Capítulo 1 - Kansas
Ponto de vista de Landry
O telefone toca há tanto tempo que juro que consigo ouvi-lo até quando está mudo. É esse eco estridente que virou praticamente a trilha sonora dos meus vinte anos. Eu prendo o aparelho entre o ombro e a orelha, dou um sorriso como se não estivesse na oitava hora de um turno de dez, e digo:
“Stonebrook Inn, aqui é a Landry. Como posso ajudar hoje?”
A mulher na outra linha está furiosa. Por causa de um travesseiro.
Não são lençóis sujos. Nem um inseto. É um travesseiro.
Pelo visto, ele é fofo demais.
Aperto os lábios para não suspirar e rabisco algo em um post-it, só para ela pensar que estou anotando. “Sinto muito por ouvir isso, senhora. Vou garantir que a equipe de limpeza fique sabendo.”
Atrás de mim, Darcy grita da porta do escritório: “Diz para ela que na próxima vez a gente enche de pedra!”
Eu me viro só o suficiente para lançar um olhar feio para ela e gesticulo com a boca: para.
Darcy apenas sorri, com um quadril apoiado no batente, o cabelo prateado preso em um coque bagunçado e uma caneca de café na mão, como se fosse uma extensão permanente do braço dela.
“O quê?”, ela diz. “Tem gente que só se sente viva quando tem do que reclamar.”
Eu cubro o microfone do aparelho com a mão. “Você não pode falar isso quando eu estou no telefone.”
“Eu não falei”, diz ela, dando um gole. “Você falou.”
A mulher continua falando, então peço desculpas rapidamente, encerro a chamada e coloco o telefone de volta no gancho. Apoio as palmas das mãos no balcão e solto o ar. “Essa é a quarta reclamação sobre travesseiro desta semana.”
“Lua cheia”, diz Darcy como se isso explicasse tudo.
Eu balanço a cabeça. “Estou aqui desde as seis e meia e nem almocei ainda.”
“Porque você nunca para quieta o tempo suficiente para comer”, ela rebate. Depois, com o tom um pouco mais suave: “Você precisa parar de se matar de trabalhar, garota Landry.”
“Estou bem”, minto, digitando uma nova reserva e verificando as anotações do fim de semana. Dois grupos de casamento, uma convenção de compradores de gado e uma senhora que viaja com seu umidificador e um gato de terapia chamado Winston. Promete ser outro circo.
Darcy se aproxima. “Já pensou em tirar uma folga? Talvez deixar a Summer te arrastar para sair uma noite?”
Eu dou uma risadinha contida. “Darcy, eu estou cansada de um jeito que cochilo nenhum resolve.”
Ela aponta a caneca para mim. “É exatamente por isso que você precisa ir. A vida não vai bater na porta dessa recepção.”
Eu faço um som de concordância, fingindo pensar no assunto, mas nós duas sabemos que eu não vou. Trabalho aqui desde o ensino médio, guardando cada dólar que sobra, dizendo a mim mesma que viajaria quando tivesse o suficiente. Isso foi há cinco anos.
Agora eu tenho o dinheiro… e não faço ideia de para onde ir.
O telefone toca de novo.
Eu atendo. “Stonebrook Inn, aqui é a Landry.”
Darcy apenas balança a cabeça, resmungando: “Um dia, garota. Um dia você vai parar de atender esse telefone e começar a atender a vida.”
Eu sorrio, porque ela diz isso toda semana. Mas, desta vez, não digo que ela está errada.
Darcy desaparece de volta para o escritório, murmurando algo sobre faturas, e eu aproveito o raro momento de silêncio apenas para respirar.
O saguão cheira a lustra-móveis de limão e carpete velho. O ar-condicionado zumbe no canto como se fosse a única coisa mantendo este lugar de pé. Eu me encosto no balcão, com os olhos na porta, e me pergunto como seria ter algum outro lugar para estar.
Talvez seja por isso que fiquei aqui por tanto tempo. Esta pousada foi o primeiro lugar que pareceu estável.
