1 | TNT
Tudo começou como um acordo. Um favor entre velhos amigos. Terminou comigo na cozinha dele, vestindo apenas a sua camisa, sem entender como diabos eu fui parar ali.
Mas estou me adiantando. Deixe-me começar pelo churrasco.
O quintal da Hailey cheirava a grama cortada e cerveja barata. As mesmas pessoas. A mesma playlist que o Cole vinha “curando” desde 2019 — porque, aparentemente, música boa não vence.
AC/DC estava tocando alto na caixa de som Bluetooth quando passei pelo portão.
Thunderstruck.
Claro.
Fiquei sentada no carro por dez minutos antes de entrar. Mandei duas mensagens para a Hailey dizendo que estava “quase chegando”. Verifiquei a maquiagem no retrovisor. Coloquei o celular virado para baixo no banco do passageiro. Peguei-o de volta.
Hailey me viu antes mesmo de eu dar três passos no quintal. Ela atravessou a grama com aquele jeito eficiente dela, já lendo a minha cara.
“Você veio!” Ela me puxou para um abraço — apertado, verdadeiro, do tipo que realmente significava algo. “Eu estava começando a achar que você ia furar.”
“Eu te mandei uma mensagem dizendo que estava vindo.”
“Você manda essa mensagem toda vez.” Ela se afastou, me examinando. “E, ainda assim...”
Atrás dela, Nate cuidava da churrasqueira com o tipo de foco geralmente reservado a neurocirurgiões. Eles estavam casados há dois anos. Casa, quintal, uma churrasqueira a gás com quatro queimadores. Aquela porra toda de vida doméstica e, de alguma forma, na Hailey, não parecia entediante. Parecia algo que ela construiu de propósito.
O quintal já estava cheio — ou tão cheio quanto nosso grupo costumava ficar. Cole tentava dar palpites no churrasco, gesticulando para o Nate com sua cerveja. Ryan ria alto demais de algo em seu celular. Theo estava ao lado dele, balançando a cabeça para o que quer que estivesse na tela. Desviei o olhar antes que ele pudesse olhar para cima.
Melissa comandava a conversa perto da mesa do pátio com as meninas, taça de vinho na mão, no meio de uma história sobre algo que aconteceu no escritório dela.
“Tessa!” Ela me viu e me chamou com a mão. “Vem aqui, você precisa ouvir isso.”
Eu caminhei até lá. Sorri nos momentos certos. Ri quando todos riam.
Esse é o problema do nosso grupo — nós não éramos amigos de verdade. Nós só continuávamos aparecendo. A mesma cidade. Os mesmos churrascos.
Recomeçar aos vinte e oito anos parecia mais difícil do que fingir que isso era o suficiente.
A história terminou. Outra começou. Eu ouvia pela metade, deixando meu olhar vagar pelo quintal, catalogando mentalmente os mesmos rostos que eu conhecia há anos.
E então eu o vi.
Charles.
Ele estava perto do cooler, conversando com o Nate, segurando uma cerveja como se fosse um acessório de sessão de fotos. Bem arrumado, bonito de catálogo, usando aquela expressão de casualidade estudada que ele aperfeiçoou lá pelo terceiro ano da faculdade. O tipo de cara que sua mãe chamaria de “um bom partido” e seu instinto chamaria de “ponto de interrogação”.
A cerveja na minha mão ficou mais pesada.
Virei-me para a Melissa. “Você convidou o Charles?”
Ela teve a decência de parecer um pouco culpada. Um pouco.
“Eu achei que você soubesse.”
“Como eu saberia? Nós terminamos.”
“Exatamente.” Ela baixou a voz, inclinando-se como se estivesse contando um segredo. “Tessa, faz semanas. Você precisa fazer alguma coisa. E talvez fazer alguma coisa seja fazer ele, sabe? Ou conversar para resolver as coisas. Ele sente sua falta.”
Eu encarei a Melissa. Girei minha taça entre as mãos. Uma vez. Duas vezes.
Ela não teria convidado se soubesse o que realmente aconteceu.
Mas ela não sabia. Eu nunca contei a ninguém. Nosso grupo era mantido unido pelo hábito e pela proximidade. Adicionar meu drama à mistura parecia puxar um fio que desmancharia tudo. E para quê? Para que todos se sentissem desconfortáveis? Não, obrigada.
“Ele é um bom cara”, dizia a Melissa. “Vocês dois ficam tão bem juntos.”
Algo me atingiu antes que eu pudesse identificar — cedro e almíscar sintético. Meu estômago revirou.
Eu costumava gostar desse cheiro.
“Tessa.”
A voz dele. Atrás de mim.
Virei-me. Charles estava parado ali com aquele meio sorriso de desculpas, o que ele usava toda vez que me via ultimamente. Paciente. Esperançoso. Como se não tivesse feito nada tão ruim, mas estivesse pronto para assumir a culpa de qualquer jeito.
“Podemos conversar? Só por um minuto?”
Olhei para a Melissa. Ela me deu um aceno encorajador e evaporou em direção à mesa de bebidas.
“Tudo bem”, eu disse. “Fale.”
Caminhamos até o limite do quintal, longe da música, da fumaça e de todos fingindo que não estavam nos observando.
