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Entre Cavalheiros

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Resumo

Na década de 40, quando reputações valem mais que sentimentos e cada gesto carrega o peso da aparência, Ashton aprende a viver entre silêncios. Respeitado, discreto, impecável. Até que Camilo atravessa seu caminho como uma nota fora da partitura… e permanece. Despertando em Aston sentimentos que à época cavalheiro nenhum jamais admitiria.

Gênero
Lgbtq
Autor
LexSilvas
Status
Completo
Capítulos
7
Classificação
n/a
Classificação Etária
16+

Capítulo 1: Um certo cavalheiro inglês

14/02/26


1948 — Cambridge, Massachusetts

Tudo seria diferente se Harvard não tivesse admitido aquele indigente. Um sujeito que mal domina o vernáculo, vindo de algum confim do mundo com seu sotaque bárbaro, rindo de forma vulgar e cativando a todos com relatos sobre uma terra que não consta nos mapas que importam. Esta crônica deveria tratar de mim, Ashton Wortham, e não da minha ignóbil vontade de subjugar aquele maldito; de fazer com ele cada obscenidade que o ouvi gabar-se de ter cometido com uma marafona em sua terra natal. Aquele Camilo... até o nome soa exótico e invasivo. Ele pensa que me humilhou no debate de hoje, mas mal sabe que o seu sorriso terá um preço alto a ser pago.


***


Como já deve ter ficado claro pela minha estirpe, sou um Wortham. Pertenço àquela linhagem de ferro da aristocracia inglesa que, por séculos, ditou os rumos do mundo civilizado. Harvard, para ser franco, jamais foi minha aspiração; minha alma pertence às pedras ancestrais de Oxford. Todavia, a tradição dos Wortham é um veredito: todos os varões de minha árvore genealógica, sem uma única exceção honrosa, cruzaram estes pátios.

Meu pai não demonstrou o menor interesse em minhas objeções, por mais articuladas que fossem. Diante da sua intransigência vitoriana, julguei por bem abraçar o meu fado e não ultrajar o velho patriarca. Assim, abandonei o conforto de nossa residência em Belgravia, Londres, para este exílio em Cambridge, Massachusetts.

Cruzei o Atlântico sob a falsa premissa de que os Estados Unidos seriam um bastião de ordem, longe da promiscuidade de gentes desclassificadas. Mas Harvard parece estar se entregando a uma modernidade vulgar. Olho-me no espelho e vejo o que este lugar deveria ser: o reflexo de um cavalheiro.

Meus cabelos, escuros e densos como os de um busto romano, permanecem milimetricamente domados pela brilhantina, sem um único fio que ouse desafiar a minha vontade. Tenho a face pálida de quem nasceu para o estudo e o comando, com traços finos que denunciam séculos de uma genética selecionada. Até meu olhar carrega uma frieza analítica; olhos claros que não vacilam, prontos para reduzir qualquer adversário à sua insignificância.

No entanto, há algo de inquietante em minha própria perfeição quando aquele energúmeno do Camilo ousa cruzar o meu caminho. Enquanto eu sou a personificação da ordem britânica, ele é o caos... e um caos que, para o meu desespero, parece ter o poder de desarranjar até o meu mais profundo autocontrole.

Minha admissão nas fileiras de Harvard deu-se por vias nobres. “Mais um Wortham”, exultaram eles, “será uma honra imensurável recebê-lo”. Todavia, para esse tal Camilo, bastou que seu progenitor, um imigrante brasileiro, surgisse por aqui portando uma maleta abarrotada de capital oriundo daquelas ferrovias que ele próprio deve ter erguido com o suor de sua plebe. Foi o suficiente para que os inspetores, responsáveis por zelar pela pureza deste recinto, fizessem vista grossa à invasão de tipos tão ordinários, aceitando sem pudor aquele dinheiro conspurcado por lodo e graxa. Um horror absoluto.

