Capítulo 1
Zoe
Como a maioria da nossa espécie, eu estava eufórica com o meu aniversário de 17 anos amanhã. Há poucas coisas que nós, como matilha, esperamos com tanta ansiedade. Nossa primeira transformação, nossa primeira caçada e encontrar nosso companheiro. Um companheiro era o que acreditávamos ser nossa outra metade, porque também acreditávamos que nascíamos com apenas metade da alma. Quando um lobisomem encontra seu companheiro, um vínculo é formado e, depois que os dois se marcam, suas almas se entrelaçam em uma só, fazendo com que nos sintamos inteiros e completos. Amanhã poderia ser o dia em que eu encontraria o meu.
— Não é assim tão simples — disse Carter, um dos meus melhores amigos. Ele já tinha 17 anos há cinco meses e ainda não havia encontrado seu companheiro. — Ele pode não estar nesta matilha.
— Só porque o seu companheiro não está aqui, não quer dizer que o meu não esteja — retruquei, mostrando a língua para ele. Não era fácil encontrar seu companheiro. A maioria da nossa espécie vivia em matilhas isoladas pelo mundo. Os humanos sabiam da nossa existência, mas não se misturavam muito conosco. Alguns humanos podiam ser nossos companheiros, mas era bem raro.
Carter riu e empurrou minha língua de volta para dentro da boca com a mão. — Eca! — cuspi. — Sua mão tem gosto de… de—
— Provavelmente de sacanagem — completou Wyatt, meu outro melhor amigo, rindo. — Ele passa mais tempo com a mão na calça do que qualquer um que eu já vi.
— Ai, que nojo! — gritei, cuspindo ainda mais.
— Cara! — Carter exclamou, fingindo estar chocado. — Não é verdade!
— É sim! — berrei, concordando com Wyatt, e comecei a lamber a camisa dele para tirar o gosto de Carter da minha boca. — Agora preciso ferver minha língua.
— Ah, ah — disse Carter, me empurrando de leve com o braço. Eu me joguei dramaticamente em cima de Wyatt.
— Você é tão violento — ofeguei. — Sou uma donzela frágil.
Wyatt riu e me endireitou. — Bom, reze para que o seu companheiro não seja como o meu, que me rejeitou porque está namorando o filho do Alfa. — Havia um toque de raiva em suas palavras. Dei um sorriso triste. Nunca entendi por que a companheira de Wyatt, Amanda, o rejeitou. Wyatt era… lindo. Seus olhos azuis brilhantes eram como o oceano, e olhar para eles fazia você se sentir como uma ilha só sua, cercada por ele. Seu maxilar forte e o rosto perfeito faziam a palavra “perfeição” ganhar vida, ainda mais com aquele cabelo loiro-acastanhado, macio como seda.
Odeio Amanda por ter feito isso com ele. Já fazia um ano, e eu ainda via a dor nos olhos de Wyatt sempre que ele a via. Também odeio Tai, o filho do Alfa, que está namorando com ela. Não sei o que faria se meu companheiro me rejeitasse. Espero que isso não aconteça.
— O que vocês querem fazer amanhã? — perguntou Carter, depois que o silêncio triste já tinha durado demais. Carter era o oposto completo de Wyatt. Era bonito, não me entenda mal, mas tinha um charme de malandro. Ele jogava o cabelo castanho para trás e dava uma piscadela marota com aqueles olhos cinzentos impressionantes. Tão cinzentos que, sob a luz da lua, pareciam prateados. E ainda por cima tinha covinhas de matar.