Não me lembro de muita coisa antes do sistema de adoção. Só flashes. Um cobertor rosa. A voz de uma mulher cantando desafinada. Depois, nada. Tudo o que sei com certeza é que minha mãe me entregou quando eu tinha dois anos. Drogas. Negligência. O tipo de história que acontece com muita frequência e, ainda assim, nunca parece normal.
Depois disso, foram muitas casas diferentes e sobrenomes diferentes. Alguns gentis. Outros nem tanto. Aprendi cedo a não ficar no caminho e a ficar quieta. Tirar notas boas. Viajar com pouca bagagem, porque provavelmente não ficaria muito tempo.
A coisa mais próxima de estabilidade que consegui foi um abrigo para onde fui aos quinze anos. Não era perfeito. Nada no sistema de adoção é. Mas era estável. Regras. Tarefas. Luzes apagadas às dez. Eu conseguia respirar lá. Podia pensar em algo além de sobreviver.
A faculdade era para ser meu plano de fuga. Mas boas intenções não pagam mensalidade, e crianças do sistema não têm pais esperando para assinar empréstimos. Então, depois da formatura, entrei no primeiro negócio que tinha uma placa de "Precisa-se de funcionários" na janela.
Darcy me deu uma olhada. Nervosa. Sem dinheiro. Segurando um currículo que mal preenchia meia página. Ela me contratou na hora e disse: “Você aprende o resto.”
Comecei na limpeza. Esfreguei banheiros e troquei lençóis para recém-casados e compradores de gado. Cinco anos depois, sou gerente assistente. Ainda aqui. Ainda atendendo telefones.
Não é glamouroso, mas é meu.
E, depois de vinte e três anos sem pertencer a lugar nenhum, isso é alguma coisa.
A campainha acima da porta quase me causa um ataque cardíaco.
“Landry Jameson!”
Não preciso olhar. Eu reconheceria aquela voz em qualquer lugar. Summer Driggs soa como um copo de chá gelado em um dia de trinta graus. Açúcar demais, energia demais e impossível de ignorar.
Ela irrompe pela porta como se fosse dona do lugar. Vestido floral. Botas. Cabelo bagunçado pelo vento. O sorriso dela chega primeiro. Depois o perfume… algo quente e floral que não deveria estar perto de desinfetante ou de papéis da recepção.
“Deus me ajude”, murmuro baixinho.
“Não começa”, diz ela, sorrindo. “Você sai em duas horas. O rodeio está na cidade, e nós vamos.”
Eu pisco. “Nós o quê?”
“Vamos”, ela repete. “Como em sair. Como em luz do sol, barulho e diversão.”
“Eu trabalho de manhã”, digo.
“Você sempre trabalha de manhã.”
A voz de Darcy sai lá do escritório. “Ela não está errada.”
Eu fecho os olhos. “Et tu, Darcy?”
Darcy aparece com sua caneca, com um sorriso irônico. “Você tem vinte e três anos. Parece ter quarenta. Vá tomar algumas decisões ruins enquanto seus joelhos ainda funcionam.”
Summer bate palmas uma vez, triunfante. “Viu? Ela entende.”
“Eu não gosto de multidões”, digo.
“Você não gosta de nada”, Summer rebate.
Essa dói mais do que eu esperava.
Olho em volta no saguão. As mesmas paredes. O mesmo zumbido do ar-condicionado. A mesma vida. Fiquei atrás deste balcão por cinco anos, economizando dinheiro para um sonho que nunca me dei ao trabalho de definir. Talvez seja isso que crescer no sistema de adoção faz: te torna tão boa em sobreviver que você esquece como viver.
Summer se inclina sobre o balcão. “É só uma noite. Ninguém está te pedindo para montar em um touro.”
“Graças a Deus”, digo.
Ela ri. “Estarei aqui às seis. Veste algo bonitinho.”
“Eu não tenho nada bonitinho”, respondo.
“Então eu vou trazer opções.”
E ela se vai. Assim mesmo. Um tornado de botas. A porta bate atrás dela e deixa a sala silenciosa demais.
Darcy não diz nada de imediato. Ela apenas me encara por cima da caneca. “Você vai?”
“Eu não deveria.”
“Mas você quer.”
Não respondo. Não preciso.
