Capítulo Um — A Oferenda
Tinham levado as botas dela.
Esse era o detalhe em que Iris não parava de pensar — o fato pequeno, estúpido e humilhante de que ela estava caminhando descalça sobre pedras com veios de prata porque, em algum lugar fora da cidade, um guarda fae decidira que o couro coberto de lama dela não era digno do salão de uma rainha. Seus pés estavam sangrando. Ela sentia-se satisfeita com isso. Estava deixando marcas vermelhas no chão branco como a lua e também estava satisfeita com isso.
“Mantenha a cabeça baixa”, sussurrou a mulher à sua frente. Uma Varrin, mais velha, com gelo já nos cabelos. Eles não tinham permissão para usar nomes na estrada. “Não olhe para eles.”
Iris olhou para eles.
O corredor estava repleto de cortesãos. Fae — ela já tinha visto fae antes, saqueadores em sua aldeia, mas aqueles eram seres grosseiros, castigados pelo tempo e cruéis. Estes eram diferentes. Pálidos como o interior de uma concha, vestidos em prateados e azuis-meia-noite, e dispostos ao longo das paredes como uma coleção. Como ornamentos que alguém achou por bem colocar em intervalos. Eles não sussurravam. Eles não apontavam. Eles simplesmente observavam com a paciência serena e curiosa de pessoas que não tinham lugar melhor para estar e nada mais urgente para testemunhar do que uma fila de mortais sendo levada para o julgamento.
Um deles, um macho com uma trança de cabelo tão pálida que era quase verde, levantou uma taça à boca sem tirar os olhos dela. Iris sustentou seu olhar até ele sorrir, e então ela continuou sustentando, porque, dezesseis invernos atrás, sua mãe lhe dissera que um cão só morde algo que se move, e Iris decidira, em algum lugar entre a fronteira e aquele corredor, que não iria se mover.
As correntes em seus pulsos eram de prata. É claro que eram de prata. Na Corte da Lua, até mesmo uma restrição era uma espécie de elogio, e esperava-se, de alguma forma, que ela se sentisse lisonjeada.
Eles passaram por baixo de um arco esculpido com criaturas que ela não reconheceu — coisas com dentes demais, entrelaçando-se — e então o corredor se abriu, e a sala do trono a engoliu por completo.
Ela se preparara para algo feio. Um salão de guerra. Ferro. Troféus. Ela não estava preparada para aquilo.
O teto não estava lá. Não tinha desmoronado — fora projetado para não estar, aberto a um céu que não deveria ser noite àquela hora, mas era. Uma lua cheia pairava diretamente acima, baixa e enorme e impossivelmente perto, despejando sua luz sobre o salão como se todo o palácio tivesse sido construído para capturá-la e bebê-la. Pilares de pedra branca erguiam-se de cada lado, esguios como um pulso, e entre eles pendiam cortinas de algo que parecia fumaça e se movia como água. O chão era um mosaico pálido — prata, osso e um cinza quase azul — disposto em um padrão que ela não conseguia decifrar de dentro dele, mas suspeitava, pelo modo como seus pés pareciam deslizar para o centro sem que ela escolhesse, ser uma espiral.
No final, sobre um estrado, sentava-se a rainha.
Iris ainda não olhou para ela. Não lhe daria esse prazer.
Ela olhou para a corte.
Eles já estavam reunidos, enfileirados ao longo dos lados do salão em uma ordem que ela não entendia. Casas, ela supôs — cada grupo unido por algo em comum, uma cor no pescoço, um broche no ombro. O ar cheirava a flores noturnas e a algo por baixo, algo animal, como um canil mantido muito limpo. Seu estômago revirou.
À direita da rainha, estava um macho de preto.
Ela o notou sem querer. Ele não era o mais alto da sala. Não era o mais ricamente vestido — suas roupas eram simples para os padrões daquela corte, ajustadas, foscas, sem adornos. Ele era simplesmente a primeira coisa no salão que, aos olhos dela, parecia algo que ela compreendia. Não era bonito como um fae. Não era esculpido em vidro. Ele permanecia como um cão de caça quando ouvia algo e decidia não revelar ainda.
Então o guarda à sua frente parou de caminhar, e ela quase colidiu com suas costas, e esqueceu-se do macho de preto porque a rainha se levantara de seu trono.
“Oh”, disse a rainha. Suavemente. “Vejam só vocês.”
