Capítulo 1
SIERRA
O mundo estilhaçou com um estrondo ensurdecedor.
Não foi apenas um som, mas uma força física que atingiu meu peito e arrancou o ar dos meus pulmões. O chão de concreto sacudiu, me jogando para fora da cama. Poeira e escombros caíram sobre mim, uma chuva áspera no silêncio súbito e zumbido que ficou. Um chiado agudo gritava em meus ouvidos, o fantasma da explosão.
Antes que meus olhos pudessem enxergar através da escuridão, antes que meu cérebro pudesse formar qualquer pergunta, meu corpo já estava em movimento.
O treinamento assumiu o controle. Minha mão encontrou o peso frio e familiar da pistola na mesa de cabeceira. Meus pés descalços se firmaram no chão trêmulo. Pressionei minhas costas contra a parede mais próxima; o concreto áspero foi uma âncora de realidade naquele caos.
Reportar. Avaliar. Atacar.
O cheiro acre de pólvora e ozônio queimou minhas narinas.
Através da névoa, luzes de emergência piscavam, banhando o corredor em um vermelho intermitente e infernal. Silhuetas curvadas moviam-se pela fumaça no corredor. Elas se moviam rápido demais, bem demais. As linhas limpas e eficientes de seus equipamentos táticos e rifles eram inconfundíveis. Não eram aliados. Não eram civis.
Uma certeza fria se enrolou em meu estômago, apertada e venenosa. Não era paranoia. Era previsão. Cada centímetro daquele complexo, cada protocolo, cada alma maldita lá dentro existia por causa dela. Um ataque a nós era um ataque a ela.
Uma forma se materializou na fumaça giratória diretamente à minha frente. Ethan. Seu rosto estava sombrio, manchado de fuligem, e o cheiro da explosão grudava em seu equipamento como uma mortalha. Um dos guardas em quem Pearl mais confiava.
Que porra ele estava fazendo na ala residencial?
Aquele deveria ser o santuário interno, a parte mais segura da instalação. Sua presença ali significava que a brecha não estava no portão, mas na nossa maldita sala de estar.
Ele não falou.
Ele não precisava.
Seus olhos, arregalados e fixos na luz vermelha, diziam tudo.
Estamos fodidos.
Ele enfiou uma segunda pistola na minha mão livre e depois desapareceu de volta no caos, sua forma engolida pela fumaça enquanto seguia em direção à origem do fogo.
Meu protocolo de missão foi acionado.
Ativos da Pearl.
Descolei-me da parede, correndo pelo corredor, meus pés descalços batendo no chão coberto de detritos. Os aposentos dela estavam intocados, uma ilha de calma na tempestade. O ar continha o perfume suave de jasmim e ozônio, o cheiro de Pearl. Coloquei o laptop, o telefone criptografado e os discos rígidos na bolsa de emergência.
Metódica. Precisa. Sem tempo para hesitação. Com a bolsa no ombro, corri para a Sala 189, o coração digital da operação. As ordens de Pearl eram memória muscular: se o complexo fosse comprometido, apague tudo. Salgue a terra. Deixe-os apenas com cinzas.
Mas, ao ficar diante do terminal, com meus dedos pairando sobre o teclado, hesitei. Anos de trabalho. Pesquisas que poderiam mudar o equilíbrio de poder, salvar vidas.
Justiça para pessoas que nunca a tiveram.
Eu não podia simplesmente deixar tudo virar fumaça.
Uma decisão de fração de segundo. Uma vida inteira de consequências.
Minha mão mergulhou na bolsa, puxando meu próprio drive criptografado.
Meus dedos voaram pelo teclado, contornando a segurança e forçando a transferência.
A barra de progresso avançava lentamente.
Tiros estalaram em algum lugar acima. O prédio gemeu.
Lento demais.
Copiei apenas o que importava. Os arquivos principais. Ariel.
No segundo em que a cópia terminou, arranquei o drive e ativei o comando de limpeza.
A tela ficou preta.
Feito.
A tela piscou, linhas de código rolando para o esquecimento antes de o monitor apagar de vez.
Uma sentença de morte digital.
Uma quebra de protocolo imperdoável.
Sem tempo para pensar duas vezes.
Eu já estava me movendo.
A garagem ficava dois níveis abaixo. O ar estava pesado com cheiro de gasolina e concreto frio. Deslizei para trás do volante da Mercedes preta de Pearl.
Conectei o telefone dela ao painel, minhas mãos suadas e escorregadias.
O ponto de extração pré-definido dela.
As coordenadas brilharam na tela, um farol de esperança.
Engatei a marcha, os pneus cantaram quando saí da garagem para a noite.
As estradas principais eram um mar de luzes vermelhas e azuis piscando. Bloqueios. Postos de controle. Eles estavam fechando a cidade inteira.
Meu pulso martelava nas costelas. Fui forçada a pegar estradas secundárias, uma rota mais longa que serpenteava pelo distrito industrial.
Cada câmera de vigilância parecia um toque físico, um olho frio rastreando cada movimento meu.
Minhas mãos tremiam, meus nós dos dedos brancos no volante enquanto eu procurava uma saída, qualquer saída, que não estivesse infestada de policiais.
Quando cheguei ao aeroporto internacional, o ponto de encontro, a armadilha já estava armada. Eles não eram policiais.
O Conselho. Homens e mulheres em ternos sob medida, posicionados em todas as entradas, examinando a multidão com a precisão de predadores. Sua eficiência silenciosa era mais aterrorizante do que qualquer exército.
