Capítulo 1
Frio.
A palavra — ou melhor, a sensação — me atingiu antes mesmo de eu conseguir abrir os olhos. Não era apenas um arrepio passageiro; não era algo que pudesse ser sacudido com movimento ou ignorado com teimosia. Esse frio se instalou profundamente, infiltrando-se nos meus ossos como se sempre tivesse pertencido a eles, percorrendo minha espinha e envolvendo meus membros com a persistência silenciosa de um inverno que nunca ia embora.
Ele atravessava o cobertor fino e puído que mal cobria meu corpo, sem oferecer proteção ou calor real. O tecido se prendia a mim mais por hábito do que por utilidade, incapaz de impedir a entrada do frio que já tinha tomado conta do espaço pequeno e apertado que eu aprendi a chamar de quarto.
Se é que se podia chamar aquilo de quarto.
Na verdade, não passava de um depósito espremido em um canto esquecido ao lado das cozinhas da alcateia. As paredes eram ásperas e inflexíveis, pressionando-me, com um cheiro fraco de madeira úmida e da fumaça que vinha das lareiras lá de cima. Aquele aroma — quente, reconfortante — nunca chegava até mim como chegava aos outros. Ele pairava logo ali, fora do meu alcance, um lembrete constante de algo que eu nunca teria.
Abaixo de mim, o chão de pedra pressionava minha pele nua, frio e impiedoso. Ele me trazia instantaneamente de volta à realidade, arrancando qualquer vestígio de conforto que o sono pudesse ter deixado. Sem hesitar, ele me lembrava de que eu não tinha direito ao calor, nem ao conforto, e que não havia motivo para o mundo me poupar sequer da menor das gentilezas.
Encolhi-me, instintivamente puxando o cobertor para mais perto, como se pudesse prender qualquer resquício de calor. Meus dedos tremiam levemente enquanto eu o ajustava, tentando agarrar algo que sempre escapava por entre minhas mãos.
Por um momento — apenas um momento frágil e passageiro — eu me permiti fingir.
Imaginei como seria acordar em algum lugar quente, algum lugar seguro. Ser como os outros lobos da Alcateia Darkpine, enrolada em cobertores grossos dentro da casa da alcateia, cercada por pessoas que sabiam o meu nome e que se importariam se eu desaparecesse.
Imaginei o que era pertencer a algum lugar.
Imaginei alguém notando se eu tremesse.
Alguém que se importasse.
Mas o pensamento não durou muito.
Nunca durava.
Porque fingir levava à esperança.
E a esperança era perigosa.
A esperança fazia você acreditar que pertencia a um lugar onde nunca deveria estar.
A esperança fazia você pensar que alguém poderia olhar para você e ver algo que valesse a pena manter.
A esperança fazia você esquecer o seu lugar.
E a esperança sempre me traiu.
Todas as vezes.
Ela não deixava nada além de um vazio, oco e frio, instalado onde o calor deveria estar.
Um estrondo alto quebrou o silêncio.
O som atravessou o quarto, agudo e súbito, fazendo as tábuas do chão tremerem sob mim como um trovão cortando o céu.
“ÔMEGA!”
A voz veio logo em seguida, alta o suficiente para atravessar madeira e pedra. Não alcançou apenas meus ouvidos; atingiu algo mais profundo, batendo no meu peito e instalando-se ali como um peso que eu não conseguia afastar.
Meus olhos se abriram num salto.
Claro.
A manhã tinha chegado.
E com ela... meus deveres.
Levantei-me lentamente, com cada movimento pesado e rígido. Meus músculos protestaram imediatamente, doendo por causa da noite impiedosa passada naquele colchão fino. Os hematomas do trabalho de ontem latejavam nos meus braços e costelas, lembretes surdos, porém persistentes, de mãos grosseiras e força descuidada.
Um guerreiro tinha me empurrado ontem sem nem pensar duas vezes.
Eu ainda podia sentir — a força daquilo, o modo como meu corpo tropeçou, o impacto seco ao cair no chão.
Sem pedido de desculpas.
Sem hesitação.
Sem olhar para trás.
Para eles, eu não valia o esforço.
Eu não era uma loba.
Não de verdade.
Eu nem era uma pessoa.
Eu era a ômega.
Apenas Lyra.
Vesti-me rapidamente com as mesmas roupas gastas do dia anterior. Uma camisa cinza desbotada pendia folgada no meu corpo, ainda com um cheiro fraco de umidade e fumaça. Minhas calças estavam manchadas de lama e gastas, esticadas pelo uso constante, nunca totalmente limpas, não importava o quanto eu as lavasse.
Eram práticas.
Nada mais.
Minhas mãos tremiam levemente enquanto eu prendia meu cabelo prateado com movimentos treinados. As mechas claras escapavam, não importava o quanto eu as prendesse, caindo teimosamente no meu rosto.
Antinatural.
Estranho.
Amaldiçoado.
As palavras ecoavam na minha mente, familiares e indesejadas. Elas me seguiam desde que eu me entendia por gente, sussurradas pelas minhas costas ou ditas em um tom alto o suficiente para eu ouvir.
Tem algo errado com ela.
O lobo dela é fraco.
Ou pior... inexistente.
Talvez eles tivessem razão.
Porque, enquanto todos os outros lobos da alcateia tinham se transformado há muito tempo — fortes, orgulhosos, certos —
O meu não tinha.
Não totalmente.
Às vezes eu podia senti-la, fraca e distante, como algo enterrado profundamente dentro de mim. Ela estava lá, eu sabia, mas nunca vinha à frente. Nunca respondia quando eu a chamava.
Ela parecia um fantasma.
Silenciosa.
Observando.
Mas nunca minha para reivindicar.
