Capítulo 1 - De Volta
Alguns irmãos crescem como se fossem o reflexo um do outro. Outros passam a vida sendo tão diferentes quanto o dia e a noite. Moira e Hazel foram separadas pelas circunstâncias, pelo destino e por suas próprias escolhas. Elas estavam no final da adolescência quando tudo começou, e na casa dos vinte anos quando tudo terminou.
"Por que você está fazendo isso?", perguntou Moira com um tom perplexo.
"Você roubou a minha vida!", gritou Hazel, furiosa.
A chuva castigava suas cabeças enquanto elas estavam no terraço. As costas de Moira estavam pressionadas contra o parapeito, tentando se afastar da lâmina apontada para o seu nariz. Um raio cortou o céu, iluminando as irmãs.
"Como eu poderia ter feito isso?!", sua voz tremia de medo e frio enquanto a água congelante encharcava o tecido fino de sua camisola.
"Em 1858! Você deveria ter sido a única a se casar com aquele verme!", Hazel balançou a cabeça freneticamente. "Não eu!"
"Cinco anos atrás, você escolheu James. Eu nem tive escolha", lembrou-lhe Moira. "Você disse que James seria fácil de lidar porque ele estava ferido. Você só precisava..."
"Olhe para ele agora!", ela gesticulou para o castelo atrás dela. "James me renegou e me deixou sem nada. E VOCÊ?! Você está aqui vivendo como uma maldita princesa!"
Hazel avançou e Moira desviou para o lado. Ela não foi rápida o suficiente para escapar de um golpe forte da lâmina em seu ombro. Ela soltou um gemido, segurando o ferimento com as mãos trêmulas.
"Você acabou com o seu casamento, Hazel! Eu nem sabia até a semana passada", respondeu Moira. "Se for um problema de dinheiro, eu posso te ajudar."
"Eu não preciso da sua ajuda ou das suas lições de moral. Você não tem motivo para agir como irmã mais velha agora", argumentou Hazel. "Se você morrer, eu farei o papel da enlutada e virei morar aqui. Tudo o que deveria ser meu, eu vou pegar de volta."
"Você não quer fazer isso. Você acha que quer a minha vida, mas não entende nada!", ela declarou desesperada.
"Eu não preciso entender. Eu só preciso que você morra!", ela avançou assim que terminou de falar.
Moira saltou para trás e seus quadris roçaram no parapeito. Ela levantou as mãos defensivamente enquanto Hazel erguia a lâmina para atacar novamente. A lâmina atingiu seu antebraço levantado. Moira deu um grito ao ser empurrada, perdendo o equilíbrio com o golpe.
Instintivamente, seu braço disparou à sua frente. Ela agarrou o pulso de Hazel, esperando se estabilizar. Ela não sabia que já estava longe demais do parapeito. Ambas as jovens caíram do terraço. Hazel empurrou Moira para longe, mesmo com a morte se aproximando das duas.
Moira fechou os olhos com força, em pânico. O vento chicoteava seus cabelos molhados ao redor da cabeça. Ela abriu os olhos enquanto o ar faltava em seus pulmões, silenciando seu grito. Tudo o que ela viu foi o céu noturno subindo rapidamente acima dela, e a sombra de seu lar.
Espere! Eu nem sequer fui feliz! É cedo demais!, ela gritou silenciosamente para si mesma. Um momento depois, Moira parou abruptamente. Ela não sentiu dor alguma. Apenas a dureza do chão reverberou através dela. A escuridão absoluta a engoliu, tornando-a um só com a morte.
Ela esperava ver sua vida passar diante dos olhos como nos poemas épicos. Ela não viu nada. Nenhuma memória de sua infância. Ela quase desejou que houvesse. Seu pai morrera quando ela tinha dois anos; teria sido bom vê-lo.
O segundo casamento de sua mãe com John Brinkley, no ano em que seu pai morreu, foi um momento crucial em sua vida. Assim como o nascimento de sua irmã, um ano depois, quando ela tinha três. Em um momento ela se tornou indesejada, e no outro perdeu o único valor que detinha aos olhos de sua mãe. Ainda assim, nenhuma memória surgiu.