Ele transita pelo campus com um ar cuja a elegância tão postiça quanto sua fortuna, agindo como se pertencêssemos à mesma casta. Exibe-se com os botões da camisa desalinhados, o que representa uma afronta direta ao decoro e ao código de ética desta instituição. Contudo, é desalentador notar que ninguém parece se importar; basta-lhe um sorriso insolente e aquele olhar de marafundeiro para que todos capitulem, ignorando a forma ultrajante como ele expõe o peito rústico e viril.

Tamanha exibição deveria ser reservada estritamente à alcova de uma esposa, e não lançada sobre rapazes ingleses de imaginação fértil como a minha, que acabam por conceber pensamentos perturbadores sobre quais outras partes de sua anatomia guardariam aquela mesma natureza indômita e velada por pelos. É um ultraje! Eu deveria denunciá-lo ao conselho por conduta indecente, mas, por ora, resta-me apenas o refúgio na mente para registrar sua total ausência de brio.

Agradeço aos céus por não permitirem mulheres nestes pátios, pois o escândalo seria irremediável. Camilo é, e sempre será, um elemento intruso que só logrou êxito no debate desta tarde porque minhas anotações desapareceram misteriosamente ontem à noite. Tenho a plena convicção de que fui alvo de uma sabotagem vil, embora me falte a prova material.

Abandono a sala de aula ao término da sessão, remoendo o desejo bizarro de apagar aquele sorriso petulante de sua face. Caminho pelo campus com o passo firme, determinado a buscar na biblioteca qualquer falha técnica em seu discurso sobre política — afinal, convenhamos, duvido que tal ciência sequer exista naquela colônia remota de onde ele descende.

Enquanto cruzo o pátio central, o eco do meu próprio nome, proferido com uma informalidade ultrajante, fere a quietude do campus. Quem ousaria tal intimidade em público, como se fôssemos correligionários de longa data? Eu não vim de Cambridge para cultivar amizades; vim para o exercício do intelecto. No entanto, não me surpreendeu constatar que se tratava daquele indivíduo brasileiro.

Ele se aproxima sob o sol pálido de Massachusetts, parecendo carregar consigo o próprio calor dos trópicos. Suas feições, como as de um busto clássico porém esculpido em bronze, ostentam uma tez amorenada que denunciava sua origem estrangeira. O cabelo, de um castanho profundo e perfeitamente assentado, brilha sob a luz, conferindo-lhe uma aparência elegante que me causa um desprezo visceral. Traja um terno de linho claro, impecavelmente cortado, que contrastava com a sua natureza que eu julgava ser rústica.

Sem qualquer cerimônia ou vestígio de cavalheirismo, ele encurta a distância e me envolve em um abraço impetuoso. O mundo parece girar em um eixo errado. Sinto o calor que emana de seu corpo, o cheiro de tabaco estrangeiro e algo que lembrava maresia, uma vitalidade que parecia derreter a minha compostura britânica.

— Esteve impecável no debate hoje — declara ele, libertando-me finalmente daquele enlace de uma virilidade sufocante.

Fico estático, o ar me faltando nos pulmões, a mente em um redemoinho de indignação.

— Espero que não guarde rancor pelo meu discurso sobre a Fairfax. Sabe bem como aqueles industriais são exploradores de marca maior — prossegue ele, com uma eloquência insolente, enquanto eu ainda luto para articular uma única sílaba de reprovação.

— Poderíamos estudar juntos para os exames finais — sugere ele, com um brilho desafiador no olhar. — Ouvi dizer que você é um prodígio em matemática.

— Eu não diria que sou apenas um prodígio — respondo, recuperando um fiapo da minha dignidade. — Eu sou excelente. Já ganhei vários concursos.

— Formidável — sorri ele, e aquele sorriso parece uma invasão de domicílio. — Meu pai exige que minhas notas sejam exemplares até o término do semestre; ele transborda orgulho por ter um herdeiro nestas fileiras daqui.

