A Cachoeira
A floresta estava mais silenciosa do que deveria.
Notei isso na metade da trilha, quando o único som que restava era o estalar das folhas sob minhas botas e o ritmo constante da minha respiração. Sem pássaros. Sem esquilos. Apenas o vento sussurrando entre as árvores.
Papai teria adorado este lugar.
O pensamento fez meu peito apertar.
Puxei a alça da minha mochila e passei por cima de um galho caído, seguindo a trilha estreita floresta adentro. De acordo com o mapa no meu celular, a cachoeira deveria estar perto agora. O sinal havia desaparecido há quilômetros, mas eu tinha memorizado o caminho antes de perdê-lo.
Três dias dirigindo.
Duas horas de caminhada.
Tudo por isso.
Parei por um momento, alcancei o pequeno bolso da minha mochila e tirei a fotografia gasta que eu carregava desde o funeral.
As bordas estavam gastas de tanto serem manuseadas ao longo dos anos. Papai deve ter olhado para ela mil vezes.
A imagem mostrava uma cachoeira despencando por uma parede de pedra escura em direção a uma piscina natural cristalina. Penhascos altos a cercavam, e uma floresta densa se estendia em todas as direções. No verso da foto, escrito com a letra do meu pai, havia três palavras.
Meu lugar favorito.
Eu nunca soube onde ficava. Não até começar minha busca.
Bancos de dados de cachoeiras, mapas topográficos, blogs de trilhas — qualquer coisa que pudesse me ajudar a localizar a imagem. Levou meses, mas eventualmente encontrei alguém que tinha postado uma foto parecida de uma parte remota das montanhas.
Quando vi, eu soube.
Papai nunca disse que queria que suas cinzas fossem espalhadas ali. Ele nunca escreveu isso. Mas eu o conhecia bem o suficiente para entender.
Se havia um lugar onde ele queria descansar... era aqui.
À medida que me aproximava, comecei a ouvir o rugido da água.
Meu coração se encheu de alegria.
Guardei a foto de volta no bolso e continuei caminhando, abrindo caminho por uma cortina de galhos baixos. O som da cachoeira ficava mais alto a cada passo até que as árvores se abriram.
E lá estava ela.
A cachoeira era ainda mais bonita do que na foto.
A água despencava pelo penhasco rochoso, com uma névoa subindo onde ela atingia a piscina abaixo. A luz do sol filtrava-se pelas árvores acima, capturando o spray e fazendo toda a clareira brilhar.
Por um momento, apenas fiquei ali parada.
"Uau", sussurrei.
Papai estava certo.
Era perfeito.
Minha garganta apertou enquanto tirava a mochila dos ombros e me ajoelhava ao lado dela. Minhas mãos tremiam levemente enquanto abria o zíper do compartimento principal e retirava a urna de prata.
Parecia mais pesada do que deveria.
Ou talvez fosse o peso do que aquilo significava.
"Eu consegui, pai", disse suavemente.
O vento moveu as árvores ao redor da clareira.
Por um segundo, quase imaginei que ele pudesse me ouvir.
Caminhei até a beira da piscina, o rugido da água preenchendo meus ouvidos. A névoa refrescava minha pele enquanto eu parava em uma pedra plana com vista para a água.
Era isso. Segurei a urna contra o peito e fechei os olhos.
"Você sempre dizia que este era o seu lugar favorito", murmurei. "Eu finalmente o encontrei."
Meus dedos apertaram a tampa.
"Sinto sua falta, pai."
As palavras ficaram presas na minha garganta.
Por um momento, o único som era o da cachoeira.
Então, algo se moveu nas árvores atrás de mim.
O estalo nítido de um galho em algum lugar entre as árvores atrás de mim.
Lentamente, virei minha cabeça em direção à floresta.
As sombras entre as árvores pareciam mais escuras agora.
E, de repente, tive a sensação estranha e perturbadora de que não estava sozinha.
Algo estava me observando.
Travei, com a urna ainda agarrada em minhas mãos.
"Olá?", disse cautelosamente.
A palavra soou fraca contra o rugido da cachoeira.
Nenhuma resposta.
Disse a mim mesma que não era nada. Um cervo, talvez. Ou um guaxinim.
Ainda assim, os pelos da minha nuca se arrepiaram.
Por um momento, nada se moveu.
Exalei trêmula e olhei novamente para a urna.
"Ok", sussurrei. "Você está apenas sendo paranoica."
Girei a tampa levemente, pronta para abri-la.
Outro som veio das árvores.
Desta vez não foi um galho.
Foi um farfalhar baixo, como algo grande se movendo pelo mato.
Meu coração disparou para a garganta.
Isso definitivamente não era um guaxinim.
"Sério?", murmurei baixinho. "Logo agora que a vida selvagem resolve aparecer."
A floresta ficou em silêncio novamente. Silêncio demais.
Um nó frio se formou no meu estômago.
Cada instinto que eu tinha de repente gritava a mesma coisa.
Corra.
Engoli em seco e cuidadosamente coloquei a urna de volta na mochila, com meus dedos tateando o zíper.
"Eu volto", murmurei baixo, olhando mais uma vez por cima do ombro e dando um passo lento para longe da clareira.
Outro galho quebrou.
Mais perto desta vez.
Meu pulso acelerou enquanto eu colocava a mochila nos ombros e dava outro passo para longe da clareira.
No momento em que cheguei à orla das árvores, a sensação me atingiu novamente.
Como se olhos estivessem fixos em mim.
Observando.
Esperando.
E, de repente, percebi...
Eu não estava sozinha.
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