Mule e Simon.
Simon saiu de seu crossover Chevrolet azul, o couro de suas botas protestando enquanto rangiam no cascalho. Ele fez um movimento lento e praticado, seus olhos examinando a parede de pinheiros densos e a confusão sufocante de kudzu. Então, o som o atingiu. Era o murmúrio baixo da água. O rio. Parecia um rosnado.
Em certo ponto de sua vida, Simon jurou que tinha acabado com o mato, com as árvores selvagens e os rios caudalosos. No entanto, lá estava ele, parado no meio de um inferno verde esquecido por Deus. Um gaio-azul despencou em um galho de pinheiro próximo, soltando um pio agudo e zombeteiro. Simon encarou o pássaro, certo de que a maldita criatura estava rindo de sua desgraça.
Ele conteve a vontade de mostrar o dedo para o feliz gaio-azul.
Um calor fantasma brilhou em seu estômago, exatamente onde a bala o atravessara. Proteger Gareth deveria ter sido sua última dança nessa vida. Ele girou os ombros, tentando soltar o nó de tensão que apertava a base de seu crânio. Seu estômago deu uma volta lenta e enjoada. Estar ali não era apenas uma má ideia. Sim, estar ali parecia uma assombração.
Depois de levar um tiro enquanto protegia seu cliente, Simon impôs a regra rígida de que ficaria na cidade, onde era seu lugar. Até aquele exato momento, ele tinha cumprido isso.
Exceto...
Agora, Simon estava parado na frente da casa de Cletus.
Enquanto Simon começava a caminhar em direção à estrutura considerável de dois andares, estilo celeiro, ele considerou que estava, mais uma vez, diante de cenas de tirar o fôlego. A área de Grand River podia ser magnífica, mas aquela vista sempre o lembraria de como ele quase encontrou seu criador. Nada o faria esquecer de ver sua vida passar diante de seus olhos, e nada na Terra de Deus o faria gostar daquela natureza selvagem, indomada e imprevisível.
A tensão fez seu estômago revirar. Aquela escolha de estar ali provavelmente não era sábia, mas ele estava, então era melhor se controlar. Ele respirou fundo.
"O sol já tá começando a baixar, rapaz. Você demorou, hein", Cletus chamou, sua voz tão seca quanto palha de milho. Não foi exatamente uma saudação.
Os olhos de Simon foram das nuvens cinzentas que se acumulavam nos picos para o homem mais velho na varanda da casa. O homem surgiu de dentro de casa e ficou na pequena área em frente à porta.
Cletus falou antes que Simon pudesse subir os degraus até a entrada. Ao lado do homem mais velho estava uma senhora de aparência delicada. Eles puxavam suas malas. Então, Cletus carregou as malas pelos três degraus. Os dois idosos foram em direção à caminhonete de Cletus com apenas um breve olhar para trás na direção dele.
Simon seguiu a dupla.
"Trânsito na rodovia", disse Simon, embora seus olhos nunca ficassem em Cletus. Eles saltavam para a linha das árvores, as sombras sob a caminhonete, a varanda. A hipervigilância era uma coceira perpétua sob sua pele. Não há nada como sentir uma bala atravessar o abdômen para fazer um homem prestar atenção em cada centímetro do seu ambiente.
"Bom, você tá aqui agora, rapaz", Cletus murmurou, jogando a bagagem na traseira de sua picape velha. O homem não disse mais nada. Em vez disso, sussurrou algo para sua companheira antes de ajudar gentilmente a dama a entrar no banco do passageiro. Quando a porta se fechou, Cletus sinalizou para que Simon fosse até a parte de trás do veículo.
"Eu estou aqui, mas não sei por quê."
Caminhando até Cletus, Simon ficou ao lado das lanternas traseiras. Cletus examinou a bolsa a tiracolo e a arma presa ao quadril dele antes de suspirar.
"Imaginei que você estaria se perguntando por que pedi para você vir até minha casa de férias", Cletus arrastou a fala. Ele remexeu no bolso de seu macacão desbotado e tirou um chiclete, desembrulhando-o com movimentos lentos e metódicos antes de colocá-lo na boca.
"Deve ser importante, já que você cobrou a dívida de vida que lhe devo."
Certa vez, uma mulher chamada Tammy atirou em Simon perto dali, e ele caiu de uma ponte em um rio congelante. Simon teria morrido, mas Cletus o encontrou, o aqueceu, estancou o sangramento e o levou a um hospital antes que ele partisse para o outro lado. Se não fosse por aquele estranho homem velho parado diante dele, mascando chiclete, Simon estaria debaixo de sete palmos de terra.
Cletus pegou seu telefone e deu uma olhada na tela antes de encarar Simon novamente.
"Você disse que precisava de mim. Então aqui estou." Simon olhou ao redor. "Em Grand River."
Quando Cletus não falou mais nada, Simon pegou seu telefone e conferiu as horas. As nuvens pareciam escuras ao longe. Ele conseguia sentir o cheiro de chuva.
