais grave do que eu esperava. Calma. Familiar de uma maneira que aperta meu peito.
Eu olho para cima.
Para cima.
Ele é ainda mais alto ficando tão perto. Ombros largos preenchendo minha visão. Aquele rosto — Deus — as linhas marcantes suavizadas por algo quente em seus olhos.
“Oi, Brennan”, digo, surpresa com o quão firme minha voz soa.
Ele sorri. Sem arrogância. Sem timidez.
Apenas real.
“Eu estava torcendo para que você não fingisse que não me conhecia.”
E, assim, a noite vira em seu próprio eixo.









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Interesting start
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