Personalizar legibilidade
Aa

Sangue e Ruína

Todos os Direitos Reservados ©

Resumo

Ela fugiu da coroa. Agora, a coroa quer o seu sangue. Cinco anos atrás, Morrigan desapareceu das cortes feéricas. Agora, ela foi arrastada de volta — prometida a um rei que nunca parou de caçá-la, presa em uma guerra que apenas o seu corpo pode encerrar. Ele chama de paz. Ela chama de jaula. E alguém prefere vê-la morta a vê-la coroada.

Gênero
Romance
Autor
Birdie
Status
Completo
Capítulos
40
Classificação
n/a
Classificação Etária
18+

Capítulo 1

MORRIGAN

A luz das velas realça o azul nos olhos de Jason, deixando-o ainda mais bonito que o normal. Seu cabelo castanho curto está bem arrumado, seu sorriso é largo o suficiente para mostrar as covinhas que eu amo, e sua camiseta preta estica sobre ombros largos o bastante para fazer com que a pele clara por baixo pareça quase luminosa. Em cinco anos no reino mortal, ele é a única pessoa que conheci cuja pele é tão clara quanto a minha.

Jason levanta a taça de champanhe, inclinando-a levemente em minha direção enquanto baixa a cabeça. — Para você, querida. Quem diria que a falta de opções de aluguel nesta cidade nos levaria a isto?

Um sorriso floresce em meu rosto. São palavras simples, mas carregam o peso de cinco anos: cinco anos desde que nos conhecemos, cinco anos no reino mortal, cinco anos fingindo que minha vida antiga não poderia me alcançar. Ao crescer, cada parte do meu futuro foi planejada — meu papel, minhas roupas, as pessoas com quem eu tinha permissão para falar. Agora, não consigo prever a próxima hora. Talvez Jason e eu voltemos para casa e arranquemos as roupas um do outro em comemoração. Talvez caminhemos pelas ruas, respirando o ar fresco do outono antes que o inverno feche suas mãos geladas ao redor da cidade.

Pego minha taça e brindo com a dele antes de tomar um pequeno gole.

— Aqui está — diz o garçom, parando ao lado da nossa mesa com uma bandeja grande e redonda equilibrada sobre um ombro. Seu uniforme todo preto me lembra, de forma desconfortável, de casa. — Fettuccine Alfredo com camarão. — Ele coloca um prato de macarrão fumegante na minha frente. Um molho espesso cobre o ninho de massa, com poças de creme entre os fios amarelados. O aroma de alho me atinge enquanto o vapor perfumado sobe.

Olho para o garçom. — Obrigada.

Ele sorri de volta rapidamente antes de voltar sua atenção para Jason. — E o bife com batatas assadas para o cavalheiro — ele diz, colocando o prato diante de Jason.

— Gostariam de mais alguma coisa?

Jason sorri para o homem. — Não, isto está maravilhoso. Obrigado.

O garçom nos deixa com nossas refeições, mas nenhum de nós alcança os garfos. Apenas encaramos um ao outro, presos no brilho frágil do momento. Parece impossível que cinco anos tenham se passado desde que sentamos no escritório de locação do nosso condomínio, discutindo sobre a última unidade disponível até que Jason sugeriu que a dividíssemos. Eu hesitei no início — quem não hesitaria com a perspectiva de morar com alguém que não conhece? Mas as opções são limitadas para uma fugitiva de dezoito anos sem emprego ou conhecimento de como encontrar um.

— O que quer que aconteça a seguir, estes últimos cinco anos foram um turbilhão, e eu não mudaria uma única coisa.

Pego meu garfo, quebrando o momento entre nós. Não é que eu não o aprecie. Eu o amo, e amo a vida que construímos aqui, mas eu mudaria alguma coisa se tivesse a chance?

Provavelmente.

Comemos em um silêncio confortável, saboreando cada mordida. Geralmente evitamos restaurantes como este, mas Jason queria que esta noite fosse especial. Segundo ele, pedir comida e assistir a reprises na TV não conta.

Quando o garçom retira nossos pratos, ele os substitui por uma fatia grossa de bolo de chocolate e duas colheres pequenas. Antes que ele desapareça, já dei uma garfada. Meus olhos se fecham enquanto o chocolate rico derrete na minha língua. Existe algo melhor que chocolate?

A resposta é não.

