A Withmore Errada

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Resumo

Ele queria vingança. Ele encontrou Katie. Katie Withmore passou a vida inteira colocando os outros em primeiro lugar, até o dia em que não lhe restou nada. Sem mãe. Sem casa e sem irmã. Ao chegar em Chicago à procura da única família que lhe resta, ela encontra Dominic O’Reilly, um homem tão perigoso quanto poderoso. Dominic O’Reilly, um implacável subchefe da máfia, acredita que ela é quem o traiu. A mulher que o usou, a mulher que ele jurou destruir. Mas Katie não é Scarlett; ela é mais doce e gentil, mais forte de formas que Dominic jamais imaginou. E antes que Katie consiga dizer a verdade, ela se vê presa no mundo dele. Um mundo de controle, poder e segredos. Porém, quanto mais tempo Dominic passa com ela, mais ele começa a questionar tudo o que pensava saber. Porque Katie não é a mulher que ele odeia. Ela é aquela que ele não consegue deixar partir. E quando a verdade finalmente vier à tona... Pode ser tarde demais para salvar qualquer um dos dois.

Gênero
Drama/Romance
Autor
Anca
Status
Completo
Capítulos
64
Classificação
4.8 6 avaliações
Classificação Etária
18+

Capítulo 1

CAPÍTULO 1: Sobrevivência no South Side

POV: Katie

O alarme tocou às 4h30 da manhã, mas eu já estava acordada.

Fiquei deitada no sofá por um momento, olhando para o teto rachado acima de mim. Uma linha fina se estendia de uma ponta à outra, como se algo tivesse tentado dividir o apartamento ao meio e falhado.

Em algumas manhãs, parecia que aquela rachadura era a única coisa mantendo tudo unido.

O ar frio entrava pela janela mal vedada ao meu lado, roçando meu rosto e se infiltrando fundo nos meus ossos. Soltei o ar lentamente, observando minha respiração desaparecer no nada.

Mais um dia e meu corpo já doía.

Meus ombros estavam rígidos e minhas costas doloridas de tantas noites passadas em um sofá que nunca foi feito para alguém tão alta, mas eu não reclamava.

Eu nunca reclamava.

Com cuidado, afastei o cobertor e me sentei, esperando um segundo até o quarto parar de girar ao meu redor.

O apartamento estava quieto, quieto demais.

Meus olhos se moveram instintivamente para o quarto.

A porta estava entreaberta, o suficiente para eu ver o brilho fraco do abajur que ainda estava aceso.

Levantei-me, puxando o cardigã com mais força contra o corpo e caminhei suavemente pelo assoalho que rangia.

Cada passo importava e cada som parecia alto demais.

Dentro do quarto, o ar era diferente.

Mais pesado, mais quente e frágil.

Mamãe estava deitada, seu corpo pequeno sob os cobertores, a pele pálida de um jeito que não pertencia aos vivos.

Não havia máquinas barulhentas, nem sons dramáticos, mas a presença silenciosa de frascos de remédios, organizadores de pílulas e copos de água pela metade preenchia o espaço com outra coisa.

Um tipo de silêncio que dizia tudo. O tempo estava acabando.

Aproximei-me, com meus movimentos instintivamente suaves. A respiração dela estava curta, mas constante.

Observei-a por alguns segundos apenas para ter certeza. Apenas para garantir que nada tinha mudado enquanto eu dormia.

Só então permiti-me respirar.

"Você está bem", sussurrei para mim mesma.

Estendi a mão, ajeitando o cobertor levemente, depois afastei uma mecha de cabelo da testa dela.

Ela se mexeu levemente.

"Katie...?", ela murmurou.

"Estou aqui, mamãe", falei suavemente.

Ela relaxou novamente, mas eu não me movi. Fiquei ali, observando-a.

Porque, ultimamente, havia um pensamento que eu não conseguia mais ignorar... Cada manhã assim poderia ser uma das últimas.

Na cozinha, os canos gemeram quando abri a torneira. Eu fiz uma careta, olhando de relance para o quarto.

Ainda quieto... bom.

Enchi uma panela pequena e coloquei no fogão. A chama oscilou fracamente antes de acender, lançando um brilho suave sobre as bancadas gastas.

A cozinha ainda cheirava levemente à comida de ontem. Caldo barato com vegetais cozidos demais.

Mas estava quente e isso bastava.

