Capítulo 1
1.
Kami
O ar de outono morde minhas bochechas enquanto empurro as portas duplas da Lincoln High, com minha mochila pendurada em um ombro. Dezoito anos. Finalmente sou uma adulta legalmente! Uhu! Isso aí!
Não consigo conter o sorriso que se abre em meu rosto enquanto desço os degraus de concreto, meu cabelo verde chicoteando atrás de mim com o vento. Alguns alunos mais novos encaram quando passo; eles sempre fazem isso, mas já estou acostumada. Meu cabelo verde é natural, acredite se quiser. Minha mãe jura que é alguma mutação genética rara, embora ela sempre tenha sido estranhamente vaga sobre os detalhes.
Aprendi a aceitar isso. Cabelo verde e olhos tão azuis que são quase brancos sob certas luzes. Sou basicamente um filtro do Instagram ambulante, só que nasci assim. “Kami! Me espera!”
Me viro e vejo minha melhor amiga, Lenna, correndo em minha direção com seu rabo de cavalo castanho balançando. Ela segura uma pequena sacola de presente coberta por papel de seda roxo brilhante. “Eu sei, eu sei”, ela diz, ofegante ao me alcançar. “Eu disse que te daria isso no almoço, mas esqueci no meu armário.” Ela empurra a sacola para minhas mãos, seus olhos escuros brilhando. “Feliz aniversário, sua estranha.”
Dou uma espiada dentro e encontro uma pulseira de prata com pequenos berloques pendurados: um livro, uma xícara de café, uma lua crescente. Essa garota me conhece bem demais! “Lenna, você não precisava!”, exclamo com um sorriso.
“Cala a boca e aceita o presente.” Ela me puxa para um abraço rápido. “Você tem dezoito anos! Isso é demais! Vai fazer alguma coisa hoje à noite?”
“Minha mãe vai fazer o jantar”, digo, colocando a pulseira no pulso. “Nada chique. Só nós duas.” A expressão de Lenna suaviza. Ela sabe que sempre fomos só eu e minha mãe. Sem pai na história, sem parentes distantes que eu saiba. Minha mãe não fala sobre meu pai; nunca. Quando eu era mais nova, costumava perguntar, mas a dor nos olhos dela sempre me fazia parar. Com o tempo, aprendi a não tocar no assunto.
“Bom, me manda mensagem mais tarde”, diz Lenna. “E mande fotos de qualquer bolo incrível que ela fizer. Os dotes culinários da sua mãe são lendários.”
Eu rio. “Pode deixar.”
Nos despedimos e continuo pela calçada em direção a casa. O sol de outubro está baixo no céu, banhando tudo em tons de dourado e âmbar. As folhas estalam sob meus tênis e respiro o cheiro de fumaça de lenha vindo da chaminé de alguém. É aquele tipo de dia de outono perfeito que faz você querer acreditar em mágica.
Não que eu acredite em mágica. Sou realista. Pragmática. Acredito no que posso ver, tocar e provar. Ainda assim, há algo sobre hoje que parece... diferente. Como se o ar estivesse vibrando com eletricidade, ou como se o mundo estivesse prendendo a respiração.
Afasto essa sensação e pego meu celular, rolando pelas mensagens de aniversário de colegas e parentes distantes. Minha mãe já me mandou três mensagens, cada uma mais animada que a outra. Feliz aniversário, minha menina linda! Mal posso esperar para comemorar hoje à noite. Eu te amo mais do que as palavras podem dizer.
Sorrio e digito uma resposta rápida, meus polegares voando pela tela. Minha mãe é a melhor. Superprotetora, claro, mas ela tem sido meu porto seguro desde que me entendo por gente. Ela trabalha em dois empregos para nos sustentar e ainda consegue fazer com que cada aniversário pareça especial.
Estou na metade do caminho para casa quando percebo o cara. Ele está parado na esquina da Quinta com a Maple, encostado em um poste como se esperasse por alguém. Alto, muito alto, talvez quase dois metros; com cabelos escuros que caem sobre os olhos. Ele está todo de preto; calça preta, jaqueta preta e botas pretas. Parece ter saído diretamente de um romance gótico. E está encarando diretamente para mim.
Reduzo o passo, meu coração dando um pulinho estranho no peito. Seus olhos estão fixos nos meus e, mesmo a essa distância, posso ver que são de um verde intenso e penetrante. O tipo de verde que não parece inteiramente humano. Pisquei e ele sumiu. Simplesmente... sumiu. Como se nunca tivesse estado lá.
