Chapter 1
A dor a despertou antes que os pensamentos.
Ela não sabia onde estava. Não sabia quanto tempo tinha passado. Não sabia se ainda era noite ou se o sol já tinha nascido e morrido de novo sem que ela visse.
Mas a dor, ela conhecia.
Ela pulsava em suas costas — profunda e selvagem — como se alguém tivesse cravado uma faca entre suas escápulas e a girasse de vez em quando, só pelo prazer de ouvi-la ofegar. Sua coxa ardia. Quando tentou mover a perna direita, uma fisgada violenta arrancou um gemido silencioso de sua garganta. O ferimento ali não tinha fechado direito. Ela conseguia sentir o sangue quente escorrendo lentamente por sua pele fria.
Ela não fez barulho, embora a dor que batia em suas costas e na coxa pudesse facilmente ter arrancado um grito. Ela já tinha aprendido — embora não conseguisse mais lembrar exatamente quando ou como — que, naquele lugar, o som atraía atenção, e a atenção sempre trazia dor.
Ela respirou devagar, o quanto a coleira de metal apertada em seu pescoço permitia. A borda fria pressionava sua pele sensível, e cada respiração era curta e incompleta, como se o ar se recusasse a entrar em seus pulmões, obrigando-a a puxá-lo com esforço.
Sua cabeça parecia pesada, e seu cabelo escuro, endurecido por sangue seco e sujeira, caía sobre seu rosto em mechas embaraçadas. Ela não tentou afastá-lo. Era melhor assim. Se não pudessem vê-la direito, se ela permanecesse como uma forma pequena e silenciosa no canto, talvez ninguém a notasse.
As lágrimas tinham deixado rastros sujos em suas bochechas, mas agora não lhe restavam mais nenhuma. Tudo o que sentia era o medo — frio e pesado — se instalando em seu estômago.
Ela ergueu o olhar apenas um pouco, o suficiente para ver o que a cercava.
Grossas barras de metal cercavam o espaço por todos os lados, escurecidas pela ferrugem e pela sujeira, e no momento em que sua mente conseguiu juntar a imagem, ela entendeu, com um calafrio violento, que estava dentro de uma jaula.
Seu coração começou a bater mais rápido.
Memórias tentaram voltar, mas vieram apenas em fragmentos caóticos, como pedaços de vidro quebrado: caçar um cervo pela floresta, o som de passos correndo pelas folhas, gritos, uma luz ofuscante — e então a dor súbita em suas costas quando alguém a atingiu.
Depois disso, não havia nada.
Um suspiro abafado foi ouvido em algum lugar à esquerda, tão fraco que, a princípio, a garota pensou ter imaginado. Ela congelou imediatamente, os músculos tensos e a respiração curta, ouvindo atentamente, e após alguns instantes percebeu que não estava sozinha.
Além das barras escuras da jaula, outras respirações podiam ser ouvidas — ofegantes e exaustas — soluços mal contidos e sussurros desesperados que morriam rapidamente, como se as pessoas temessem até as próprias vozes.
Havia outras jaulas ali.
Outras pessoas.
Ela não conseguia vê-las claramente, porque o salão estava mergulhado em quase total escuridão, iluminado apenas por algumas lâmpadas sujas penduradas no teto que piscavam fracamente, projetando sombras trêmulas pelas fileiras de grades.
Mas ela podia ouvi-las muito bem.
Em algum lugar à direita, um garoto chorava baixinho, tentando abafar os soluços, e um pouco mais longe uma garota murmurava uma prece em uma sequência apressada de palavras. Alguém arrastava sua corrente pelo chão sujo, e o som do metal raspando no concreto ecoava inquietante no silêncio pesado da sala.
“Cala a porra da boca!”
A voz de repente trovejou pelo salão, tão alta que pareceu atingir as paredes como um trovão.
Todos os sons morreram instantaneamente.
O coração da garota parou por um momento, depois começou a bater mais rápido quando ouviu passos pesados se aproximando pelas fileiras de jaulas.