"Nós vamos conseguir", murmurei baixinho.

Quase como uma promessa.

"Sempre."

Atrás de mim, uma porta rangeu. Não precisei me virar para saber que era Scarlett.

"Você está de pé de novo?", ela murmurou, a voz pesada de sono.

Sorri de leve, ainda virada para o fogão.

"Eu preciso estar."

Ela entrou, encostando-se na parede, o cabelo bagunçado de um jeito que ainda parecia bonito.

Tudo nela parecia natural. Intocável.

Mesmo aqui.

"Está congelando", ela disse, olhando ao redor.

"Ainda não liguei o aquecedor", respondi.

Ela zombou.

"Claro que não. Deus me livre gastarmos dinheiro com algo que realmente torna a vida suportável."

Não respondi, apenas mexi a panela lentamente.

O silêncio se estendeu entre nós, preenchido apenas pelo borbulhar suave da água.

"Você vai se matar um dia", ela disse de repente.

Mantive meus movimentos firmes.

"Correndo desse jeito. Dois empregos, sem dormir, cuidando dela... tudo isso."

"Estou bem."

"Não, você não está", ela retrucou. "Você parece não dormir há semanas."

Virei-me um pouco, encontrando o olhar dela.

"Prefiro estar cansada a ser inútil."

As palavras saíram baixas, mas permaneceram no ar.

A expressão de Scarlett mudou por um segundo, então ela revirou os olhos e desviou o rosto.

"É", ela murmurou. "Continue dizendo isso a si mesma."

Despejei a sopa em duas tigelas porque não havia muito, mas era o suficiente.

Tinha que ser.

Levei-as para o quarto. Mamãe estava acordada agora. Mal conseguia, mas ela estava lutando.

Seus olhos se abriram lentamente quando me aproximei.

"Aí está você", ela sussurrou, com um sorriso fraco nos lábios.

Sentei-me com cuidado na beira da cama.

"Fiz algo para comer", eu disse.

Ela olhou para a tigela e depois para mim.

"Você sempre faz."

Ajudei-a a sentar, apoiando-a gentilmente, certificando-me de que ela não fizesse esforço.

Suas mãos tremeram enquanto ela pegava a colher.

Ela conseguiu tomar um pequeno gole, depois outro.

"Eu odeio isso", ela sussurrou depois de um momento. "Eu odeio estar assim... ser um fardo."

Meu peito apertou na hora.

"Você não é", eu disse, mais firmemente do que pretendia.

Ela olhou para mim e estendi a mão, afastando o cabelo dela novamente.

"Você não é um fardo. Não para mim."

Os olhos dela suavizaram. "Você é boa demais, Katie."

Balancei a cabeça.

"Não", eu disse calmamente. "Estou apenas fazendo o que importa."

Ela sorriu, mas havia tristeza naquilo, dava para ver.

Ela sabia o quanto aquilo me custava.

Lá fora, a cidade já estava acordando.

Saí do prédio, colocando minhas luvas conforme o frio mordia minha pele imediatamente.

Sirenes ecoavam longe. Um carro passou rápido demais. Caminhões de lixo faziam barulho pelas ruas esburacadas.

O South Side não acordava gentilmente. Ele sobrevivia.

Ajeitei a bolsa no ombro e comecei a andar.

Meu dia já estava planejado: primeiro a lanchonete, depois a rota de entrega de jornais.

Contas.

Remédios.

Tudo em ordem.

Tudo necessário.

Sem espaço para erros e sem espaço para descanso.

Não olhei para trás porque não podia.

Porque, se olhasse, poderia perceber o quão cansada eu realmente estava.

Ou o quão pesado tudo parecia.

Ou o quão sozinha eu estava me tornando.

Lá em cima, Scarlett provavelmente ainda estava perto da janela.

Eu não precisava vê-la para saber disso. Ela sempre olhava para lá. Em direção ao horizonte, em direção a algo maior. Ela sempre sonhando com uma vida boa.

Algo melhor. Algo que eu não me permitia desejar.

Porque desejar coisas assim não mudava nada.

Então continuei caminhando. Passo após passo, para mais um dia, a mesma vida.

Mantendo tudo unido do único jeito que eu sabia... Silenciosamente, com cuidado.

Sem quebrar.

Porque, se eu quebrasse, não restaria ninguém para manter nada de pé.