Os poetas e filósofos estavam errados sobre a morte. Pelo menos, estavam errados no caso de Moira. Talvez a escuridão fosse um presente. Um lugar solitário onde não se esperava que ela revivesse suas dores e lutas. Ou talvez, este simplesmente não fosse o seu verdadeiro fim.
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*Ofego*
Moira sentou-se, sobressaltada e em pânico. Respirando com dificuldade, ela levou a mão ao peito. Seu coração batia acelerado. Ela estava viva, mas como?
Com olhos temerosos, ela olhou ao redor. Ela estava deitada em um catre familiar, em um pequeno quarto de pedra. Ela se levantou em descrença e aproximou-se do espelho acima da bacia. Na superfície polida e manchada, ela viu a si mesma.
No entanto, seu rosto estava diferente. Suas bochechas estavam um pouco mais cheias do que o normal. Seu cabelo castanho-avermelhado estava mais comprido e trançado sobre o ombro. Moira tocou seu rosto para garantir que estava se vendo corretamente.
Um momento depois, ela beliscou o próprio braço e sibilou de dor. "Não é um sonho", murmurou ela, esfregando o braço agora dolorido.
Eu voltei, de alguma forma. Este é o meu quarto na propriedade de John. Eu não volto aqui desde que me casei. Os pensamentos de Moira apenas aumentaram sua curiosidade e incerteza. Quanto tempo atrás foi isso?
O som de vozes alteradas atrás da porta chamou sua atenção. Moira caminhou até a porta, espiando pela fresta. A conversa lá fora respondia às suas perguntas, enquanto, de alguma forma, levantava outras.
"Os acordos já foram enviados, Hazel!", disse sua mãe rispidamente. "É tarde demais para mudar os noivados."
"Eu não vou me casar com ele, mãe. Ele é um soldado doente e aleijado! Eu mudei de ideia", reclamou Hazel.
"Seu pai diz que a riqueza da família dele pode sustentar sua linhagem por gerações. Ele não é apenas um soldado. Ele é um tenente-coronel", respondeu ela com conhecimento de causa.
"Mas..."
"Chega de discutir!", Vivian retrucou, antes de soltar um suspiro pesado. "Você só precisa ter filhos, e consolidará sua posição com os Cumberlanes."
Hazel respondeu, mas foi abafado, como se estivesse resmungando.
"O tenente-coronel procura uma noiva há anos. Ele já está velho demais para ser um bom partido. Ele não vai te rejeitar nem se livrará de você facilmente. Você precisa ver a vantagem em nos associar aos Cumberlanes. Qualquer mudança agora custaria a reputação da nossa família."
"É isso que importa? Se Moira rejeitar o noivado com Evan, o casamento cairia para mim. Eu sou a mais nova", ponderou Hazel.
Hoje é o dia em que o administrador vem finalizar os arranjos com Hazel. Ela tem se gabado avidamente do noivado há dias, e agora quer mudar? Por que é diferente da última vez?, pensou Moira consigo mesma.
Ela se virou para o baú no pé da cama. Dentro havia três vestidos e uma pequena pilha de livros. Moira tirou o vestido verde e sua única outra roupa de baixo. Ela se trocou rapidamente, sabendo que não demoraria muito para ser chamada.
Nenhum de seus vestidos era novo ou sofisticado. Ainda assim, o verde tinha apenas uma costura refeita. Ela mal tinha amarrado as costas quando uma única batida soou na porta. Um segundo depois, ela se abriu. Hazel entrou e a examinou com um pequeno sorriso condescendente.
"Esse vestido não vai ajudar", ela riu com escárnio. "Você ainda parece uma criada."
"Você precisa de alguma coisa?", perguntou Moira, como costumava fazer.
"Desista do noivado", exigiu Hazel.
"Por que eu deveria?", ela olhou para a irmã com a testa franzida.