Ela desceu do estrado. Iris não esperava por isso. Ela havia imaginado uma monarca que faria você ir até ela, que faria você rastejar. Esta mulher caminhou, sem pressa, ao longo da fila de reféns com as mãos entrelaçadas à frente, sua voz era calorosa, seu rosto era gentil, e Iris sentiu os pelos da nuca se arrepiarem, um por um.
A rainha parou primeiro diante da mulher Varrin.
“Você está congelando”, disse ela. Ela ergueu a mão e a pousou na bochecha da mulher, como uma mãe faria. “Deveriam ter lhe dado uma capa. Quem os trouxe?”
Um dos guardas falou. Iris não entendeu a resposta. Ela estava observando a mulher Varrin, que passara toda a caminhada de quarenta dias com o maxilar travado como um prego, e que agora — com o calor da palma de uma estranha em seu rosto — começara, silenciosamente, a chorar.
“Pronto”, disse a rainha. “Pronto, está tudo bem. Você está segura agora. Você é uma convidada da Corte da Lua. Ninguém vai tocar em você. Você entende?”
A mulher Varrin assentiu.
“Diga-me seu nome.”
“Maenna”, sussurrou a mulher.
“Maenna.” A rainha disse o nome como se tivesse passado a vida inteira esperando para aprendê-lo. “Maenna, você será colocada com os mordomos da cozinha. Eles são gentis. Você terá uma cama, caldo e água limpa para os seus pés. Pode cuidar disso para mim?”
Outro aceno. Outra lágrima.
A rainha seguiu em frente. Ela tocou cada refém por vez — uma mão no ombro, dedos erguendo um queixo, uma breve concha em um maxilar como se estivesse verificando se uma fruta estava madura — e, para cada um deles, ofereceu uma palavra suave, um lugar, uma promessa. Maenna para as cozinhas. O menino gago para as estrebarias. O velho com a mão ferida para os escribas, porque “você tem olhos espertos, não tem?”. Um a um, eles se dobravam. Iris observava-os se curvarem e sentia algo em seu peito começar a se contrair, porque compreendeu, agora, que estava em apuros muito piores do que estava há três minutos.
Crueldade ela sabia combater. Crueldade ela tinha prática.
Aquilo era outra coisa.
A rainha chegou por último nela.
Iris ensaiara aquilo desde a primeira noite na estrada, através de hematomas, frio, fome e o cheiro doentio de muitos corpos em uma carroça pequena demais. Ela planejara seu rosto. Planejara sua postura. Planejara o ângulo pequeno e específico do seu queixo.
Nada disso sobreviveu ao contato.
A rainha não era o que ela imaginara. Ela não era terrível. Essa era a parte terrível. Ela era linda, da mesma forma que uma pintura antiga e cuidadosa é linda — seu cabelo da cor de trigo seco, seus olhos de um cinza tão pálido que eram quase incolores, sua boca já curvada em algo que não era exatamente um sorriso, mas pretendia ser lido como um. Ela olhou para Iris, e Iris entendeu que já tinha sido observada antes. Que a rainha a acompanhara pelo salão inteiro, passando por Maenna, pelo menino e pelo velho, e a reservara para o final.
“E qual é o seu nome, pequena?”
Iris pretendia recusar-se a falar. Ela havia prometido a si mesma. Ela abriu a boca para recusar, e em vez disso disse: “Iris”.
“Iris.” Uma pausa. “Iris o quê?”
“Valehart.”
A cabeça da rainha inclinou-se em um grau tão pequeno que Iris não tinha certeza se tinha imaginado. Algo passou por seu rosto — não surpresa, não exatamente. O modo como a orelha de um gato se volta para um som que ele finge não ter ouvido.
“Valehart”, disse a rainha. “Esse é um nome antigo.”
“É o único que tenho.”
Um sorriso. Um de verdade, desta vez, ou algo que queria parecer real. “Você tem a boca da sua mãe, creio eu.”
Algo frio subiu pelas pernas de Iris.
Ela não contara à rainha o nome de sua mãe. Não contara a ninguém ali o nome de sua mãe. Mal tinha pensado nisso na estrada, porque pensar em sua mãe era pensar na casa na fronteira, e pensar na casa era pensar em seu irmão sentado no degrau mais alto da varanda com o único sapato que não servia direito, e ela não podia se dar ao luxo disso, não acorrentada, não naquele salão, não com a mão daquela mulher se erguendo agora em direção ao seu rosto.
