Capítulo 1
Tyler
Eu não me lembro de quem deu o primeiro soco.
Só lembro do som do plástico quebrando, dos motores parando de repente e, então, do ombro do Aaron batendo no meu peito como se ele estivesse esperando por isso a vida inteira.
Caí no chão com força, com terra na boca e cascalho arranhando as palmas das minhas mãos. Levantei antes que alguém pudesse piscar. Eu não competi contra ele por anos só para ficar ali caído.
"Você fez isso de propósito", rosnei, batendo de qualquer jeito. Meu punho atingiu as costelas dele. A essa altura, nós dois já estávamos acostumados a terminar desse jeito.
Ele grunhiu, mas não caiu. É claro que não caiu. "Você cortou minha trajetória, seu idiota do caralho", ele retrucou, me empurrando com tanta força que tropecei de novo. "Acha que é o dono da pista?"
"Eu seria, se você não estivesse pilotando que nem um bêbado de merda."
Foi o que bastou.
Ele avançou, com o punho batendo no meu maxilar. Tudo ficou branco por um segundo. Senti o gosto de sangue e, de repente, não ouvia mais o barulho ao redor, nossos melhores amigos tentando nos impedir de fazer alguma idiotice já que tínhamos sido desclassificados daquela corrida estúpida; a dor era a única coisa que calava a minha mente. Agarrei a camisa dele e cravei meu joelho na sua coxa, várias vezes, até ele xingar alto o suficiente para todo aquele parque de merda ouvir.
Caímos na terra juntos, rolando, com cotovelos, punhos e joelhos para todo lado. Alguém gritou nossos nomes. Outro alguém começou a comemorar. Típico.
Fiquei por cima dele por meio segundo antes que ele me jogasse longe como se estivesse derrubando um peão. Minhas costas bateram no chão, tirando o ar dos meus pulmões. Ele veio para cima de mim na hora, com o antebraço pressionando minha garganta, a respiração quente e furiosa. Porra, ele é forte. Sempre mais forte do que eu imagino.
"Fica na tua, porra", ele rosnou.
"Vai se foder."
Forcei para cima, me contorcendo, e acertei o rosto dele com o cotovelo. Ele xingou, cambaleou para trás e, covarde como só ele, chutou terra direto nos meus olhos. Tentei bater nele mesmo assim. Errei. Ele não. Eu não ligo se ficar cego. Não ligo se quebrar alguma coisa. Só... que se foda ele.
O punho dele bateu no meu ombro e depois na minha barriga. Com força. Com precisão. Como se já tivesse feito isso antes, e na verdade ele já tinha.
Cambaleei, com a raiva queimando mais que os motores que ainda estalavam atrás de nós. "Você acha que é melhor que eu?", gritei. "Você sempre acha que é melhor."
Ele limpou o sangue do lábio com as costas da mão, com os olhos frios e escuros. "Eu sei que sou."
Isso foi o bastante. Nada de pensar. Apenas o barulho, o calor e a fúria familiar subindo pela minha espinha. Lancei-me sobre ele novamente, e os dois caímos em uma pilha de pneus perto do limite da pista. Borracha e terra por toda parte. Ele socou minha lateral. Eu soquei o maxilar dele. De novo. De novo. Até meus nós dos dedos gritarem.
"Jesus Cristo, Tyler!", a voz do Cole cortou o caos. "Que porra deu em você?"
Eu não respondi. Nunca respondo.
Mason também estava lá, segurando Aaron por trás, tentando puxá-lo para longe de mim. "Aaron, deixa pra lá! Vocês dois já estão desclassificados!"
Aaron se debateu, rosnando como um bicho encurralado.
"Me solta!"
Cole passou o braço pelo meu peito, me puxando para trás. Eu me debati, tentando me soltar. "Me deixa ir! Ele que começou!"
"Você sempre diz isso", Cole rebateu, ofegante, cheirando a maconha e suor. "Você vai acabar sendo banido, seu imbecil."