Eram passos firmes, pesados, e o chão rangia sob cada um deles.
Então, o cheiro também chegou.
Um fedor forte e repugnante de podridão, gordura rançosa e suor velho que embrulhou seu estômago.
Cato, ela vislumbrou por um momento o crachá preso ao peito do homem enorme, com seu nome escrito claramente nele.
Sua sombra gigantesca passou entre as fileiras de jaulas.
Ele era enorme. A gordura pendia sobre seu cinto, e sua respiração saía pesada, como a de um animal cansado. O cabelo ralo grudava em seu couro cabeludo suado, e uma barba imunda escondia metade de seu rosto.
“Se eu ouvir mais um ganido, vou arrancar vocês dessas jaulas um por um e dar um motivo para gritarem”, ele rosnou.
Ninguém respondeu, e após alguns instantes os passos pesados de Cato se afastaram pelas fileiras de jaulas, deixando para trás um silêncio sufocante. A garota exalou lentamente, com cuidado, como se até o som de sua respiração pudesse atrair atenção para ela novamente.
O tempo começou a passar devagar — tão devagar que cada momento parecia se esticar dolorosamente — e a dor em seu corpo retornava em ondas cada vez mais fortes. Ela tentou mover os dedos levemente, apenas para sentir se eles ainda a obedeciam. Eles tinham ficado quase completamente dormentes, um sinal de que provavelmente ela estivera amarrada ou mantida imóvel por muito tempo, embora não soubesse quanto tempo havia passado.
Na verdade, ela não sabia nada.
Esse pensamento pesou em sua mente exatamente quando a porta da loja se abriu de repente, e uma corrente fria de ar noturno varreu o interior, trazendo consigo o cheiro da noite e um arrepio que percorreu todo o seu corpo.
Ela sabia o que aquilo significava.
Vampiros.
A garota se encolheu instintivamente no canto da jaula, tentando se fazer o menor possível, e abaixou a cabeça para que seu cabelo sujo, rígido de sangue seco, cobrisse seu rosto. Ela não queria ser vista, não queria atrair olhares e, acima de tudo, não queria parecer interessante.
Ela não ousou olhar na direção deles, nem ousou respirar profundamente; permaneceu imóvel no canto da jaula, tentando parecer o mais pequena e insignificante possível enquanto focava toda a sua atenção nos sons ao redor.
Os passos que entraram na loja eram surpreendentemente leves, quase silenciosos — leves demais para criaturas que ela sabia serem tão poderosas — e o contraste entre o jeito discreto como se moviam e o medo que inspiravam tornava o silêncio na sala ainda mais pesado.
A voz de Cato mudou imediatamente, tornando-se subitamente servil e cheia de respeito.
“Bem-vindo, mestre.”
Uma risada curta e desdenhosa foi ouvida.
“O que tem hoje?”
“Suprimentos. E alguns animais novos.”
O som de barras sendo sacudidas ecoou ali perto, e um garoto começou a chorar, provavelmente incapaz de conter o medo. A reação de Cato foi imediata: o golpe caiu rápido e brutal, e o som do impacto estalou bruscamente pela loja, fazendo a garota se encolher.
Os vampiros começaram a caminhar entre as jaulas, e ela os ouvia parando de vez em quando, fazendo perguntas ou rindo baixinho, como se tudo não passasse de entretenimento para eles. Ainda assim, a garota não ergueu os olhos nem uma vez.
Então, a porta da loja abriu novamente.
A mudança foi imediata.
Ela não saberia explicar, mas sentiu instantaneamente: uma presença diferente, muito mais forte, muito mais perigosa.
O silêncio que caiu sobre a sala ficou diferente — mais pesado, mais atento — e passos calmos e confiantes se aproximaram do balcão.
“Cato.”
A voz era baixa, fria e perfeitamente controlada.
Cato riu nervosamente.
“Mestre Azarie, que honra.”
“Soube que tem mercadoria nova.”
“Com certeza.”
Uma curta pausa se seguiu.
“Estou procurando um pet.”
O coração da garota pareceu parar por um momento.
