A melhor amiga da minha mãe

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Resumo

Quando Kristy, de vinte e um anos, se muda para uma nova cidade para a faculdade, o quarto de hóspedes na casa azul de Charlene parece a solução temporária perfeita. Charlene, a melhor amiga de longa data de sua mãe, é confiante, perspicaz e impossível de decifrar, transformando cada olhar compartilhado e toque casual em algo carregado de tensão. O que começa como um arranjo embaraçoso logo se transforma sob o peso de vinhos tarde da noite, conversas profundas e uma tensão que nenhuma das duas consegue ignorar. Dentro do ritmo caloroso e íntimo da casa, momentos comuns começam a parecer perigosos: cozinhar juntas após a meia-noite, dançar perto demais na cozinha, risadas que perduram um pouco mais do que deveriam. Kristy se vê puxada cada vez mais para a órbita de Charlene, presa entre a curiosidade, o desejo e a emoção de cruzar linhas que nunca deveriam se misturar. À medida que as noites ficam mais longas e o ar entre elas se torna mais pesado, a casa azul se torna mais do que um lugar para ficar. Torna-se um espaço onde a tentação respira em cada cômodo, e onde uma única escolha pode mudar tudo.

Status
Completo
Capítulos
27
Classificação
4.0 1 avaliação
Classificação Etária
18+

Capítulo 1: A Casa Azul e a Camisola Preta

Kristy tinha vinte e um anos e estava de mudança, estivesse pronta ou não. Para terminar os últimos dois anos da faculdade, ela precisava se mudar para outra cidade, arrastando sua vida em uma mala que já tinha visto coisas demais. A rodinha esquerda chiava como um rato moribundo, a alça travava em ângulos irritantes e o zíper tinha se rendido três aeroportos atrás. Ela a fechou com um elástico de cabelo e um otimismo teimoso, mas, enquanto a puxava em direção ao ponto de ônibus, a mala pendia pesadamente para um lado, bamboleando como um bêbado em uma calçada sob o sol forte. Um apartamento ainda era um sonho distante, uma lista de mensagens sem resposta e visitas que nunca davam certo. Por enquanto, seu único plano concreto era temporário. A melhor amiga da sua mãe morava na cidade e tinha lhe oferecido um sofá, um quarto de hóspedes e um pouco de espaço até que Kristy conseguisse encontrar seu próprio canto.

A voz da mãe estalava no telefone, entre divertida e vingada. “Eu te falei para comprar uma mala nova antes da viagem.” Kristy revirou os olhos e se jogou no banco do ponto de ônibus; o metal estava quente e impiedoso contra suas pernas. Ficar de pé não era mais uma opção. Seus pés latejavam dentro de sandálias baratas que não tinham sido feitas para jornadas heroicas. “É, bom”, ela murmurou, observando a mala inclinar-se pacientemente ao seu lado, “agora é um pouco tarde para isso”.

O ônibus estava atrasado. Naturalmente. Kristy checou o celular novamente, já sabendo o que encontraria. Nenhuma mensagem nova de Charlene, apenas o mesmo emoji de "joinha" sem graça enviado duas horas antes, uma promessa minimalista de que ela estaria em casa. Kristy não a via desde os doze anos, na época em que sua mãe ainda a obrigava a ir a churrascos de família e reencontros dolorosamente constrangedores. Aos vinte e um anos, a ideia de aparecer na porta de uma quase estranha com uma mala quebrada, roupas amassadas e barras de chocolate derretendo lentamente com o calor fez seu estômago revirar. Patética não era apenas a palavra que lhe vinha à mente. Parecia desconfortavelmente preciso.

O ônibus finalmente parou na sua frente, com os freios rangendo e as portas abrindo com um chiado que soava como pura irritação. Kristy lutou para subir os degraus com a mala, a borda inferior arrastando no metal com um guincho doloroso. O motorista se encolheu. Ela deu um sorriso sem fôlego e desculpou-se, tateando à procura da passagem, mas seus dedos a traíram, escorregadios de suor. As moedas escaparam da sua mão, espalhando-se pelo chão como se tentassem fugir. O motorista soltou um suspiro pesado, daqueles reservados para dias longos e passageiros piores, e sinalizou para ela entrar sem olhar de novo.