— Imagino que seja uma distinção sem precedentes — retruco, com um sarcasmo gélido. — Devem existir poucos da sua nação que lograram tal feito.

— Engana-se, caro Wortham. Mas admito que a vaga me custou esforços hercúleos. Seja como for, este lugar é fascinante.

— Folgo em saber de seu entusiasmo.

— Sabe... desde o meu desembarque, os cavalheiros por aqui não têm sido particularmente cordiais comigo — confessa ele, baixando o tom de voz para uma confidência quase íntima. — Exceto você.

— Eu? — A pergunta escapa-me, tingida de uma incredulidade genuína.

— Sim, você. Deveríamos sair em uma destas noites.

— Receio que nossos apetites para o lazer não guardem a menor semelhança.

— Deve haver algum estabelecimento que sirva um conhaque minimamente respeitável por estas bandas — insisti ele, aproximando-se mais do que o decoro permitiria. — Talvez conheça um refúgio onde possamos beber, disputar algumas partidas de pôquer e discorrer sobre nossas trajetórias.

— Eu… não tenho por hábito frequentar tais antros de perdição.

— Pois deveria — sentencia ele, com uma audácia que me fez estremecer. — Que tal amanhã à noite? Não haverá preleções, poderemos excursionar pela cidade e desfrutar da vida.

— Não… não tenho certeza de que minha agenda permitirá — gaguejo, sentindo o suor frio brotar em minha nuca.

— Não seja um desmancha-prazeres, Ashton — diz ele, usando meu prenome como se fosse um segredo compartilhado. — Vejo-o amanhã, no pórtico da faculdade.

Ele se afasta, deixando-me ali, no meio do pátio, com os sentidos entorpecidos e a terrível sensação de que, pela primeira vez na vida, um Wortham estava perdendo o controle de sua própria narrativa.


***


Havia apenas um destino possível para aquele brasileiro, um lugar cujo impacto seria capaz de fazer o sangue fugir de sua face e silenciar aquela insolência estrangeira para sempre. Eu pretendia conduzi-lo a um antro onde jamais ousei colocar meus sapatos ingleses, e onde nenhum cavalheiro de Boston admitiria ter estado, a menos que fosse para proferir insultos. Meu estratagema era perverso, eu admito, mas necessário: para extirpar Camilo da minha existência, eu precisava manchar a minha própria imagem diante de seus olhos.

O local em questão atendia pelo nome eufemístico de “Jardim de Platão”. Era um segredo sórdido, sussurrado nos corredores de Harvard como sinônimo de perdição e infâmia. Situado nos arredores de uma alfaiataria de fachada no centro da cidade, o estabelecimento era alvo frequente das incursões da patrulha de costumes e de batidas policiais que terminavam em prisões por “atos de indecência”.

A má fama do jardim o precedia; eu mesmo já ouvira rapazes da liga atlética se ofenderem mutuamente, acusando-se de terem sido vistos cruzando aquele limiar profano. Era um ambiente onde o ar era espesso com o cheiro de tabaco barato e o odor metálico do medo. Ao levá-lo para lá, eu estava jogando com a minha própria casta.

Meu objetivo era simples e cruel: eu o mergulharia naquela atmosfera de degradação, fazendo-o acreditar que eu era um frequentador assíduo daquela escória. Se ele pensasse que eu pertencia àquele mundo das sombras, àqueles “desviados” que a sociedade de 1940 tanto abominava, sua suposta moralidade latina o forçaria a recuar. Ele sentiria o asco que eu fingia não ter, e o nome Wortham deixaria de ser um alvo de sua admiração para se tornar um símbolo de repulsa.

Eu estava disposto a caminhar sobre brasas e arriscar minha reputação naquelas masmorras de Boston, desde que isso servisse para erguer uma muralha intransponível entre nós e silenciasse, de uma vez por todas, o eco perturbador da sua voz em minha mente.

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