Minha única esperança era Pearl. Como uma Alpha de alto escalão, ela era intocável. Ela poderia me tirar dali. Examinei o terminal movimentado, o coração batendo forte. Só precisava encontrá-la.
Então eu a vi. Perto da sala VIP, calma, composta, negociando com três figuras de terno. Não estava me procurando. Não estava procurando nenhum de nós. Meu estômago despencou. O canal privado e criptografado estava silencioso. Morto.
Nada de avisos. Nada de atualizações. Apenas... nada.
Eu fui a única que conseguiu escapar.
Pearl não viria. Ela estava sacrificando o que fosse necessário.
Sacrificando todos, inclusive eu, para manter sua posição e manipular sua história diante do Conselho.
Minha garganta se apertou. Cada saída parecia desaparecer. Os rostos na multidão se tornaram um borrão, as figuras de terno se multiplicavam, com olhos por toda parte. Eu podia senti-los em mim, um peso na minha pele. Eu era uma ponta solta.
Uma mão agarrou meu braço, um aperto como ferro. Antes que eu pudesse reagir, um universo de dor branca e quente explodiu na base do meu crânio. O terminal do aeroporto girou, as cores se misturando em um vórtice negro.
Uma mão agarrou meu braço. Dor branca e quente explodiu na base do meu crânio. As cores se misturaram em preto.
Ethan na ala errada. O momento perfeito. O Conselho esperando. A calma impossível de Pearl.
Ela não era uma vítima. Ela era a arquiteta.
Merda.
Horas depois, acordei com o bipe estéril de um monitor. O peso das minhas pálpebras me puxou de volta ao mundo. A sonolência grudava nos meus pensamentos, pesada e lenta, mas a clareza estava forçando sua entrada.
Escapar não deveria ser tão difícil.
O quarto era uma caixa branca estéril, equipamentos médicos brilhando. Um soro no meu braço. À minha direita, um jovem médico loiro mexia em algo. Não era uma ameaça.
E então havia ele.
Ele estava no canto, já me observando.
Imóvel. Silencioso. Controlado.
Meu pulso disparou. Eu o reprimi instantaneamente.
Ele se descolou da parede e se aproximou, cada passo deliberado.
Perigoso.
Ele inclinou a cabeça, um movimento lento e deliberado. Meu coração batia contra as costelas, um pássaro frenético preso em uma gaiola. Cada parte de mim gritava para me mover, para encontrar uma arma, um bisturi, o suporte de soro, qualquer coisa.
Meu treinamento me preparou para lobos como ele, bastardos persistentes com treinamento militar que viam tudo como um desafio a ser conquistado. Sua postura não apenas sugeria isso.
Ela transmitia sua crueldade para toda a maldita face da terra.
"Eu sou o Alpha Kane", ele disse, parando a poucos metros da cama. Sua voz era um rosnado baixo que vibrava em mim. "Três dias atrás, minha patrulha encontrou você no meu território. Você invadiu uma área muito privada. Agora, diga seu nome, sua posição e sua alcateia."
Não era um pedido. Era uma ordem esculpida em aço.
Desviei o olhar para sua boca, depois voltei para seus olhos. Foco. Ele era uma ameaça.
Seu cabelo preto era curto nas laterais, um pouco mais longo no topo. Olhos cinza-prata pálidos, quase brancos.
De perto, uma cicatriz irregular cortava sua sobrancelha e descia pela bochecha. Violenta, deliberada, como algo que tentou quebrá-lo e falhou.
Duas possibilidades vieram à mente. Uma: ele sabia exatamente quem eu era, sabia do pen drive, e aquilo era um teste.
Dois: ele não sabia de nada e só queria me tirar de suas terras.
Seu maxilar ficou tenso. O silêncio se estendeu, tornando-se um peso físico no quarto. O que eu poderia dizer?
"Nome. Posição. Alcateia", ele repetiu, a voz baixando ainda mais, a impaciência entrelaçada à violência. "Fale. Agora."
Eu precisava ganhar tempo, o suficiente para escapar. Arrancar o soro, pegar algo para a dor, roubar um carro, sobreviver.
"Sierra Stone", respondi com a voz rouca. "Cidadã. Alcateia Solaris."
Ele ficou totalmente imóvel. O ar estalou entre nós, pesado, elétrico. Seus olhos me dissecavam, desmontando minha mentira com precisão. Alcateia Solaris. Era um palpite arriscado, mas eu precisava que ele mordesse a isca.
"Alcateia Solaris?" Sua voz era como veludo arrastado sobre a pele nua. "Como na alcateia da Alpha Pearl?"
O cheiro dele me atingiu então: violência e sexo, pólvora e bourbon envelhecido, suor e algo mais que meu lobo reconheceu instintivamente. Lutei para estabilizar minha respiração.
Minha visão se fixou na geometria dele. Maxilar bem cortado, olhos pretos como metal de arma, tinta subindo pelos antebraços.
Olhos de predador que despiam cada mentira que eu já tinha contado. Um calor intenso surgiu, agudo e indesejado.
Eu o bloqueei por instinto. Minha mente, treinada para analisar, planejar, sobreviver, era inútil contra aquela força.
Meu corpo reagiu primeiro.
O médico se moveu, injetando algo frio no meu soro.
Um alívio surgiu, mas o pânico veio logo em seguida, conforme a sedação me dominava. A silhueta do Alpha ficou borrada. Minha visão se dissolveu junto com ele.
Um pensamento queimou através da névoa. Ele sabia.