Quando ela desaparece de volta para o escritório, eu me encosto no balcão e encaro a porta da frente. Já consigo sentir a discussão começando na minha cabeça.
Pessoas. Multidões. Barulho. Suor. Cerveja. Música ruim. Conversa fiada.
Mas eu sou jovem. Supostamente deveria gostar dessas coisas. Certo?
Só de pensar já me sinto cansada.
Ainda assim, quase consigo ouvir a voz da Summer na minha cabeça, brilhante e insistente. Você nunca faz nada, Land.
Eu suspiro. Talvez ela tenha razão.
Talvez algumas horas não me matem.
No banheiro dos funcionários, tranco a porta e encaro o espelho. O mesmo rosto. O mesmo rabo de cavalo. Os mesmos olhos cansados. Tento imaginar como a diversão fica em mim. Nada vem à mente.
Jogo água no rosto. Limpo o borrão do rímel. Solto o cabelo e deixo cair naturalmente. Parece estranho. Como se eu estivesse tentando ser alguém que não sou.
Me estudo por um longo minuto. Depois, pego minha bolsa e minhas chaves antes que eu possa mudar de ideia.
Se eu for me arrepender de algo hoje à noite, pelo menos será por ter tentado.
Faróis iluminam o vidro do saguão. Espio pela janela. A picape da Summer está estacionada atravessada em duas vagas, com música batendo forte pelas portas.
Claro.
Meu estômago dá um nó. Eu ainda poderia desistir. Fingir que me chamaram para trabalhar. Fingir que estou doente. Fingir qualquer coisa.
Mas não desisto.
Em vez disso, vou para os fundos. O vestiário cheira a sabão em pó e perfume barato. Minha camisa de trabalho gruda na pele. Pego minha bolsa no gancho e olho para ela por um minuto inteiro.
Deveria apenas ir para casa. Comer sobras. Assistir a um filme. Estar segura. Quieta. Invisível.
Mas quase consigo ouvir Summer lá fora, rindo, gritando, vivendo.
E estou cansada de sentir que a vida é algo que acontece com as outras pessoas.
Então abro o zíper da bolsa e puxo um par de jeans que não uso há meses. Jeans justo. Joelhos desbotados. Eles ainda servem. De algum jeito. Procuro mais fundo pelo top cropped branco que comprei na promoção na primavera passada e nunca tive coragem de usar.
Me troco rápido antes que eu possa me convencer do contrário.
Meu reflexo no espelhinho parece errado a princípio. Cabelo em um rabo de cavalo liso. O cansaço do trabalho grudado no rosto. Pego meu modelador de cachos na sacola e o ligo na tomada ao lado da pia. A luz pisca.
Faço ondas soltas, uma mecha de cada vez. Parece estúpido, mas também um pouco bom. Passo rímel, um pouco de blush e um hidratante labial com cor que cheira a morango. Minhas mãos tremem o tempo todo.
Quando termino, dou um passo para trás.
Ainda sou eu. Mas mais suave. Talvez até bonita.
Pronta? Não. Nem de perto.
Quase pronta.
Jogo minha camisa de trabalho no cesto e calço minhas botas. Elas estão velhas e gastas, mas servem. Pego minha bolsa e dou uma última olhada no espelho.
“Não seja estranha”, sussurro. “Apenas… tente.”
Lá fora, Summer se inclina pela cabine e buzina duas vezes.
Tranco a porta atrás de mim e respiro o ar fresco da noite. Meu coração bate rápido demais, minhas palmas estão suadas, meu cérebro gritando para eu voltar.
Em vez disso, subo no banco do passageiro.
A picape cheira a baunilha e poeira. Summer já está cantando junto com o rádio, olhos brilhantes, janelas abertas.
“Olha só para você!”, ela grita. “Você tem cabelo! Você tem jeans! Você está viva!”
Eu rio apesar de mim mesma. “Não deixa isso estranho.”
“Tarde demais”, ela diz.
E, enquanto entramos na estrada principal, olho para a luz que desaparece e digo a mim mesma que está tudo bem.
Só uma noite.
Eu consigo sobreviver a uma noite.