Meus olhos encontram os de Jason do outro lado da mesa. Jason está sorrindo para mim, mas ele ainda não tocou na sobremesa. Inclino a cabeça, engolindo o bolo úmido. — Você está bem?

O sorriso de Jason se ilumina, mas seus olhos percorrem a sala como se estivesse procurando uma saída. — Estou um pouco nervoso.

Coloco minha colher no guardanapo. — Por que você está nervoso?

Ele solta o ar e levanta da mesa. Um leve tremor percorre suas mãos enquanto ele as limpa no tecido preto que cobre suas coxas.

O que está acontecendo agora?

Ainda examinando a sala como se esperasse que alguém saltasse das sombras, Jason tira algo do bolso e se ajoelha. Uma pequena caixa preta descansa entre suas mãos. Só então ele olha para mim.

Um toque suave corta o restaurante. O pingente de prata em volta do meu pescoço esquenta à medida que o som aumenta. Fico paralisada, olhando para Jason. Seus olhos se voltam para o círculo de prata entre meus seios, depois voltam para o meu rosto.

— Seu colar está tocando. — Sua boca se move, formando as palavras, mas é como se ele estivesse falando através de um túnel. O som do meu sangue correndo pelos meus ouvidos abafa tudo.

Minha mão se fecha ao redor do scathan, o metal normalmente frio está quente com éter. Levanto-me num salto. A cadeira cai no chão atrás de mim, mas eu já estou ziguezagueando entre as mesas em direção aos banheiros. As pessoas se viram para olhar — ou talvez não. Não tenho tempo para me importar.

O pavor aperta meu estômago. Nem uma vez desde que cheguei ao reino mortal minha mãe ligou, então por que agora?

Empurro a porta do banheiro, tranco-a com uma mão trêmula e puxo a corrente sobre minha cabeça com a outra. O pequeno disco de prata zune com éter, ainda cantando na palma da minha mão. Mexo no fecho até que, finalmente, o scathan se abre. A parte de cima contém um espelho. A parte de baixo contém uma agulha pequena e afiada.

Sem perder mais um segundo, pressiono meu polegar contra a agulha, sibilando de dor. Uma gota de sangue escorre pela ponta, acumulando-se na cavidade abaixo dela antes de ser absorvida. O espelho ondula e desperta. Levo o polegar aos lábios, o gosto amargo de cobre revestindo minha língua.

O rosto da minha mãe preenche o espelho. Cabelo preto longo cai sobre seus ombros em ondas suaves. Uma coroa preta brilhante repousa sobre sua cabeça, zombando de mim. Se as coisas tivessem sido diferentes naquela noite, aquela coroa estaria na minha cabeça. Se aquela noite tivesse sido diferente, a coroa seria minha. Sua pele é tão clara que chega a ser translúcida, com veias azuis visíveis sob a superfície. Seus olhos azuis brilhantes são um lembrete indesejado de quão diferentes os meus são — castanhos profundos, quase pretos.

— O que te demorou tanto? — ela pergunta, seu olhar me perfurando através dos reinos.

— Mortais estavam por toda parte.

Ela se inclina para frente, os lábios se curvando. — Não me interessa. Quando eu chamo, você responde. — Seu olhar cai. — Talvez você precise de um pouco de motivação. — O olhar da minha mãe se desvia para baixo enquanto a imagem se amplia para incluir seu trono, e o homem encolhido a seus pés, seu corpo enrolado em torno das pernas dela. O homem está nu, mas, felizmente, a maneira como seu corpo está curvado esconde qualquer coisa escandalosa da vista. Hematomas pintam sua pele clara em tons cruéis de roxo e azul. Seus cachos loiros estão vermelhos de sangue. Minha respiração falha na garganta enquanto a promessa de lágrimas arde em meus olhos.

Oisín.

— O que você fez? — pergunto, incapaz de desviar os olhos do corpo quebrado e ensanguentado dele.

— Eu não fiz nada.

— Então quem foi? — Procuro desesperadamente pela superfície espelhada, implorando por um movimento de seus dedos, a subida de seu peito — qualquer coisa para provar que ele ainda está vivo.

— Aiden. — Meus olhos encontram os dela. Aiden? O meu Aiden? Não. Impossível. Por que ele machucaria alguém assim? — Ele não faria isso...

— Não faria? — ela murmura. — Ou você simplesmente nunca viu no que ele poderia se tornar?