"Aqui está", Cletus arrastou a voz enquanto tirava um envelope do bolso de trás do seu macacão. Pegando os documentos, Simon bateu o envelope na palma da mão. Ele não fazia ideia do porquê de ter recebido aquela papelada.
"O que é isso?"
"Essa é uma pequena tarefa pra mim. Se você fizer isso, ficaremos quites." Cletus parou quando Simon não abriu o envelope. "Olha, rapaz, eu normalmente não sou de pedir favores." Os olhos de Cletus caíram sobre os documentos na mão de Simon. "Mas aquilo ali é um problema que eu gostaria que você resolvesse. Eu não tenho tempo pra fazer isso eu mesmo. Tenho que ajudar minha garota, Ginger. A irmã dela está doente, entendeu?" Cletus olhou para a caminhonete com a senhora ainda esperando no banco do passageiro. "Eu não posso estar em dois lugares ao mesmo tempo, e isso aqui é um pouco preocupante pra ela."
"Isso é um trabalho?" Simon perguntou, deslizando os papéis para fora. Um par de olhos duros e sombrios o encarou de volta a partir de uma foto granulada. O estranho na foto tinha uma mandíbula como um penhasco de granito e era próximo da idade de Simon, com cabelo na altura dos ombros. Ele teve que admitir que o homem era bonito e rústico, em um estilo selvagem de homem das montanhas. Os papéis forneceram a Simon informações básicas sobre o indivíduo, como altura e peso. O cara era dono de duas madeireiras perto dali. O endereço residencial era próximo a Grand River.
O cara da foto parecia o tipo de homem que prefere mastigar um prego a pedir informações.
Enquanto Simon examinava as páginas datilografadas, ele sabia que diria sim a qualquer tarefa que Cletus pedisse. Ele podia não gostar de estar fora da cidade, mas faria aquilo por Cletus. Uma dívida de vida não era algo que ele ignoraria.
"É basicamente isso. Você é guarda-costas, não é? Ou pelo menos tem o equipamento pra isso", Cletus disse, apontando para a arma no quadril de Simon. "Preciso que você seja uma sombra para aquele rapaz. Fique de olho no Mule. Ele tem uma cabeça dura como concreto e um temperamento à altura."
Simon não gemeu em voz alta, mas resmungou mentalmente. Havia tantas coisas erradas naquela frase.
Primeiro, tecnicamente, ele não era mais guarda-costas. Depois que saiu do hospital, levou muito tempo para se curar, e ele tinha largado o serviço de proteger pessoas.
Segundo, o homem na foto podia ser bonito, mas tinha um semblante severo e teimoso nos olhos e na boca. Ele parecia um obstinado, inflexível... bem... uma mula. O homem parecia ter músculos bem desenvolvidos também. Não tinha como o cara precisar de Simon para protegê-lo.
E terceiro, tudo aquilo fazia parecer que ele teria que ficar na área. Se fosse um trabalho com dinheiro envolvido, Simon teria dito a Cletus que não havia dinheiro no mundo que o convencesse a ficar perto do rio. Mas como era uma dívida de vida, ele ficaria e ajudaria Mule. Ele devia isso a Cletus.
Seus dedos viraram o canto das páginas. Uma parte dele esperava estar de volta à cidade antes do anoitecer.
"Eu tenho que ir." Cletus olhou para a tela do telefone novamente. "Apenas faça o que você faz. Certifique-se de que o sobrinho da Ginger não se machuque. Proteja-o e cuide dele até eu voltar." Cletus começou a caminhar para a frente da caminhonete. Ele abriu a porta do motorista e parou. "Obrigado por fazer isso, Simon. É muito importante pra mim." O homem mais velho colocou o pé na caminhonete como se fosse entrar, mas hesitou pela segunda vez.
Simon observou-o com curiosidade.
"Não deixe Mule te expulsar. Me ouviu?" Cletus sustentou seu olhar. "Mule vai dar coices e espernear, mas ele precisa da sua ajuda, ouviu? Quer ele tenha juízo pra saber disso ou não."
"Entendido", Simon murmurou enquanto Cletus se sentava atrás do volante e fechava a porta. Aquela situação não era a primeira vez que trabalhava com um cliente cabeça-dura que achava que Simon era uma babá. Ele faria como Cletus pediu e ficaria por ali até Cletus retornar.
Dando uma última olhada nos papéis, ele se perguntou do que estava protegendo Mule.
Em uma nuvem de poeira e com o cascalho espalhando, Cletus partiu, e Simon entrou em seu Chevy Traverse. Uma vez sentado em seu veículo, ele começou a ler as informações sobre o jovem chamado Mule. O nome real do homem era Winslow Buford Handcock, o quarto.
Esse era um baita nome.
"Primeiro as damas, senhor Hancock", Simon sussurrou para seu SUV vazio enquanto segurava uma foto do arquivo. A imagem era de um animal destroçado e eviscerado exibido no capô de uma caminhonete verde. "Quem está te perseguindo?"