Ela não recuou quando a rainha tocou seu maxilar. Mais tarde, sentiu orgulho disso. Mais do que merecia.
A mão da rainha estava fresca. Os dedos eram longos. Eles não descansavam — eles avaliavam. Iris sentiu cada ponta de dedo se acomodar por vez, o polegar logo abaixo de seu queixo, a palma quase tocando sua bochecha, e ela entendeu de repente que cada toque que a rainha dera naquela noite fora isso — uma medição. Uma pesagem. Maenna chorara em uma balança.
“Você é muito corajosa”, disse a rainha suavemente. “Ou muito estúpida. Às vezes é difícil distinguir os dois na sua idade.”
“Às vezes é difícil em qualquer idade.”
Ela não deveria ter dito aquilo. Saiu de qualquer maneira. Ela observou os olhos da rainha, que não se estreitaram, não endureceram — que, na verdade, ficaram mais calorosos.
“Oh”, a rainha respirou. “Oh, eu gosto de você.”
E ela deu um passo atrás, virou-se e disse ao salão em geral, com a mesma voz calorosa —
“Lord Vale. O que você acha da nossa última pequena convidada?”
Iris não sabia qual deles era Lord Vale. Ela virou a cabeça — não conseguiu evitar — e viu o macho de preto novamente, aquele que ela tinha notado e depois esquecido, parado no lado direito do estrado vazio. Ele não tinha se movido. Ela percebeu que ele não tinha se movido desde que ela entrara no salão.
Ele estava olhando para ela.
Ele estava, ela compreendeu com um solavanco, olhando para ela o tempo todo.
Não era o olhar que os outros tinham lançado a ela no corredor. Não era o olhar avaliador da rainha. Não era qualquer olhar que Iris já tivesse recebido de alguém, em qualquer momento de sua vida, e ela não conseguia decidir, no meio segundo em que absorvia aquilo, se estava prestes a ser morta.
Os olhos dele estavam errados. Essa foi a primeira coisa que ela notou. Eles tinham uma cor pálida quando ela olhou para ele antes — cinza, ela pensara, ou a prata lavada de pedra de rio — e não eram mais assim. Algo por baixo deles tinha subido à superfície. Não ouro. Ouro teria sido quente demais. Era a cor que uma moeda assume quando você a segura tempo demais na mão. Era a cor do interior de uma chama, onde ela deixava de ser vermelha.
Sua mão esquerda, enluvada, estava fechada em um punho ao lado do corpo. Enquanto ela observava, o couro da luva fez um som pequeno e audível. Um ranger. Um protesto.
A corte tinha ficado muito silenciosa.
Ela não sabia o suficiente para entender que aquilo era estranho. Sabia apenas da mesma forma que um cão sabe. Do jeito que os pelos do seu braço sentiam antes do resto do corpo perceber. Os cortesãos de pele pálida ao longo das paredes não estavam respirando. Ou estavam, e ela não conseguia ouvir. O homem com a trança, aquele que sorrira para ela no corredor, tinha abaixado a taça.
“Lord Vale?”, a rainha disse novamente, suavemente. “Eu lhe fiz uma pergunta.”
Ele não a respondeu.
Iris entendeu que ele parecia incapaz de fazê-lo.
Um dos cortesãos perto do estrado — um homem mais velho com uma corrente de prata no peito — moveu-se levemente, como se fosse dar um passo à frente, como se fosse intervir em algo. O olhar de Lord Vale não deixou Iris. Mas alguma parte dele, alguma parte invisível, deve ter se voltado, porque o homem mais velho parou de se mover muito abruptamente, recuou e colocou a mão no pilar ao lado dele, como se precisasse se segurar em algo.
“Perdoe-o, Iris”, disse a rainha. Calorosamente. Para ela. “Meu Lord Vale esteve na fronteira por três estações. Ele não está acostumado com a corte. Às vezes, nosso querido Rhyon esquece seus modos.”
Nosso querido Rhyon. O nome caiu como uma pedra atirada.
Seu maxilar se moveu. Ele desviou o olhar dela, lentamente, como se aquilo lhe custasse, e olhou para a rainha. E, naquele momento — na única batida em que seus olhos não estavam nela — Iris sentiu quanto do ar no salão estava sendo retido. A corte exalou. Alguém, em algum lugar atrás dela, fez um som baixo que poderia ter sido uma risada.