Quando chegamos ao recinto da feira, o sol já foi embora e o céu está todo em fogo alaranjado atrás das luzes da arena. A poeira paira densa sobre o estacionamento. Picapes alinhadas em todas as direções. Tampas traseiras abaixadas. Rádios no volume máximo. Alguém fazendo churrasco. Alguém já está bêbado.
O cheiro atinge primeiro. Feno. Suor. Cerveja. Terra. É barulhento, vibrante e nada parecido com os cantos silenciosos onde vivo.
Summer estaciona torto entre dois trailers. “Pronta?”
“Não”, digo.
Ela sorri. “Perfeito.”
Desço devagar. O cascalho estala sob minhas botas. O ar parece pesado, quente, uma mistura de diesel e fumaça de churrasco. Puxo a bainha do meu top, já me arrependendo de cada escolha que me trouxe aqui.
Música vaza dos alto-falantes perto do portão principal. Alguma música country sobre uísque e mágoa. As pessoas riem como se nunca tivessem que bater o cartão às sete da manhã. A multidão se move como um só, botas, chapéus, franjas, jeans.
Sigo Summer pela entrada. Ela acena para todos. Mantenho meus olhos no chão.
Ela compra duas pulseiras, empurra uma para mim e começa a falar sem parar sobre a programação. Provas de tambor. Laço em dupla. Montaria em touros. Eu aceno como se soubesse o que qualquer uma dessas coisas significa.
Dentro da arena, o barulho atinge com mais força. A voz do locutor ecoa pelos alto-falantes. Crianças correm entre as arquibancadas com raspadinhas derretendo pelos braços. Uma mulher de jeans apertados e strass grita com um vendedor por causa da cerveja errada.
Seguro no corrimão e observo a poeira rodopiar nos holofotes.
Eu não pertenço a este lugar. Consigo sentir isso no peito.
Mas então o portão se abre com um estrondo e um cavalo dispara. A multidão ruge. Não consigo evitar — eu me encolho. O cavaleiro gira o laço com um movimento suave e rápido. O bezerro corre. A multidão ofega. Ele laça limpo e rápido. A bandeira cai. Os aplausos sobem novamente.
Summer solta um grito de empolgação ao meu lado. “Essa foi limpa! Ele me parece familiar!”
“Quem?”
Ela me cutuca. “O cabeceador. Aquele com o cavalo cinza. Meu Deus, ele é muito bom.”
Eu o observo levar o cavalo de volta para o portão. Chapéu baixo. Ombros largos. Movimentos leves. Confiante. Há uma estabilidade nele que é quase silenciosa, mesmo com todo esse barulho.
Ele olha em nossa direção por meio segundo, apenas o suficiente para que as luzes iluminem seu rosto.
Algo desperta no meu peito. Não é bem interesse. Parece mais uma consciência.
Então ele se vira, vai embora montado e o barulho o engole.
Summer continua falando, as palavras se misturando com a música. Eu balanço a cabeça, fingindo ouvir.
As luzes piscam sobre as arquibancadas. Poeira gruda na minha pele. Em algum lugar no meio do caos, pego-me sorrindo. É um sorriso pequeno, quase imperceptível. Mas real.
Talvez Darcy estivesse certa. Talvez eu precise mesmo de um pouco de confusão.
Summer puxa meu braço com tanta força que quase derrubo minha bebida.
“Vamos. Jenna vai correr os tambores hoje à noite. Ela está lá atrás, perto dos currais de aquecimento.”
“Eu tenho cara de quem sabe onde é isso?” pergunto.
“Não. É por isso que você está me seguindo.” Ela sorri como se fosse óbvio, então desaparece na parede móvel de pessoas.
Eu a sigo pelo labirinto de trailers e arquibancadas. Cada passo levanta mais poeira. Ela se agarra aos meus jeans e gruda no suor atrás dos meus joelhos. O cheiro aqui atrás é mais forte. Cavalos. Couro. Suor. Diesel. O rádio de alguém toca algo baixo e blues, competindo com o barulho da multidão.
A trança de Summer balança à minha frente por um minuto, depois eu a perco em um emaranhado de estranhos. Um cowboy tira um cavalo de um trailer e quase raspa no meu ombro. Dou um passo rápido para o lado, murmurando um pedido de desculpas baixo.