E isso me tornava...
Menos.
Outra batida na porta me tirou dos meus pensamentos.
“Lyra! Mexa essa sua bunda inútil!”
Eu me encolhi com a rispidez na voz do Beta Garrick. Ela cortou o ar sem deixar espaço para hesitação ou demora.
“Estou indo”, sussurrei, embora soubesse que ele não me ouviria.
As palavras soaram pequenas até para mim.
Forcei-me a caminhar em direção à escada estreita, com o corpo ainda dolorido enquanto subia para a casa da alcateia. O calor me atingiu primeiro, seguido pelo barulho — vozes, movimento, o tilintar de panelas enquanto o café da manhã era preparado.
Vida.
Vida normal.
Algo de que eu ficava de fora, mesmo estando bem no meio daquilo.
No momento em que entrei na cozinha, o ambiente mudou.
Não completamente.
Mas o suficiente.
O suficiente para que eu sentisse.
As conversas diminuíram, só um pouco. Algumas cabeças se viraram. Olhares cruzaram comigo antes de desviarem rapidamente, como se me reconhecer por muito tempo fosse um erro.
Alguns narizes se franziram discretamente com o meu cheiro.
Baixei o olhar imediatamente, concentrando-me nas tábuas de madeira gastas sob os meus pés. Olhar para cima era perigoso. Encarar alguém acima de mim poderia ser visto como desrespeito.
E desrespeito tinha consequências.
“Finalmente decidiu acordar?”
A voz de Garrick cortou os murmúrios.
Travei a poucos passos dele, com a cabeça baixa.
Ele estava ali, largo e imponente, com os braços cruzados sobre o peito e uma expressão de puro desprezo.
“Eu acordei antes do nascer do sol”, eu disse suavemente, com a voz mal passando de um sussurro.
Seus lábios se curvaram.
“E, mesmo assim, você continua sendo inútil.”
Alguns lobos atrás dele riram com desdém.
O som apertou algo dentro do meu peito, mas eu não disse nada. Argumentar só pioraria as coisas. Sempre piorava.
Garrick deu um passo à frente, suas botas pesadas contra o chão.
“Você vai limpar a floresta norte hoje”, disse ele.
Hesitei, só por um segundo, antes de levantar a cabeça levemente.
“A área proibida?”
Seus olhos ficaram afiados instantaneamente.
“Eu pedi para você me questionar, ômega?”
“Não”, eu disse rapidamente, com o coração começando a acelerar.
“Então cale a boca e faça o que lhe foi mandado.”
Sua voz ficou mais grave, mais fria.
“E se eu souber que você pisou onde não devia... farei questão de que você se arrependa.”
O medo se instalou no meu estômago, agudo e imediato.
“Sim, Beta”, eu sussurrei.
Ele jogou um balde e uma escova nos meus braços, fazendo a água transbordar pelas laterais.
“Ande.”
Não hesitei.
Saí, sentindo o ar frio cortar minha pele. Por um momento, fechei os olhos e deixei que ele me acalmasse; o cheiro de pinho e terra úmida me ancorava de um jeito que nada mais conseguia.
A floresta se estendia infinitamente à minha frente, antiga e silenciosa, com a névoa serpentando entre as árvores como algo vivo.
Sempre fora o único lugar onde eu conseguia respirar.
O único lugar onde eu não me sentia completamente deslocada.
Caminhei em direção à extremidade norte, a área proibida, com passos lentos, porém firmes. Quanto mais eu avançava, mais silencioso ficava, até que até os menores sons pareciam desaparecer.
Sem pássaros.
Sem movimento.
Apenas silêncio.
Pesado e atento.
Ajoelhei-me perto da trilha de pedra gasta e comecei a esfregar; o movimento repetitivo era reconfortante à sua própria maneira. Meus braços começaram a arder rapidamente, mas eu não parei. Parar não era uma opção.
O tempo ficou borrado.
Minutos viraram horas.
Até que—
Um estalo seco rompeu o silêncio atrás de mim.
Travei instantaneamente.
Passos se seguiram.
Pesados.
Controlados.
Não eram de nenhum dos nossos.
Meu coração disparou quando o perfume chegou até mim — escuro, rico, avassalador.
Meu lobo se agitou fracamente, algo profundo dentro de mim se movendo em resposta.
Alfa.
Virei-me lentamente.
E então eu o vi.
Ele caminhou entre as árvores como se pertencesse a elas, alto e poderoso; sua simples presença era suficiente para mudar o ar ao redor. Seus cabelos escuros emolduravam um rosto de traços marcantes, e seus olhos eram tempestuosos e intensos, cheios de algo ancestral.
Poder emanava dele.
Inegável.
Avassalador.
Isso pressionava minha pele, forçando meu corpo a ficar imóvel.
Seu olhar pousou em mim.
Afiado.
Avaliador.
“Explique”, disse ele, com a voz baixa e autoritária.
“Por que uma ômega da alcateia Darkpine está dentro do território da Bloodmoon?”
Meu estômago afundou.
Bloodmoon.
O nome, por si só, carregava um peso imenso.
Medo.
Poder.
E não havia como confundir quem estava diante de mim.
Alfa Damon Blackwood.
Tentei falar, mas nada saiu. Meu corpo se recusou a cooperar, e minha voz ficou presa em algum lugar profundo no meu peito.
Então algo mudou.
O ar mudou.
Sua expressão escureceu ligeiramente, algo indecifrável tremeluzindo atrás de seus olhos.
E então ele disse.
A palavra que mudou tudo.
“Companheira.”
E, naquele momento, o mundo pareceu oscilar, algo invisível se encaixando no lugar, enquanto tudo o que eu achava que compreendia escapava do meu alcance.