— Sinceramente, só quero passar o dia com vocês dois e algumas horas com o Kyle. Prometi a ele — contei, olhando para o céu noturno. Kyle era meu irmãozinho. Bom, na verdade, era meu primo, mas era como se fosse meu irmão. Meu tio Scott e sua companheira, tia Lane, me acolheram quando meus pais morreram. Meu pai era o Alfa da minha antiga matilha, e eu era nova demais para assumir o posto, então me mandaram morar com meu tio. Ou melhor, meu tio veio me buscar. Ele e a companheira me receberam sem questionar quando eu tinha três anos. Me criaram como filha e me amaram tanto quanto. Mesmo quando tiveram o Kyle, quando eu já tinha nove anos, continuaram me tratando com o mesmo carinho. Sem contar que eu amo o Kyle mais do que tudo.
— Que tal, já que amanhã é sexta, a gente voltar direto da escola, passar um tempo com sua família e depois sair por volta das oito para a faixa? — sugeriu Wyatt. A faixa era um conjunto de ruas com várias baladas perto da praia. Já tinha ido algumas vezes com eles e adorava. Podíamos pular de uma boate para outra, comendo, dançando e nos divertindo pra valer. Como lobisomens, não ficávamos bêbados com álcool humano, a menos que bebêssemos nosso peso em bebida, então nossos pais nos deixavam ir sem preocupação. Não que eu gostasse do gosto, de qualquer forma.
— Parece perfeito — falei.
***
Acordei quando um corpo pulou em cima de mim. Meus olhos se abriram de repente, e soltei um “uf!”.
— Zo-e! Zo-e! Zo-e! — Kyle cantava, pulando em cima da minha barriga. — Feliz aniversário! Feliz aniversário! Feliz aniversário! — gritou. Não consegui evitar rir.
— Tá bom, tá bom. Já acordei, já acordei. Pare com o ataque — falei. Ele parou, só para me abraçar pelo pescoço quando me sentei na cama. Passei o braço pelas costas dele e o puxei para mim. — Valeu, Kyle — disse, beijando seu rosto. Ele sorriu e se afastou.
— A mamãe disse que hoje você pode encontrar seu companheiro! — Kyle gritou, pulando da cama e correndo para o meu armário. — Acho que você devia usar a blusa azul que te dei. Azul faz seus olhos âmbar ficarem lindos, e aposto que seu companheiro vai AMAR isso. — Ri de novo e saí da cama.
— Tá bom, mas só porque a blusa é linda mesmo — falei. Ele pegou a camisa e colocou na cama.
— É sim! Agora escova esses dentes fedidos e desce para tomar café! A mamãe disse que você pode me deixar na escola. — Dei um tapa de brincadeira nele enquanto passava correndo por mim.
— Tá bom! Mas só porque eu te amo! — gritei atrás dele. Ouvi risadas e passos descendo a escada.
Balancei a cabeça e entrei no banheiro, que ficava dentro do meu quarto. Tomei um banho rápido, escovei os dentes e o cabelo, prendendo-o num rabo de cavalo alto. Depois passei um pouco de maquiagem leve e um gloss rosa clarinho. Não era muito chegada em maquiagem, de qualquer forma. Vesti uma saia curta que combinava com a blusa que o Kyle tinha me dado. Olhei-me no espelho de corpo inteiro enquanto pegava minha mochila. Dei uma piscadinha para mim mesma e desci. Eu estava ótima.
— Feliz aniversário, Zoe Macarrão — disse o tio Scott. Lancei um olhar de falsa indignação para ele.
— Sabe, como adulta, não aprovo que me chame assim.
— Você só vai ser adulta no ano que vem — ele zombou.
— E você sempre será nossa garotinha — completou tia Lane. Sorri para ela. — Querida, não a chame assim. Ela já está grandinha. — Sorri de novo para minha tia e peguei o prato de ovos com bacon que ela tinha preparado para mim. Beijei seu rosto e fui me sentar ao lado do Kyle.
— Obrigada, tia Lane. Você sempre foi minha mãe favorita — falei e comecei a comer.
— A minha também! — Kyle gritou, pulando na cadeira, fazendo seus cachinhos loiros balançarem para todos os lados.
— Ei! — protestou tio Scott, ofendido. Kyle e eu só rimos enquanto ele se sentava conosco.