Os passos se aproximaram lentamente, passando de uma jaula para outra enquanto Cato falava sem parar, tentando claramente apresentar sua mercadoria da melhor forma possível.
“Jovem, saudável, dócil…”
As barras rangiam às vezes quando o vampiro se aproximava, e as correntes presas às coleiras dos prisioneiros tilintavam levemente.
Por fim, os passos pararam.
Bem na frente da sua jaula.
A garota ergueu o olhar sem querer.
O vampiro era alto — alto demais — e seu cabelo preto caía sobre a testa de um jeito que acentuava seus traços já angulares. Seus olhos eram vermelhos — não um vermelho escuro, mas um vermelho vívido, quase brilhante.
Seu olhar perfurou diretamente através dela.
Ela recuou instintivamente até suas costas baterem na parede da jaula, e o movimento súbito fez a dor em suas costas explodir.
Um suspiro escapou de seus lábios.
No mesmo instante, o ferimento em sua coxa reabriu, e o sangue começou a fluir novamente.
O vampiro congelou.
Suas narinas se dilataram levemente, suas presas deslizando sobre o lábio inferior, e a fome estava claramente escrita em seu rosto.
Cato riu.
“Ah, esta é interessante.”
O vampiro não tirou os olhos dela.
“Idade?”
“Dezoito.”
“Origem?”
“Rogue. Pega na floresta.”
Os olhos do vampiro se estreitaram com prazer.
“Já foi mordida?”
Cato sorriu amplamente.
“Não.”
Ele pausou por um momento, saboreando.
“Pura.”
O silêncio tornou-se opressor.
A garota sentiu seu coração disparar descontroladamente.
Não. Não. Não.
O vampiro estendeu a mão, e seus dedos tocaram as barras da jaula.
“Eu fico com ela.”
A respiração da garota falhou.
Ela não queria.
Cato abriu a jaula sem hesitação, e a corrente presa à coleira dela foi puxada violentamente, arrastando-a para fora.
Seus joelhos bateram no chão frio, e o ar se recusou a entrar em seu peito.
Instintivamente, ela tentou puxar a coleira.
Cato ergueu a mão para ela, mas antes que pudesse golpeá-la, a voz do vampiro cortou o ar.
“Chega.”
Cato parou bruscamente, quase de forma cômica.
O vampiro olhou para ele friamente.
“Prefiro que minha propriedade permaneça intacta.”
Cato engoliu em seco e entregou-lhe a guia.
“Claro, mestre.”
O vampiro a pegou, e a garota sentiu a corrente se mover levemente.
“Levante-se.”
Sua voz permaneceu calma, quase baixa, como se a situação não tivesse nada de incomum para ele.
As pernas da garota tremiam devido à dor e à fraqueza que se espalhara por seu corpo, e por alguns instantes ela acreditou que não conseguiria se levantar; mas, com um esforço que causou um estremecimento doloroso em suas costas e coxa, ela finalmente conseguiu se colocar de pé.
Surpreendentemente, o vampiro não a puxou consigo nem deu um tranco na guia como ela esperava. Em vez disso, ele permaneceu parado e simplesmente a observou, esperando.
Aquilo pareceu imediatamente errado — quase perturbador — porque, no mundo dela, os vampiros nunca esperavam por ninguém.
Eles então caminharam em direção ao balcão, e quando chegaram lá, Cato contou o dinheiro que recebera, uma quantia grande o suficiente para fazer seu sorriso gorduroso se alargar ainda mais.
“Gostaria de equipamento também?”, ele perguntou, puxando debaixo do balcão, um por um, coleiras, guias, chicotes e outros instrumentos de controle.
O vampiro olhou para os objetos por alguns instantes sem pressa, como se pesasse a utilidade deles, então estendeu a mão e escolheu uma única coisa.
Um chicote de couro.
Ele o levantou e o equilibrou levemente na palma da mão, testando seu peso, antes de erguer seu olhar para a garota novamente.
Seus olhos vermelhos brilharam na escuridão da loja.
“Você vai ter que aprender rápido.”