Mesmo assim, forcei contra ele, com os pulmões queimando e a visão ainda embaçada pela terra e pela adrenalina. Aaron fazia o mesmo do outro lado, gritando por cima do ombro do Mason, com as veias saltadas no pescoço.
Deus, como eu odeio ele. Tínhamos uma chance, uma das últimas corridas antes da nova temporada começar, e ele tinha que bater a moto estúpida dele na minha, nos jogando para fora da pista, me fazendo perder a cabeça—e foi assim que viemos parar aqui, por causa do Aaron fucking Hawkins.
Cole e Mason finalmente se meteram entre nós, agarrando nossos braços e nos separando. Tentei socar mais algumas vezes, mas foi inútil. Mason segurava Aaron pelo peito, e Cole me mantinha preso como se eu fosse uma criança de merda.
"Chega! Jesus, vocês dois são malucos!", Cole gritou, com o rosto sujo de terra e suor.
Aaron rosnou algo de volta que eu nem ouvi, com os olhos brilhando e as veias saltadas como se fosse me matar se eu piscasse. Cuspi sangue no chão e encarei ele pela última vez. Eu odiava ainda sentir a adrenalina, o calor dele perto de mim. Apenas ódio. Puro ódio do caralho.
Caminhei tropeçando até minha moto, com as mãos ainda tremendo e os nós dos dedos sangrando. Minhas costelas ardiam. Meu ombro doía a cada movimento. Meu olho direito já estava inchando, ganhando aquele tom roxo adorável que gritava "você se fodeu, moleque". Cada hematoma era um lembrete. Cada gota de sangue, uma medalha que eu não queria.
O motor rugiu quando liguei a moto, com a lama voando das rodas. Nem olhei para trás. Cole e Mason ainda discutiam com Aaron, mas eu não estava nem aí. Eu só precisava sair daqui, porra.
—
Ao subir a rua de terra em direção ao meu trailer, vi o bairro se estender como sempre. Trailers enferrujados alinhados no asfalto rachado, mato crescendo por todos os lados, motos e lixo espalhados. As cercas de arame farpado pareciam prestes a desabar, e o pôr do sol batia no metal corrugado na medida certa, deixando o lugar dourado e horrível ao mesmo tempo. Eu vivi aqui minha vida toda, e de alguma forma nunca pareceu melhorar. Simplesmente era assim.
A porta do trailer rangeu quando a empurrei, e minhas botas deixaram rastros de lama pelo chão. Congelei por um segundo. Lá estava ela — minha mãe, largada no sofá, com os olhos entreabertos e uma garrafa pendurada na mão. Podia sentir o cheiro forte do que quer que ela tivesse tomado hoje.
"Onde você estava?", ela perguntou arrastado, com a voz pesada, como se falar fosse uma tarefa do caralho.
Fechei a mandíbula e dei um passo para trás, torcendo para que ela não visse o estado em que eu estava. Sangue, hematomas, terra — eu não queria os olhos dela em mim desse jeito. Eu não queria ninguém me vendo assim.
"Corrida", murmurei, tentando não deixar a dor no ombro me fazer estremecer.
"É, tá bom", ela balançou a mão, nem olhando. "Não se atrase para o jantar ou o que quer que seja."
Ignorei-a. Não dava. Não podia lidar com ela, não podia lidar com nada além da dor no meu corpo e o pensamento dos próximos passos. Meu corpo gritava, minha cabeça latejava, e eu sentia cada hematoma, cada arranhão, cada gota de sangue na minha pele.
Fechando a porta do meu quarto, desabei na cama, ainda de botas, com o capacete ao lado. Fiquei encarando o teto, com o peito arfando e a mente girando com cada coisa estúpida e imprudente que me levou até ali. E então caiu a ficha — a moto não ia se consertar sozinha.
E, porra... eu ia ter que levá-la ao pai do Aaron Hawkins. O cara que todos no bairro chamavam de o melhor mecânico da região. E, porra... me conhecendo, provavelmente ia ter que falar com o Aaron também.
Gemi, pressionando a mão contra o rosto, sentindo o calor do olho inchado. Aquilo era só o começo.
Obrigado por ler 🧡









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