“Minha rainha”, disse ele.
Sua voz era baixa. Mais áspera do que ela esperaria de um homem tão parado. Ela raspava em algum lugar no registro médio e não pedia desculpas por arranhar.
“O que você acha dela?”, a rainha perguntou. Agradavelmente. “Minha pequena Valehart. Nosso mais recente presente das fronteiras.”
Ele não disse nada.
“Vamos lá. Você tem opiniões sobre tudo. Compartilhe uma.”
“Ela é...” Ele parou. Iris observou sua garganta se mover. “...pequena.”
“Ela é.” A rainha sorriu. “Ela também está sangrando no meu chão.”
Iris sentiu seu rosto esquentar.
“Alguém”, disse a rainha, ainda gentilmente, ainda calorosamente, para ninguém e para todos, “esqueceu de devolver as botas desta criança. Você cuidaria disso, Lord Vale? Você parece tão atento às circunstâncias dela.”
Uma longa pausa.
“Sim.”
“Bom.” A rainha voltou-se para Iris. Ela tinha aquele sorriso novamente, aquele que não era bem um sorriso. “Iris Valehart. Você é, por lei e por tratado, protegida da Moon Court até que eu determine o contrário. Você entende o que isso significa?”
“Não.”
“Significa que você me pertence.”
Ela disse isso como se fosse uma gentileza.
“Mas eu já tenho tantas coisas”, ela continuou, “e sou uma rainha generosa, e odiaria ver uma garota da sua idade em mãos erradas. Então. Um presente.”
Sua mão se levantou, e Iris, que ainda estava parada no meio da espiral, virou-se antes mesmo de saber que estava virando.
A rainha estava gesticulando para o homem de preto.
“Lord Vale”, ela disse, “cuidará da sua custódia. Ele é o homem mais competente da minha corte, e o mais atento, e ele será responsável por você assim como é responsável por tudo que é meu. Não é, Rhyon?”
Uma pausa.
“Sim.”
“Diga corretamente, meu amor.”
Uma pausa mais longa. Algo se moveu em seu maxilar.
“Ela está sob meus cuidados”, disse ele. “Por sua vontade.”
“Por minha dádiva.”
“Por sua dádiva.”
A rainha sorriu. Ela se virou e subiu de volta ao seu trono. Ao passar por Iris, não olhou para ela novamente, e foi assim que Iris entendeu que a conversa nunca a incluíra.
Ela não se lembrava claramente da saída da sala do trono.
Mais tarde, ela tentaria reconstruir o caminho — qual porta, qual corredor, qual das escadarias de pedra pálida — e as peças se recusariam a se encaixar. O que ela lembrava era disto: a sensação de olhos observando a nuca dela por muito tempo depois que ela se virara e fora levada, e então, em certo ponto, a ausência daquele sentimento, o que era, de alguma forma, pior.
Um servo — com libré prateada, silencioso — levou-a escada acima, por uma colunata e através de dois conjuntos de portas com trincos de prata. O palácio estava frio. Não o frio úmido do porão da casa de sua avó, que ela conhecia e sabia como lidar. Um frio mineral e seco, como se a própria pedra tivesse sido drenada de calor e estivesse bebendo o dela para compensar.
O servo parou em uma porta perto do fim de uma galeria longa e estreita. Ele a abriu sem dizer uma palavra e ficou de lado.
Iris olhou para dentro do quarto.
Era bonito demais.
Esse foi seu primeiro pensamento, e era um pensamento estúpido, mas ela o teve mesmo assim. Bonito demais. Preparado com cuidado demais. Uma cama com cortinas pálidas, uma lareira já acesa e queimando, um lavatório com um jarro de água soltando vapor, uma bandeja de comida em uma mesa baixa, um roupão dobrado aos pés da cama. Alguém tinha acendido velas. Alguém sabia que ela viria e se importou o suficiente para acender velas.
“Seu guardião virá quando ele escolher”, disse o servo, sem olhar para ela. “Não saia desta ala. Se precisar de algo, puxe a corda perto da cama.” Uma pausa. “Seria melhor não precisar de nada.”
A porta se fechou.