Parando no meio da calçada, sinto meu pulso acelerar. Isso é impossível. As pessoas não somem do nada. Devo ter imaginado, ou talvez ele tenha entrado em alguma loja próxima. Sim, é isso. Uma explicação totalmente lógica.
Exceto que não há lojas nessa esquina. Apenas uma rua residencial cheia de carvalhos antigos. “Controle-se, Kami”, murmuro para mim mesma, apressando o passo. “Você tem dezoito anos, não oito. Não existem homens que desaparecem.”
Mas minha pele se arrepia com um mal-estar, e não consigo me livrar da sensação de que estou sendo vigiada. Olho por cima do ombro, esperando ver o cara de preto me seguindo, mas a rua está vazia. Só eu, as folhas caindo e a luz do sol diminuindo. Me viro de volta e quase colido com alguém.
“Opa!” Tropeço para trás, minha mochila escorregando do ombro. A pessoa, outro homem, este ainda mais alto que o primeiro, estende a mão para me segurar. Sua mão envolve a parte superior do meu braço e sinto uma centelha de algo elétrico percorrer meu corpo. Não é exatamente doloroso, mas é intenso. Como tocar em um fio desencapado.
“Desculpe”, diz ele, com a voz grave e suave. “Não queria te assustar.”
Olho para cima, muito para cima, e perco o fôlego. Ele é deslumbrante. Não há outra palavra para isso. Ele deve ter pelo menos dois metros e dez, com longos cabelos loiro-brancos que caem abaixo dos ombros e olhos que são... brancos. Completamente brancos, como neve recém-caída. Seus traços são afiados e angulares, quase de outro mundo, e o corpo dele... Deus, o corpo dele parece esculpido em mármore.
“Está tudo bem”, consigo dizer, com a voz saindo mais fina do que eu pretendia. “Eu não estava prestando atenção.” Ele não solta meu braço. Seus olhos brancos examinam meu rosto, demorando-se em meu cabelo, meus olhos e minha pele. Há algo em sua expressão que não consigo decifrar. Surpresa? Reconhecimento? Seja o que for, faz meu estômago dar um nó de nervosismo.
“Você é...”, ele para de falar, franzindo a testa. “Você não deveria estar aqui.”
“Como é?”, solto meu braço e dou um passo atrás. “Eu moro aqui. Este é o meu bairro.”
“Não”, ele diz, balançando a cabeça lentamente. “Você não pertence a este reino.” Reino? Que diabos ele está falando?
“Olha, não sei em que tipo de RPG estranho você está metido”, digo, tentando parecer mais corajosa do que me sinto, “mas preciso ir para casa. Então, se me der licença!” Tento passar por ele, mas ele bloqueia meu caminho. Não é agressivo, mas é firme. Como se estivesse tentando me proteger de algo.
“Escute-me”, diz ele, com a voz urgente. “Você está em perigo. Eles estão vindo atrás de você, e quando te encontrarem...”
“Quem está vindo atrás de mim?”, exijo, meu medo se transformando em irritação. “Do que você está falando?” Antes que ele possa responder, o ar ao nosso redor muda. É sutil no início; uma mudança de pressão, uma queda na temperatura, mas logo se torna impossível ignorar. O céu escurece, os postes de luz piscam e um som baixo e estrondoso ecoa de algum lugar distante. Ou talvez não tão distante. O homem de olhos brancos pragueja baixo. “Eles chegaram.”
“Quem chegou?”, pergunto, com a voz subindo. “O que está acontecendo?”
Ele agarra minha mão, e aquela centelha elétrica volta, mais forte desta vez. “Fique perto de mim”, diz ele. “E, aconteça o que acontecer, não solte.”
Quero discutir, exigir respostas, correr na direção oposta. Mas algo em seu tom, algo cru e desesperado, me faz confiar nele. Pelo menos por enquanto. O estrondo fica mais alto e o chão sob meus pés começa a tremer.
Rachaduras se espalham pelo pavimento como teias de aranha, e uma luz ofuscante explode das fissuras. Protejo meus olhos com a mão livre, meu coração martelando no peito. “Que diabos está acontecendo?!”, grito acima do barulho. O homem não responde. Ele apenas me puxa para mais perto, apertando sua mão na minha. E então, o mundo se abre.