Viro para um lado. Depois para o outro. Nada parece familiar.
A voz do locutor ecoa novamente de algum lugar distante. Nem consigo mais ver a arena. Apenas fileiras de trailers de transporte de animais, cadeiras dobráveis e homens de camisas engomadas encostados nas cercas. Todo mundo parece pertencer àquele lugar. Eu pareço a criança perdida em uma reunião de família que não é a minha.
Pego meu celular no bolso. Sem sinal. É claro.
O céu está mais escuro agora. As luzes da arena piscam através das frestas dos trailers, com a poeira flutuando como fumaça. Começo a andar novamente, tentando encontrar o som da risada de Summer ou até mesmo seu vestido brilhante. Nada.
Um cavalo relincha atrás de mim. Eu dou um pulo.
“Com licença”, digo para ninguém em particular, contornando uma pilha de fardos de feno. Enrosco minha bota em algo grosso e pesado.
Corda.
O chão vem em minha direção mais rápido do que consigo evitar.
Caio com força, minhas mãos arranhando o cascalho. Meu coração dispara no peito. Antes mesmo que eu possa xingar, alguém agarra meu braço, mão forte, aperto firme.
“Você está bem, querida?”
Eu olho para cima.
Ele é mais alto do que eu achava que as pessoas podiam ser. Ombros largos. Jeans desbotado. Suor escurecendo a aba do seu chapéu. Seus olhos são cinza-azulados, intensos sob a luz da arena. Por um segundo, todo o resto — o barulho, a poeira, o calor — simplesmente desaparece.
“Eu, é…” Minha voz falha. “Eu tropecei.”
“Eu vi isso.” Sua boca se contorce como se ele estivesse lutando para não sorrir.
Olho para a corda esticada no chão. “Acho que não deveria andar por onde não conheço.”
Ele continua segurando meu braço por mais um momento, me dando equilíbrio. “Parece que o rodeio é que acabou andando em cima de você.”
As palavras atingem mais fundo do que deveriam.
“Obrigada”, digo, tirando a terra dos meus jeans. Minhas palmas das mãos ardem.
Ele inclina o chapéu levemente. “Você está perdida?”
“Talvez.”
Ele me analisa. “Você está com alguém?”
“Minha amiga está por aqui em algum lugar. Jenna. Corredora de tambor.”
“Ah. Você está com a barulhenta.” O tom dele é provocativo, mas carinhoso. “Ela é difícil de não notar.”
Eu pisco. “Você a conhece?”
Ele acena em direção aos currais. “Ela está ali. Vi ela montando mais cedo.” Ele faz uma pausa. “Você deveria olhar por onde anda. As coisas ficam selvagens por aqui.”
“É. Anotado.”
Ele passa por mim, com a corda enrolada em um dos braços, as esporas tilintando suavemente a cada passo. Viro-me para vê-lo partir, a poeira rodopiando ao redor de suas botas.
Eu nem percebo que ainda estou encarando até que a voz de Summer surge atrás de mim. “Landry! Meu Deus, onde você se meteu?”
Eu me viro, com o coração ainda batendo rápido. “Em lugar nenhum. Só… tropecei.”
Ela me encara, desconfiada e sorrindo. “Em quê? Em um homem?”
Eu não respondo.
Mas quando voltamos para as arquibancadas, ainda sinto a marca firme da mão dele no meu braço.
A noite fica mais barulhenta conforme as finais terminam. Música soa de algum lugar atrás das bretes. Summer já está me puxando em direção à barraca de cerveja antes que eu possa pensar em uma desculpa.
Está lotado. Pessoas ombro a ombro. O ar cheira a poeira e Coors Light. Alguém está rindo alto demais perto do bar. Um grupo de rapazes tenta dançar *two-step* em um espaço do tamanho de um tapete de banheiro.
Nos esprememos pela multidão até encontrarmos um canto perto de uma mesa alta. Jenna já está lá, ainda com seus jeans de montaria. Suas bochechas estão coradas, o cabelo úmido sob o chapéu, mas seus olhos brilham. Ela está vivendo aquela euforia pós-prova que só quem tem adrenalina nas veias parece entender.
