Chapter 1
O som alto e retumbante pft pft pft de uma motocicleta ecoou pelo bairro, avisando a todos da sua chegada. A moto diminuiu a velocidade até parar em frente a uma casa velha e caindo aos pedaços.
Faziam dezessete anos desde a última vez que Dash viu aquela casa. Vê-la agora trouxe boas lembranças de sua infância. Será que o dono ainda era o mesmo? Só havia um jeito de descobrir.
Ele passou a perna por cima da potente motocicleta com um motor de 123 cavalos de potência. Não havia capacete sobre sua cabeça loira. Sua figura alta e larga caminhou até a porta e ele deu uma batida firme.
Ouviu-se um arrastar do outro lado da porta, seguido pelo que parecia ser um homem resmungando.
"Se você estiver vendendo alguma merda, é melhor dar o fora...", veio a voz grossa do homem enquanto ele abria a porta, mas ele hesitou ao bater os olhos em Dash. "Bom, que se dane..."
"Fala, Cyrus. Faz tempo, hein."
Cyrus não tinha mudado muito desde a última vez que Dash o viu. Ele estava muito mais grisalho do que antes, mas continuava bem acima do peso, com o cabelo rebelde e uma barba grande e cheia.
"Pode crer que faz. Porra, você é a cara do seu pai", disse Cyrus.
Dash deu uma risada de desprezo. "É por isso que estou aqui. Posso entrar?"
"Entra logo, garoto", disse Cyrus, dando espaço na porta.
Dash entrou na casa e Cyrus deu um tapa nas suas costas antes de virar em direção à sala de estar. Dash o seguiu. O lugar não era lá essas coisas. Havia lixo espalhado pela mesa de centro e o ambiente cheirava muito a fumaça de cigarro.
"Quer uma cerveja?", perguntou Cyrus.
Dash balançou a cabeça. Quando Cyrus voltou com duas garrafas de cerveja, ambos se sentaram no sofá velho e surrado. As molas rangeram quando Dash afundou nos estofados.
"Então você veio falar sobre o seu velho, é?"
Dash abriu a cerveja e deu um gole. O gosto amargo passou pela língua e desceu pela garganta antes que ele dissesse: "Não, eu vim falar sobre o clube."
"Hum", disse Cyrus. "Não tem muito que eu possa te contar sobre isso. Já não é mais a gente, os veteranos, que manda. Os caras novos, como você, que estão com as rédeas."
"Mas você ainda tem influência, tenho certeza", disse Dash. Inclinando-se para trás com as pernas abertas, ele apoiou a garrafa na coxa.
"Claro que tenho. Posso estar velho, mas ainda sou o Cyrus, o porra do Vírus."
Dash sorriu. "Você acha que consegue me colocar lá dentro?"
Cyrus deu um gole grande na cerveja. Um pouco escorreu pela barba, mas ele não pareceu se importar. Ele colocou a garrafa na mesa de canto perto do sofá. "Do que se trata isso? Você aparece do nada. Não te vejo desde que era moleque. Agora quer entrar para o clube?"
Dash olhou para a garrafa na sua perna e tamborilou os dedos no vidro. "Eu acabei de sair da cadeia."
"Não brinca? Por quê?"
"Roubar carros. Eu tinha alguns anos de sentença esperando por mim, mas saí por causa de uma brecha na lei."
Cyrus soltou o ar pelos dentes. "Você teve uma sorte do caralho."
"Nem me fale", disse Dash. Ele levantou a garrafa e bebeu mais um pouco.
"Mas o que isso tem a ver com o clube?"
"Bem, o único motivo de eu ter ido preso foi porque alguém me dedurou. Alguém que eu achava que era amigo", disse Dash, franzindo a testa. "Tudo isso me fez perceber que não tenho porra nenhuma. Estou sozinho nessa. Então comecei a pensar no meu pai e no clube. Ele amava vocês. Sei que as coisas terminaram mal no final... mas vocês eram a família dele, entende? Eu quero isso. Eu quero esse tipo de família. Quando eu era moleque, tudo o que eu queria era crescer e entrar para o clube. Ser um Unforgiven King. Mas depois que meu pai morreu... minha mãe nos levou embora... e você sabe o resto."
"Droga", disse Cyrus. Ele acendeu um cigarro entre os lábios barbudos e fechou o isqueiro com um estalo. "Seu velho era como um irmão para mim, Dash. E espero que você saiba que não tive parte no que aconteceu com ele."
Uma careta surgiu nos lábios de Dash. O assunto sobre seu pai e o que aconteceu com ele não era fácil, e ele não veio até Cyrus para desenterrar esqueletos do passado. "Não estou te culpando."
"Os tempos eram outros naquela época. Mais sangrentos do que são agora", disse Cyrus, soltando uma nuvem de fumaça. "Mas eu entendo. Não tinha nada igual. Ter irmãos com quem você sabia que podia contar. Sempre por perto, te dando cobertura. Às vezes eu fico sentado pensando nos bons velhos tempos... Ah, se eu pudesse revivê-los... Hoje em dia, mal consigo segurar o guidão da minha moto."
Dash olhou para o homem mais velho e sentiu um sentimento de camaradagem. Cyrus entendia exatamente o que ele estava procurando, o que lhe faltava durante todos esses anos.
"Então você acha que pode dar uma palavrinha por mim?", perguntou Dash.
"Hum. É, eu posso conseguir uma reunião com o Hunter. Mas aquele garoto, ele é muito rígido. Se você quer se tornar um Unforgiven King, vai ter que conquistar seu espaço. Não importa quem é seu pai hoje em dia. Confiança é algo que se conquista."
"Acredite, eu sei disso melhor que ninguém", disse Dash. "Estou disposto a fazer o trabalho necessário."
"Heh, se você for parecido com seu pai, eu acredito."
Dash sorriu enquanto tomava outro gole de sua cerveja. Com isso resolvido, ele passou a hora seguinte relembrando com Cyrus sobre seu pai e o clube. Quando ele saiu da casa caindo aos pedaços, Cyrus disse que lhe daria um telefonema para avisar quando poderia encontrar o Hunter.
Enquanto o motor de sua moto rugia de volta à vida, Dash sabia que aquele era o início de sua nova vida. Ele faria o que fosse preciso para fazer parte do clube. E assim que se tornasse um Unforgiven King, ele iria consertar o que aconteceu com seu pai todos aqueles anos atrás.