"Ele é um fazendeiro inútil", respondeu ela prontamente.
"Então por que você o quer?", perguntou Moira.
Hazel olhou para ela estranhamente. A morte a tinha tornado mais audaciosa, e sua irmã mais nova ainda não compreendia o que havia mudado. Ela apenas sabia que algo estava diferente.
"Eu pensei que ser aleijado significava que James não poderia se dar ao luxo de me renegá-la. Como ele ousaria? Ele nunca encontraria uma nova noiva! Tudo o que eu precisaria fazer é ter um filho, e qualquer homem poderia me dar um", Hazel suspirou como se explicar fosse tedioso.
"Ele saberia a verdade. Por que ele aceitaria o filho?", Moira ergueu uma sobrancelha para ela.
"Ele não teria escolha. O corpo doentio dele nunca produzirá um herdeiro de qualquer maneira", deu de ombros.
"Se você aceitar Evan, o que dizer do seu noivo?", ela sondou. "John nunca permitiria que você cortasse as conexões com a família Cumberlane."
"Você pode ficar com James. Evan será o homem mais rico do condado em alguns anos. Ele tem que se tornar meu marido", Hazel cruzou os braços sobre o peito.
"Em alguns anos...?", Moira encarou-a com os olhos arregalados.
Hazel também renasceu? É por isso que ela quer Evan. Ela acha que ele está destinado ao sucesso. Não... É impossível. Os pensamentos de Moira estavam a mil.
Hazel pareceu assustada, como se tivesse falado sem pensar. "Não se preocupe com isso! Você só tem que ser uma boa menina e fazer o que eu digo."
É verdade. Ela renasceu, mas está errada sobre Evan. Se não fosse por mim, ele teria falido sua família há muito tempo. Moira a encarou por vários momentos, como se estivesse pensando sobre a troca proposta.
"Tudo bem", declarou ela finalmente. "Você quer se casar com uma família de fazendeiros cavalheiros... Pode ficar com ele."
"Você...", Hazel retrucou com raiva. "Você verá! Eu serei a mulher mais rica do condado."
"Estarei esperando para ver", respondeu Moira com um leve sorriso.
Se eu recusar o noivado, a mamãe ficará furiosa. Felizmente, James mandou chamar Hazel no dia seguinte. Caso contrário, ela poderia me matar ela mesma, ponderou silenciosamente.
Hazel levantou a mão como se fosse esbofetear a irmã mais velha pela insolência. Moira agarrou seu pulso, para choque de Hazel.
"Eu nunca competi com você por nada. A mamãe te ama. John te ama. Você recebeu o melhor de tudo. Eu não tenho nada", Moira soltou seu braço. "Por que você sempre tem que lutar comigo por coisas que eu nem quero?"
"Eu recebo o melhor de tudo porque eu mereço. Eu não suporto nem olhar para você! Você é sempre tão patética, mas age com arrogância. Como se pertencesse a esta família, como se merecesse ser minha irmã...", respondeu Hazel rispidamente. "Eu simplesmente te odeio. Não preciso de um motivo."
Moira sabia que sua irmã a odiava. Afinal, ela até a matara em sua vida passada. No entanto, parecia que qualquer animosidade que ela tivesse na última vida era ainda mais profunda agora. Ela afastou o arrepio que percorreu sua espinha para encarar o olhar da irmã seriamente.
"Vou te dar um conselho. Primeiro, você só terá sucesso se trabalhar por isso. Nada de bom é conquistado às custas dos outros", afirmou Moira friamente. "Segundo: se você quer o meu noivado, saia agora."
"Cumpra a sua parte, ou você vai pagar por isso", retrucou ela.
Hazel bufou com raiva, antes de girar nos calcanhares para sair do quarto. Ela lançou um olhar furioso por cima do ombro, mas sua irmã não se incomodou. Ela já tinha corrigido um erro em sua vida. Agora, parecia que as mudanças que Moira poderia fazer eram infinitas.