Iris ficou no meio do quarto com os pés ensanguentados e suas correntes de prata, que ninguém, ela notou tardiamente, tinha removido. Ela entendeu que tinha sido manipulada. Cada parte daquilo — o calor da lareira, a escolha do roupão, a maciez específica do travesseiro visível através das cortinas entreabertas — tinha sido arranjada por alguém que conhecia suas medidas, seu frio, sua exaustão, sua fome. Alguém que a tinha antecipado.
Ela sentou-se no chão.
Ela não usaria a cama. Essa foi a primeira decisão. Ela não vestiria o roupão. Essa foi a segunda. Ela sentaria naquele tapete muito fino, com seus pés sangrando, e ela iria pensar. Porque ela tinha entrado em uma sala onde uma rainha tocara seu rosto e a chamara de Valehart como se significasse algo, e um homem de preto olhara para ela como se ela fosse uma porta diante da qual ele estivera parado por cem anos. E ela não — ela não — iria chorar como Maenna.
Ela sentou. Ela pensou.
Ela não chorou.
Depois de um tempo, ela se levantou, porque o chão era mais duro do que esperava, e foi até o lavatório. Lavou o sangue dos pés com um pano que cheirava a algo verde e doce. Ela não vestiu o roupão. Não comeu nada da bandeja, o que era uma recusa pequena e infantil, e ela sabia que era infantil, mas ainda não estava pronta para ser sensata. Ela sentou-se no tapete diante da lareira com os braços em volta dos joelhos e observou as chamas comerem um tipo de madeira desconhecido — algo que queimava com bordas azuis — e disse a si mesma, deliberadamente, com a voz de sua mãe: Você não está morta. Isso é um começo.
Os passos vieram depois.
Ela os ouviu de longe — botas na pedra, sem pressa, aproximando-se pela longa galeria do lado de fora. Ela os conheceu antes mesmo de saber como os conhecia. Seu corpo inteiro sabia, daquela maneira estranha e arrepiante que seu corpo sentira quando ele a olhara na sala do trono. Algo no som daquela passada.
Os passos pararam diante de sua porta.
Eles não seguiram adiante.
Ela esperou pela batida. Já tinha decidido o que diria quando ele abrisse a porta. Ela tinha três opções em mente e estava escolhendo entre elas.
Ele não bateu.
Ele não abriu a porta.
Ele simplesmente ficou lá, do outro lado da madeira, e após um longo momento ela o ouviu soltar o ar — uma respiração lenta, como se a estivesse prendendo. Ela ouviu o leve ranger do couro. Ela não ouviu mais nada depois daquilo, mas sabia, com uma certeza que não examinou, que ele não tinha ido embora.
Ela atravessou o tapete. Colocou a mão contra o lado de dentro da porta.
A madeira estava fria. Espessa.
Ela pensou, por um segundo, em falar. Em dizer algo através dela. Em perguntar a ele o que foi aquilo. Por que você me olhou assim. O que eu sou para você, Lord Vale, para que você nem consiga dizer meu nome sem que a corte prenda a respiração?
Ela não falou.
Ela ficou com a palma da mão contra a madeira e ouviu, e do outro lado — ela poderia jurar, mais tarde, ela juraria — ela o ouviu fazer o mesmo. O movimento mais leve de tecido. O ritmo baixo e constante de um homem respirando a uma mão de distância dela, do outro lado de uma porta fechada.
Ela ficou lá por muito tempo.
Ela não sabia pelo que estava esperando. Teve a sensação peculiar e indesejada de que ele também não sabia. Que dois estranhos foram colocados em lados opostos de uma porta por alguém que chamara aquilo de presente, e que nenhum dos dois sabia ainda o que lhes fora dado, ou o que aquilo custaria.
O fogo na lareira desmoronou sobre si mesmo com um suave colapso.
Do outro lado da madeira, ele respirou.
Ela abaixou a mão.
Ela voltou para o tapete. Sentou-se, não na cama, não com o roupão, e envolveu os joelhos com os braços novamente, observando o fogo de bordas azuis até que, finalmente, dormiu.
Ela não o ouviu partir.
Ela nunca ouviu, naquela primeira noite. Pela manhã, quando acordou rígida e com frio no tapete, a galeria lá fora estava vazia, as velas tinham sido substituídas, havia água fresca no jarro, e a única prova de que ele estivera ali seria uma única marca escura na pedra pálida da soleira — o formato de uma pegada de bota, pressionada longa e profundamente, como se alguém tivesse permanecido naquele lugar por muito, muito tempo.