“Finalmente”, ela diz. “Pensei que vocês tinham se perdido.”
“Landry se perdeu”, Summer diz, rindo. “Tenho quase certeza de que ela caiu em cima de um cowboy.”
Jenna solta uma gargalhada. “Isso combina com ela.”
“Eu não caí em cima dele”, digo. “Eu tropecei. Ele só estava lá por acaso.”
Jenna levanta sua cerveja. “É o que todas dizem.”
Summer dá uma risadinha e se aproxima. “Ele era gato?”
Eu dou de ombros. “Nem reparei.”
As duas soltam um risinho pelo nariz.
Mentirosa, meu cérebro sussurra.
Tomo um gole da cerveja para calar esse pensamento. Está morna, amarga e nem de longe vale quatro dólares.
Jenna coloca sua bebida na mesa e me cutuca com o cotovelo. “Quem você acha que era?”
“Não sei. Ele estava com uma corda. Cavalo cinza, talvez?”
O sorriso de Jenna se intensifica. “Cavalo cinza? Ah, caramba. Você deu de cara com Colson McCalister.”
“Esse nome soa falso”, comento.
“É real”, Jenna diz, rindo. “Confie em mim. Você não esquece um cara como ele.”
Summer se inclina para frente. “Ah, já ouvi esse nome. Ele não é tipo… super importante?”
“Basicamente”, diz Jenna. “Ele tem mandado ver no *team roping* nesta temporada. Ele faz a parte do cabeceador para Tate Sawyer. Eles estão no top dez agora.”
Eu pisco. “Isso é bom?”
Jenna me olha como se eu tivesse acabado de perguntar se o céu é opcional. “Sim, querida. Isso é nível de circuito nacional. Ele é o tipo de cowboy que as pessoas viajam de verdade só para assistir.”
Summer assobia baixo. “Então ele é famoso.”
“Famoso o suficiente”, diz Jenna. “Está na estrada desde os dezoito anos. Tipo quieto. Laça bem. Não erra quase nada.” Ela faz uma pausa, com um sorriso irônico. “Exceto as mulheres que ele deixa para trás.”
Ergo uma sobrancelha. “Então ele é esse tipo de cowboy.”
“O tipo que não vai partir seu coração”, diz Jenna. “Ele só vai te deixar desejando que ele tivesse partido.”
Summer sorri. “Isso é poético, Jen.”
“É experiência”, diz Jenna secamente. “Metade das garotas nesta tenda tentou fazer ele sossegar. Nenhuma delas durou uma semana.”
Tomo outro gole. “Bom saber.”
Summer me observa por cima do copo. “Você não precisa ‘saber’ de nada, Landry. Você só está aqui para se divertir.”
“Estou”, digo. “Me divertir.” A palavra soa estranha na minha boca.
Elas voltam a falar sobre tempos de prova e planos de viagem. Eu ouço pela metade, observando a multidão além delas. Cada chapéu parece igual. Cada risada se mistura.
Ainda assim, uma parte de mim varre os rostos, só uma vez, como se talvez ele estivesse lá.
E só esse pensamento já faz meu pulso acelerar.
***
A porta se fechou atrás de nós com um baque que fez Summer estremecer. Ela riu mesmo assim, apertando sua bolsa como se ela pudesse fugir.
“Land, acho que o mundo está girando”, ela murmurou, cambaleando em direção ao sofá.
“Acho que é você que está girando”, eu disse, segurando seu cotovelo antes que ela desse de cara na minha mesa de centro de brechó.
Colocá-la para dormir já era algo automático: sapatos fora, cabelo preso, água na mesa lateral, lixeira por perto, só por precaução. Ela me deu um joinha desajeitado antes de derreter nas almofadas.
“Não morra”, eu disse a ela.
“Sem promessas”, ela murmurou, já quase dormindo.
O apartamento estava silencioso novamente, exceto pelo zumbido da geladeira e o som fraco do grave ainda ecoando nos meus ouvidos.
Tirei a roupa até ficar de regata e subi na cama, os lençóis gelados contra minha pele. Meu celular acendeu, 2:04 da manhã, e eu resmunguei. Três horas e meia até meu alarme.