Mais tarde, bateram na porta, que logo foi aberta por Carter e Wyatt.
— Bom dia, família Grayson! — gritou Carter. — Viemos escoltar nossa melhor amiga para a escola, onde ela pode encontrar o amor da vida dela.
— Uhuu! — Kyle e eu gritamos, erguendo os braços.
— Pega sua mochila — falei para Kyle. — Tchau, vocês dois, nos vemos depois da escola — disse para meus pais. Eles me desejaram um bom dia, e então fomos para o carro de Wyatt e entramos.
Deixamos Kyle na escola dele primeiro e depois fomos para a nossa. Wyatt estacionou na vaga de sempre, e nós três saímos do carro. Peguei os braços dos dois e caminhei entre eles até a escola. Recebemos alguns olhares de raiva, nada de novo. Como Wyatt odiava o filho do Alfa, Tai, por causa do lance com a Amanda, nós três odiávamos Tai por tabela, e praticamente todo mundo na escola que era lobisomem nos odiava só para ficar bem com ele. Não ligávamos, tínhamos uns aos outros, e eu só esperava que meu companheiro, se estivesse ali hoje, não fosse tão baixo a ponto de abanar o rabo para o Tai por minha causa.
Esse pensamento me fez parar de repente, fazendo Wyatt e Carter pararem comigo. Cheirei o ar e senti o perfume mais maravilhoso. Era sorveira-brava e algo doce, talvez mel.
— Ele está aqui — sussurrei para eles. Wyatt sorriu primeiro.
— Onde? — perguntou, olhando ao redor. Puxei os dois e fui mais para dentro da escola. Virei num corredor onde o cheiro ficou mais forte e parei. Meus olhos se fixaram no meu companheiro, e nossos olhares se encontraram.
Companheiro! — disse minha loba.
Minha boca caiu aberta. Meu companheiro estava com os braços em volta da cintura de outra garota e, quando nossos olhos se encontraram, ele pareceu chocado. Depois olhou para a garota que estava abraçando, voltou os olhos para mim e me encarou com raiva. Seus olhos relaxados ganharam uma expressão determinada. O corredor ficou em silêncio enquanto ele soltava a cintura da garota e caminhava na minha direção. Quando chegou perto de mim, cerrei os punhos. Eu sabia o que podia acontecer, mas talvez… talvez fosse bom. Ele me aceitaria e então—
— Eu rejeito o vínculo que nos atrai, o vínculo que nos unirá e o vínculo que nos tornará companheiros — disse meu companheiro em voz baixa, embora a maioria ao redor fosse de lobos e pudesse ouvir.
Minha loba uivou dentro de mim, e meu coração se partiu em mil pedaços. Eu esperava dor, mas não tanto assim. Será que ele estava sentindo a mesma coisa? Pelo jeito, não. Tai me olhou de cima a baixo antes de se virar e voltar para perto de Amanda. Ela me lançou um sorrisinho, mas não deixou de notar o medo escondido em seus olhos. Por um segundo, ela achou que Tai me aceitaria. Eu também achei, que idiota fui. Abri a boca para dizer algo ofensivo, mas meu maxilar tremeu de dor. Wyatt segurou minha mão e me puxou para longe da multidão.
— Não chore ainda, Zoe. Espere um pouco — sussurrou Wyatt. Senti a mão de Carter no meu ombro enquanto ele caminhava rápido ao nosso lado. Dobramos uma esquina e entramos num armário de zelador. — Tá bom, Zoe, aqui ninguém— — Cortei ele quando joguei meus braços em volta dele e chorei no seu peito. Senti as duas mãos de Carter nas minhas costas enquanto ele também me consolava.
— Dói — solucei, agarrada a Wyatt. Ele me apertou com a mesma força. — Dói tanto!
— Eu sei… — sussurrou. — Sei exatamente como você se sente. Odeio o Tai de verdade.
✨ Um recadinho da autora ✨
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