Capítulo 1: A Convocação
A batida na porta vem numa tarde de quarta-feira. Estou ensinando Noah a trançar grama.
Moramos na beira de uma cidadezinha chamada Mirren's Hollow. Fica longe o suficiente do território da matilha para que os lobos não nos incomodem. É perto o bastante da floresta para eu sentir a velha magia na terra quando ando descalça. Aqui é bem tranquilo. Esse é o objetivo.
— Mamãe, eu consegui! — Noah levanta uma trança verde meio torta. Eu beijo a testa dele, porque está perfeita.
A segunda batida na porta é mais forte.
Dou uma caixinha de suco para o Noah e vou até a porta. Pelo olho mágico, vejo uma mulher que não reconheço. Ela tem uns trinta e poucos anos e usa roupas que gritam ser da matilha. Calça jeans escura. Uma jaqueta de couro. Um pingente de lobo de prata no pescoço. É do tipo que você só usa se tiver nascido no meio deles.
Sinto um frio na barriga.
— Sera Hollow? — A voz dela soa respeitosa. Até meio assustada. Isso é novidade.
— Eu não conheço você. — Mantenho a porta só uma fresta aberta. Minha mão está pronta para fechá-la com força.
— Sou prima da Maya. Venho dos territórios do norte. — Ela respira fundo. Seus olhos estão vermelhos, como se tivesse dirigido a noite toda. — Estou aqui porque Lena Blackwood está morrendo. E só você pode salvá-la.
O mundo gira.
Lena. A irmã de Kael. A única pessoa em toda aquela matilha que já foi boa para mim sem querer nada em troca.
Não pergunto como ela me encontrou. Não pergunto como sabem onde estou. É claro que me acharam. Uma linhagem de curandeiras não fica escondida para sempre. — Diga ao Kael para procurar outra curandeira.
— Não tem outra pessoa. — Os olhos da mulher estão desesperados. — Ela foi amaldiçoada. Os curandeiros do território não conseguem tratar o problema. O conselho da matilha está em consulta há duas semanas. Você é o único nome em que todos continuam pensando.
— Não. — Eu fecho a porta. Mas não até o fim. Faço isso porque sou fraca, e Lena foi gentil comigo uma vez.
— Ela pede por você especificamente. — A voz da mulher falha. — Antes de morrer, ela quer te ver de novo.
Minhas mãos estão tremendo.
Abro a porta um pouco mais. — Qual é o seu nome?
— Cara.
— Se eu aceitar... E isso é um grande "se"... Eu tenho algumas condições.
— Qualquer coisa.
— Eu vou sozinha. Eu curo a Lena. Depois vou embora. Kael Blackwood tem que ficar longe de mim. Totalmente longe. Não quero vê-lo, falar com ele, nem ficar na mesma sala que ele. Isso não está em negociação.
Cara balança a cabeça, como se já esperasse por isso. — Tudo bem.
— E meu filho fica com a Maya enquanto eu estiver fora.
— Quanto tempo...
— O tempo que for preciso.
Arrumo uma mala enquanto Noah tira uma soneca. Pego ervas de pedra-da-lua para proteção. Elas afastam a magia de sangue. O tipo de magia que não se importa se você está de acordo. Pego também cristais de cura. Pego meu grimório, com anos de anotações feitas à mão. Foram passadas da minha mãe e da mãe dela antes disso. Por último, pego o bracelete de ferro. É aquele que não uso desde que saí do território Blackwood. Velho costume. Velha armadura.
Maya chega em menos de uma hora. Ela é humana, tem um olhar acolhedor e é a presença mais segura que já conheci. Ela me abraça na porta sem fazer perguntas. Ela nunca faz perguntas. Ela simplesmente aparece. Eu não sei o que faria sem ela.
A viagem até o território Blackwood leva seis horas. Cara dirige quase em total silêncio. Eu vejo a paisagem mudar pela janela. Os subúrbios dão lugar a fazendas, e as fazendas viram uma antiga floresta. As árvores ficam mais densas e velhas quanto mais para o norte a gente vai. Essa parte do país pertence aos lobos. Quem não sabe disso é porque não tem prestado atenção.
Eu não venho aqui há cinco anos.
Passamos pela fronteira do território por volta do pôr do sol. O ar muda. É fisicamente diferente por aqui. É um ar carregado, vivo e cheio de uma magia antiga cravada na terra por gerações. A energia dos lobisomens no chão me reconhece. Ela responde a mim. Minha pele se arrepia toda.
— Você está bem? — Cara dá uma olhada para mim.
— Estou bem.
Eu não estou bem. Porque quanto mais chego perto do território Blackwood, mais eu consigo sentir. É um aperto no peito. Uma vibração nos meus ossos que parece...
Não. Não.
O laço de companheiro.
Isso deveria estar morto. Passei cinco anos matando isso, matando de fome. Queimei a conexão até não sobrar nada. Nós rejeitamos um ao outro. Era para ter sido o fim.
Mas cruzamos o último ponto de controle e passamos pelos portões da casa da matilha. Assim que meus pés tocam o chão do lugar onde Kael Blackwood foi dono de cada pedaço do meu coração, o laço desperta com força. Parece que ele nunca deixou de existir.
Cada nervo do meu corpo pega fogo.