Eu deveria estar exausta o suficiente para apagar, mas minha mente se recusava a desligar. Fiquei pensando nele. Colson. No jeito que ele caminhava, como se o tempo não fosse dono dele. Como se o mundo inteiro fosse seu para atravessar. Ele estaria em outra cidade amanhã, em outro rodeio na noite seguinte, e ele simplesmente continuaria seguindo em frente.
Eu costumava sonhar com esse tipo de vida, fazer as malas, cair na estrada, nunca ficar tempo suficiente para que as pessoas esperassem algo de mim. Tenho um pote no meu armário rotulado como 'um dia', cheio de notas de vinte e cinco que guardo quando os bônus de fim de ano são bons. Nunca é muito, mas é a prova de que talvez um dia eu possa ver algo além destas mesmas quatro paredes.
Colson provavelmente nem pensava em coisas assim. A liberdade era apenas o seu normal.
Virei de lado e encarei o brilho fraco do poste de luz vazando pelas persianas. Em algum lugar lá fora, ele provavelmente estava dormindo em um trailer ou dirigindo para a próxima arena, vivendo uma vida que fazia o resto de nós se sentir estagnado.
“Deve ser bom”, sussurrei na escuridão.
O sono finalmente chegou, lento, pesado e cheio de sonhos que eu não podia me permitir ter.
Meu alarme tocou às 5:30, alto o suficiente para me fazer querer jogá-lo através da parede.
Arrastando-me, meio cega, cabelo uma bagunça, encarei o espelho por um momento. As olheiras podiam facilmente passar por hematomas.
Às seis, eu estava vestida com jeans escuros, uma blusa por dentro da calça e botas que não combinavam muito, mas que passariam. Café em uma caneca térmica. Bolsa no ombro. Porta trancada atrás de mim.
O caminho para a pousada foi tranquilo, as ruas ainda escuras, a neblina subindo do rio Snake e abraçando as bordas da cidade. A pousada estava lá como sempre, no topo da avenida principal, sua luz da varanda brilhando suave e dourada.
Lá dentro, o lobby cheirava suavemente a canela e café fresco. Darcy já estava atrás do balcão, seu cabelo loiro preso, seu sorriso desperto demais para aquela hora.
“Bom dia, raio de sol”, ela disse. “Você chegou cedo.”
“No meu horário de sempre”, respondi, deixando minha caneca e pegando a garrafa de café reserva. “Pensei em preparar as cafeteiras antes da correria.”
Ela sorriu. “É por isso que você é a minha favorita.”
Os primeiros hóspedes começaram a descer pelo corredor, os fazendeiros de costume e aqueles que acordam cedo. Foquei em reabastecer a garrafa térmica, deixando o som disso abafar a neblina na minha cabeça.
A porta tocou. Botas no piso de madeira. Aquele mesmo ritmo profundo e sem pressa que lembrei da noite passada.
Darcy olhou para cima primeiro, exibindo seu sorriso de recepção. “Bom dia, senhor. O café da manhã está servido até as nove.”
“Agradeço”, veio a voz, baixa, quente, com aquele sotaque arrastado que eu já tinha memorizado contra a minha vontade.
Virei-me, com o bule de café na mão, e quase o derrubei.
Colson McCallister estava parado no balcão. Chapéu inclinado para trás, jeans empoeirado pela viagem, uma camiseta que parecia boa demais para aquela hora da manhã. Seus olhos encontraram os meus instantaneamente, como se ele estivesse me procurando.
Ele sorriu, devagar e cúmplice. “Bom dia, Landry.”
As sobrancelhas de Darcy subiram. “Vocês dois se conhecem?”
“De certa forma”, respondi rapidamente, colocando o bule na mesa antes que eu me queimasse. “Nós nos conhecemos no rodeio.”
O sorriso de Colson aumentou. “Mais como colidimos.”
Darcy riu. “Bom, isso parece uma história.”
“Não uma que valha a pena repetir”, murmurei, forçando um sorriso que não chegou aos olhos.
Ele apenas continuou me observando… constante, divertido, como se tivesse todo o tempo do mundo.