“Tenho pensado muito”, Charles começou. “Sobre nós.”
“Charles...”
“Só me escute.” Ele colocou as mãos nos bolsos, tentando parecer sincero. “Eu sei que as coisas terminaram mal. Eu sei que te magoei. Mas nós éramos bons juntos, Tess.”
“Eu não quero voltar.”
“Não estou pedindo isso. Ainda não.” Ele pausou, e algo calculista brilhou atrás de seus olhos. “Mas o casamento da Emma é na semana que vem. Eu sei que você não tem um par.”
“Como você sabe disso?”
“A Melissa mencionou...”
Claro que ela mencionou.
“...e eu pensei que talvez pudéssemos ir juntos. Como amigos. Sem pressão. Só para ver como a gente se sente.”
Eu tive vontade de rir. Amigos. Como se eu pudesse sentar ao lado dele por cinco horas sem pensar no que eu vi. Como se eu pudesse posar para fotos, jogar conversa fora e fingir que minha pele não estava arrepiada o tempo todo.
“Eu não acho que seja uma boa ideia.”
“Por que não?”
Porque eu confiei em você. Porque eu vi o que vi. Porque eu vejo isso toda vez que olho para a sua cara estúpida.
“Eu só não acho”, eu disse.
Ele assentiu. Paciente. Tão incrivelmente paciente, como se estivesse tolerando uma criança fazendo birra.
“Eu ainda não contei a eles”, ele tentou de novo. “Que vamos separados. Você provavelmente também não, né?” Uma pausa. Aquele sorriso — o que eu costumava achar charmoso. “Será mais fácil assim, Tess. Para nós dois.”
Ele sorriu como se estivesse me oferecendo uma solução. Como se eu simplesmente não tivesse pensado o suficiente. Então fiz a única coisa que podia.
“Na verdade, eu já liguei para a Emma.”
Eu não liguei.
“Vou com outra pessoa.”
Não vou.
Ele tentava me ler, descobrir se eu estava blefando. Surpresa brilhou em seu rosto, depois dúvida.
Eu mantive o olhar. Não pisquei.
“Eu preciso ir”, eu disse.
Virei-me e saí andando antes que ele pudesse responder.
Eu precisava me mover.
Precisava de ar.
Precisava não ficar parada naquele lugar por mais um segundo.
E um segundo depois, dei de cara com uma parede.
Só que não era uma parede.
“Epa—” Mãos seguraram meus ombros, me estabilizando antes que eu tropeçasse.
Olhei para cima.
Theo.
Minhas mãos estavam espalmadas contra o peito dele, e de alguma forma senti-lo sob minhas palmas foi firme o suficiente para me ancorar. Ele cheirava a sândalo e algo mais quente por baixo, que eu não sabia nomear, mas que de algum jeito parecia paz.
Afastei-me antes que pudesse concluir o pensamento.
“Estou bem.” Meu rosto estava queimando. “Desculpa. Não estava olhando para onde ia.”
“Eu notei.” A boca dele se contraiu — quase um sorriso. “Você estava andando bem rápido.”
“Eu não estava correndo. Eu estava andando. Com um objetivo.”
“Hum hum.” Ele levantou uma sobrancelha. “Longe do Charles?”
“Você viu isso?”
“Difícil não ver.” Ele tomou um gole de sua cerveja. “Ele estava com toda aquela postura de mãos-nos-bolsos-e-sinceridade. Bem comédia romântica.”
Uma risada surpresa escapou de mim. “Isso é... bem preciso, na verdade.”
“A inclinação da cabeça. O contato visual significativo. Tenho quase certeza de que ele praticou no espelho.”
“Meu Deus, para.”
“Só estou dizendo, se o Hallmark precisar de um protagonista—”
“Eu vou embora agora.”
“Você já tentou isso. Não deu muito certo.”
Balancei a cabeça, mas estava sorrindo. Sorrindo de verdade, pela primeira vez no dia todo. O aperto no meu peito relaxou, só um pouco.
De repente, a música mudou. O riff de abertura de TNT estalou pelas caixas de som.
Nós dois olhamos para o Cole, que fazia uma air guitar horrível.
Então olhamos um para o outro.
Um lampejo de reconhecimento passou entre nós. Memória.
“Ótima música”, disse Theo.
“É.”
“Faz a gente voltar no tempo.”
“Faz mesmo.”
Eu me lembrei do quarto dele.
Nós pulando na cama dele até a mãe dele gritar.
Nós rindo alto demais para parar.
E depois ele caindo, batendo no chão com tanta força que ficou uma cicatriz. Você pode vê-la até hoje se souber exatamente onde olhar.
O sorriso desapareceu do rosto dele. Depois do meu.
“Eu deveria voltar”, ele disse, gesticulando vagamente para o Ryan. “Ver se não tem nada pegando fogo.”
“Certo.” Minha voz saiu estranha. “É.”
Ele assentiu uma vez. Saiu andando.
Eu o vi partir, minhas mãos ainda formigando onde tinham pressionado o peito dele.
Olhei para elas.
O casamento da Emma era em uma semana.
Aparentemente, meu prazo para arrumar um novo namorado também.