Lá dentro, o ar estava pesado e viciado, fedendo a ar-condicionado sobrecarregado e à lembrança persistente do almoço com cebola de alguém. Kristy se jogou em um banco perto do fundo enquanto o ônibus arrancava, prendendo a mala entre os joelhos como um escudo improvisado. No corredor ao lado, uma criança de camiseta de dinossauro cravou os olhos nela, sem piscar, de um jeito inquietante. Por alguns segundos, eles se encararam em silêncio até a mãe do menino notar e lançar um olhar afiado para Kristy. Ela desviou o olhar, com o coração acelerado, e pegou o celular. A última mensagem da sua mãe brilhava na tela: “A casa da Charlene é a azul, aquela com o gnomo esquisito. Você vai saber qual é quando vir.” Ela deu uma risadinha abafada. Tranquilizador.

Quarenta minutos, três viradas erradas e uma crescente sensação de pavor depois, Kristy estava paralisada diante de uma casa que só poderia ser descrita como violentamente azul. O gnomo estava lá, exatamente como prometido. Um pesadelo de cerâmica com olhos miúdos e um sorriso torto, empoleirado no corrimão da varanda como um guarda vigilante. O calor colava em sua pele, o suor escorrendo pelas costas enquanto a realidade da situação se instalava. Ela subitamente tomou consciência de si mesma. Roupas amarrotadas, nervos à flor da pele, uma mala que parecia mais morta do que viva. Ela limpou as mãos nos shorts, respirou fundo para se acalmar e bateu antes que sua coragem evaporasse de vez.

A porta se abriu antes que os nós dos dedos de Kristy pudessem recuar, revelando uma mulher que parecia ter acabado de sair da cama — ou talvez nem tivesse se dado ao trabalho de entrar nela. A camisola de seda de Charlene se prendia ao corpo em rugas irregulares, com a alça de um dos ombros caindo perigosamente. Seu cabelo era uma auréola selvagem e embaraçada, como se ela tivesse passado a tarde lutando contra um ventilador particularmente agressivo. Por um instante, elas apenas se encararam: Kristy com sua mala quebrada e Charlene com a expressão aérea de quem não esperava visitas antes do anoitecer.

“Jesus”, disse Charlene, piscando lentamente. “Você está mais alta.” Não foi tanto um cumprimento, mas uma observação, dita com a honestidade crua de quem ainda não tinha acordado direito. Kristy abriu a boca e logo a fechou. O que se respondia a isso? “Uh”, ela conseguiu dizer, “obrigada?”

Charlene flutuava na entrada como um sonho esquecido, algo entre a elegância e o desleixo. Ela parecia ter uns quarenta e cinco anos, como sua mãe, aquela idade que não pede permissão para ser interessante. Seu longo cabelo preto caía em mechas onduladas e soltas, presas em um coque alto com mais confusão do que cuidado; algumas mechas rebeldes escapavam, como se tivessem organizado um motim silencioso. A camisola de cetim preta que ela usava estava toda amassada e marcada, brilhante em alguns pontos, fosca em outros, inegavelmente usada para dormir. Kristy a observou por inteiro e sentiu uma suavidade inesperada brotar em seu peito. Charlene era bonita, inegavelmente, só que não de um jeito polido. Era a beleza de quem não se deu ao trabalho de se olhar no espelho antes de abrir a porta, de quem atravessa a vida sem suavizar as arestas e, de alguma forma, faz com que esse descuido pareça honesto.

Charlene bufou, esfregando um dos olhos com a palma da mão. “Não agradeça.” Ela deu um passo atrás, convidando Kristy para entrar com um gesto preguiçoso. “Entre antes que você derreta. Ou antes que essa coisa—” ela apontou para a mala, “—finalmente entregue os pontos na minha varanda. Não preciso desse tipo de azar por aqui.”