Meu estômago revira.

— Oisín é apenas... uma alavanca — ela diz com leveza. — Um lembrete. Aiden quer você em casa.

— Eu não vou voltar. — Minha voz falha, mas forço as palavras mesmo assim. — Nem por ele. Nem por você.

Ela se inclina para mais perto. — Você vai. — Sua mão repousa sobre a cabeça de Oisín, seus dedos penteando seus cachos manchados de sangue. Ele não se encolhe, e isso revira meu estômago ainda mais que os hematomas.

Ele é um de seus brinquedos agora?

— Você fugiu — ela diz suavemente. — Você se escondeu. Você brincou de fingir entre a imundície mortal. — Seus dedos apertam o cabelo dele. Os músculos nas costas dele se contraem, mas ele não faz som algum. Seus dedos percorrem a panturrilha dela como se para acalmá-la. — Mas você pertence a mim. À minha corte.

A bile sobe, não pelas palavras dela, mas pela maneira como ele tenta confortá-la.

— Eu não pertenço a você. — Balanço a cabeça enquanto a sala parece se fechar. Eu não posso voltar. Não posso pisar na Unseelie Court novamente. Não depois daquela noite.

— Recuse, e o próximo corpo que colocarei aos meus pés será o do seu animalzinho de estimação.

Meu sangue gela.

Sua cabeça se inclina para o lado, um pequeno sorriso curvando seus lábios. — ...Jason, não é?

Meus olhos se fixam nos dela. Engulo o nó na garganta. — Você tem me observado.

Uma risada silenciosa e sem humor. — É claro que sim. Você é a herdeira da Unseelie Court. Você realmente acreditou que eu deixaria você apodrecer entre mortais sem olhos sobre você? — Seu lábio se curva. — Você é ainda mais tola do que eu pensava. Volte para casa, Morrigan, ou eu a arrastarei pelos cabelos.

O espelho escurece, deixando apenas meu reflexo. Meu coração bate contra minhas costelas. Lágrimas caem antes que eu possa detê-las, pontilhando a superfície do espelho.

Eu o fecho e o jogo dentro da minha bolsa.

Inspire.

Expire.

Assim que minha respiração se estabiliza, destranco a porta do banheiro e volto para o restaurante. Talheres tilintam. Vozes murmuram. Uma melodia suave toca ao fundo, obscena em sua normalidade.

Jason está sentado à nossa mesa, girando a caixa de aliança nas mãos. A conta repousa perto da borda, com o papel dobrado dentro.

Mãe de toda a Escuridão, o que devo dizer? Desculpe por interromper seu pedido e sair correndo para o banheiro. Minha mãe, a Rainha dos Unseelie, ligou após anos de silêncio e exigiu que eu voltasse para casa.

A vontade de fugir corre pelas minhas veias. Ele não está olhando para mim. Eu poderia correr agora — deixar o restaurante e continuar correndo. Mas até onde eu chegaria antes que a Mamãezinha me encontrasse? Ela me arrastaria de volta e me prenderia na cela sob o Sidhe, aquela em que ela gostava de me manter quando criança?

Isso importa? Que opções eu tenho? Ficar com Jason e arriscar sua vida, ou voltar para casa e mentir para o único homem que me ama por mim mesma, e não pelo título anexado ao meu nome. Posso não estar mais em uma cela, mas a coroa parece tão confinante quanto barras de ferro.

Existe uma terceira opção — a mais tentadora e menos prática. Correr. Deixar tudo para trás de novo. Eu fiz isso uma vez. Eu poderia fazer de novo. Mas quanto tempo levaria para me encontrarem? Se Aiden precisa que eu volte antes que ele possa assumir o trono, a próxima ligação será dele? O que ele fará se estiver disposto a torturar alguém antes de falar comigo? E por que agora? Por que não cinco anos atrás, quando fugi pela primeira vez?

— Senhorita, você está bem?

Dou um salto, despertada de meus pensamentos perturbadores quando uma servidora loira e bonita para na minha frente, preocupação arqueando suas sobrancelhas.

O calor sobe às minhas bochechas. Há quanto tempo estou parada aqui? Meus olhos vão para Jason, que agora está virado para mim, com as sobrancelhas franzidas.

Eu o abandonei no meio do pedido de casamento. Não é algo de que um casal se recupere. Por outro lado, viver uma vida dupla também não é, então talvez a recuperação nunca tenha sido uma opção.

— Precisa que eu chame alguém para você?

Viro-me para ela, forçando o que espero ser um sorriso tranquilizador. — Estou bem, obrigada. — Então passo por ela e volto para Jason.

Ele se levanta quando me aproximo, seu olhar percorrendo-me da cabeça aos pés, procurando qualquer explicação física para o motivo de eu ter fugido no pior momento possível.

— Podemos ir para casa? — pergunto.

Jason engole seco, seu olhar passando pelo meu colar antes de concordar com a cabeça. Ele envolve minha mão com a dele e me guia para fora do restaurante. A viagem de volta passa como um borrão. Carros passam zunindo. Luzes da cidade brilham no perfil de Jason enquanto ele me lança olhares furtivos, mas tudo parece distante, como se eu já estivesse escorregando para fora deste mundo.

— Você vai me contar o que há de errado?

Suas palavras puxam algo dentro de mim. Tenho que contar a ele. Esperar só torna o ar mais pesado, o silêncio mais difícil de respirar.

— Minha mãe me ligou.

Jason olha para o meu colar, depois de volta para a estrada. Espero pelas perguntas — como meu colar tocou, por que corri para o banheiro sem meu telefone — mas ele não diz nada. Ele apenas dirige e espera que eu explique.

— Eu preciso voltar para casa.

— Quando?

Mordo meu lábio inferior. — Assim que chegarmos ao apartamento.

As mãos de Jason apertam o volante. O couro range sob seu aperto. — Então, você atende uma ligação da sua mãe — uma mulher com quem você nunca falou ou mencionou desde que estamos juntos — no meio do meu pedido, e agora você precisa ir embora imediatamente. — Ele me lança um olhar. — Entendi direito, Morrigan?

— Sim.

— Quanto tempo você vai ficar fora?

— Eu não sei.

Jason zomba e balança a cabeça. Engulo minha irritação. Não tenho direito a ela. Se nossas posições fossem invertidas, eu também estaria furiosa.

— Você está indo embora porque eu pedi em casamento?

— Com certeza não. — Inclino-me sobre o console e descanso minha mão em seu bíceps. E isso é verdade. Não tenho certeza se poderia ter dito sim — não quando já estou vinculada por contrato a outro macho — mas o pedido dele não é o motivo de eu estar partindo. Odeio que ele sequer pense que poderia ser.

Jason vira a cabeça, tirando os olhos da estrada brevemente. — Diga que você vai se casar comigo quando voltar.

Meus dedos se entrelaçam no vestido verde de tricô que Jason me comprou no ano passado no meu aniversário porque ele faz meus cachos ruivos se destacarem. Agora o tecido parece apertado e sufocante, como se o tricô espesso estivesse me culpando por machucá-lo.

— Eu queria mais do que tudo não ter atendido aquela ligação.

Jason fica tenso sob meu toque, mas não diz mais nada, e eu também não.

Deixe Birdie saber o que você pensou sobre este capítulo!
Amo isso

4

Amo isso

Engraçado

0

Engraçado

Picante

0

Picante

De Suspense

5

De Suspense

Emocional

1

Emocional

Profundo

0

Profundo

Tocante

1

Tocante

Chocante

0

Chocante

Boa Escrita

2

Boa Escrita

Enredo Envolvente

1

Enredo Envolvente

Personagem Ótimo

1

Personagem Ótimo

Diálogo Forte

0

Diálogo Forte

Outras Recomendações

No Ritmo Do Teu Silêncio

Amanda: Poesia e arte. E muito romance 👏🏻👏🏻👏🏻😍🥰

Leia Agora
Ainda Assim

Jandira: Estou adorando ler essa história cheia de intrigas e realidade dura.

Leia Agora
O Don:A aliança

Tilia jose: Gostei de tudo, do diálogo e da narrativa no geral. Uma história muito boa e merece o reconhecimento do público, o autor foi muito inteligente porque a história é viciante e não é apelativa

Leia Agora
Além do contrato

jazzed_zebra_782: Boa a história. Linguagem limpa, sem palavrões.

Leia Agora
A fortaleza de vidro

jazzed_zebra_782: História bem feita com personagens fortes e de caráter. Não usa de palavrões e nem linguagem chula. Muito bem mesmo. Recomendo, vale a pena ler.

Leia Agora